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@garimpodalma
você diz não estar feliz a um tempo e estar se sentindo sozinho na relação, quando sou eu quem é deixada em carne viva, 5 dias, exposta ao sol, sozinha pra sangrar as feridas de uma vida inteira.
você diz que assim não quer mais. e eu não sei se também quero. mas ainda sim insisto. pois não vim descalça catando cada caco do teu colo e colando pra depois partir.
eu quero tentar. digo. eu quero tentar ainda. mesmo que signifique doer e me humilhar em minhas repetições. mesmo que signifique ser algo que ainda não sei que sou capaz de te retornar a matéria.
eu quero tentar. por nós. por amor. por mim.
muito provavelmente o desejo é outra corrente que nos resume a carne e selvageria
Virginia Woolf, from her novel titled "The Waves," originally published in 1931
"é você quem se incomoda com a rotina porque está vivendo uma vida que não quer viver" foi o que eu disse quando ela me questionou sobre a falta de novidades ou a escolha de não contar nada. não é que a minha vida esteja parada, ela vai na direção do tempo, mas segue cheia de repetições
os mesmos nomes espaços pessoas
eu não tenho nada de extraordinário para oferecer. essa é só a minha vida. eu aprendi com meus erros, não os cometo de novo. eu abandonei alguns velhos hábitos e não mantenho mais na minha mente quem não se repete também
eu quero o conforto do que acontece todo dia
amamos tanto, e a perda é cotidiana e infinita.
Hilda Hist
Eavan Boland, “A Woman Painted on a Leaf”
[Text ID: “I want a poem I can grow old in. I want a poem I can die in.”]
Makenzie Campbell, from a poem featured in "Room of the Mind: Poems" originally published in 2021
• Monica Menezes
a muito tempo que não escrevo, e a escrita sempre teve um significante de vida em mim. a muito tempo não vivo (não dá forma que gostaria).
a muito tempo não rio como quem des'agua.
a muito tempo deixei de ser muita coisa pra me desfazer de um corpo imposto. mas percebo que sempre refaço nas armadilhas da carne.
a muito tempo o tempo passa, e eu continuo aqui parada. sem nada.
queria criar pra mim um corpo, sem peso, sem amarás. mas não sei mais se isso é possível.
a muito tempo tenho caminhado sozinha. sem medo. mas a muito tempo não desejo mais.
me sinto triste novamente. e o tempo, que passa devagar, dilacera o que restou de mim.
com quem posso falar de morte ? mesmo que em vida esteja. com quem posso falar que a desejo ardentemente, mas que quero que cuide de minhas flores por mim, para que elas vivam?
Rachel Gillig, The Knight and the Moth
what frank o’hara said: “i’ve loved too little and i’m tired of running”
eu penso que a vida tem sido cruel pra nós. mesmo que o sol não esteja mais tão quente, e que tenhamos cobertas para nós cobrir do frio. mesmo que a fome não seja mais a mesma, e que em nossas casas não tenham mais goteiras.
ainda não descobrimos a cura pra essa dor que se instaurou bem na ponta da língua quando saí do teu ventre.
não pude chorar.
não queria vir.
a vida é cruel.
e eu tenho sentido falta de quando ela não era, nem se quer, vida ainda.
tô cansada, e eu não te peço que entenda, já que nunca tentou. nem que escute, pois não conseguiria. mas me deixe falar. baixinho, que to cansada. que não queria ficar bem. que as pernas doem e os olhos já não suportam mais o sol do meio dia. que odeio e odeio muito. ce deixa? !
- diário de terapia - sessão 1° : mãe