você já tocou alguém sabendo que aquela seria a última vez?
você já beijou alguém sabendo que aquele seria o último beijo? já sentiu correr nas veias a angústia de cem velas derretendo e queimando por dentro ao perceber o fim de algo que você torceu, orou, para que fosse eterno?
uma vez escrevi sobre como o ser humano se acostuma ao abandono. e eu consigo sentir o seu cheiro
sinto o cheiro do fim e do caos como o café preto e forte que minha mãe coa todas as manhãs como o cheiro de um livro novo como o cheiro que habita a cidade antes de uma chuva
eu senti. senti em você; o adeus. irremediável e sem salvação.
então aproveitei cada segundo como se realmente fosse o último. te beijei e passei minhas mãos pelo seu corpo como alguém que adorava um ser superior. te abracei como se deixasse de lado todos os medos e permiti que tivéssemos conversas sobre o futuro, mesmo que ele não existisse. não um em que nós coexistimos. quando eu te beijei pela última vez, senti um pedaço meu ficando em você e um pedaço seu ficando em mim. eu disse até logo, porque não queria dizer a palavra que me dói cada osso do corpo: adeus.
e desde então tem sido uma batalha dizer realmente adeus
quando eu vi seu sorriso pela última vez, sabendo que aquela seria a última vez, eu tentei me agarrar aos detalhes. aos dentes ligeiramente tortos e aos detalhes do desenho da sua boca. tentei fotografar com meus olhos as suas mãos, para que eu nunca esquecesse seu formato. para que eu nunca te esquecesse
mas, como eu disse, eu senti o fim muito antes dele acontecer
e você foi como a água da pia que escorre e cai nas minhas mãos
minhas mãos estavam abertas
e você escorregou.
se foi; pela última vez.







