Primeiras Impressões do Despertar
Depois de tantas lutas na praia e no deserto,
Me encontro caído, sendo devorado por damas que a minha espada derrubou.
Afundado nas trevas das batalhas sangrentas,
Já não consigo sentir o pedaço de carne dilacerada que eu me tornei.
Eis que então, um par de olhos cheios de brilho vital
Me fita e me convida para dançar...
Aceito e começamos, naquele cemitério de falsos diamantes,
A dar passos charmosos, passos incertos e alguns tropeços.
Repentinamente me vejo resgatado nos braços de uma Deusa
Agora dançando no parque em meio às árvores,
Que parecem orbitar ao redor da nossa felicidade,
Pude apreciar, entre os raios de Sol, em cores vivas e quentes,
O magnífico rosto da minha salvadora,
Os contornos perfeitos do seu semblante,
Os seus lábios carnudos fazem sua boca parecer um pêssego suculento.
Ela me olhou novamente e parecia um sonho,
Voando na escuridão iluminada pelas estrelas, o luar e ela,
pude ser consagrado com o saboroso néctar da Deusa.
Entrei em êxtase, senti meu corpo encontrar razão para se regenerar,
Retornei à condição humana, senti minha consciência se expandir
E, em uma vida vivida em um instante, pude transcender.
A cada provocação aos meus sentidos, senti meu ser pulsar por completo,
Meus lábios pareciam se esfregar em seda, deslizava como o vento que plana
Tocando toda a superfície do planeta, todos os mais belos biomas.
Minha origem, supostamente espiritual,
Agora gritava para despertar o selvagem adormecido em mim,
Puxando-o pelas raízes primatas do meu ser.
Eu agora era um Deus ou um animal?
Já não tenho mais a lucidez expandida,
Daquele instante pouco anterior a este,
Para discernir o meu ser do meu estado,
Ou para perceber que um andarilho incerto como eu
É pior do que um animal, e que nunca se tornará um Deus.
Na mesma agressividade das guerras,
Eu agora trocava carícias com a Deusa guerreira,
Violando um pouco da sua divindade,
Fazendo-a provar da minha humanidade,
Rasgando suas roupas, descartando sua sanidade,
Passando os dedos pelos seus lábios,
A mão pelos seus ombros, explorando seu busto,
Enquanto me afundo, a trago como uma erosão que devasta paisagens.
À medida que nos corrompemos,
Vou tomando consciência da não-divindade
Da minha suposta salvadora...
Vejo-me vivendo uma ilusão, uma mentira,
Enquanto ela me consome, me questiono da razão da armadilha.
E afinal, eu estaria disposto a me oferecer como sacrifício,
Como cordeiro inocente que um dia eu fui,
Só para saciar a fome daquela que deveria ser digna
Daquilo que um dia foi o meu diamante?
Num surto de fúria, a cimitarra responde por mim,
Devorando cada pedaço dessa farsa.
Em meio aos gritos de agonia e desespero,
Meu sangue se mistura ao dela,
Colorindo a lama daquele cemitério monocromático,
Enquanto as nossas lágrimas de arrependimento e solidão
Se comunicam no silêncio, às cegas, sem se tocarem.
Levanto-me vagarosamente,
Na esperança de dar nova forma à minha figura deformada,
Enquanto me arrasto para longe desse cadáver,
Reflito sobre esse ciclo de decepção...
Não existem divindades, todas são mortais ridículas de tão corrompidas.
Fernando Luiz Neme Chibli,
12 de Julho de 2012, quinta, às 14:00h (início)
12 de Agosto de 2012, domingo, às 11:28h (dor)
16 de Agosto de 2012, quinta, às 9:20h (decepção)
20 de Agosto de 2012, segunda, às 00:00h (fim)