â Humm⊠à vocĂȘ, Tadeu, que droga! - resmungo tapando a cara com a coberta, jogo-me no colchĂŁo novamente. â Meu sonho estava tĂŁo bom, sabia? - Afago o monte de pelos, sorrindo sĂł de lembrar. â Que horas sĂŁo? - Devia passar das 11hrs da manhĂŁ.
Erro por 15mim, constato no celular.
Todas do Leonardo Miggiorin.
Pulo da cama, sentando em seguida. Minha cabeça doĂ. Olho em volta forçando o cĂ©rebro a lembrar de algo e nada. NĂŁo lembro de muita coisa, a nĂŁo ser Ă© claro, de ter bebido, e muito.
â Hey, o que Ă© isso? O que Ă© que vocĂȘ tem aĂ, Tadeu⊠Tadeu, aqui! DĂĄ aqui, deixa eu ver. - Consigo apanhar o papel da boca dele sem rasgar. Mal posso crer no que os meus olhos leem:
Que amor⊠à muito amor!
Beijo o papel, olhando sua caligrafia com carinho. Leio-o novamente.
â E vocĂȘ, hein, danadinho, cumpriu direitinho o que o Thia⊠Quem Ă© que Ă© âseu donoâ mesmo? Sou eu ou o senhor jĂĄ se vendeu, rĂĄpido demais, para o Thiago?
CafĂ©, Ă© tudo o que eu quero no momento. NĂŁo qualquer cafĂ©, mas sim o dele. O que Thiago Fragoso preparou especialmente para mim. Pego o celular e rumo para cozinha como uma perfeita idiota. Penso em retornar as ligaçÔes do LĂ©o, mas desisto assim que avisto a tĂ©rmica de cafĂ© junto a duas xĂcaras postas na mesa.
Duas, porque duas xĂcaras!?
Sento-me e ao me servir noto o semicĂrculo borrado no fundo de uma das xĂcaras, sĂł entĂŁo me dou conta de que ele provou o seu cafĂ© antes de sair. NĂŁo acredito que perdi essa cena. Se tivesse acordado mais cedo o teria visto preparar o cafĂ©, melhor, podĂamos ter tomado o cafĂ© da manhĂŁ juntos.
. Estranhamente minha dor de cabeça havia passado sem sequer sorver um gole daquele cafĂ©, que fumegava um aroma delicioso. Provo, depois de permanecer alguns minutos com a xĂcara apenas colada aos meus lĂĄbios, e nĂŁo sĂł o aroma Ă© delicioso como o sabor tambĂ©m.
Vejo o comprimido em cima da mesa e sou obrigada a rir da sua preocupação exagerada. Do seu excesso de zelo. Tomo o comprimido com um gole de café e quando dou por mim estou ouvindo meu coração bater junto com o toque de chamando.
â Quer dizer que o Tadeu, agora, Ă© o responsĂĄvel por mim? - questiono sem ao menos deixĂĄ-lo dizer âoiâ.
â Sim, na minha ausĂȘncia, ele Ă©, sim. - Ouço o barulho que ele faz quando prende a risada. NĂŁo preciso vĂȘ-lo para saber que ele estĂĄ sorrindo, porque o seu sorriso Ă© o mesmo que o meu.
â Desde de quando vocĂȘ e ele sĂŁo amigos Ăntimos? - pergunto curiosa
â Desde de que eu e ele passamos a amar a mesma pessoa. - Amar? â Tomou o remĂ©dio? - emenda ele, enquanto eu ainda conjugava o verbo amar. â Marjorie, tomou ou nĂŁo tomou?
â HĂŁâŠNĂŁo â minto apenas para deixĂĄ-lo bravo e ouvir sua voz se alterar do outro da linha.
â Marjorie! - PĂ©ssima ideia, minha cabeça parece que vai explodir com a voz rĂspida do Thiago ecoando nos meus ouvidos. â Quer fazer o favor de⊠Â
â Eu jĂĄ tomei⊠- digo tentando parecer melhor do que realmente estava. Porque, meu Deus, remĂ©dios nĂŁo tem efeito imediato? Levo a mĂŁo Ă cabeça, como se segurĂĄ-la fosse ajudar.  â Quer falar com seu amigo, Tadeu, para ter certeza?
â NĂŁo â ele Ă© rĂĄpido em dizer. â Confio em vocĂȘ. Â â Quase deixo a xĂcara cair ao levantar. Sua voz Ă© intensa e segura, fazendo-me estremecer. Isso Ă© um jogo comigo, o qual o Tadeu parece disposto a participar, latindo.
â Humm⊠Viu sĂł, nĂŁo precisei nem perguntar, ele jĂĄ respondeu. - Quase engasgo com o tamanho do seu convencimento. Chegou ontem e acha que pode tudo, atĂ© mesmo ganhar a confiança do meu filho?
â Tadeu, meu filho â o encaro chateada. Â â, vocĂȘ nĂŁo era dado assim, nĂŁo.
â Ah, nĂŁo? - Thiago ri alto com o gurnido que recebo em troca. SĂŁo dois contra mim, desisto. â E o nome nĂŁo significa nada? Ta-deu. Deu, Ă© dado â debocha sem controlar o riso.
â Ha, ha â murmuro mal-humorada. â PĂ©ssimo trocadilho, alias como o seu cafĂ©.
â Meu cafĂ© Ă© ruim? - indaga ofendido e eu o qualifico como:
â PĂ©ssimo, horroroso e intragĂĄvel. â Mesmo nĂŁo sendo.
â Mas Ă© uma ingrata mesmo â diz sĂ©rio. â Devia ter largado vocĂȘ com o porteiro e ido embora em vez de passar a madrugada inteira cuidando de vocĂȘ e como se nĂŁo bastasse, acordo atrasado e ainda assim eu fiz cafĂ© para vocĂȘ.
â VocĂȘ dormiu aqui? - pergunto o obvio. Ă claro que ele dormiu.
