CapÃtulo 1
Estavam voando há muitas horas, Rodrigo Barçante, Psicologo e conselheiro tutelar estava sentado ao lado da menina na classe econômica. Tinha a barriga proveniente mas não tirava dele a elegância. Era baixo e ruivo, não tinha perdido o cabelo como seu pai, e aos quarenta e três anos aquela tinha sido a primeira vez que havia saÃdo do paÃs, e ficou fora apenas dois dias. Não visitou nenhum lugar em especial, apenas a embaixada e estava voltando para o Brasil um pouco frustado mas com um sentimento de dever cumprido que nem o cansaço poderia lhe tirar.Â
A menina estava ao seu lado, cochilando, ou apenas de olhos fechados para evitá-lo. Era baixa para a idade e ainda não havia desenvolvido corpo, parecia ser dois ou três anos mais nova. Estava com medo e sozinha e irritada e ele conhecia todos aqueles sentimentos muito bem, depois dos vinte anos trabalhando com crianças em situação de risco, aquela menina era, de longe, o caso menos problemático no qual trabalhou. Mas isso não o impedia de sentir pena dela. Durante as primeiras horas de voo ele se viu tentando acalma-la, falando que ficaria tudo bem, em português e coreano, mas ela não respondia. Então ela olhou para a janela, fechou os olhos e ficou em silêncio.
Todo o processo havia sido rápido e ele foi acionado para simplesmente ir para a Coreia e pegar a menina. O voo chegou de madrugada e ele dormiu num hotel até o dia seguinte, quando seria a pior parte: tirar a menina da casa aonde viveu os últimos cinco anos e enfia-lá num avião. Ele dormiu como uma pedra mas não conseguiu comer bem no café da manhã, a comida era diferente então ele foi direto para a casa, acompanhado por um juiz e dois policiais que não falavam com ele.
A casa era pequena, no estilo coreano, cômodos separados e no centro uma área aberta com uma mesa baixa, dando para o portão: a famÃlia estava esperando: uma bela mulher totalmente asiática, com olhos belos e puxados, pele pálida e cabelos negros, estava bem vestida. O menino, também sem traços ocidentais, era alto e usava uniforme escolar tÃpico: calça social, blusa branca e o paletó com a logo da escola no bolso. A menina destoava totalmente da famÃlia. Era baixa e também usava uniforme, mas ao invés das calças, ela usava saia de pregas que batiam no meio de suas coxas. A primeira coisa que ele percebeu foram os olhos. Olhos grandes e redondos, arregalados e um pouco assustados, e eram um de cada cor. O olho direito era de um azul perfeito como o céu de um dia de verão, brilhante e chamativo; o esquerdo era verde, não esverdeado com rajadas ou gateado, mas verde como grama nova recém cortada. Ele não sabia qual dos dois era mais bonito ou chamava mais a atenção. Era lindo e perturbador. E ela era linda, bochechas coradas e cabelos da cor de areia, aquele tom que pode ser chamado de loiro escuro ou castanho claro, muito longos e um nariz delicado empinado.
O juiz mostrou o documento e disse que veio pegar a menina para levar ao Brasil, para o avô. A mulher concordou e dobrou o documento muito devagar, a menina olhava para Rodrigo com reconhecimento e nojo. O menino se jogou no chão, esfregando as mãos implorando para que sua dongsaeng continuasse com ele. Lágrimas grossas escorriam pelo rosto do menino enquanto a mulher pegava uma mala grande e entregava á Rodrigo.
Antes de partir, a menina abaixou a cabeça como uma reverência respeitosa a mulher e acenou para o menino, viramos as costas e ela não disse uma palavra. Papéis foram assinados, documentos foram entregues ao conselheiro, a mala foi despachada e eles entra no avião. E a menina pequena demais para os catorze anos que tinha, ficou em perfeito silêncio durante muito tempo. E então, depois que Rodrigo perdeu as esperanças de ter qualquer comunicação com a menina, ele é interrompido com um grito agudo. Ela teve um pesadelo, dos piores. Seus olhos estavam inchados e vermelhos e ela suava apesar de estar frio no avião:
- Um lobo. - Ela disse, ofegante, num português perfeito. - um branco é um negro... lutavam, mas eles não podiam lutar.
