psi.co.te.ra.pi.a sf. Tratamento de distúrbios mentais e comportamentais pelo emprego de técnicas psicológicas várias (sugestão, persuasão, etc.).
O impulso para consultar um psicólogo aconteceu quando a esposa do motorista que bateu no nosso carro testemunhou contra o marido. Não satisfeita, ansiosa para converter o acidente em algo positivo, ofereceu ao meu pai uma consulta grátis, porque eu considerava a Psicologia como opção de carreira.
A entrevista, que eu faria a ela, foi feita por ela a mim, que não tive pulso para impor minha intenção. Terminei usando sua caixinha de lenços disponível sobre a mesa. Voltei para casa com o compromisso de atrair minha mãe para um próximo encontro.
Eu me recordo pouco de toda a experiência, mas conservo aquela palavra dita pela psicóloga, enquanto ignoro até mesmo o assunto que tratei com ela. Sei que não disse nada em resposta à revolta que senti quando ela me disse aquilo, como ainda é impossível para mim ser grosso com estranhos. Ela disse que eu era chato.
Eu me recrimino por ter transmitido o recado e incentivado minha mãe a passar pelo mesmo. Imagino que, através do que eu disse, a psicóloga identificou algum transtorno entre mãe e filho. E ele havia, como sempre costuma haver, se você corresponde ao estereótipo de adolescente difícil. E talvez seja por isso, até de forma inconsciente, que insisti; queria puni-la. Sobretudo, eu tinha necessidade de agradar, mesmo quem tivesse me chateado – eu não queria decepcionar a psicóloga. Minha mãe suspeitou da armadilha e evitou ser reprovada no diagnóstico; não foi à consulta.
Eu suspeitei de todo o caso e criei a minha teoria da conspiração: aquela mulher estava atraída pelo meu pai. Recusei a acreditar que ela fosse justa e, portanto, e só por isso, tivesse se posicionado contra o esposo. Interpretei sua vontade de conhecer a minha mãe como forma de comprometer nossa família. E o atributo que ela me conferiu eu atribuí ao seu aborrecimento de lidar comigo para alcançar meu pai. Tinha certeza, apenas, que o exercício da terapia envolvia insultar meninos de quinze anos.
Anos mais tarde, cursei Letras.