â Sim, como vocĂȘ acha que o cafĂ© estaria quente atĂ© a hora da senhorita acordar? - Largo as xĂcaras na pia, despejando um pouco da ĂĄgua dentro e acabo nĂŁo compreendo-o. NĂŁo importa. Ele dormiu aquiâŠ
â Co-migo? - gaguejo nervosa. â Na minha cama? - Ah, Marjorie, para de fazer perguntas idiotas.
â Claro, Marjorie, a onde mais vocĂȘ queria que eu dormisse? Na varanda com o Tadeu - fala com a maior naturalidade. â A propĂłsito, porque vocĂȘ tranca o coitado na varanda?
â Eu nĂŁo tranco ele na varanda, ele que gosta de ficar lĂĄ.
â Ele nĂŁo me pareceu muito contente hoje de manhĂŁ, nĂŁo. â Tadeu, porque ele quer conversar sobre o Tadeu, agora? Me arrasto atĂ© a sala e me jogo no sofĂĄ.
â Thiago, vocĂȘ⊠- A ligação fica muda atĂ© que eu decido enfim perguntar. â MinhaâŠQue blusa velha Ă© essa que eu⊠- Surpreendo-me. â Eu tĂŽ usando calci-?
â Ah, nĂŁo me pede para explicar isso, Marjorie â Fica um instante calado. â, foi vocĂȘ quem pediu para colocar. - Seu constrangimento Ă© palpĂĄvel.
â Meu Deus, o que quĂȘ eu fiz me fala?
â VocĂȘ nĂŁo se lembra de nada mesmo, nadinha!? Faz um esforço aĂ na sua cachola.
â Cachola? - Thiago merecia um tapa por se referir a minha cabeça nesse termo. â AĂ, tĂĄ doendo â resmungo â NĂŁo ri. - Porque eu nunca lembro que manhĂŁs como a de hoje sĂŁo a consequĂȘncia previsĂvel de noites como a de ontem?
â Ta, o que eu me lembro: - concentro-me em respondĂȘ-lo. â Lembro de vocĂȘ chegando na festa com a⊠- me recuso a pronunciar o nome dela e na falta de adjetivo melhor, digo: â VocĂȘ sabe quem e⊠E depois eu bebi.
â Bebeu, chamou a Mariana de mĂșmia, vazdia e Morticia Addams.
â Chamou.- Custo a acreditar que eu realmente tenha dito isso, mas o Thiago nĂŁo tem porque mentir.
â Me desculpa, e-eu nĂŁo vou pedir desculpa por isso. - â Comemoro. Beber, de repente, valeu a pena e a dor de cabeça? A dor de cabeça era sĂł recompensa por ter dito o que penso. Talvez eu deve reavaliar os meus conceitos e beber mais vezes, especialmente, na companhia dos dois.
â Dizem que a gente fala a verdade quando bebe. - Ah Ă© sĂ©rio, Thiago? O que ele estĂĄ querendo, afinal, me provocar?
â Eu falo a verdade sempre, palhaço!
â Ui, essa doeu, Mah, tudo bem eu vou⊠ - Ah, merda! NĂŁo quero que ele desligue, nĂŁo agora, nĂŁo desta forma.
â Espera, o que mais eu fiz? - Ouço sua respiração se alterar. Ufa, evito que ele desligue.
â Marjorie, vocĂȘ tem certeza que quer mesmo saber? - Sua voz Ă© meiga e cautelosa. Estou ansiosa, nervosa e confusa ao mesmo tempo, nĂŁo sei se quero realmente saber o que mais eu fiz nessa festa, mas mesmo insegura o encorajo a prosseguir.  â Bom, vocĂȘ cantou e dançou em cima da mesa fez da garrafa de cerveja o seu microfone e cantou, cantou muito. Juro, Marjorie, nĂŁo sei quantas mĂșsicas vocĂȘ cantarolou durante a festa. Foi do samba ao pop rock sem o maior problema. Depois no carro e depoâŠ
â Depois, depois o quĂȘ, fala? Thiago, a genteâŠ- Tenho medo da sua resposta, mas preciso saber. â Ă Â - Respiro fundo. â, eu e vocĂȘâŠ
â Ah, Marjorie, foi tĂŁo bom, vocĂȘ nĂŁo lembra. - Ele estĂĄ brincando comigo, sĂł pode. Mas e se⊠ Como queria lembrar desta noite nos mĂnimos detalhes. â VocĂȘ dormiu nos meus braços e⊠sĂł dormiu mesmo.
â Jura? - suspiro aliviada. â Ainda bem.
â Ainda bem? Achei que vocĂȘ queria. Â â Queria, nĂŁo. Eu quero e muito.
â Sou sĂł eu quem queria, Thiago? â Aperto os dedos contra o celular como se o ato fosse amenizar a minha expectativa.
â NĂŁo. - ofega. â VocĂȘ sabe que eu te quero. â Ele estĂĄ mesmo me dizendo isso por telefone? Sua voz Ă© tĂŁo prĂłxima que quase posso ouvir a sua pulsação ao falar.
â Quer? â sussurro ainda sem acreditar que estamos mesmo conversando sobre o bem-quer. Sobre um quer o outro sem esconder o desejo.
â Quero â ele volta a afirmar enfĂĄtico. â SĂł nĂŁo aconteceu, ontem, porque⊠â Eu apaguei alcoolizada. Posso apostar que fiz bem mais do que a gentileza e generosidade do Thiago permitem contar.
â Ai, eu estou morrendo de vergonha, Thiago, nĂŁo quero te ver nunca mais. NĂŁo quero olhar para sua cara tĂŁo cedo.
â NĂŁo brica com uma coisa dessa, Marjorie. Eu quero te ver. Quero te ver sempre. - EstĂĄ todo sĂ©rio, agora. Sei que ele estĂĄ sendo sincero e por isso nĂŁo penso duas vezes, quero encontrĂĄ-lo.