- Está tudo bem, foi só um só um sonho. - Rodrigo disse para ela.
E ela voltou a se deitar e fechou os olhos, roncando levemente. Em silêncio viajaram, a menina recusando educadamente qualquer refeição oferecida pelos comissários de bordo e Rodrigo começando a se cansar dela. Quando chegaram ao Brasil ficou feliz em ver o homem que a havia reivindicado esperando no saguão. Como de costume ele entregou um cartão para que a menina o contactasse caso houvesse algum problema e ficou satisfeito ao dar as costas e não olhar para ela de novo.
*Â
Catarina Lagreca estava no táxi. Um homem idoso que se diz seu avô por parte de mãe, estava ao seu lado. Ela olhava pela janela reconhecendo alguns lugares, já faziam cinco anos que não pisava naquele paÃs e agora estava assustada. Seu telefone tocou, era Si Gi, seu irmão adotivo na Coreia. Ela atendeu, dizendo, num coreano fluente, que estava bem e quando se instalasse falaria melhor com ele. Desligou o telefone e o homem idoso continuava em silêncio, o que a deixava a vontade.
O carro andou por mais de meia hora quando entrou em uma vizinhança residencial tranquila que ela reconhecia bem. Sabia que a casa em que viveu com seu pai até os 9 anos de idade ficava na terceira esquiva a esquerda, mas o carro parou antes. O homem pagou ao motorista e ajudou a menina a pegar sua única mala.Â
Entraram pelo portão de ferro na casa cercada por um quintal alimentado. Havia uma pequena varanda cercada por uma mureta baixa e uma porta de madeira polida que dava para uma sala grande, com sofá, poltrona e uma TV gigante a cozinha era simples e no canto da sala uma escada levava ao andar superior aonde haviam apenas dois quartos e um banheiro. Uma das portas estava decorada com adesivos que um dia foram coloridos mas agora estavam desbotados.Â
O homem abriu a porta sem dizer uma palavra e entrou no quarto. Estava limpo, apesar de bagunçado, as cortinas estavam fechadas e ele se apressou em abri-las. Catarina viu uma pequena cama de ferro com colcha rosa, uma escrivaninha combinando com a cama, aonde estavam alguns produtos de higiene provavelmente vencidos há muitos anos. Haviam porta retratos e ela reconheceu o jovem em uma das fotos: era seu pai. Ali ele não tinha barba nenhuma e nenhum fio branco nos cabelos e o sorriso era leve, ela nunca viu aquele sorriso em seu pai, nenhuma vez sequer.Â
Haviam duas meninas se abraçando em outros foto e ela sabia que uma delas era sua mãe então ela não olhou muito para aquela foto. Haviam roupas em cima da cadeira, amontoadas, como se uma menina as tivesse deixado ali antes de arrumar o quarto, mas pelo visto a menina nunca teve a chance de fazê-lo:
- Esse era o quarto da minha filha. - O homem idoso disse, de costas para Catarina. - deixei do jeito que estava antes de acontecer...
- De aehalbeoji. - Ela concordou em coreano.
- Você vai ficar aqui agora. - Ele continuou, ainda de costas. - Pode arrumar e limpar como preferir, e se quiser usar as roupas dela, fique à vontade. Esse é o seu quarto agora, e ela ia querer isso.
E ele saiu do quarto sem ver a menina curvando o corpo em reverência.
