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@feia-vida
“O mundo quebrará seu coração de dez maneiras diferentes, isso é uma certeza.”
— O Lado Bom da Vida
“O que estou querendo dizer é que tem horas que você precisa botar tudo pra fora. Toda a raiva. Toda a dor.”
— John Green.
Tricotilomania
Eu arranco fios.
Fios de cabelo.
Da minha cabeça.
Por que eu faço isso? Qual a finalidade? Quando começou? Vai um dia acabar? Me deixa feliz? Me deixa realizada? Tem um propósito por trás disso?
Bom, eu comecei a fazer isso com 13 anos de idade. Um dia eu vi minha prima fazendo isso nela mesma. Ela fazia isso com os fios que estavam nascendo, por que ela não gostava de frizz. E um dia ela pediu pra eu fazer por ela, onde ela não podia ver.
Então eu fiz.
Então eu gostei.
Então eu fiz em mim.
Então eu não parei.
Eu poderia colocar a culpa toda nela, eu poderia achar que ela que botou isso em mim. E de certa forma eu culpo, por que eu nunca tinha imaginado fazer isso, foi uma ação que nunca passou pela minha cabeça. Mas eu tenho a minha cota de responsabilidade sobre isso. Eu continuei, mesmo sabendo os riscos, eu fiz. Ela parou, e eu não.
Dói, não posso dizer que não sinto nada na ação, por que eu sinto.
Mas é uma dor boa, eu GOSTO daquela dor.
Sabe aquele fio enrolado, grosso, aquele fio irregular, com varias nuances de texturas?
Ele sempre é o escolhido.
Ele é o que dói mais, o que da mais prazer, o que eu sinto alívio de tirar.
Ele é a imperfeição.
Eu odeio ele.
Eu amo ele.
Eu amo sentir ele na ponta dos meus dedos, eu quero arrancar ele da minha cabeça, por que, por mais que eu queira ele fora de mim, eu quero tocar nele, sentir ele. A ponta da raiz grossa que não está mais em mim.
Eu não faço isso pq estou com vontade, na maioria das vezes. Quando eu percebo, minha mão já está lá, na minha cabeça, nos meus fios. E eu não sinto vontade de parar, não me faz sentir mal, me faz sentir bem, naquela hora, parece que eu estou tirando um espinho grudado na minha pele, o alívio que eu sinto é totalmente inexplicável. Acho que só quem sabe do que eu estou falando, só quem passa pela situação, vai me compreender.
Às vezes eu faço por que eu quero, eu escolho levantar minhas mãos, levá-las até aquele exato lugar, e encontrar o fio escolhido, aquele que precisa me dar alívio. E ele me da.
Existem lugares específicos onde eu arranco esses fios, no topo da cabeça, mas na parte de trás. E dos lados do tipo.
É lá que o estrago é feito.
Eu sou uma viciada, eu não sei parar, eu não consigo parar.
Por que você vai querer parar de fazer algo que faz você se sentir tão bem?
Por que não me faz sentir bem todo o tempo.
Às vezes, muitas vezes, me faz sentir mal.
Depois do prazer, vem a culpa, o desapontamento, a desolação, a derrota.
Depois da parte boa, eu vejo as consequências das minhas ações a mim mesma.
Eu tenho um buraco na minha cabeça.
Os fios vão demorar a crescer, ou talvez não cresçam mais.
Eu tenho falhas que me fazem sentir feia e defeituosa.
Por que parece ser tão bom e depois, faz eu me sentir tão mal?
De tem consequências, é realmente bom?
Eu acho que não.
É uma doença.
O nome? Tricotilomania.
Tem cura? Dizem que sim.
Eu achei? Ainda não.
Eu quero? Desesperadamente.
Acredito que o pior male, é aquele que vem disfarçado de algo bom. É aquele que em um momento, te fã sentir no controle, mas na verdade é ele quem te controla.
Eu me sinto uma marionete de mim mesma, eu não controlo meus braços, mãos e dedos. Eles têm vontade própria, eles fazem o que querem, onde querem. E quando me dou conta, tem um tufo de cabelos no chão.
Eu não percebi, eu só fiz.
É um sentimento horrível que eu não consigo explicar pra ninguém. Ninguém vai entender, eles acham que é besteira. Que é só parar, que é fácil.
Infelizmente não é.
Infelizmente é mais forte que eu, é uma luta, uma luta que eu luto todos os segundos de um dia.
Capítulo Um
Sao 5h da manhã, minha cabeça está em um frenesi de pensamentos. Eu não dormi ainda. Nem sei se vou. Eu não estou em um lugar legal agora, não é um momento bom, meu estimado está amarrado, meu esôfago está intragável, minha boca seca, meu corpo pesado. Esse é um dos piores momentos que eu já tive, não acho soluções, nem sei se ela existem. Nem sei se eu preciso delas. Às vezes a melhor coisa que podemos fazer é simplesmente deixar pra lá. Às vezes a melhor coisa a se fazer, é simplesmente não fazer. A última coisa que eu quero é colocar minha máscara e fingir que está tudo bem. Não está tudo bem. As coisas não poderiam estar mais longe do que “bem” quer dizer. Eu não estou bem. Tudo desmoronou, tudo o que eu achei que era sólido, se dissolveu, e só sobrou eu. Mas é agora, quem sou eu? Eu eu vou ser? Que agonia. Que desespero. Que desastre ambulante. Que tsunami. Meus sentimentos são devastadores, a situação é horrível, eu só não sei como eu não tinha visto antes, como eu não tinha percebido, na solhando bem, analisando de perto, eu tinha sim, eu só não quis aceitar, eu arrumei desculpas, como sempre eu arrumei uma máscara. Eu moldei a realidade pra caber na minha. Mas ela não existe. E a real realidade é vazia. Me sinto vazia.