Escrevo histórias para ler, ver e ouvir. Por aqui compartilho ideias sobre cultura, arte, internet, processos criativos e criatividade nos dias de hoje.
Imagina uma rede social onde tudo é propaganda. Você faria parte dela? Não precisa nem pensar, porque provavelmente você já está nela. O Instagram, uma plataforma que começou como um lugar para compartilhar momentos da vida, se transformou em um imenso mercado de publicidade. Hoje, todos os perfis parecem estar presos a um ciclo constante de autopromoção.
Tudo no Instagram é propaganda. E ela acontece de várias formas:
A Publicidade Tradicional: São os posts patrocinados que aparecem no seu feed. Aqueles anúncios óbvios que vendem de tudo—roupas, tapetes, velas—não deixam dúvidas: é publicidade pura e simples.
Artistas e Criadores Promovendo seu Trabalho: Com o declínio dos meios de comunicação tradicionais como jornais, rádios e TVs, o Instagram se tornou a principal vitrine para artistas divulgarem seus projetos. Shows, discos, peças de teatro, filmes, livros—tudo é promovido por aqui.
Influenciadores e Suas Parcerias Pagas: Este é o tipo de publicidade mais disfarçado. Os influenciadores criam conteúdo que parece ser apenas entretenimento, mas na verdade é uma estratégia bem elaborada de marketing. Você pensa que está assistindo a uma dica sincera, mas é publicidade pura.
A Propaganda Disfarçada de Vida Pessoal: Talvez a forma mais sutil de todas seja a autopromoção que fazemos de nós mesmos. Aquela foto da viagem, do jantar, da academia, ou até da varanda de casa—tudo isso é uma forma de propaganda pessoal. Estamos constantemente vendendo a imagem de uma vida idealizada.
Agora pense que saco, né? A cada vez que você pega o celular e abre o Instagram, o que você vê é, em grande parte, publicidade disfarçada. Não dá nem pra pular, porque mesmo o que parece não ser propaganda, acaba sendo. No final, o Instagram se tornou uma vitrine onde tudo e todos estão se colocando à venda.
Assino diversas newsletters de diferentes formatos e adoro ver como outros escritores organizam suas palavras e frases. É como observar uma pintura, com cada escolha de estrutura e vocabulário formando um quadro único.
Às vezes, penso: nunca conseguirei escrever assim. E isso é verdade. Nunca poderei escrever como outro escritor – mas, por que deveria? Que graça teria ler textos que soam todos iguais?
É fácil cair na armadilha da comparação e sentir que nossa escrita é inferior. No entanto, essa diversidade é precisamente o que torna a escrita uma arte tão acessível e encantadora, tanto para quem escreve quanto para quem lê.
O mundo precisa de arte em todas as suas formas, e também de uma diversidade de estilos. Nossas palavras são parte dessa riqueza. A variedade é o que dá poder à arte, possibilitando conexões entre diferentes pessoas. Em todas as formas de expressão criativa – pintura, poesia, música – a variação é fundamental. Enquanto alguns veem a ópera como a forma mais sublime de arte, outros não suportam ouvi-la.
O mesmo se aplica à escrita. A diversidade é o que dá vida a tudo. É essa singularidade que faz de cada peça de escrita algo especial e valioso.
Em 17 de maio de 2012, Neil Gaiman subiu ao palco na cerimônia de formatura da Universidade das Artes. Seu discurso foi um marco, inspirando artistas além daquela turma. A transcrição virou livro e o vídeo no YouTube acumulou milhões de visualizações. Li o discurso de uma vez só e depois comecei a abrir o livro aleatoriamente em busca de inspiração. Cada leitura renovava meu ânimo para criar. Considero essa uma chave importante pra vida criativa: se junte a pessoas que te incentivam, e se conseguir, que te inspiram.
Todo o discurso está cheio de ideias interessantes que se desdobram em mil conversas. Trago aqui 5 trechos que mexem comigo.
