Eu me coloquei em primeiro lugar depois dos dezoito. Até então meu cenário de vida era que eu pesava noventa quilos e não tinha nem um por cento do que eu queria pra minha vida social pois ela era, basicamente, o meu relacionamento amoroso que acabara de terminar, logo, me vi sozinho e não sabendo por onde recomeçar.
Recomecei por mim. Tracei três objetivos: finalmente representar a rua que tanto me ensinou, finalmente jogar bem meu futebolzinho e ficar bem com meu corpo novamente.
Veja bem, não há nada de errado em pesar noventa quilos mas EU não era feliz daquela forma, vivi a vida inteira correndo e praticando exercícios e me acomodei, sem mais nem menos, em um relacionamento unilateral que acabou me fazendo muito mal.
Irei contar sobre esses três objetivos que foram o grande marco de 2018 pra mim. Decidi representar a rua fazendo algo que sempre admirei: andar de skate. Me lembro bem de ir comprar o meu, peça por peça, dos vídeos do youtube de como montá-los e claro, do meu primeiro tombo muito feio. Após muita teoria, bom nerd que sou, fui para a pista de skate, observar quem sabia e ver se eu extraía algo, sempre fui muito tímido pra pedir ajuda. Acabou que aquele primeiro dia fiquei sentado observando a tarde toda e tive vergonha de fazer o básico que era subir no skate. Mas eu estava me achando. Trajado de tudo que sempre quis vestir (haahhah) fiquei fazendo pose a tarde toda.
No outro dia, ainda bem pesado, acordei antes do sol nascer e comecei a remar em cima do meu carrinho, aqui na rua mesmo. Aquela sensação me libertou, era como renascer, sem exagero algum. Me senti capaz de algo novamente depois de muito tempo. Algum tempo se passou até que eu ficasse bem confiante remando e acabei por ir, remando, da minha casa até a pista de skate, algo em torno de cinco quilômetros. Ainda é incrível fazer esse mesmo percurso.
Me matriculei na academia. Atribuí o meu insucesso de fazer um Ollie à minha condição física. Virei para o ano de 2018 com meus noventa quilos, um skate e um sonho. Meu desejo foi realizar os três objetivos que já citei. Em janeiro de 2018 eu comecei a levar tudo mais a sério. Trabalhava, estudava, cuidava da minha saúde. Parecia um turista em minha própria casa. Cheguei a sentir saudade da minha mãe, mesmo vendo-a todo santo dia mas eu tinha objetivos a riscar da lista.
Em fevereiro dei meu primeiro Ollie decente. Pesava algo em torno de oitenta quilos ainda mas desta vez eu estava feliz e orgulhoso de mim mesmo. Em abril eu tinha o kickflip na base, lembro bem que era abril pois quando contei aos meus amigos (agora eu os tinha também, progresso... progresso) disseram que o primeiro de abril já havia passado e que eu só tinha direito a mentir no primeiro dia e não o mês todo.
No meio do ano participei do meu primeiro campeonato amador em uma cidade vizinha chamada Santo André. Me emocionei quando ouvi meu nome ser chamado, só eu sabia que exatamente sete meses atrás aquilo seria impossível pra mim e um filme da minha prática todo santo dia (até quando chovia eu dava meu jeito) e meu foco em ser bom em algo que eu sempre fui apaixonado passava na minha mente. Fiquei entre os primeiros mas infelizmente a vida não é um filme tão bom assim que se ganha tudo de primeira. Mas eu havia conseguido. Representei PELO MENOS a minha casa ou o meu bairro naquele campeonato. Vi meus amigos torcerem por mim e fiz tudo pelo meu amor a rua, a rua me deu isso, o recomeço, as AMIZADES principalmente pois eu fiz uma nova família e isso era o mais importante, era por isso que eu era tão grato a rua, muitas vezes eu esqueci os problemas enquanto pensava “sou eu, meu skate, meus erros e meus acertos agora, nada mais importa”. Realmente não importava, não ali, naquela rua sem saída para aquele menino e aquele skate, poderia chover meteoro na rua do lado ou uma lembrança do passado tentar invadir sua mente, nada importava.
Logo após isso eu já, claramente, não pesava mais noventa quilos, decidi me matricular em uma escolinha de futebol, joguei bola durante todo esse período de skate também e foi um saco. Quando cheguei a primeira vez na quadra não reconheci ninguém, meus amigos não jogavam mais e, consequentemente, pouco joguei. Não era escolhido com frequência, muitas vezes eu completava o time, corria um pouco e sentia vontade de afundar minha cabeça no concreto ou de pular da ponte diretamente em uma rodovia em que os carros a cento e cinquenta quilômetros por hora certamente não teriam como desviar. Era terrível, sério, um pique e eu deitava com a mão no coração.