Ââ Onde mais, Marjorie? Eu cumpro os meus compromissos â responde ele com entusiamo.
â Ai, meus Deus, esqueci, eu tenho gravação hoje? â Caço minha bolsa com olhar e antes que eu a encontre, Thiago responde.
â NĂŁo tem â Como ele sabe? â, olha sĂł que sorte a sua, nĂŁo vai precisar me ver. â Sorte? Se isso for a minha sorte, Deus me ajude!
â Eu quero te ver â murmuro de repente
â UĂ©, que mudança repentina Ă© essa, Mah? â estranha, ele â HĂĄ um minuto atrĂĄsâŠ
â Eu quero te ver, posso? â pergunto como uma adolescente que vai a um encontro pela primeira vez.
â Eu vou adorar â diz simplesmente. â Preciso desligar agora, amor, estĂŁo me chamando aqui. Vou gravar.
AmorâŠ. Ah, ele precisa urgentemente parar de brincar com o que diz, pois cada vez que ouço Ă© como uma chama que se acende e me enche de esperanças. NĂŁo suportaria pensar ser este apenas um descuido seu.
Paro enfim de encarar o celular feito uma tola apaixonada. Se eu quiser o encontrar a tempo para o almoço, tenho que correr e me arrumar. Afinal, ele me deve um. Nossa Ășltima tentativa de almoçarmos juntos tinha sido arruinado pela visita surpresa da Mariana.
*CadĂȘ vc? A festa jĂĄ começou!?*
*Sério, vc desaparece e depois não responde? TÎ preocupado, me liga*
*Ta. Entendi. Vc nĂŁo vem ;( *
*Acho bom vc ter uma explicação muito boa para dar*
Leio as mensagens do Leo enquanto espero Thiago concluir a gravação.
Penso rapidamente no Leo ao apertar âenviarâ e, apesar do meu cansaço recordo da sua mensagem de ĂĄudio pouco agradĂĄvel aos ouvidos. Meu celular vibra: Leonardo Miggiorin
*Claro, vai fazer alguma coisa especial para comemorar os 31?*
*JĂĄ fiz. Vc estĂĄ atrasada*
*Ta. rsrs. Jantar hoje? Passo na sua casa Ă s 7*
Sem resposta, encaro o celular por mais uns segundos e desisto. A porta se abre no mesmo instante em que levanto.
â Marjorie! - Fito o seu olhar, nossos olhares se cruzam Ăntimos. Sorrimos um para o outro.
â Ei, jĂĄ vi que eu tĂŽ sobrando aqui â EmĂlio apressa-se em despedir â, atĂ© depois, Thiago. - Ignorando a saĂda do amigo, ele passa os dedos na lateral do meu rosto, da tĂȘmpora atĂ© a nuca.
â VocĂȘ veio â diz fazendo uma trilha, entĂŁo da nuca atĂ© a cintura. Sua mĂŁo se une a minha enquanto ele abaixa a cabeça e, em seguida, seus lĂĄbios estĂŁo colados aos meus com suavidade e cuidado. Aperto a mĂŁo livre no seu pescoço e me aproximo dele, aprofundando o nosso beijo. Ele solta a minha mĂŁo, deixando-a livre para percorrer meu quadril. Sua mĂŁo Ă© quente sobre a minha pele, e se move palma a palma sobre a perna nua atĂ© a extremidade sensĂvel atrĂĄs do joelho. Ah, saia e o poder que ela exerce sobre os homens. Minhas pernas bambeiam, mas nĂŁo o deixo se afastar. Solto um gemido, abrindo a boca, seus lĂĄbios e sua lĂngua adulando os meus. Agarro o terno que ele usa entreaberto, que alias Ă© do seu personagem, e me aperto contra ele. Sua lĂngua traça a minha devagar. Seu beijo Ă© obstinado, gemo de novo e rĂĄpido demais ele se afasta. â VocĂȘ estĂĄ linda. â Beija a minha testa ainda ofegante.
â VocĂȘ tambĂ©m estĂĄ â retribuo timidamente. Olhar para ele depois da noite de ontem. Depois do que provavelmente eu fiz e que sĂł ele sabe, nĂŁo Ă© tarefa fĂĄcil.  â Thiago.
â Humm â Os olhos verdes me encaram como quem busca decifrar os meus pensamentos. Â â O que foi? - Passando os dedos de um jeito carinhoso no meu cabelo, ele ajeita uma mecha atrĂĄs da minha orelha. Ah, esse gesto.
â Pelo quĂȘ? - Dou de ombros, ele nĂŁo vai me fazer falar, vai?  â Pela bebedeira de ontem? - Fecho os olhos enquanto ele envolve meu rosto com a mĂŁo, o dedĂŁo acariciando minha bochecha e meu maxilar.  â Ta tudo bem, Mah⊠Ă, tirando o fato de ter que limpar o seu vomito o resto tĂĄ de boa. NĂŁo se preocupa mais com isso. JĂĄ foi, passou, combinado.
â Humm⊠- Busco um ponto fixo, que nĂŁo seus olhos para encarar. â Ta quase na hora do almoço, vocĂȘ jĂĄ almoçou?
â JĂĄ. Almocei mais cedo.
â Ah, que pena. - lamento, pegando minha bolsa em cima do sofĂĄ. â VocĂȘ perdeu uma Ăłtima oportunidade de almoçar comigo.
â Como Ă©? Perdi, perdi nada. - Para na minha frente me impedido de sair. â Se eu soubesse que vocĂȘ vinha perto do meio-dia teria esperado. - Me olha ressentido. â Vai, onde vocĂȘ quer almoçar, te faço companhia â propĂ”e ele. â Tem o que nĂłs fomos a Ășltima vez.
â Qual, o que vocĂȘ foi com a Mariana e o Benjamin?