1. Você não sabe o que está fazendo - e isso é ótimo
"Quando você começa uma carreira nas artes você não tem ideia do que está fazendo. Isso é ótimo. As pessoas que sabem o que estão fazendo conhecem as regras, e sabem o que é possível e o que é impossível. Vocês não. E vocês não devem. As regras sobre o que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não tinham testado os limites do possível indo além deles. E vocês podem. Se vocês não sabem que é impossível, é mais fácil fazer. E porque ninguém fez antes, não inventaram regras para evitar que alguém faça de novo, ainda."
É como aquela frase "não sabia que era impossível, foi lá e fez." Essa é a chave: as regras sobre o que é possível foram criadas por pessoas que não testaram os limites. Ignorar essas regras permite inovar.
2. Encontre sua montanha
"Algo que funcionou para mim foi imaginar que o lugar onde eu queria chegar — ser escritor, principalmente de ficção, fazendo bons livros, bons quadrinhos e me sustentando com minhas palavras — era uma montanha. Uma montanha distante. Minha meta. E eu sabia que enquanto continuasse caminhando na direção da montanha, ficaria bem. Quando eu não tinha certeza do que fazer, eu parava e pensava se aquele caminho me aproximaria ou me afastaria da montanha. Disse não a vagas em editorias de revistas, empregos respeitáveis que renderia salários respeitáveis, porque sabia que, por mais atraentes que fossem, eles me afastariam da montanha. Se aquelas ofertas de emprego tivessem surgido mais cedo, eu talvez as tivesse aceitado, porque teriam me deixado mais perto da montanha do que eu estava naquela época."
Inventar uma "montanha" pessoal e seguir em sua direção ajuda a manter o foco e a determinação.
3. Enviar mensagens em garrafas
"Uma vida de freelancer, uma vida nas artes, às vezes é como estar em uma ilha deserta espalhando mensagens em garrafas e esperando que alguém ache uma delas, abra e leia, e ponha de volta na garrafa algo para você: um elogio, uma comissão, dinheiro, amor. E é preciso aceitar que, para cada garrafa que porventura retorne, você terá produzido uma centena de outras."
Esse pensamento me ajuda a lidar com rejeições e com a falta de respostas. A rejeição pode ser apenas uma etapa e não o fim das coisas.
4. Faça a próxima coisa da lista.
"Olhando para trás, eu trilhei uma caminhada memorável. Não tenho certeza de que posso chamá-la de uma carreira, porque uma carreira implica que eu tivesse algum tipo de plano de carreira, e eu nunca tive. A coisa mais próxima que tive foi uma lista que fiz quando tinha 15 anos com tudo que eu queria fazer: escrever um romance para adultos, um livro infantil, uma revista em quadrinhos, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de Dr. Who… e assim por diante. Eu não tive uma carreira. Eu simplesmente fui fazendo a próxima coisa da lista."
A sua grande obra é o que você já está fazendo enquanto planeja sua grande obra.
5. Faça coisas sobre as quais você não tem certeza.
"As coisas que fiz que mais funcionaram foram as coisas das quais menos estava certo, as estórias as quais eu tinha certeza de que ou funcionariam, ou, mais provavelmente, seriam o tipo de fracasso embaraçoso que as pessoas se juntam para falar a respeito até o fim dos tempos. Elas sempre tiveram isso em comum: olhando para em retrospectiva para elas, as pessoas explicam porque foram sucessos inevitáveis. Enquanto as estava fazendo, eu não tinha ideia. E ainda não tenho. E onde estaria a graça de fazer alguma coisa que você soubesse que iria funcionar?"
Isso pode encorajar naqueles dias em que não encontramos valor no que fazemos. Artistas estão próximos demais de seu trabalho para serem objetivos, e muitos fatores além do nosso controle determinam o sucesso. O prazer está em aproveitar o processo criativo, independentemente do resultado.
