Tenho pensado em como seria se eu me encontrasse com quem costumava ser quando criança.
Qual seria a reação dela se me visse hoje?
Acho que ela se assustaria.
Eu costumava ser intensa. Ter tantas emoções dentro do meu corpo que ele transbordava. Tremia, colocava pra fora, chorava.
E eu tive que dar um jeito naquilo.
Tive que podar aquela árvore que crescia mais rápido do que eu mesma.
Cortar os galhos incansáveis, tirar as folhas que cutucavam os limites, as barreiras de mim mesma.
E, corte por corte, a árvore diminuiu.
O que não contam sobre pais alcoolistas é que o problema não é só que eles bebem 2 grades de cerveja em uma tarde.
O problema não é o som alto das músicas, tão estridente que você precisa aumentar o volume da tv no máximo e encostar a porta do quarto (mas nunca fechar, eles ficam com raiva se você fecha).
O problema não são as piadas constrangedoras, não é o som das latas, abrindo a cada 15 minutos - por mais traumático que seja, por mais que hoje eu não consiga não travar quando ouço alguém abrir uma latinha só pra perceber que é Coca Cola.
Não. O problema é não saber.
Porque, com quem bebe, você nunca sabe.
Nunca sabe quando é um momento feliz, uma crise de risos, um calor tão quente que até seu corpo ansioso relaxa por alguns minutos.
Nunca sabe se vão chegar no seu quarto no meio da noite pra te contar a melhor notícia que você ouviu do dia, ou pra te matar por dentro pelo resto dele.
Você nunca sabe quando eles estão com raiva, até ser tarde demais.
Até os gritos começarem, até os dedos serem apontados, até o seu corpo travar tanto que seus ombros doem e você não esqueceu como faz pra parar de tensionar seus músculos.
Eles param. Comem. Deitam. Dormem.
E você tá sozinha de novo.
Mas você já tava sozinha antes, não tava?
Você sempre esteve sozinha.
Pensando. Criando esquemas. Sabendo exatamente os gatilhos pra evitar que eles se irritem.
Mas o problema é que eles continuam sendo imprevisíveis, e você não prevê o futuro.
Não importa o quando tente.
Então, você se poda mais. Tira tudo o que apresenta um risco - ainda que seja um galhinho pequeno, que você gosta.
Ainda que seja algo tolo, algo que eles nem perceberiam.
Mas você não pode arriscar.
A ira deles é mais do que você pode lidar.
Os anos passam, e daí a gente cresce.
Algumas coisas melhoram. Outras continuam péssimas.
E você percebe algo estranho.
"Por que eu me sinto tão vazia?"
Eu cresci, então por que eu pareço menor?
Você não sabe a resposta.
Mas na verdade, sabe sim.
Porque você continua podando a árvore.
Arrancando até as raízes que ousam ir muito fundo.
Até que um dia, você chega no tronco.
Não tinha percebido que o corte havia sido tão fundo.
Não tem mais... o que podar.
Agora ou você para ou corta a árvore inteira.
Mas então, o que você faz?
Os meus pais continuam imprevisíveis, e eu continuo com medo.
Todos os sentimentos que pareciam fluir, ainda que bagunçados e caóticos, ainda que apenas de tempos em tempos, quando eu permitia que a porta se abrisse um pouco, que uma fresta de luz passasse, todos eles...
Você estuda a árvore, procura por aquilo que está errado. Ela parece machucada, mas está viva ainda. então por que ela não tem nada?
Olha de perto, pra sua maior obra de arte. Pro trabalho que você começou quando não tinha nem capacidades de formar memórias de longo prazo.
Não tem quase nada dentro. Só uma casca, e algumas raízes pequenas, lutando por sua vida.
Eu só queria me proteger.
E agora, quando penso em mim uns anos atrás, me pergunto como ela reagiria.
Acho que ficaria com assustada.
O que leva alguém a destruir a si mesmo pra se proteger do imprevisível?
Às vezes, eu penso no meu futuro.
Me pergunto como vai ser, quando eu finalmente sair daqui.
Quando não tiver mais sons de latinhas sendo abertas.
Quando eu não precisar andar na ponta dos pés pra não ser percebida.
Quando passos não me causarem ansiedade.
Quando eu puder fazer o que quiser, porque sei que quem estar ali comigo me ama, e não vai falar mal do meu cabelo, ou das minhas roupas, nem perguntar o que eu tô fazendo num tom de desprezo.
Eu ainda vou me sentir vazia?
O vazio vai ter consumido tudo?
A armadura vai ser tudo o que restou?
Ou eu vou crescer, de verdade dessa vez?
Devagar. Tímida. Morrendo de medo.
Mas ali. Sem tesouras, sem alicates, sem serras elétricas ou qualquer outra coisa.
Apenas a luz do sol, água e amor.
Apenas uma árvore machucada, tentando descobrir onde pode chegar.
Eu me pergunto quando isso vai acontecer.
Eu me pergunto se vai acontecer.
Eu me pergunto se ainda dá tempo.
Se eu não estraguei tudo, tentando acertar.
De todo modo, eu peço desculpas.
plantar outra coisa no lugar.