- Você foi aceita - falou a mulher que a havia recebido com uma prancheta e uma folha em mãos - por favor preencha tudo e entregue para a pessoa que vier lhe buscar nesta sala - apontou para um cubículo onde aguardavam mais pessoas. Não havia cadeiras para todos, os homens sentavam-se no chão, encostados na parede branca. As mulheres tomavam os assentos estofados que pareciam confortáveis, visto que elas estavam esparramadas sobre eles. Uma coisa era comum entre homens e mulheres, todos tinham feições cansadas.
Fazia sentido. Ela também estava.
Sentou-se no único espaço vago, era curiosamente distante dos outros assentos. Assim que se acomodou, notou o porquê. A sala quase completamente branca estava gelada e acima daquela cadeira estava a saída do ar frio.
Não se importou muito, visto que alguma das mulheres logo sairia daquela sala e seguiria para a outra, e ela poderia pegar seu lugar. Preencheu o formulário e esperou.
Aproximadamente três horas depois alguém foi chamado, mas ela não deu muita atenção, estava sonolenta, faminta e tremia. Viu alguém se levantar do chão, provavelmente o homem que dera um show momentos atrás, gritando que não poderiam fazer isso com eles, que era falta de respeito mantê-los lá assim, e exigiu um prato de comida, pois não queria mais esperar em jejum. O que ela achou engraçado na hora, ela sequer se lembrava da fome, com o frio que estava sentindo, sua fome estava adormecida. Agora, entretanto, estava completamente faminta e podia sentir o estômago reclamar.
Perdera a noção de tempo, pois o lugar não tinha relógio e muito menos janelas. Continuou naquele estado catatônico que entrara e sequer havia tentado sair. Algo só despertou seu interesse quando a próxima pessoa chamada fora uma mulher, deixando seu espaço vago.
Estava exausta e fraca, mas se pudesse mudar de lugar, se pudesse sair debaixo da saída de ar, aquilo clarearia sua mente.
Após poucas tentativas de se levantar, ela desistiu, continuaria onde estava. Não sabia dizer se estava se poupando ou se punindo pelo o que fizera a ela mesma ao se submeter àquilo, a aquele lugar. Ainda assim, nada se comparava ao cansaço mental que vinha enfrentando em seu dia a dia. Valeria a pena.
Mais pessoas deixaram a sala.
- Venha, é só me acompanhar - alguém tocou em seu braço. Esforçou-se para olhar para cima e quando o fez sentiu-se acolhida. Uma senhora baixa e morena, com sorriso branco e convidativo a puxava com delicadeza dali. Seu toque era quente e isso a confortou mais ainda.
Respondeu algumas perguntas olhando para uma câmera que mostrava sua imagem cansada enquanto a filmava. A maioria das perguntas já haviam sido feitas no formulário, mas imaginou que precisavam de uma prova mais concreta, caso algo ocorresse. Após a série de perguntas, ela deixou a sala e deitou numa maca, onde a examinaram brevemente em busca de sabe-se lá o que.
Depois de mais um monte de papelada que precisavam ser lidas, preenchidas e assinadas, ela se depara com uma folha em branco. No início não sabia o que fazer com aquilo, mas quando se deu conta, passou a escrever nela as palavras que há muito precisavam ser escritas. Chorando entregou todas as folhas juntas para uma mulher diferente de antes, era do seu tamanho e loira, e de alguma forma ela sabia que seria esta mulher que acabaria com seu cansaço. Não entendeu que sentimento era aquele que apertava seu coração.
A sala agora era completamente inesperada. Paredes e chão perfeitamente brancos, uma máquina brilhante com letras azuis claras formando “TESLA” se estendia imponente até metade da sala, a mulher posicionou uma cadeira que parecia menos confortável que a em que esperou, mas sabia que não precisaria esperar tanto tempo como antes, não necessitava de conforto. Sentou-se e inclinou a cabeça para olhar a parte mais legal do quarto, um telão que mostrava um céu azul e nuvens se movendo lentamente.
- Você pode escolher o que preferir - falou a mulher pegando um controle e apontando para cima.
Após receber uma negativa com um movimento feroz de cabeça, a mulher seguiu arrumando outros detalhes do quarto, que honestamente não se importou em prestar atenção.
O som que ouvia parecia um coaxar de um único sapo. Ficou intrigada com a escolha da pessoa que estivera ali antes dela, mas não pensara em nada melhor para colocar.
Ficou ali olhando o céu artificial, ouvindo o coaxar quase infantil de um sapinho e eventualmente sons que a mulher fazia enquanto mexia na máquina branca.
Depois sentiu a mulher mexer em suas pernas, posicionando, alinhando, depois em seu quadril, depois os braços e por fim a cabeça. Não estava confortável, mas sabia que não precisaria esperar muito.
Tremia, mas não tinha certeza se era de frio.
- A única coisa que não posso mudar é a temperatura do quarto, precisa ficar assim para o melhor desempenho da máquina - falou a mulher loira - o restante é de seu agrado?
Concordou com a cabeça e foi deixada sozinha pela mulher.
Olhou para a parede a sua frente, onde estavam três indicadores com números. O primeiro indicava a temperatura, 19 °C, o segundo a hora atual, 14:05 e subindo, o terceiro estava congelado no que parecia ser um horário, mas não identificou o que ele poderia ser, 12:58.
- Você precisa ficar o mais quieta que conseguir, - a voz da mulher foi ouvida cobrindo qualquer som que a sala tivesse, alta e clara - evite piscar e engolir a saliva o máximo que conseguir. Isso, tente relaxar. Os olhos estão livres para se mover, então olhe para o telão ou para algum ponto fixo se preferir. Não temos uma estimativa de quanto tempo demora, isso depende de pessoa para pessoa. O que podemos afirmar é que quanto mais imóvel o indivíduo se mantém, mais rápido o TESLA age. Boa sorte.
A máquina foi ligada mas nenhum som foi emitido. Tentou focar-se nas nuvens e se permitir descansar. Logo seria real.
O som do sapo por outro lado, tinha o papel de distraí-la, divertia-se pensando nas inúmeras possibilidades de sons e combinações que poderia ser feitas naquela sala, mas a pessoa que estivera ali antes simplesmente a surpreendera.
Seu corpo quase não era mais sentido, estava tendo sensações nunca experimentadas antes, sentia-se leve e flutuando.
Nem se quisesse se mover não seria capaz. Sua mente entrava num lugar novo, era quase possível afirmar que não pensava em absolutamente nada.