Você pode ler a tradução do discurso ou assistir ao vídeo. Se é um artista, recomendo também o livro. Descubra quais citações mais falam com você. Nas palavras de Neil Gaiman:
"E agora vão, e cometam erros interessantes, cometam erros maravilhosos, façam erros gloriosos e fantásticos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais interessante por vocês estarem aqui. Façam boa arte."
Se você já navegava pela web nos anos 2000, viveu a época em que os blogs começaram a surgir e se tornaram populares. Naquela época, estar na internet significava ir de blog em blog, explorando o conteúdo que cada autor produzia. Inicialmente, os blogs eram plataformas onde se podia escrever sobre qualquer assunto. Porém, à medida que mais pessoas começaram a blogar, surgiu a necessidade de se destacar. Assim, os blogs evoluíram, tornando-se cada vez mais específicos e especializados. A era dos nichos começou: havia blogs sobre moda, jogos, música, cinema e uma infinidade de outros temas.
Esse fenômeno ocorreu muito antes de a internet ser dominada pelas redes sociais, pela economia dos likes, publicidade e influenciadores. A blogosfera era um espaço mais democrático e menos orientado para métricas de popularidade. Os blogueiros escreviam por paixão, compartilhando seus conhecimentos e experiências de forma genuína.
Hoje, em um movimento que contraria a dinâmica um tanto tóxica das redes sociais, os blogs pessoais estão voltando. Muitos estão optando por plataformas simples, sem medidores de engajamento e popularidade, apenas compartilhando opiniões sobre temas cotidianos. Esses blogs diretos e sem frescuras oferecem uma janela para as vidas de seus autores, proporcionando uma conexão mais íntima e real com os leitores.
A Autenticidade como Atrativo
Em um mundo onde a autenticidade é cada vez mais valorizada, escrever sobre experiências pessoais torna-se um atrativo poderoso. Nada é mais nichado do que a experiência pessoal. Ver como os outros se expressam e ler sobre suas perspectivas de vida pode ser profundamente interessante. A autenticidade de um blog pessoal atrai leitores, proporcionando uma conexão genuína e um vislumbre de diferentes pontos de vista.
A beleza de um blog pessoal está na sua autenticidade. É um lugar onde se compartilha experiências, opiniões e insights. O retorno dos blogs reflete um desejo humano básico de conexão e expressão. Ao compartilhar nossas histórias e pontos de vista, criamos pontes entre diferentes experiências e cultivamos uma comunidade de pessoas que se identificam com nossas palavras. Esta autenticidade e vulnerabilidade são o que torna os blogs tão cativantes e relevantes no cenário digital atual.
Por que escrevemos? Uma das respostas mais comuns é: porque se não escrever, eu enlouqueço. Muitos de nós nos identificamos com essa sensação. Escrever é como abrir uma válvula por onde é possível liberar a pressão dos pensamentos repetitivos. É uma maneira de dar forma ao abstrato. Se não escrevo, sinto como se houvesse um bloqueio no meu sistema. Preciso escrever para liberar esses pensamentos. Seja em um blog, num diário ou até mesmo em guardanapos, o importante é tirar essas ideias da mente e colocá-las no papel.
"Se eu não escrever, eu enlouqueço", é o que dizem. Quando eu tinha 20 anos, também dizia isso. Nunca deixou de ser verdade, mas hoje minha resposta vai além.
Escrever para Opinar e Compartilhar
Durante muitos anos, escrevi para emitir opiniões. Dos 25 aos 30 anos, fui editor do ORNITORRINCO, onde compartilhava minhas visões sobre filmes, livros e discos. Até que chegou um momento em que percebi que havia opiniões demais na internet. Para quê saber o que alguém que você nem conhece achou de um filme? Passei a ter fadiga deste tipo de texto e então comecei a produzir outro tipo de conteúdo: venho escrevendo para registrar o que estudei e para compartilhar o que aprendi. Esses textos funcionam como um caderno público, onde anoto ideias e pensamentos e compartilho com quem quiser ler. Como meu campo de estudo é arte e cultura, esses textos naturalmente giram em torno desses temas.