Sozinha no quarto que um dia havia sido de sua mãe, ela se sentou no chão, absorvendo toda a atmosfera do lugar. Ela olhava todos os detalhes. O guarda-roupa era grande de madeira e parecia antigo. Nele haviam adesivos no mesmo estado dos que estavam na porta. Ela quase podia ver uma jovem mulher vivendo naquele quarto, via a mulher magra entrando e jogando a bolsa no canto, tirando as roupas e colocando descuidadamente em cima da cadeira, se jogando, cansada, na cama, olhando as fotos de seu namorado e seus amigos. Não conseguia ver uma mulher grávida ali, só uma jovem descuidada que abandonou aquele lugar sem ter a chance de arrumar as roupas da cadeira.
*
A rua estava deserta e a lua cheia gigantesca jogava seu brilho prateado nas casas escuras. Catarina via as rachaduras no asfalto e as árvores paradas. Não tinha vento e um cheiro agridoce metálico pairava no ar, a menina não conseguia identificar o cheiro. Ela ouviu um rosnado baixo. Ao seu lado ela viu um lobo. Ela nunca tinha visto um de verdade mas ao olhar ela sabia que era um lobo. Bem maior que o maior cachorro que já achava visto. Seu pelo era inteiramente branco e parecia brilhar sob a luz da lua. Ele rosnava, mas não para ela, olhava para frente determinado. Catarina sentiu o Ãmpeto de acariciar seu pelo e quando percebeu já estava emaranhando as pontas dos dedos nos pelos quentes e macios do animal. Ele olhou para ela, e seu olhos eram quase humanos, de um azul lÃmpido e puro. Então o lobo voltou a olhe para frente e rosnar baixo, um som que vinha do peito do animal. Catarina seguiu seu olhar e há uns 100 metros ela viu. Outro animal, outro lobo, parado, rosnando da mesma forma para ela, ou parar o lobo branco. Era tão grande quanto o primeiro, mas seus pelos eram negros, não apenas pretos, mas parecia ser feito de escuridão e sombras. Ele começou a caminhar devagar na sua direção, rosnando baixo, enquanto o lobo branco se colocou protetoramente na frente de Catarina, os dois apenas rosnavam um parar o outro é o lobo negro continuou caminhando até parar há poucos sentimentos do lobo branco. O lobo negro era igualmente lindo o pelo dele era tão escuro que parecia sugar toda a luz do mundo, enquanto o pelo do lobo branco era tão brilhante que parecia iluminar a rua.
- Minha. - Ela ouviu a palavra sair da boca do Lobo negro de forma possessiva.
- Ainda não. - O lobo branco respondeu.
E então os dois lados se atacaram. Catarina gritou e tentou separa-los. Eles cuidadosamente evitavam acertar a menina que imprudentemente se colocou entre dois animais ferozes e nenhum deles a tocou. Então ao longe ela vou outros lobos. Eram negros como o lobo negro ou marrons ou manchados... eram muitos. Rosnando e caminhando devagar. No outro extremo da rua ela podia ver poucos lobos brancos como o seu lobo branco, não eram nem dez deles, sornavam e corriam. E enquanto Catarina olhava, percebeu que eles estavam correndo em sua direção. Paralisada, ela viu o primeiro dos lobos brancos, com uma faixa de prata presa em sua cabeça, pular para atacá-la, mas o lobo negro se jogou em sua frente e os dois rolaram aos longe enquanto os lobos negros, marrons e manchados atacavam os outros lobos brancos com uma ferocidade insana. Catarina sabia que os lobos brancos queriam matá-la mas não sabia o motivo. Ela tentou se afastar da cena mas seus pés estavam fixos no chão e a cena da batalha se desenrolava ao seu redor. Ela ouvia uivos de fúria e dor e aquele som era, apesar de assustador, triste e deprimente. A parte da alma de Catarina que sabia o que era certo ou errado instintivamente, sabia que aquilo não devia acontecer. Que os lobos eram irmãos, mas ela não sabia explicar como ou porque. Ela viu lobos brancos e negros morrendo e quando morriam seus corpos mudavam para a verdadeira forma, homens e mulheres de todas as etnias e idades, todos nus, corpos sem vida destroçados no asfalto rachado. O lobo branco que havia visto primeiro estava ao seu lado, não lutava mais, e o lobo negro estava ao lado dele, observando a cena e vendo todos os lobos morrendo, um a um, até que a rua ficou coberta de sangue e corpos mortos, a menina e os dois lobos. E então a lua se tornou vermelha como o sangue que corria como uma nascente dos cosmos e manchava de vermelho as patas impecavelmente brancas do lobo. Catarina olhou parar cima e viu que a lua não havia mudado de cor, mas que havia uma coisa vermelha vindo. Era gigante, vermelha brilhante, parecia um verme, e sua boca era formada de fileiras e fileiras e de dentes. Os lobos branco e negro se colocaram na frente de Catarina, protetoramente, mas ela sabia que seria inútil, sabia que quando ele chegasse todos iriam morrer. Tudo iria morrer. E quando ele chegou ela percebeu que o monstro era maior do que cidades inteiras e a última coisa que ela viu foram os olhos azuis do lobo branco a escuridão nos olhos do lobo negro que olhavam para ela com um pedido de desculpas estampado; e os dentes do monstro se cravarem na terra levando todos.Â
E tudo se tornou escuridão.
