Ruby Sparks e a produção literária
No filme “Ruby Sparks”, Calvin Weir-Fields é um jovem escritor, autor de um único livro que lhe rendeu muito sucesso e dinheiro, e precisa escrever outro livro, mas não consegue sequer começá-lo. Inerte diante da palidez do papel, seu bloqueio criativo é intensificado pela aflição de não entender o recente término provocado pela antiga namorada. As conversas com o psiquiatra não trazem grandes resultados e a paciência da editora pode não ser tão longa quanto Calvin precisa.
Ele tem um sonho com uma mulher misteriosa e começa a imaginar como seria essa garota na vida real. Sua paixão pela personagem começa a crescer ao ponto de qualquer bloqueio se tornar coisa do passado. A personagem ganha nome, personalidade, contornos, uma história de vida, até que ela se materializa cozinhando algo em sua casa. Apesar do susto, Calvin fica maravilhado com a situação e embarca de cabeça no relacionamento. Inicialmente, Ruby Sparks é uma mera consequência daquilo que Calvin idealiza e o romance entre os dois se torna digno de um filme abobalhado da “Sessão da Tarde”.
Ruby agora é real e começa a ter desejos e vontades próprios. Ela deixa de ser uma fantasia indolente de um jovem buscando consolo e companhia para ser tornar uma pessoa como todos de carne e osso: inquietudes, inseguranças e tédio emergem. O relacionamento também sai do mundo fantasioso e enfrenta suas brigas e discussões. Diante das circunstâncias, o casal se separa e o autor, finalmente, consegue ter o discernimento exato dos sentimentos dele sobre sua criação e finaliza mais um sucesso literário. No final do filme, por uma obra do acaso, Calvin se encontra com Ruby e a história termina como um clichê pasteurizado de Hollywood, contudo, vale ressaltar, de forma nenhuma esse fato apaga as profundas reflexões que a história pode proporcionar.
Ruby Sparks é o tipo de filme que pode passar despercebido como filme cult, devido sua leveza e pouca pretensão, mas não se engane: muito mais que dilemas de um relacionamento adolescente, os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris, conhecidos por Little Miss Sunshine, problematizam questões referente ao processo criativo artístico em geral, exemplificando com uma situação extrema de loucura e paixão de um escritor pela sua bela personagem.