A Versatilidade dos Ensaios e o Prazer da Ficção
Por muito tempo escrevi ensaios que misturavam visão pessoal, informações específicas, análises e experiências. É um dos meus estilos favoritos tanto de escrever como de ler, algo que se aproxima do documentário de autor (como os filmes do Werner Herzog). Mas dava um trabalho imenso, muitos dias de pesquisa e escrita, e fui deixando de fazer enquanto outras atividades foram tomando mais o meu tempo (como as demandas de ser pai). A maioria desses ensaios foram publicados no "A Desobediência do Escritor”.
Escrevi ficção para teatro e filmes curtos. E no meu tempo livre também inventava histórias simplesmente porque era divertido. Pego um assunto ou questão que me interessa e, em vez de desenvolver um texto crítico, invento personagens, situações e cenas. Em 2020, juntei ficções que escrevi sobre um mesmo tema e publiquei uma coleção chamada “Pessoas Extraordinárias".
Desenhos e Escrita: Uma Conexão
Meus desenhos também são, para mim, uma forma de escrita. Cada desenho que faço nasceu de uma frase, um pensamento ou um texto. Esses escritos estão entre não ficção e ficção. Porque eu crio um universo próprio (ficção) mas também transmito uma mensagem bem específica sobre algum assunto do momento (não ficção).
Escrever é uma forma de entender a nós mesmos e o mundo ao nosso redor.
Hoje, se tivesse que responder rapidamente à pergunta “por que você escreve?”, eu diria: porque gosto de compartilhar o que penso e o que aprendi.
Li numa pesquisa compartilhada pelo movimento Um Minuto de Sua Atenção que 48% dos usuários do Instagram prefeririam viver num mundo sem Instagram.
Acontece muito. Te vendem um sonho, no início parece lindo, aí você começa a perceber uns problemas, mas você insiste, tem vezes que é bom, mas os problemas aumentam e quando vê você está preso num pesadelo.
Quando foi que virou "obrigatório" ter Instagram? E quando passou a ser normal entrar todos os dias? E depois corriqueiro entrar mais de uma vez por dia? Que outra coisa na vida você faz assim? Beber água, sim. Lavar as mãos, espero. Respirar, claro. Daí veja só, entrar no Instagram está no mesmo patamar de frequência das atividades essenciais. Já calculou quantas horas por dia cê passa dormindo e quantas passa no Instagram? Talvez melhor nem ver porque pode ficar sem dormir.
Somos nós que precisamos das redes sociais ou as redes sociais que precisam da gente? Se não fosse pela gente, isso daqui não existiria. E se as redes sociais não existissem, seríamos o que somos hoje? Menos ansiosos, eu diria. No fundo não queremos que ela acabe, apenas que fosse diferente. Que a gente pudesse viver sem a urgência de checar se tem alguém fazendo alguma coisa mais interessante, se repararam no que a gente fez, se nos deram centavos de atenção na forma de like, coração, quem sabe um foguinho...
O ser humano do século XXI nasce, curte, comenta, compartilha e morre. E depois recebe posts in memorian marcando seu @. Quem sabe ainda receberá notificação, seja lá onde estiver.
"É hora de trazer de volta a web aberta." Assim começa o anúncio feito pelo Ghost, CMS de código aberto para blogs e newsletters, sobre a iniciativa deles de se integrarem ao protocolo ActivityPub.
Ao explicar as razões para isso, fizeram um resumo nostálgico da internet de antigamente com o que ela se tornou após o monopólio das redes sociais. Traduzo um trecho aqui:
Vivemos uma vida boa por um tempo, lá atrás. Os primeiros dias da web foram caóticos, gratuitos e abertos. Todos publicamos conteúdos exclusivos em nossos próprios domínios. Não havia dois sites que fossem iguais. Interagimos uns com os outros para compartilhar ideias.
Depois vieram as redes sociais. Elas removeram a complexidade de executar um servidor. Elas adicionaram interações sociais simples. Seguir. Curtir. Compartilhar. Tudo ficou mais fácil.