Todavia, no meio do ano eu já estava bem mais rápido e com a saúde mais em dia. Na escolinha fiz outra família. Meu técnico não me tratava como o ex-gordo que não era bom ainda com a bola, me tratava como o atleta que eu queria ser. Muito obrigado Isac.
No primeiro torneio que participei (este agora sim parece filme), tive uma participação fundamental na final. Quase fim de jogo, minha posição era a lateral direita. Acabei treinando arduamente para que eu pudesse jogar com as duas pernas, mesmo que nunca tenha conseguido trazer a mesma proficiência nas duas, me virava bem com a esquerda. Perdemos a bola no meio de campo e eu já corria para interceptar o ponta deles que corria pra caralho. Richard, meio campista, muito grande para os padrões humanos eu diria, me disse para que eu esperasse a bola, que eu puxaria o ataque. Eu estava morto, o jogo beirava os quarenta minutos de ataques e contra-ataques onde com muita luta estávamos empatando em dois a dois. Retribuí com um olhar de quem não tem problema algum. Meu pensamento era que o jogo iria acabar e eu descansaria um pouco antes dos pênaltis e que, se tudo desse certo mesmo, aquele ataque deles não acabaria com o jogo. Isac gritava desesperado para que voltássemos. Ameacei dar um trote quando André, nosso zagueiro, cabeceou uma bola alta da tentativa deles de acionar o ponta. Era nossa chance. Até hoje não sei de onde tirei força e adrenalina para puxar aquele último contra ataque. Já havia perdido o lance individual algumas vezes para a defesa deles no meu drible característico que ficou super manjado com oito minutos do primeiro tempo. Nunca mais usei. Fiz diferente dessa vez e cortei para o meio, com a esquerda leprosa. Toquei para o nosso centro-avante, Silvio (pode parecer, pelo nome, que ele tem cinquenta anos mas tem a minha idade, juro), foi um passe esticado, com a parte interna do pé direito, aquela bola rodopiando é uma das melhores memórias que eu tenho. Silvio passou por trás do defensor deles, totalmente inesperado, deu um chute bem podre para dizer a verdade, daqueles que pega de bico no limite do alcance e guardou no cantinho, o goleiro nem pulou, do jeito que estava levou as mãos a cabeça e caiu para trás, eu deitei no chão, de costas e olhei pro alto. Ouvi gritos de “acabou, acabou!” quando vieram comemorar comigo, eu era um homem morto fisicamente e com quatro ou cinco atletas em cima de mim, que bom que não havia mais tempo.
Deitei novamente na terra com uma graminha baixa quando o juiz apitou pela última vez, era uma tarde incrivelmente linda, o céu estava sem nuvens, uma cor azul totalmente uniforme. Tenho de dizer que houve dois momentos inexplicáveis este ano, o meu primeiro kickflip e o fim deste torneio. Voltamos cantando no ônibus como sempre fazíamos, a música era “Tá escrito”, quem não ama o Grupo Revelação, não é mesmo? O auxiliar do Isac, seu Valdir, é um mestre na percussão de caixinha de fósforo, todos deveriam ver. Comemoramos tanto neste dia que parecia o ano novo.
Perdi meu RG neste jogo mas eu não tava nem aí, quem achou que fique feliz com a minha foto 3x4 patética e que, pelos deuses, não cometa nenhum crime com ele, amém.
Faltava um item da lista ainda que era ficar bem com o meu corpo. Eu posso dizer que hoje eu claramente reconheço meu progresso mas não levei a sério a academia do jeito que gostaria então.. este item ficou pra esse ano.
Esse ano pretendo continuar empregado (talvez não no mesmo), estudar mais ainda (amém para descobrir minha direção na faculdade), ter a sorte de um amor tranquilo (este um tanto mais difícil, eu sei, mas não custa sonhar) e terminar meu objetivo que trago de 2018. Deixei de fora o manter as amizades porque este sim é a minha obrigação pra 2019.
Pretendo parar de fazer textos bêbados aqui no tumblr e utilizar este meu espaço bem mais do que utilizei em 2018 pois só vim aqui quando algo me chateava ou quando tinha algo que eu precisava soltar, vou utilizar com mais frequência este ano e por motivos melhores como gratidão, que me fez escrever este.
Gostaria de deixar um trecho de uma música que eu amo muito, da banda que me fez começar a realmente estudar e hoje, por consequência, falar inglês. Um 2019 incrível a todos os bípedes que residem este mundão. Que nossas expectativas sejam totalmente superadas pela nossa força de vontade.
“I missed the last bus, I'll take the next train, I try but you see it's hard to explain, I say the right things, but act the wrong way I like it right here, but I cannot stay, I watch the TV, forget what I'm told, well, I am too young, and they are too old. The joke is on you, this place is a zoo "You're right it's true"”