E de ser uma mulher inconstante, porque às vezes se sentia como uma, se submetia a todo tipo de coisa, a todo tipo de gente, esperando dar aquele grito solto que há nas pessoas que amam. Mas era um pouco velha, a mulher. E tinha uma coisa escondida dentro do peito que pesava tanto, mas tanto, que andava meio encurvada, meio bruxa. Sem esperança nenhuma no depois. Mas mesmo arqueada, uma flecha cruzando o corpo magro, porque isso tinha de admitir que era, saía. Saía, procurava, olhava, berrava, não via. Só esperava. Porque parecia, dentro dela, dentro da alma dela, que estava sempre a procura duma coisa muito nova ou muito antiga. Uma coisa dos tempos maias, incas, a explosão do mundo. Mas já havia morrido, aquela coisa sem nome. E nisso ela não pensava não. Talvez por ser meio burra, sonhadora, queria mesmo era ser feliz. Então não imaginava. Se imaginava, usava aquilo da negação e partia de novo, sem rumo definido, porque era louca, velha e louca, pra algum lugar bonito. Colocava sapato vermelho, nessas vezes. Ou amarelo ou azul ou preto — sem considerar demais a cor, só a altura. Sentia-se absurda ali em cima, maior que todos, além de todos. E isso proporcionava, mesmo que clandestinamente, uma felicidadezinha genuína. Quase trotava, nessas horas. Caminhando lépida, loira, velha, louca, puta, quase-puta na verdade, porque a noite dava às pessoas essa coisa lasciva: a tentativa de encontrar alguém que enxergue, de longe, com força, uma luz colorida emanando. Uma vontade de amor, de sexo, de beijo, de carinho, de comida, de banho, de mais um daqueles insights em que se vê ao longe um futuro bem interessante. E de novo a percepção que de que o insight está errado, confuso. Feito quarto de criança manhosa. Via uns caras legais, em dias assim. Nem feios nem bonitos porque acreditava ser uma coisa muita relativa, muito temporária, muito diferente. E enxergava então um ser além. Quase via, com uma visão trazida de tempos meio remotos, meio esquecidos, o interior, o fundo, o âmago. Aquela parte lá pros lados do sul, do sudeste, quase chegando ao oceano mais baixo e frio do corpo. Amava os com barba. Talvez porque se lembrasse do pai dela. Mas tinha tesão, tesão mesmo, a coisa espantosa e quente, por aqueles meio tristes. Meio downs, meio perdidos, meio transviados, como se escondessem alguma coisa íntima e como se a tal coisa íntima, por ser tão misteriosa e cheia de segredos, a impulsionasse, a puxasse, a atraísse, quase que milagrosamente, a descobrir. Entrava então no boteco. Entrava no boteco como se não tivesse medo algum e sorria alto que era pra chamar atenção. Conseguia, sabe-se lá se pelo riso, pelo jeito, pela forma lépida de andar. E lá vinha um cara daqueles todos tentando ser pra ela o que não era e não seria até o fim da noite. Começava a tocar uma música antiga de repente, que saudade disso, que saudade disso, e um sax gemia tão violento que ela tinha vontade de se ajoelhar no chão, de pedir perdão, de agradecer por tudo e por nada e por tudo e por nada e por tudo… Mas só se levantava. Via distante, imaculado, como numa bolha translúcida, o corpo meio magro meio gordo dum homem bebendo sozinho. E se aproximava. E dizia um oi. E perguntava, assim, com um ar de quem sabe do mundo, se poderia sentar ali. Pra baterem um papinho nada a ver, sabe? Conversa de boteco. Logo sentava. Logo sentava e no sentar cruzava as mãos frente ao rosto. Logo sentava e cruzava as mãos frente ao rosto e no cruzar as mãos frente ao rosto, dizia: mas então, que é que te traz aqui hoje, me parece tão triste, tô enganada? E o cara que era ruivo, tinha olhos fundos e era realmente triste a olhava nos olhos. E ela percebia que até que sabia das coisas. Tinha começado então, a coisa sem nome. A coisa magnética, não entendível, não conclusiva. Tinha começado de novo a coisa que a fazia sentir e naquele momento ela estava sentindo: não como se a fosse a mulher de salto alto mais baixa e ínfima da terra. Na verdade, sentia-se apenas meio angustiada. Angustiada como a recusa do amor.