Mas a conveniência teve um custo e, lentamente, a forma como consumimos informação tornou-se menos parecida com aquela comidinha caseira e mais parecida com o McDonalds.
Essa dieta algorítmica de fast food foi projetada por empresas de tecnologia interessadas em lucrar com nossos vícios. E depois de duas décadas de indulgência, as fissuras na nossa consciência coletiva estão visíveis ao nosso redor.
Chegou a hora de retomar o controle e há boas razões para estarmos otimistas.
Você pode ler tudo no site que eles prepararam para o anúncio.
ActivityPub é um protocolo que permite que pessoas em diferentes plataformas sigam, curtam e respondam umas às outras, sem algoritmos e sem se restringirem a uma Big Tech ou uma única plataforma. WordPress, Flipboard, Mastodon, Threads, Bluesky e vários outros sistemas já fazem parte desta nova internet.
Sem me sentir particularmente disposto para criar coisas novas, nos últimos dias decidi direcionar minha energia para organizar meus projetos. Arrumar a casa. Arrumar a casa é uma boa atividade terapêutica. No caso estou falando sobre arrumar a minha casa virtual, isso é, meu site (ou meus sites, já que um perfil numa rede social também é uma base), onde habita meus trabalhos em andamento: textos, livros, desenhos, vídeos.
Analisando minhas criações dos últimos anos, percebi que, embora muitas vezes eu crie de forma intuitiva, explorando meus sentimentos e pensamentos do momento, certos temas se repetem com frequência. Cultura, criatividade, processos e comportamento criativo na era digital se tornaram o fio condutor da minha produção. Para mim, escrever é uma forma de pensar e organizar meus pensamentos. Publicar meus textos online é como registrar meu aprendizado e compartilhar minhas reflexões com o mundo. Daí achei necessário deixar as descrições dos meus trabalhos mais objetivas, informando aos visitantes que tipo de assunto vão encontrar por ali.
Além disso, tenho escrito regularmente uma coluna no LinkedIn sobre o trabalho criativo contemporâneo. Como o meu site é um repositório do que faço, esses textos acabam indo pra lá também. A newsletter por enquanto continua no Substack. Aliás, tirei o paywall que existiu por um tempo na newsletter. Na verdade não sei porque havia colocado isso se sou contra restringir acesso à conteúdo. Mais ainda: acho péssimo o sistema de assinatura proposto pelo Substack. Seria muito mais fácil e barato pagarmos uma assinatura única e termos acesso a tudo (como fazem os streamings) do que ter que pagar uma por uma. Agora os textos por lá estão livres disso, podem voar por aí. O podcast está disponível no Anchor (e nas plataformas) e os desenhos encontram seus leitores no Instagram.
Embora reconheça os benefícios do Instagram para minha carreira, tenho uma relação ambígua com a rede. Decidi estabelecer uma rotina para lidar com isso: postarei duas vezes por semana, nas segundas e sextas-feiras. Serão os dias em que vou publicar, responder comentários, mensagens, interagir com as pessoas e conferir o que mais estiverem postando por lá. É claro que há a possibilidade de aparecer em outros dias, dependendo das circunstâncias.
E acreditem, estou considerando começar a produzir vídeos para o Tik Tok. Eu sei, eu sei, eu mesmo já falei tanto mal, mas tenho tido umas ideias que podem agregar a todo esse conteúdo que venho criando sobre cultura, arte, internet, processos criativos e criatividade nos dias de hoje.
"Quem escreve, não revisa", essa é uma das noções mais importantes na escrita. Com um olhar crítico e objetivo, um revisor, além de corrigir erros, analisa o estilo, a coerência do conteúdo e a precisão das informações. Mas, como sabemos que na maioria dos casos não temos dinheiro para contratar um revisor, aconselho uma estratégia que ajuda na hora de revisar o próprio texto.
Há uma prática muitas vezes descartada que pode elevar a qualidade do nosso trabalho e que faz uma diferença significativa no resultado final: deixar o texto "descansar" antes de revisá-lo.
