Tem algo de muito particular em se morar no mesmo bairro por muito tempo: dá pra ver muitas mudanças acontecendo (no bairro, e em você). Felizmente, aqui onde eu moro o tempo passa mais devagar, parece levar menos coisas.
O tempo, mais cedo ou mais tarde, sempre engole tudo, né? Mas aqui em Santa Teresa ele tem sido generoso, deixa a gente andar no mesmo calçamento, entrar nas mesmas casas, e pegar o mesmo transporte de cem, duzentos anos atrás, temos esse privilégio. Lutamos por ele.
Mas, mesmo generoso, o tempo não deixa de levar alguma coisa. Em geral, aqui, ele leva as pessoas mesmo. O que foi erguido fica de pé, mas os meus vizinhos vão embora. As vezes é pra Tijuca, pro Flamengo, mas as vezes vão embora de vez mesmo, embora do mundo.
Foi assim com a Dezessete, uma senhorinha que, quando eu era muleque, tava sempre à porta do armazém do Seu Fará, outro que o tempo levou. Eu não conhecia a Dezessete, vê-se que nem ao menos sei o seu nome, mas a gurizada do bairro chamava ela assim, a gente passava em bando de dentro do ônibus ou do bonde e berrava esse número, "Ô DEZESSETE!", a coitada ficava injuriada, pê da vida mermo e mandava o cachorro dela – um bichinho pequeno, com só três pernas chamado Leão – atrás dos baderneiros, sem muito efeito.
Ninguém sabia (ou melhor: eu não sabia) porque ela reagia assim com um simples número — desatava a berrar palavrões, fechava a cara e mandava o Leão atrás da gente — mas o pessoal tinha muitas teorias. "Ela tinha essa idade quando os pais dela morreram num terrível acidente!" "Não! Ela ficou muitos anos internada num manicômio e esse era o quarto dela!" "Claro que não, ela teve dezessete maridos e agora é viúva!", em retrospecto, todas elas me parecem ser só delírios juvenis e lendas urbanas sem pé nem cabeça, mas pra gente não importava muito, legal era ver a coroa berrando, ríamos a beça.
Primeiro o tempo levou o Leão, e não demorou muito e não ví mais a Dezessete ali pelo armazém. Depois dos dois foi a vez do Seu Fará, camarada simpático que sempre me cumprimentava e tinha todas as coisas que um muleque nos anos noventa poderia querer no seu enorme armazém (enorme só do alto do meu metro e trinta, hoje diria que está mais pra pequenino).
Quando eu fazia alguma besteira, quebrava alguma coisa ou irritava os meus pais por algum motivo, minha mãe gostava de brincar que iria me devolver no armazém do Seu Fará onde – ela jurava de pés juntos (mas de dedos cruzados) — ela havia comprado a mim e ao meu irmão. A gente continuou fazendo a mesma brincadeira quando a minha irmã mais nova nasceu, mas o Seu Fará não estava mais, o coração dele não aguentou, e o armazém virou papelaria (hoje virou bar. Tudo aqui virou bar.)
Desde que eu era criança até hoje Santa Teresa sempre teve vários personagens. Andarilhos que caminham de um estrabelecimento pro outro, pegam o ônibus com você, estão sempre por aí, na vizinhança. Nós temos a Leila das Camisas, moça simpática de voz estridente que anda – e pega carona — pelo bairro todo tentando vender as suas camisetas e adesivos (recentemente ela começou a andar com uns livros também, diz que estão no YouTube, mesmo eu não entendendo como um livro pode estar no YouTube.)
Nunca comprei nada da Leila, mas ela segue em frente, tem ganhado a vida. Não sei se ela me reconhece ou não, porque sempre (S-E-M-P-R-E) tenta me vender as tais camisetas, ela vem lá de longe já com um longuíssimo "ooooooooooi!". Faz uma pausa. "Cês querem uma camiseta?". Até hoje não quis, quem sabe fim de semana que vem.
Como ela tem também o camarada dos calendários lunares. Outros moradores mais atentos aqui do bairro vão saber te dizer o nome do cara. Ele se apresenta como poeta, tem sempre uma nova autopublicação, e uns posteres com calendários lunares que tenta vender de bar em bar.
Tem o Elvis, um cantor que tenta vender seus discos cover, sempre de camisa aberta ostentando uma barriga que denuncia os anos de experiência. Tinha o Wolverine (acho que tá vivo, mas não vejo na rua há anos), que vendia cristais semiprecisiosos numa mesa montada de qualquer jeito na frete da locadora. Hoje nada de Wolverine e nada de locadora, mas essa pelo menos não virou bar (virou uma quitanda!).
Tem a Nega Teresa que vende acarajé no castelinho, tem a Família Bonzolandia vendendo artesanato de sucata na frente do super mercado, tem a Alda Maria dos doces portugueses, tem o Souza da banca de jornal... Tem muita gente que tá aí desde de sempre, ainda bem.
Fico imaginando quem são os personagens da garotada que corre hoje nessas ruas de paralelepípedo, quem são as Dezessetes, Farás, Souzas e etc da mulecada. Qual a Santa Teresa de criança hoje? A criançada anda menos na rua, todo mundo tem muito medo do mundo hoje, todo mundo fica em casa...
Em vinte e tantos anos, a minha vizinhança física não mudou muito, é como eu disse, o tempo aqui passa diferente, não leva os prédios, a calçada, ou o bonde, só leva mesmo as pessoas. Deixa a vizinhança mas leva os meus vizinhos.