â Ă esse mesmo. â estreita os olhos, provocativo. â O mesmo que vocĂȘ encontrou o Miggiorin.
â Ah, nĂŁo. - Porque estamos falando nesse assunto. â Perdi atĂ© a fome agora â suspiro â, qualquer lugar menos este, combinado?
â Combinado. - Ele sorri. â VocĂȘ espera eu trocar de roupa, que nĂłs jĂĄ vamos. - diz, de costas para mim, se livrando do palito. Meu Deus, strip-tease essa hora, nĂŁo
â Trocar de roupa, por quĂȘ? - Thiago me olha de canto de olho, desabotoando o punho da camisa com sorriso sacana.
â Marjorie, vocĂȘ nĂŁo quer que eu sai na rua, nesse calor, com esse terno, quer? - Droga, ele me ouviu.
â NĂŁo, nĂŁo quero. - Para ser sincera, nĂŁo quero que ele saia desse camarim. Quanto menos exposição nĂłs tivĂ©ssemos melhor.
â Ei, Marjorie â Paro. Achei que ele nĂŁo fosse notar minha saĂda. Â â, Marjorie aonde vocĂȘ vai?
â Comprar o meu almoço. - Viro-me na sua direção. Ele estĂĄ parado no batente da porta com a camisa desalinhada. Seus olhos brilham em expectativa.
â NĂŁo vou te beijar, vocĂȘ estĂĄ com gosto de atum na boca. - Thiago se estica para colocar a garrafa dâ ĂĄgua na mesa de centro e me lança um olhar insinuante.
â Grande coisa - insinuo como se nĂłs nĂŁo tivĂ©ssemos nos beijado hĂĄ cinco minutos e o gosto de atuam nĂŁo estivesse tambĂ©m na sua garganta. â, vocĂȘ nĂŁo tem nenhuma cena de beijo para gravar depois.
â Quem disse? - provoca ele, uma das mĂŁo estĂĄ na minha cintura enquanto a outra prende uma mecha do meu cabelo atrĂĄs da orelha.
â Eu tĂŽ dizendo. - Meus braços estĂŁo em volta do seu pescoço, prontos para beijĂĄ-lo novamente,  â Achei que vocĂȘ gostasse de sanduĂche de atum, lembra, foi vocĂȘ quem comprou um pra mim?
Ââ Eu, eu fiz isso? Â - franze a testa, desentendido. Â â NĂŁo lembro, nĂŁo. Quando foi?
â PeraĂ que eu vou refrescar a sua memĂłria. - Contraio os lĂĄbios, parando na sua frente. Thiago estranha meu gesto. O que Ă© bom. Tenho toda a sua atenção voltada para mim quando decido sentar na sua perna esquerda, o abraçando pelo ombro. Sem nenhum movimento brusco, deixo meus lĂĄbios apenas em contar nos seus.
â Ah, Marjorie. - Ele se mexe como se estivesse desconfortĂĄvel com a situação, toma meus lĂĄbios para si e me beija profundamente. Seus lĂĄbios queimam uma trilha desde do meu queixo atĂ© retornar a base da minha garganta. Nossas lĂnguas se enroscam, consumindo-se mutuamente. Suas mĂŁos alisam a pele nua dos meus ombros, puxando as alças do sutiĂŁ para o lado enquanto me coloca delicadamente de costas para o sofĂĄ, novamente. NĂłs nos beijamos por mais uma eternidade de segundos. NĂŁo sei precisar por quanto tempo, meus lĂĄbios se mantiveram unidos, colados aos dele sem necessitar o mĂnimo de oxigĂȘnio. Quando me afasto tĂŁo sem folego, sua boca corre o meu pescoço formando uma linha de beijos atĂ© a orelha. â VocĂȘ quer me enlouquecer, nĂŁo Ă©? - Suspira, os olhos se prendem aos meus, observador sei que ele consegue perceber em mim a vontade insana de sucumbir, no entanto ele nĂŁo o faz. PorquĂȘ?
Passando as mĂŁos pelos cabelos, Thiago respira fundo e me beija mais uma vez de forma rĂĄpida e doce, depois me abraça, deslizando os dedos pelo braço, puxa a minha mĂŁo sobre o seu peito. â Ainda nĂŁo entendi porque vocĂȘ preferiu ficar aqui. - Sinto sua pulsação acelerar sob a palma da mĂŁo. Estou confusa com a pergunta, nĂŁo lhe parece obvio?
â Queria passar mais tempo, assim, com vocĂȘ e evitar problemas, vocĂȘ sabe....  - admito, deitando a cabeça no seu ombro.
â E-eu, Mah, eu sei, eu e a Mariana â Ele fica tenso de repente. â Eu tenho evitado o assunto, mas chega eu tĂŽ cansado de fingir, de disfarçar e esconder o que eu sinto por vocĂȘ. Eu jĂĄ adiei essa conversa tempo demais, mais do que deveria.
â Thiago!? - suspiro exasperada.  â VocĂȘ vai conversar sobre o⊠- NĂŁo consigo raciocinar direito. Divorcio, a palavra estĂĄ girando na minha cabeça.
â Ă, o que foi, vocĂȘ nĂŁo gostou da ideia? - - Massageia minhas costas com uma das mĂŁos enquanto a outra segura minha nuca.
â Ă claro que eu gostei â Beijo-o empolgada. â Eu amei, amei.- Seguro o seu rosto com entusiamo e o beijo de novo, do queixo, as maças do rosto, do nariz aos lĂĄbios. Meus dedos estĂŁo no cabelo dele, prendendo-o a mim. â Eu, amei, amei â repito, retribuindo da melhor forma que conheço. Com beijos.
â Eu tĂŽ vendo. â Ele estĂĄ rindo para mim, quando saca o celular do bolso da calça e dispara a cĂąmera na minha direção, mirando o meu rosto.
â Thiago, nĂŁo. â Olho para ele, ofendida, depois caio na gargalhada, cobrindo meu rosto com a palma da mĂŁo.