O ideal é deixar o texto descansar até o dia seguinte. Quando estou com um prazo mais apertado, deixo pelo menos uma hora de intervalo antes de iniciar a revisão. Durante esse período, procuro fazer outras atividades, coisas que não tem nada a ver com o assunto do texto. Esse intervalo é uma oportunidade para "limpar" minha mente do que acabei de escrever. É essencial para que eu possa revisá-lo com uma visão mais distanciada. Ao retornar ao texto, leio como se fosse outra pessoa e não a que escreveu. Identifico erros na construção das frases, falhas na estrutura e outras imperfeições que escaparam à minha atenção inicial.
Esse período de descanso é uma parte essencial do meu processo de escrita. Não importa o tamanho nem quantos caracteres, é muito bom retornar aos escritos com uma perspectiva renovada. Me surpreendo com a clareza de visão que obtenho, algumas vezes mudo quase que completamente tudo o que fiz porque esse intervalo não apenas permite a correção de erros, mas também abre espaço para a criatividade e a inovação, transformando a revisão em um processo de descoberta contínua.
Refletindo sobre a interação entre limitações e criatividade, percebi o poder que colocar restrições pode exercer sobre nossa capacidade de inovação. Enquanto muito se prega a liberdade criativa como essencial, prefiro enxergar o controle como fonte de potencial, fundamental para solidificar ideias e explorar novas perspectivas.
Mas vejo também um uso excessivo de restrições sem propósito. Por isso fiz uma lista com os parâmetros que considero úteis para mim e para quem encontra meus trabalhos. Esse é um exercício que pode ser aplicado a cada projeto. Na minha visão elas se dividem em dois tipos.
Para o público
Útil:
- Ter um ponto de vista claro.
- Apresentar ideias que ajudam em alguma coisa.
- Inspirar.
- Incentivar potencialidades.
Não é útil:
- Parecer profissional demais.
- Dar mais certezas do que perguntas.
- Sobrecarregar de informações desnecessárias.
Para mim
Útil:
- Criar um cronograma de publicações.
- Desviar de coisas que não são o propósito central do trabalho (como passar muito tempo me preocupando com imagens em projetos cujo foco é o texto).
- Criar formatos (como toda newsletter ter dicas de coisas para ler, ver e ouvir, ou todo desenho ser feito à mão).
Não é útil:
- Querer agradar a todos os gostos.
- Criação baseada exclusivamente em pesquisas de público ou tendências.
- Otimização para mecanismos de busca.
Quando você estabelece as restrições pro trabalho que está desenvolvendo, você encontra um conjunto de limitações que vão fazer sua criatividade se concentrar no que interessa.
Cinco Princípios Fundamentais para Estimular a Criatividade
Nos encontros da oficina "Cadernos de Observação", os participantes frequentemente compartilham comigo dúvidas sobre como desenvolver um hábito para progredir em seus projetos, eles reclamam da sensação de se sentirem perdidos.
Uma frase batida (e por isso mesmo verdadeira) é de que a criatividade é como um músculo: precisa ser exercitada para se fortalecer. Estabelecer e manter uma rotina que estimule a perspectiva criativa é essencial para dar vida às nossas ideias. Contudo, é importante reconhecer que a criatividade é um processo pessoal e único. Não há uma fórmula mágica para se tornar mais criativo. O fundamental é descobrir o que funciona para cada um.
Durante esses encontros, tento analisar individualmente os desejos e disponibilidades de cada participante, buscando entender como o ato criativo pode se integrar em suas rotinas. Contudo, percebo cinco princípios cruciais que se aplicam a todos. Você pode pegar essas cinco dicas e colar na sua parede de trabalho pois lembrar delas constantemente vai te ajudar.
1) Explore novos horizontes: Experimente algo diferente, seja um hobby, um curso ou uma viagem. A exposição a novas experiências e ideias é crucial para estimular a criatividade pois ao sair da sua zona de conforto, sua mente se abre para novas possibilidades e perspectivas.
