Emma se encolheu um pouco mais dentro do casaco grosso para se proteger do frio do avião. Finalmente, depois de três semanas longe de casa, na Polônia, ela estava voltando. O plano original era pegar o voo apenas na manhã seguinte com o resto do time, mas a loira conseguiu antecipar a passagem para chegar ainda naquela noite em Londres. E decidiu não contar nada a Callum. Queria surpreendê-lo. A verdade é que ela simplesmente não aguentava mais ficar longe de casa, ou melhor, longe dele.
Assim que o avião pousou, ela praticamente correu pelo aeroporto. Pegou um táxi e, no caminho, fez uma parada rápida no delivery de comida chinesa que eles pediam religiosamente todas as quintas-feiras.Ela poderia ter usado o pó de flu para chegar mais rápido? Poderia.
Mas a surpresa perderia toda a graça.
Pouco tempo depois, Emma já caminhava pelo corredor do prédio onde ficava o apartamento deles, no centro de Londres. Parou diante da porta, ajeitou o cabelo rapidamente e bateu. Cobrindo o olho mágico com a mão. Quando a porta se abriu, ela apenas acenou de leve, o sorriso largo iluminando o rosto.
“Surpresa… “disse, erguendo as sacolas em uma mão e a mala na outra. “Aceita um delivery, Sr Sinclair?”
Quando escutou uma batida na porta, Callum precisou respirar fundo, buscando a disposição necessária para sair de sua poltrona de leitura. Com um profundo lamento, amassou a ponta da página do livro que segurava e afastou a manta azulada das pernas, presente da mãe de Emma durante a primeira gravidez da filha — a peça era tão boa, que passou a ser disputada por todos os membros da família, incluindo as crianças. Suspirou. Era tarde e estava cansado.
Tinha acabado de conseguir colocar Amber para dormir, após precisar insistir por três vezes que ela deveria entrar. A neve estava engrossando. Era perigoso. Estava tarde. Quase uma hora antes, Kaya e Ethan já tinham caído no sono enquanto a mais velha lia um livro sobre a história do quadribol.
A questão era que, às vezes, Amber não nutria o mesmo interesse que seus irmãos pela teoria. Gostava da prática. Por isso, ainda que Callum tivesse trabalhado por toda a manhã e começo da tarde, aceitou pegar a pequena de seis anos e a deixou brincar com uma das vassouras que os colegas de time da esposa tinham presenteado a ela no último aniversário. Era uma versão um pouco mais "radical" quando comparada com as outras. Era a parte boa de ficar mais velha, ela repetia sempre.
Por isso, foi com certa irritação que chegou à porta, erguendo os óculos para ver através do olho mágico e se afastando ainda mais incomodado ao perceber que algo tapava a vista. Ajeitou os óculos e girou a chave com força. "O que quer que seja, não estou interessado", resmungou. Até que, "Em? O que você está fazendo aqui?". E no segundo seguinte, ele já a esmagava em um abraço apertado, juntando os braços que seguiam segurando malas e sacolas. "Babe...", murmurou ao se afastar e depositar um beijo rápido nos lábios dela. Sorria em pura incredulidade. "I missed you so much". E prontamente pegou sacolas e mala, para deixá-la entrar. "Os meninos já estão dormindo", relatou, antes que ela pudesse perguntar. "Mas adivinha quem foi a última a dormir? Vou te dar uma tentativa".
Emma deixou escapar um suspiro baixo, ainda encostada nele, como se finalmente pudesse soltar o peso da viagem inteira. Os dedos dela se fecharam no tecido do suéter de Callum, segurando-o ali por mais um instante antes de responder. “I missed you so much… And the kids”. O cansaço da viagem parecia finalmente começar a bater em seu corpo, no momento em que se sentiu segura, em casa.
Ela se aproximou outra vez, os dedos tocando de levemente a lateral de seu rosto, num gesto carinhoso. “A viagem foi longa, está um frio horrível lá fora e eu provavelmente estou acabada… mas mal posso esperar para você me contar qual foi a desculpa que a Amber inventou hoje para ficar acordada até tarde.” Emma sorriu, a filha parecia cada vez mais com ela e isso era surpreendentemente empolgante. “Acho que ela puxou a minha empolgação com Quadribol e a insônia do pai…” Riu brevemente.
Emma cruzou os braços envolta do pescoço de Callum e deixou um sorriso culpado escapar. “Eu sinto muito ter ficado duas semanas fora, mas prometo que não vou viajar tão cedo novamente. Quero levar Kaya as aulas de balé, conversar duas horas com Ethan sobre dinossauros e ver se consigo com que Amber use um capacete antes de pegar a vassoura… Meio que eu precisava de férias. E o melhor de tudo, buscar meu marido no ministério como uma boa esposa troféu.”
Callum soltou uma risada com a menção à esposa troféu. Apesar de não terem essa dinâmica, ele gostou da perspectiva de ter Emma em casa por um tempo, sem precisar seguir para os frequentes — e muitas vezes, cansativos — compromissos que o mundo do quadribol lhe exigia. "Você devia ter me avisado que estava voltando", resmungou, ainda abraçado a ela, "eu teria preparado um jantar especial. As crianças estariam acordadas ainda, tenho certeza". Com certa relutância, permitiu que Emma se desfizesse do abraço. Ainda assim, roubou um beijo rápido antes de pegar sua mala e colocar para dentro. Fez uma vistoria rápida na esposa, que não escondia a felicidade por ter pensado naquela surpresa. Callum procurava os indícios de algum machucado ou manchas roxas na pele. No quadribol, tudo estava sempre em risco de acontecer e não foram poucas as orações que Merlin protegesse Emma durante o jogo. Infelizmente, também não foram poucas as vezes em que ela se machucou. "Os treinos na Polônia foram tranquilos?", era uma pergunta casual. Até demais. O que realmente queria saber era: você está bem? Teve envolvida em manobras de alto risco? Precisou passar um tempo na enfermaria antes de voltar para casa? Quando se tratava de Emma, sua preocupação era constante. Mas não tinha o que fazer. Os riscos vinham com a profissão. "Vem, vamos pro quarto. Vou preparar a banheira pra você", chamou, apesar de saber que, do jeito que era, sua esposa iria espiar as crianças. 'Só para conferir se tudo certo'. "Quero saber como foi tudo". Mas a caminho do quarto, com a mala em mãos, perguntou: "ou quer comer primeiro alguma coisa? Também posso tentar fazer alguma coisa". Apesar de todas as tentativas de se tornar um pouco mais independente — fungindo das regalias dos Sinclair — Callum nunca tinha conseguido se tornar um bom cozinheiro. Mas tentava, porque isso sempre divertia Emma.












