Você foi a primeira pessoa a me mostrar o amor
E depois de você, eu sinto medo dele.

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Você foi a primeira pessoa a me mostrar o amor
E depois de você, eu sinto medo dele.
Capitulo 1 - A RAIZ
Todos os dias da minha vida eu me pergunto quando foi que cheguei até esse momento e eu não sei… eu tinha um equilíbrio nas mãos, um respeito das pessoas ao meu redor, minha mãe, meu pai, meus tios que foi se esvaindo aos poucos e quando percebi eu já estava aqui depressivo, bebendo, fumando e usando drogas, eu tinha amigos e agora eu nem sei mais se tenho algum.
–
Meu avô era alcoólico, provavelmente também usava drogas mas nunca soubemos disso, ele bebia todos os dias da vida dele, mas nunca sofreu com isso, quem sofreu foi a minha avó, mãe de 12 filhos mas somente 6 deles vingaram, ele batia nela, quase sempre que chegava bêbado em casa, meu pai cresceu com o trauma de ver a mãe apanhando do próprio pai, ainda assim, cuidou dele até o fim da vida dele.
Meu pai, sempre trabalhou muito, saia cedo de casa e voltava tarde, aos finais de semana ao invés de fazer algum programa em família ele optava por sair sozinho com os amigos, amigos dos quais muito mais tarde eu viria a saber que eram gays e que os lugares que ele frequentava na verdade eram boates, e minha mãe, ficava em casa comigo, acreditando que era só… um futebol com os amigos ou um barzinho… sei lá.
Minha mãe não aguentou por muito tempo, quando se divorciou do meu pai, na mesma idade em que estou aproximadamente (30) ela enfrentou uma depressão bem forte… a mesma que talvez eu enfrente agora, ao contrário do meu avô, meu pai nunca agrediu a minha mãe, não fisicamente, mas com palavras só, certeza… ele fazia ela chorar, ele nunca a amou de verdade… então ela se entregou as bebidas, quase todos os dias ela bebia, certa vez me lembro dela no chão da sala bêbada, ela tinha bebido todos os licores que havia em casa e estava chorando no chão.
Morar com a minha mãe foi um desafio muito grande, após a separação não tínhamos dinheiro o suficiente pra pagar a parcela do apartamento que meu pai abriu mão, ela não conseguia emprego porque só tinha até a 6ª série, e mesmo que ela quisesse concluir o ensino o papo era aquele de homem antigo “Mulher minha tem que cuidar da casa…”, então ela mal conseguia emprego de empregada doméstica, que foi um dos poucos que ela conseguiu. E eu nunca gostei de ficar longe dela, sempre senti que precisava protegê-la custe o que custasse… mas o que uma criança de 8 anos pode fazer para proteger sua mãe?
Talvez eu quem precisasse de proteção… aos 8 anos nas propostas de jogar vídeo game na casa dos meus primos, um deles de 16 anos achou que seria interessante abusar de mim, ele abusou várias e várias vezes de mim, mas isso eu não pude contar a ninguém, e não contei até o presente momento, eu não sabia se eu era o culpado, na verdade eu nem sabia o que estava acontecendo, só lembro do pênis dele na minha boca, e depois, tentando me penetrar, me lembro de doer muito, e me machucar muito, esses abusos duraram por cerca de 1 ano ou 2, não me lembro ao certo.
Voltando a minha mãe, ela bebia demais, fumava demais e saia escondida muitas das vezes de madrugada porque eu não queria que ela saísse, se envolveu com pessoas do prédio que eram barra pesada no meio de drogas, diz ela que nunca usou nada, mas nessa altura da vida eu sei que adultos mentem pra poupar algumas coisas.
Até que então, ela teve que vender o apartamento pra poder sair dali se livrar (ou ao menos tentar) daquilo, então, fomos morar na favela abaixo da rua onde meu pai morava com a mãe, o pesadelo da bebida continuou, havia noites em que ela ficava deitada na cama bebada e dopada de antidepressivos, eu tinha 10 anos e me perguntava se ela estava morta… sempre ia ver se ela estava respirando pra ter certeza de que ela estava viva, certa noite me lembro bem de bater no rosto dela pra que ela acordasse.