2) Observe o mundo ao seu redor: Preste atenção aos detalhes do seu cotidiano, observe como as pessoas interagem, anote ideias e pensamentos em um caderno. A criatividade muitas vezes está nos detalhes que acabam escapando durante a nossa rotina. Preste atenção e observe, você passará a enxergar tudo de outros ângulos poderá encontrar inspiração em situações comuns.
3) Seja persistente: Como aquela frase famosa de que um trabalho é 80% transpiração e 20% inspiração. Criatividade requer persistência e dedicação. Não podemos desanimar se as ideias não fluírem de imediato. O importante é se manter pesquisando, estudando e experimentando. A inspiração surgirá quando você estiver trabalhando.
4) Compartilhe suas ideias: Mostre seu trabalho para outras pessoas e ouça o que elas têm pra dizer. Exponha suas criações. Compartilhar suas ideias com outras pessoas é uma maneira excelente de receber feedback construtivo e aprimorar suas habilidades. Além disso, você pode encontrar inspiração e colaboração com outros artistas e criativos.
5) Seja paciente: A criatividade demanda tempo e prática. Se inspire nos outros mas não se compare com os resultados obtidos por eles. Desenvolver uma perspectiva criativa é um processo que requer tempo e dedicação. E o mais importante: divirta-se durante o processo.
Quando um poema, uma pintura ou qualquer outro projeto não sair como esperado, lembre-se: não se trata apenas do resultado final. Criar um trabalho é sobre manter consistência no estudo, na pesquisa e na prática. São os atos persistentes de criatividade que resultam em um projeto e te fazem artista.
Existem livros de força centrípeta que nos sugam para dentro das suas páginas e outros de força centrífuga que nos arremessam para fora de nós mesmos.
"Capitães da Areia", de Jorge Amado, é um exemplo de livro que me absorveu profundamente. Ao mergulhar na história, me vi imerso nas ruas de Salvador na década de 1930, vivendo cada momento descrito nas páginas.
Por outro lado, "Verdade Tropical", de Caetano Veloso, é um livro que me levou a explorar além de suas páginas. Enquanto o lia, senti o desejo de ouvir suas músicas, pesquisar imagens e vídeos relacionados, e até mesmo ler outros livros mencionados por ele.
Ambos os tipos de livros têm seu valor único para o leitor, e não acredito que um seja melhor do que o outro.
Um livro de força centrípeta nos transporta para um mundo de sonhos, onde nos perdemos enquanto acompanhamos sua narrativa.
Já um livro de força centrífuga nos guia por diferentes caminhos, nos levando a explorar outras obras, filmes, músicas, arte e até mesmo a conhecer novas pessoas.
O mesmo pode ser observado nas redes sociais, como Instagram e TikTok, que têm o poder de nos sugar para dentro de seu universo. Por outro lado, blogs e newsletters geralmente nos direcionam para outros lugares, expandindo nossos horizontes.
Novamente, não acredito que um livro deva ser julgado apenas por sua capacidade de nos envolver ou nos arremessar. Até mesmo uma obra tida como "menor" pode ter o poder de nos cativar ou nos inspirar, e é aí que reside seu verdadeiro valor.
No entanto, existe uma terceira categoria de livros: aqueles que não nos movem em nenhuma direção. Esses livros devem ser evitados, pois não acrescentam nada à nossa experiência.
Dois princípios orientadores nos processos criativos da Pixar
No seu livro "Criatividade S/A", Ed Catmull compartilha os bastidores fascinantes por trás da criação dos icônicos filmes da Pixar, o renomado estúdio de animação que ele co-fundou junto a John Lasseter e Steve Jobs. Ao mergulhar nas páginas deste livro, é como se fôssemos transportados para dentro das salas de reuniões criativas, compreendendo profundamente os processos que deram vida às primeiras obras-primas.