â Tira mĂŁo do rosto ou eu vou publicar a foto assim mesmo, Marjorie. â Duvido que ele faça isso, mas resolvo cooperar dando a ele o meu melhor sorriso. â Foto minha, sĂł nĂŁo vale â resmusgo, apanhando o meu celular da mesa de centro, miro a cĂąmera no melhor Ăąngulo e tiro a foto. Nossa primeira foto juntos.
â O que tanto vocĂȘ olha, aĂ. - pergunta curioso, inclinando-se para frente na hora exata em que recebo uma mensagem.
â Ă o Leo confirmando o nosso jantar as sete. - Percebo-o avaliando a minha resposta, os olhos grudados no meu celular. Ele lĂȘ as mensagens.
â Mentira, que ele te mandou essas mensagens, Marjorie? - questiona irritado. â E vocĂȘ vai jantar com ele? Â - Olho para ele, piscando. Qual o problema?
â NĂŁo esquece que eu faltei ao aniversĂĄrio dele por sua causa. - Thiago me olha boquiaberto.
â Minha causa, agora a culpa Ă© minha, Ă© isso? - Inclina a cabeça de lado me dando um sorriso artificial. Thiago estava agindo como uma criança insegura. Eu amava a sua preocupação e atĂ© mesmo o jeito possessivo, mas ele nĂŁo controlaria meus passos, me impedindo de fazer o que quero.
â NĂŁo. A escolha Ă© minha, e eu vou a esse jantar porque devo isso ao meu amigo, Thiago, vocĂȘ querendo ou nĂŁo, eu vou.
Ââ Ta bom, vocĂȘ pode ir â murmura ele  â, eu deixo vocĂȘ ir.
â Ah, vocĂȘ deixa? - Tenho vontade de rir da sua careta, mas me contenho. Thiago ainda estĂĄ sĂ©rio quando contrai os ombros e diz seco.
Ââ Deixo, mas com uma condição, duas na verdade, vocĂȘ vai se comportar, nada de bebida, ouviu? - ressalta, me fazendo sentir uma adolescente de novo.
â Ouvi â balanço a cabeça concordando â, e outra condição?
â Fica, vai  - levanta-se, buscando pelo blazer jogado na extremidade do sofĂĄ. Veste-o, colocando o palito em seguida.  â sĂŁo duas horas, agora â verifica ele, no relĂłgio de bolso.  â, atĂ© o seu jantar faltamâŠ
â E esse relĂłgio aĂ funciona, Thiago, nĂŁo Ă© cenogrĂĄfico, nĂŁo Ă©? - Faço graça, esquecendo-me do seu humor do cĂŁo.
â CenogrĂĄfico Ă© o caram-, Marjorie, vocĂȘ nĂŁo me irrita, que eu mudo de ideia e faço vocĂȘ ficar aqui, e adeus o seu jantarzinho.
â Ah, chegou a margarida! E esse bolinho com essas velinhas, aĂ, nĂŁo vĂŁo te redimir. - ele diz assim que abre a porta e me vĂȘ com um cupcake em mĂŁos. â VocĂȘ perdeu um bem melhor, ontem.
â Desculpa. VocĂȘ me entende, nĂŁo? - Faço cara de choro e entrego-o o abraçando antes de entrar no seu apartamento bagunçado. O que nĂŁo Ă© nenhuma novidade, ele sempre esteve desorganizado, mas talvez hoje, eu nĂŁo sei, tenha batido seu recorde. Ele fecha a porta e me encara sĂ©rio.
â O que? Que vocĂȘ prefere o Thiago a mim?
â Co-mo⊠Como vocĂȘ sabe? - Busco um lugar no sofĂĄ pra me sentar.
â Falei com ele ontem. - DĂĄ de ombros, sentando-se ao meu lado.
â Como assim! - o encaro perplexa. â Espera, ele atendeu o meu celular? - SĂł pode ter sido isso, de que outra maneira o Leonardo saberia sobre o Thiago. Â â O que ele falou, conta?
â Pode tirando esse sorrisinho da cara. - Aponta para os meus lĂĄbios, dizendo, â ele nĂŁo falou nada demais. Eu Ă© que mandei ele cuidar bem de vocĂȘ, aproveitei e falei o quanto vocĂȘ o ama.
â QuĂȘ? - grito. Â â VocĂȘ, o que?
â Mentira⊠Mentira, Ă© mentira, Marjorie. - Ele ri do meu desespero e se apressa ao explicar.  â Eu nĂŁo falei essa Ășltima parte, mas devia. Ele precisa saber o quanto vocĂȘ o ama.
â Sabe? - Leo estĂĄ realmente surpreso com a minha afirmação, tambĂ©m pudera, ele sabe o quanto sua amiga, aqui, evita este tipo relacionamento. Bem, evitava. Thiago era a minha exceção.
â De alguma forma ele sabe. - Atiro-me no sofĂĄ, deitando a cabeça no lado oposto ao dele. âVocĂȘ sabe que euâŠ
â Tomou um porre daqueles, encheu a cara, agora me conta uma novidade? - Jogo uma almofada na cara dele. Tinha esquecido da sua capacidade irritante de ser tĂŁo perspicaz.
â A novidade, vocĂȘ quer saber a novidade? Â - Fecho os olhos e sorrio.
â Que agonia, anda, fala, Marjorie, vocĂȘs passaram a noite juntos, rolou Ă© por isso essa sua carinha deâŠ
â Feliz e apaixonada. - Alargo o meu sorriso, vendo os olhos do Leo se estreitarem. â DĂĄ pra ficar feliz por mim? - Peço, erguendo a coluna para encarĂĄ-lo nos olhos.
â TĂŽ tentando  - diz sem disfarçar o desanimo na voz. Se ele estĂĄ tentando como diz, definitivamente nĂŁo estĂĄ funcionando. Dobro as pernas sobre o sofĂĄ, ficando de frente para ele.