Ela estava numa praia. A areia era branca e fina e o mar azul, o sol brilhava imenso e ela sentia os raios penetrando seu rosto. Ela conseguia sentir as lágrimas evaporando de suas bochechas. Olhou em volta e não haviam mais lobos nem sangue nem morte. Mas seus sapatos sociais, do uniforme da escola coreana, ainda estavam um pouco sujos de sangue.Havia uma mulher na água. Sua pele era morena como o jambo e seus cabelos cheios e cacheados eram muito compridos. Ela usava um vestido cor de areia feito e tricô ou crochê, Catarina não sabia bem a diferença, e em sua cabeça ela usava uma coroa de flores tropicais de todas a cores. Ela se aproximou de Catarina, era desumanamente alta, mais de três metros de altura, e seu corpo era completamente proporcional à sua altura. Ela olhou para baixo e seus olhos escuros se encontraram com os olhos coloridos da menina e a mulher sorriu e com aquele sorriso a menina sentiu alegria e deslumbramento. A mulher gigante se sentou na areia e falou:
- Éramos os três. - Ela disse. - Eu e minhas irmãs. Cada uma de nós tinha um papel a cumprir e tudo funcionava bem, mas minha irmã perdeu o controle, e a outra acabou enlouquecendo. Ordem e Destruição agora governam tudo o que existe, e eu, a Criação, não posso fazer nada... afinal, somos aquilo que nos define. Sou a Criação criativa e caótica do universo. Eu apenas crio, sem ordem e sem destruição. Eu criei filhos e filhas parar me ajudar há muitas eras, mas não foi o suficiente. E então você veio a mim, primeiro como um sonho... uma coisa que poderia unir a todos... mas eu não tinha em mim a força de organizar os eventos para te criar da forma que precisava. Mas você aconteceu. A destruição está vindo. Quando Anthelios chegar tudo será destruÃdo e isso é um fato. Mas isso não nos impede de aproveitar o tempo que resta.
- Sim. - Catarina respondeu, apenas pro saber que aquela era a hora de inscritÃvel a estranha mulher a falar.
- Estão te chamando. - A mulher disse. - Você precisa ir e se lembrar de tudo. Promete que se lembrará de tudo, criança?
- Sim senhora. - Catarina respondeu.
Das mãos da mulher estranha brotaram pêonias prateadas. Maiores do que as flores normais e de uma cor mágica, como prata mais claras, mais brilhantes.
- E você, menina, será chamada Mãe de Lobos e Protetora dos Homens.
A mulher entregou as flores parar Catarina, sorrindo.
- Não chore, menina. - Ela disse e foi só nesse momento que ela percebeu que ainda chorava ou começou a chorar de novo. - Estão te chamando. NÃO SE ESQUEÇA DE MIM.Â