Meu pai, após o divórcio ficou distante de mim mesmo morando na rua de baixo mal ele vinha me ver, talvez porque quisesse viver uma vida que ele não tinha vivido antes e não queria ter a responsabilidade de ter um filho, a responsabilidade dele era mandar a pensão todo mês e quase nunca nos finais de semana me levar ao McDonald's para comer algo e talvez uma vez ao ano me levava para ver a praia e voltar para casa, esse era o passeio de pai e filho, não sei se posso dizer que foi minha primeira decepção, mas para mim ser pai era isso...
Quando fiz 10 anos minha mãe engravidou e teve meu irmão, ela fumou e bebeu durante os 9 meses de gravidez do meu irmão, e mesmo depois dele nascido ela ainda bebia muito saia de madrugada e deixava ele comigo, era horrível porque ele sempre acordava de madrugada e eu não sabia o que fazer para que ele parasse de chorar, acho que ele me odiava ou ele não queria ficar longe da minha mãe, assim como eu.
No meio da bebedeira toda ela conheceu meu padrasto, um alcoólico que morava sozinho em uma casa próxima de aluguel, então por ventura eles decidiram se juntar pra ter uma vida juntos, vida que foi marcada por muita bebida ela tentou engravidar outra vez, mas segundo ele, era estéril…
Na mesma época, para amenizar a dor interna, eu me apaixonei por músicas dos anos 60-70-80… Roxette, Aerosmith, Gun’s And Roses, The Cramberries… e ouvir rádio a meia noite sempre me trazia uma tradução das músicas que eu amava ouvir, era incrível como mesmo naquela idade as letras falavam tanto sobre mim…
Meu padrasto era a, alcoólico mas, ele não era o tipo de homem como meu avô, pelo contrário, era um homem dócil e muito bom, certo dia minha mãe encontrou ele morto em casa, cirrose e água nos pulmões, aquilo acabou com ela e ela então voltou a beber de novo.
Aos 14 eu decidi vir morar com meu pai, achei que a vida fosse melhorar mais por conta da condição financeira dele, ele sempre teve mais dinheiro, e poderia pagar um estudo melhor para mim, acho que essa sim… foi a minha primeira decepção que tive, e me pergunto se tomei a decisão correta até hoje…
Continua.
no começo eu fiquei triste.
depois, eu fui tomado por uma raiva.
raiva do que houve, raiva de você.
raiva de ter feito parte desse seu jogo sujo.
raiva por ter deixado minha tristeza baixar a minha guarda.
eu estava no chão, e a raiva me fez por a mão no joelho pra suportar o peso do corpo machucado…
e então eu me levantei.
Pesado o post anterior né? Mas calma... ainda existe reviravolta e muita água pra rolar.
Às vezes eu olho pro céu e me pergunto, por que meu pai é tão distante de mim, mesmo morando a poucos metros de distância?
Na verdade ele sempre foi assim, desde que eu me entendo por gente, nunca vi meu pai chegar e me pegar para sair como seu filho sem que fosse algo que parecesse FORÇADO a ser feito…
Antes eu batia muito de frente com ele sobre isso, exigia a atenção dele, de qualquer forma, porque eu sempre achei que isso era algo que um pai deveria fazer pelo seu filho, mas, com o tempo eu fui cansando, e fui deixando pra lá, eu fui entendendo que nos altos dos seus 50 anos ele já não ia mudar, então deixei de esperar isso…
Às vezes a minha avó me diz algumas coisas sobre como ela tem orgulho do filho dela e eu digo a minha visão com relação a ele, e ela percebe que apesar de amar ele como meu pai e ter orgulho de sua trajetória eu não me espelho nele… tudo que aprendi sobre certo e ser errado eu aprendi com a minha mãe, tudo que sei veio dela, até mesmo como ser mãe, mesmo sendo um homem.
Talvez por isso eu não tenha vontade de ser pai, por talvez ter medo de ser um pai como o meu pai foi pra mim, talvez também eu não tenha nascido para ser pai, e nem ele para ser avô, embora ele queira.