â Leonardo â suspiro preocupada
â Mah, nem começa, eu jĂĄ sei â desconversa ele.  â Vai me fala: vocĂȘ e o Thiago estĂŁo namorando?
â NĂŁo â reconheço, Leo jĂĄ estĂĄ de pĂ© antes que eu termine a fala. â Eu adoraria, mas nĂŁo.
â Eu nĂŁo acredito, o cara fica com vocĂȘ e nĂŁo. - Agitado, ele anda de um lado para outro. â Acho que vou ter que mudar de ideia e ligar para esse Thiago e explicar como as coisas funcionam.
â Quem disse que a gente ficou?
â Eu nĂŁo falei isso.. Disse que estou feliz.
â E apaixonada â diz enfaticamente, os dedos imitando o sinal de aspas.
â Mas nĂŁo que tinha rolado.
â Quer dizer, eu nĂŁo sei ao certo, eu bebi⊠Duvido muito que eu nĂŁo tenha tentado, mas o Thiago me garantiu que nĂŁo rolou nada ainda
â Ainda!? - fala entre dentes. â Nunca te vi assim tĂŁoâŠ
â Nem na Ă©poca que a gente namorava. - Ele bufa, analisando-me novamente, o olhar consternado.
â O quĂȘ? - Estou surpresa. Â â NĂłs nunca namoramos!?
â Porque vocĂȘ nĂŁo quis. â Isso Ă© novidade. NĂŁo lembro de alguma vez o Leonardo deixar claro sua intenção. Exceto⊠A noite que⊠Ah, meu Deus
â Qual foi a parte da histĂłria que eu perdi, Leonardo Miggiorin, porque nĂłs sempre fomos grandes amigos. VocĂȘ Ă© como um irmĂŁo para mim. Um irmĂŁo de alma.
â Para! Pode parar por aĂ, Marjorie. - Fecha os olhos, vejo um turbilhĂŁo de emoçÔes passando pelo seu rosto. Quando os abre sua expressĂŁo Ă© de desalento.  â Quer saber, acho que foi esse o meu erro, deixei vocĂȘ entender que o que eu sentia por vocĂȘ era apenas amizade. - Ah, nĂŁo⊠Â
â Mas vocĂȘ namorava a Carla, vocĂȘs formavam um casal tĂŁo bonito, eu acho. - Leonardo revira os olhos para mim, chateado. Xingo-me mentalmente. Precisava ser tĂŁo direta?
â Tudo para te fazer ciĂșmes â confessa. O interfone toca antes que possa dizer algo. â Encomendei comida japonesa daquele restaurante que vocĂȘ gosta â avisa, colando o interfone no ganço, indo atĂ© a porta em seguida. â Espero que eu tenha acertado na escolha â diz colocando as sacolas sobre a mesa de centro.
â Sushi⊠Jura? - Arregalo os olhos, e enquanto ele continua a falar lembro-me da primeira vez em que comemos um. Meu primeiro dia no Rio, apartamento novo, vida nova e o Leo. Ele estava lĂĄ ajudando com a mudança, arruma os mĂłveis para lĂĄ, arrastada para cĂĄ, coloca ali, no fim da noite estĂĄvamos exaustos sĂł querĂamos uma coisa, alĂ©m de dormir, comer. Como nĂŁo percebi seus gestos durante o jantar, a forma de me olhar, o jeito de falar tudo tĂŁo claro. Quando volto Ă tona ele estĂĄ falando alguma coisa sobre o seu relacionamento com a Carla e o meu comportamento.
â Mas nĂŁo funcionou, tambĂ©m do jeito que vocĂȘ estava envolvida e empolgada com aquele concurso lĂĄ, oâŠ
â Esse mesmo. - acena com a cabeça, me alçando minha porção de sushi.  â Era demais olhar para o seu amigo apaixonado, aqui? - Aponta para si mesmo, voltando a ocupar seu lugar no sofĂĄ. â Depois eu consegui um papel de destaque.
â Numa novela das nove â o interrompo, fazendo graça.  â Como nĂłs comemoramos quando vocĂȘ soube, lembra? - falo de boca cheia. â Nossa, eu fiquei tĂŁo feliz por vocĂȘ. Era a realização de um sonho seu, afinal.
â Nosso sonho â corrigi ele, com o hashi vazio no ar.  â, porque vocĂȘ tambĂ©m sonhava com uma megaoportunidade dessa e conseguiu logo depois.
â Humm â engulo apressada. Â â NĂŁo foi tĂŁo logo assim, vai. - digo sem encarĂĄ-lo. Ele ri do meu estado afobado para comer.
â Ah, nĂŁo? - Pousa o talher do lado do prato e me olha bem-humorado. â Depois de Malhação, vocĂȘ nĂŁo parou mais, minha amiga, continua aĂ, atĂ© hoje fazendo sucesso, a danada.
â Ai, como vocĂȘ Ă© exagerado. â Caio na gargalha, e ele continua sĂ©rio.
â Sua carreira sĂł deslancha, jĂĄ a minha. Â â Que mania de se comparar a mim e a minha carreira.
â Ai, Ă© exagerado e reclamĂŁo ainda por cima â debocho, limpando os lĂĄbios no guardanapo. Penso no Thiago. A essa hora ele deve estar discutindo sobre o divĂłrcio. Meu coração se aperta sĂł de pensar nessa conversa e instantaneamente busco pelo meu celular na bolsa. Droga, esqueci de tirar do âsilenciosoâ.
â O que foi? - Nada, sĂł a minha vida que estĂĄ em jogo.
â Thiago me ligou. - NĂŁo Ă© nada. â Tem trĂȘs chamadas perdidas dele. - E eu nĂŁo atendi nenhuma.
â UĂ©, liga para ele. Â - Leonardo diz com um sorrisinho. Ah, como se fosse fĂĄcil fazer isso. â VocĂȘ nĂŁo vai ligar?
