À Karol, com amor
Hoje meu cantor favorito publicou a seguinte frase: às vezes se afastar de uma coisa é honrar ela, e não tentar refazer uma coisa que já não existe mais. Saber que já tive uma versão minha no passado que me trazia mais orgulho do que a minha versão atual se tornou algo muito difícil para mim, pois por mais que eu entendesse a impossibilidade de voltar a ser como era, nunca consegui aceitar que tinha "me perdido" no caminho. A pandemia a ruiu. E foi muito triste perdê-la enquanto eu ainda a estava construindo. No segundo ano da faculdade, me descobrindo como uma pessoa que podia sim se encaixar, com amigos que me entendiam, livre dos rótulos da escola, onde qualquer ação distinta do usual era recebida com um olhar do tipo 'o que ela está fazendo? ela é tão quietinha para isso.' na faculdade, não. Ninguém sabia de onde eu vinha ou iria, eu poderia me reinventar e assim o fiz. Lembro daqueles dias como a cor dourada, brilhante e acalentadora. A certeza que havia um mundo a ser desvelado e eu poderia sim me aventurar nisso. Sinto muito falta da minha versão menos ansiosa, menos negativa, mais disposta. Uma aluna ideal. Uma professora ideal. Uma amiga ideal. Da fé. Da arte que habitava em mim.
Mas como disse Rubel, não preciso parar de sentir saudades, mas sim honrá-la sabendo que foi muito bom ser assim, mas é algo que não vai voltar. Tenho que agradecer a chance de ter vivido algo do tipo. E aceitar que o que sou agora também merece amor.
Que a ansiedade e o negativismo podem ser atenuados a depender de mim e da minha força. E sei que a possuo. Que minha disposição não é a mesma, mas minhas cobranças são muito maiores e o meu corpo é digno de descanso. Que sou uma aluna ideal todos os dias, mesmo quando não estou em aula, porque o conhecimento não está presente apenas na teoria. Mas sim no mundo e nos seus questionamentos. E nós sabemos o potencial que um cérebro inquieto tem de fazer. Sei que sou muito mais inteligente do que era naquela época. E ainda sim, muito menos do que serei no futuro. Sei que sou uma professora ideal, cheia de erros, mas cheia de acertos. E uma vontade enorme de aprender. E uma fé sem igual na Educação, no acolhimento e na reflexão da minha prática docente. Sempre quis uma profissão que transformasse o vazio existencial num propósito: transformar o mundo. E sei que o faço. Para além disso: sei que salvo vidas. E é apenas o começo. Que posso sim ser uma amiga ideal para aqueles que também o são para mim. Que a fé não me abandonou totalmente, caso contrário, não estaria aqui. E que a arte ainda habita em mim, pois ela está além do que eu produzo. Ela está no meu olhar. Nas minhas palavras.
Eu não sou fraca. Eu resisto todo os dias. Por todos aqueles que lutaram por mim e por todos aqueles que lutarei para. Quão estranho pode ser? Às vezes parecemos tão pequenos sendo que estamos, o tempo todo, fazendo história.
Sentir demais é uma maldição. Sentir a dor do mundo arrebata. Alguns de nós nascem assim e não tem muito o que fazer. Mas sentir demais também é uma benção. Sentir o amor mais puro te invadir. Sentir a felicidade correndo pelo seu corpo. Estar presente de corpo e alma.
São dois lados de uma mesma moeda. Às vezes, não parece justo. Mas não tem como ser de outra forma. Nem deveria. É gente assim que traz mudanças.
Gente com muito amor. E com muita dor.
Tal como Clarice Lispector. Paulo Freire. Portinari.
Cândido Portinari morreu por intoxicação às tintas. Sabia que se continuasse pintando isso aconteceria. Padeceu de arte.
Às vezes enxergo as frustrações que passo assim. Elas doem. Mas preciso continuar pintando. Porque há um propósito: experienciar, viver, mudar.
E sei que estou o cumprindo. Sei que muitas vezes, eu, que sou viciada em acolher, me deixo de lado. Mas hoje eu me abraço.
Por mim e pela minha antiga versão. Por todas elas.













