Caminho com passos estreitos contornando a beira do meu coração. Tenho cuidado. Um passo falso e volto ao início do erro. Mas essa linha arrojada me excita e o tesão me faz continuar aqui, sorrindo e trêmulo, com medo da queda fácil que me acompanha bem de perto. É cômico olhar, hoje, o que esta praga me fez sangrar, e o quanto me fez derramar meu orgulho sobre os joelhos com os braços o envolvendo pedindo piedade. Amar não é pecado, mas é "torturoso", e desse mal prefiro evitar. Ainda mais por você. Você. Que nunca soube e nem saberá (melhor assim, sem dramas). Que me machucou sem notar. Tornou-se um marginal, inocente, ingenuo, desavisado, pois, de todos os golpes que deu, nenhum você soube, e por nenhum você deve responder. Mas mesmo que o atacante bateu as cegas, EU-o saco de carne, o saco de pancadas, o saco de sentimentos-SENTI! Senti e ainda lembro o "sentido". Sentindo intenso. Lembro a precisão e a sintonia. Lembro os lugares e a velocidade. Lembro os vergãos e os hematomas. Lembro da dor e do calor. E é isso que me excita, isso que me motiva continuar aqui, a noção da cura. A Cura. Curado estou. Um ser saudável sou. Livre de ti estou. Livre de ti sempre estive, mas sempre em mim você esteve. Eu nunca te tive, você sempre me teve. Agora é diferente, por completo você se foi, junto com suas luvas boxeadoras. E daqui, onde caminho, eu posso ainda te ver, mas dessa vez sem ameaças, sem olhos marejados e sem sentir todo aquele "sentido", e isso me satisfaz. Posso ficar por anos aqui, contemplando minha independência, por mais arriscado que seja caminhar por essa beirada. Eu poderia dançar ciranda nessa linha perigosa. Por que eu hoje sou livre. Hoje eu sou um ser livre. Hoje eu sou um ser. Um ser MEU.