â SerĂĄ? NĂŁo sei, essa hora ele deve estar em casa e, a vocĂȘ sabe⊠- O telefone toca. Ă ele, eu sei.
â Ah, nĂŁo Ă© sĂ©rio isso, Marjorie? Ă esse o toque do seu celular quando o⊠- DĂĄ risada, pegando o celular da minha mĂŁo.
â Para, quer parar!  - imploro, avançando sobre ele. Tento em vĂŁo recuperar o celular. â Me dĂĄ o celular, aqui, me deixa atender. - Ă ele. NĂŁo conferi e nĂŁo precisava, a mĂșsica denunciava.
â NĂŁo. - Balança a cabeça. â Nada disso, deixa eu curti esse momento. - Olho para ele incrĂ©dula. NĂŁo acredito que ele estĂĄ rindo da minha cara.
â VocĂȘ quer Ă© curti com a minha cara, isso sim.  - Faço uma cara de zangada.
â TambĂ©m⊠- admite com um sorrisinho insolente.  â Marjorie vocĂȘ nĂŁo existe. - suspira, todo alegre, os olhos brilhando. Ah⊠nĂŁo⊠â Ele sabe? - Quem⊠O quĂȘ.  â Eu quero dizer ele sabe⊠sabe dessa mĂșsica? - pergunta, devolvendo-me o celular quando ele para de tocar. â Sabe que vocĂȘ, nĂŁo me diz que ele⊠- Faz uma pausa, buscando meu olhar. â Espera, ele tem uma mĂșsica tambĂ©m, Ă© isso.
â NĂŁo, nĂŁo tem, vocĂȘ tĂĄ doido. Porque ele teria?
â Eu sei lĂĄ â Encolhe os ombros. Â â, vocĂȘ nĂŁo tem uma, entĂŁo ele deve ter outra ou a mesma, vai saber â sugere ele com toda a calma.
â VocĂȘ nĂŁo pode estar falando sĂ©rio. - pisco para ele. Aonde ele quer chegar com isso?
â Ă serĂssimo, liga para ele e pergunta. - Ele se mexe, como se estivesse desconfortĂĄvel. â NĂŁo melhor, aproveita e conta para ele sobre a mĂșsica â diz levantando-se, indo em direção a cozinha.
â Eu nĂŁo vou fazer isso â o acompanho.
â Claro que nĂŁo, - gira os calcanhares e me encara. â Como eu imaginava, vocĂȘ nĂŁo tem coragem. Cerveja? - oferece, abrindo a geladeira. O ignoro.
â VocĂȘ tĂĄ me chamando de covarde, Ă© isso mesmo, Miggiorin?
â E se eu estiver, vocĂȘ vai fazer algo para mudar isso, vai? - provoca ele. NĂŁo penso duas vezes. Vou atĂ© a sala e pego o celular. Ligo para o Thiago.
â Oi, Mah, sĂł um minuto. NĂŁo posso falar, agora. - Imediatamente me arrependo de ter ligado.
â Humm. - murmuro. Sou capaz de ouvir minha prĂłpria pulsação. Esforço-me para perceber alguma movimentação a mais, e nada. Estou quase interrogando-o novamente quando ouço sua voz.
â Agora posso, fala. - sua voz Ă© mais calma do que antes, me pergunto se isso tem a ver com a ausĂȘncia da Mariana. SerĂĄ que eles⊠Calma, Marjorie, agora nĂŁo⊠ nĂŁo Ă© hora.
â Thiago, eu liguei para⊠- suspiro. â Ah, nĂŁo interessa porque eu liguei, nĂŁo Ă© nada, esquece. - Desisto, nĂŁo ia fazer a besteira de cantar para ele, nĂŁo mesmo.
â Marjorie, amor, fala.
â Eu gosto de vocĂȘ e gosto de ficar com vocĂȘ. Meu riso Ă© tĂŁo feliz contigo. O meu melhor amigo Ă© o meu amor. - Antes que eu mude de ideia e perca a coragem, canto timidamente.
â VocĂȘ bebeu de novo, Marjorie? - Nossa⊠Que mal juĂzo ele faz de mim.
â NĂŁo. SĂł tĂŽ pagando uma aposta â digo simplesmente. Â â VocĂȘ tĂĄ surrando por quĂȘ?
â Que aposta? - sussurra outra vez.
â Uma aĂ, mas agora Ă© sĂ©rio, Thiago, eu te amo
â Thiago, alÎ⊠AlĂŽ, Thiago. - Ele fica mudo, aumentando em mim a minha angustia.
â Ă ela? - Ah⊠Merda!  â Eu tenho uma Ăłtima notĂcia para contarâŠ
â Mariana, me dĂĄ o celular â o ouço gritar exasperado.
â Calma, meu amor, deixa eu contar a novidade.  - SĂnica, ela enfatiza as suas palavras porque sabe que eu estou do outro lado da linha ouvindo tudo, mesmo que parte de mim insista para que eu nĂŁo o faça.  â Acho que vocĂȘ vai gostar de ouvir: Eu estou grĂĄvida.
â Mariana, meu⊠- Desligo antes de ouvi-lo chamĂĄ-la de meu amor. Acho que sou capaz de vomitar o que comi. Tudo gira na minha frente enquanto a voz dela ainda ecoa lentamente nos meus ouvidos: ES-TOU GRA-VI-DA.
â Marjorie, o que houve? - Leo corre ao meu encontro como um bote salva vidas, ao qual eu me apoio para nĂŁo cair ao me sentar. Sua mĂŁo ergue o meu rosto, o dedĂŁo seca uma lĂĄgrima. Estou chorando antes mesmo de começar a falar.
â O Thiago, ele⊠ele tĂĄ com ela e eles, adivinha? EstĂŁo comemorando a chegada de outro filho, enquanto eu⊠eu canto mĂșsica e me declaro feito uma idiota.