Catmull revela um insight crucial: os líderes criativos da Pixar perceberam a importância de dois princípios fundamentais que moldaram sua abordagem. Esses princípios não eram apenas palavras soltas, mas sim mantras que ecoavam constantemente durante as discussões.
O primeiro desses princípios era a máxima de que "A história é soberana". Essa crença fundamental enfatizava que nada deveria sobrepor-se à narrativa. Nem mesmo a tecnologia mais avançada, os aspectos de produção ou as estratégias de merchandising. O talento excepcional dos roteiristas era celebrado como um dos pilares fundamentais do sucesso. Afinal, o verdadeiro mérito de filmes como Toy Story residia na capacidade de evocar emoções no público, algo que só era possível graças à dedicação em manter a história como a bússola orientadora de todo o projeto.
O segundo princípio crucial era "Confie no processo". Catmull explica que essa filosofia proporcionava uma sensação de segurança à equipe. Ele escreve: "Embora haja inevitavelmente dificuldades e deslizes em qualquer empreendimento criativo complexo, você pode confiar que o processo irá colocá-lo a salvo". Embora pareça semelhante a simples slogans motivacionais como "Mantenha-se firme", Catmull destaca que na Pixar, essa confiança no processo era mais do que um clichê; era parte integrante de uma cultura que valorizava o espaço para a criatividade dos artistas, um estúdio que acreditava firmemente que sua equipe seria capaz de superar obstáculos e encontrar as soluções mais criativas.
Catmull admite sua cautela em relação a máximas ou regras, reconhecendo que muitas vezes são apenas palavras vazias que desviam a atenção. No entanto, ele destaca que esses dois princípios específicos realmente pareciam fazer a diferença, proporcionando uma estrutura sólida para o pessoal da Pixar.
O livro não só explora os aspectos criativos, mas também discute os desafios de manter uma cultura de criatividade dentro de uma empresa que busca tanto a admiração do público quanto o lucro. Catmull compartilha como desenvolveu ferramentas e processos, como o "banco de cérebros", um conselho formado por indivíduos de todas as áreas da empresa, dedicado a analisar, criticar e aprimorar os modelos preliminares dos filmes. Essas iniciativas ilustram o compromisso da Pixar em promover a excelência criativa em cada etapa de sua jornada cinematográfica.
Adotar frases que nos inspiram, entender princípios nos quais acreditamos, pode ser de grande ajuda para sustentar uma jornada tão desgovernada como a criação artística. Elas não apenas oferecem direcionamento e propósito, mas também atuam como lembretes valiosos, indicando caminhos nos momentos desafiadores dos processos criativos.
Nos primeiros minutos deste vídeo, Roald Dahl apresenta a cabana localizada atrás de sua casa onde ele costumava escrever todos os seus livros, inclusive os mais conhecidos como "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Dahl descreve sua rotina de trabalho e detalha como projetou seu ambiente de escrita para ser o mais livre de distração possível.
Tudo foi organizado para ser um lugar perfeito para escrever. Uma poltrona confortável, apoio para as pernas, uma colcha para se cobrir nos dias frios, uma tábua que funciona como uma mesa. Como ele não queria se mover da sua cadeira, tudo ficava ao seu alcance. Ele gostava de escrever em um papel timbrado comum que se acha em papelaria, e tinha sempre vários lápis muito bem apontados.
Como alguém que se senta diariamente para escrever, vejo essa cabana como um tipo de luxo que beira a necessidade. No mundo moderno somos bombardeados por notificações, alarmes, mensagens e uma avalanche constante de informações, daí que encontrar um refúgio para a concentração pode parecer um desafio monumental. Por quanto tempo você consegue ficar offline sem interagir com a virtualidade do mundo?
A história de Dahl nos lembra da importância de priorizar o tempo e espaço para a criação.
Seja numa sala dedicada em casa, num café tranquilo ou até mesmo num canto silencioso em um parque, encontrar o ambiente certo para escrever parece ser essencial. Criar um espaço onde as ideias e a imaginação corram livremente sem distrações parece ser uma atitude revolucionária.