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@garotanacional
Rafael Sliks
Samo Basquiat
Os áudios dela eram completamente inocentes.
Meus ouvidos não.
“Vamos marcar um dia pra você me decepcionar pessoalmente.”
— Céu de Júpiter
Eu sinto falta de você, mas não do jeito que as pessoas costumam entender quando falam de saudade. Não é aquela falta que pede volta, que implora recomeço ou que fantasia um final diferente pra algo que, no fundo, já estava escrito pra não dar certo. É uma saudade mais silenciosa, quase madura demais pra fazer barulho. Porque eu sei, com a clareza que só o tempo traz, que nós não éramos um lugar pra ficar. Mas ainda assim, fomos um lugar bonito de passar.
Sinto falta das nossas piadas que ninguém mais entenderia. Daquelas que começavam sem sentido e terminavam com a gente rindo de algo que só fazia lógica dentro do nosso mundo. Era como se tivéssemos criado um idioma próprio, feito de referências aleatórias e timing perfeito. E é estranho perceber que esse tipo de conexão não se replica. Ele acontece uma vez, daquele jeito, com aquela pessoa, e pronto.
Tem coisas que só existem porque fomos nós duas ali, naquele exato momento do mundo. Histórias que não cabem em narrativa nenhuma, porque perderiam a graça se alguém de fora tentasse entender. E às vezes eu me pego lembrando dessas cenas como quem revisita um lugar que já não existe mais. Não dói como antes. Mas também não deixa de ser um vazio específico, desses que ninguém mais ocupa igual.
Eu lembro de uma vez em que eu soltei uma curiosidade completamente aleatória, dessas que surgem do nada, e você riu do jeito que só você ria, meio desacreditando, meio interessada. E eu tenho quase certeza que, em algum momento da sua vida, aquilo voltou à sua cabeça e você lembrou de mim. E isso, de alguma forma, me conforta. Saber que eu ainda existo em algum detalhe esquecido do seu dia.
Até coisas que eu fazia antes de você agora carregam você. Misturas gastronômicas estranhas que eu sempre gostei… hoje têm um gosto diferente, porque vêm acompanhadas de memória. Como se o que era só hábito tivesse virado história. E talvez seja isso que a saudade faz: ela pega coisas simples e transforma em relicários de momentos que já passaram, mas ainda respiram dentro da gente. 
E tem aquela frase que se algo termina com "ão...". Aquela que eu nunca esqueço, porque eu sei exatamente o que você responderia, mesmo hoje. É como se, em algum lugar, a nossa versão antiga ainda estivesse conversando, intacta, sem as marcas do que veio depois. E às vezes eu me pego completando esse diálogo sozinha e rindo.
Eu não sinto falta de tentar dar certo com você. Não sinto falta do desgaste, das entrelinhas pesadas, da sensação de que, por mais que existisse sentimento, não existia construção. Isso eu aprendi a deixar pra trás. Porque maturidade também é entender que amar, não é motivo suficiente pra permanecer.
Mas eu sinto falta do que foi leve. Do que foi verdadeiro enquanto durou. Da versão de nós que existiu sem esforço, sem medo, sem excesso de futuro. E talvez seja isso que mais fica: não a vontade de reviver, mas o reconhecimento de que foi real. E que, mesmo não sendo pra sempre, foi o suficiente pra nunca ser esquecido.
Existe um tipo de libertação que chega quando eu começo a perceber que certas definições que colocaram sobre mim simplesmente não se sustentam mais. Durante muito tempo, existiu uma dúvida incômoda, quase constante, sobre quem eu era de fato. Não porque eu não me conhecia, mas porque alguém repetiu, com tanta convicção, uma versão de mim que acabou criando ruído dentro de mim. E viver tentando me encaixar ou me defender de um rótulo que não era meu foi, por muito tempo, exaustivo.
Com o tempo, eu fui entendendo a diferença entre me questionar com honestidade e absorver uma narrativa que foi projetada sobre mim. Nem tudo que dizem sobre a gente nasce da verdade, às vezes nasce da forma como o outro enxerga o mundo, as relações e a si mesmo. E perceber isso foi essencial para eu começar a separar o que é meu do que nunca foi.
O processo de me observar com mais calma trouxe clareza. Eu sinto, sim. Eu me envolvo, me importo, vivo as coisas com intensidade. Mas isso não me torna instável, nem me define de forma limitada. Existe consciência nas minhas emoções, existe responsabilidade na forma como eu lido com elas. E reconhecer isso foi como reorganizar uma parte de mim que antes vivia em dúvida.
Quando eu olho para trás, consigo enxergar que muitas situações em que fui chamada de “difícil” ou “insegura” eram, na verdade, respostas a contextos que me exigiam mais do que eu podia oferecer com segurança. Relações que confundiam limites, que não eram claras, que não sustentavam o que prometiam. E reagir a isso nunca foi um problema, foi humano.
Hoje, existe um alívio muito grande em não precisar mais me defender o tempo todo de algo que não me pertence. Porque quando eu sei quem eu sou, a validação deixa de ser externa. Não é mais sobre convencer alguém, é sobre ter clareza interna. E essa certeza não precisa ser barulhenta, ela só precisa ser verdadeira.
Isso não significa que eu deixei de olhar para mim com senso crítico. Eu continuo me responsabilizando pelas minhas atitudes, continuo revisitando padrões, continuo aprendendo. Mas agora eu faço isso com justiça, sem distorcer quem eu sou, sem carregar pesos que nunca foram meus.
Também entendi que, muitas vezes, rotular o outro é uma forma de evitar olhar para dentro. E quando eu compreendi isso, muita coisa deixou de ser pessoal. Não como forma de minimizar o que aconteceu, mas como forma de não absorver o que não me cabe.
No fim, o que eu sinto é uma reconexão comigo mesma. Sem o peso de definições equivocadas, sem a necessidade de caber em versões que não me representam. Existe mais equilíbrio, mais clareza, mais autonomia emocional. E talvez a maior prova disso seja simples: hoje eu consigo olhar para tudo o que vivi, entender, filtrar e seguir, levando comigo apenas o que, de fato, é meu.
Comer, Rezar, Amar ( Eat, Pray, Love)