â Eu ouvi da prĂłpria, toda empolgada⊠ - Por mais que eu tente nĂŁo consigo achar explicação para o que acabo de ouvir. Thiago nĂŁo pode tĂĄ fazendo isso comigo, pode? Planejando um segundo filho com a mulher e ao mesmo tempo me iludindo com a promessa do divĂłrcio. DĂłi ainda mais quando lembro do jeito com que ele prometeu, hoje, Ă tarde.
Ââ Ele disse isso, calma aĂ Marjorie, deve haver algum engano.
â Ah⊠a muitos enganos.  - Sorrio, o Leo estava tentando me animar, apesar de todo o seu esforço ser em vĂŁo, agradeço. Havia tanta segurança nas palavras do Thiago, que em nenhum momento eu cogitei serem um equĂvoco. Um engano.
Ââ Ta vendo â Ele faz uma pausa, me olha docemente. â, vocĂȘs vĂŁo conversar eâŠ
â Um deles sou eu nessa histĂłria â digo sarcasticamente. Â â Acabou a bebida dessa casa? - Esfrego as mĂŁos no joelho, ali foram parar o resquĂcio das minhas lĂĄgrimas. â CadĂȘ a cerveja que vocĂȘ acabou de me oferecer, eu quero.
â Marjorie, para  - a mĂŁo dele prende o meu pulso, antes que eu prossiga. â, vocĂȘ nĂŁo vai beber. â âNada de bebida, ouviu?â. Fecho os olhos com a imagem do Thiago na cabeça.  â VocĂȘ nĂŁo vai resolver nada desse jeito â observa cauteloso. O seu olhar Ă© para que eu me sente, mas nĂŁo o faço. Ao invĂ©s disso, busco a cerveja. Prometi ao Thiago nĂŁo beber, mas quer saber, dane-se.
Ââ Ou eu bebo ou eu choro, o que vocĂȘ prefere, escolhe? - o encaro rapidamente, baixando o olhar em seguida.  â NĂŁo precisa jĂĄ tĂŽ fazendo os dois.  - Mal tomo um gole e o Leonardo estĂĄ ao meu encalço, tirando o copo da minha mĂŁo.
Ââ Hey, vem cĂĄ, para com isso. - Ele me puxa para o seu colo e eu nĂŁo faço nada para impedi-lo. Sei que deveria, mas nĂŁo o faço. Tudo o que queria no momento Ă© alguĂ©m mais forte do que eu para me amparar. Me sinto bem com o seu abraço apertado. Ă como um balsamo com efeito calmante. Por um instante parece sufocar, abafar e dissolver todos os meus medos.
â Eu nĂŁo mereço amar e ser amada? - pergunto mais calma, apoiando minha cabeça no seu ombro.
â Merece, Ă© claro que merece, Mah â diz sem me encarar. â, sĂł que as coisas nĂŁo sĂŁo tĂŁo fĂĄceis assim no amor.
â PorquĂȘ? Todo mundo tem um amor. - Leo ainda estĂĄ segurando a minha mĂŁo, fazendo carinho, a aperta com mais intensidade quando diz.
â Nem todo mundo, eu por exemplo. - Engole em seco, continuamos sem olhar um para outro. Olhar o nada ou contemplar o silĂȘncio dos mĂłveis na sala Ă© melhor e menos constrangedor. Leonardo Miggiorin Ă© bem mais do que um amigo. Se eu soubesse ler nas entrelinhas que a vida escreve talvez estarĂamos juntos, talvez terĂamos uma linda histĂłria de amor para contar⊠Talvez nĂŁo estaria aqui sofrendo por um amor quase impossĂvel⊠Talvez, talvez⊠Ah, coração! O amor pode ser tudo, menos simples.
â Porque vocĂȘ nĂŁo insistiu, porque nĂŁo me fez enxergar esse amor que vocĂȘ sentia por mim, por quĂȘ? - Ergo a cabeça, seus olhos fitam os meus intensamente.
â Quem disse que eu nĂŁo sinto mais? - Pela primeira vez na noite, vejo alĂ©m da amizade sincera de dois amigos irmĂŁos, brilhar. Vejo amor, muito amor. â Eu sintoâŠ. Ainda sinto amor por vocĂȘ. Ainda amo vocĂȘ, Marjorie.
Ele me puxa de encontro a seu corpo, sinto sua ereção pressiona a minha barriga antes mesmos dos lĂĄbios estarem colados aos meus. Ele me beija⊠bem, na verdade, ele quer mais do que apenas um beijo⊠como lido com isso? Eu deveria fugir, mas nĂŁo consigo. Sou atraĂda por ele em um nĂvel primitivo que mal consigo compreender, apenas sinto⊠Sinto amor, muito amor em cada um dos seus beijos.
Seu corpo inclina-se sobre o meu, as mĂŁos na minha coxa, tento nĂŁo pensar no Thiago, mas Ă© em vĂŁo. Ele estĂĄ comigo, luto para afastĂĄ-lo da minha mente. Desliso as mĂŁos pela barra da sua camiseta, trazendo-o para mim, envolvo seus lĂĄbios, e quando ele pensa em para o impeço com as pernas presas no seu quadril. A respiração dele ofega junto com a minha. Seu beijo Ă© intenso e profundo, tĂŁo bom que nĂŁo consigo parar de pensar e se⊠e se eu der uma chance a esse amor? NĂŁo posso lutar contra o inevitĂĄvel⊠Um filho. Ele nĂŁo vai largar a mulher e mais um filho. Ah⊠ThiagoâŠ. Por quĂȘ?
â Ah, Marjorie se vocĂȘ vai continuar me chamando de Thiago, Ă© melhor parar por aqui, eu nĂŁoâŠ
â Marjorie, eu nĂŁo quero isso que vocĂȘ estĂĄ me propondo.
â Por favor, faz amor comigo.