CançÔes perdidas 2001-2007
Acredito muito naquela frase âa historia Ă© contada por quem sobreviveâ e gosto de aplica-la ao meu universo âa historia Ă© contada por quem conservou seus arquivos durante as revoluçÔes tecnolĂłgicasâ. Foi assim em cada grande revolução. Em âCrĂŽnicasâ, Bob Dylan conta um causo que vem bem a calhar sobre o assunto de conservar obras para alcançar geraçÔes futuras: Robert Johnson era um nome completamente obscuro do Blues atĂ© a Columbia Records comprar o catĂĄlogo do selo Vocalion e lançar a coletĂąnea em 1961. Toda a lenda que conhecemos sobre o homem Ă© um grande produto de Marketing, mas cabe aqui a frase: Almeje o futuro, o presente passa.
Enfim, aqui estamos nós em 2024 e as pessoas continuam sofrendo da perda da memória tecnológica. Nesse sentido tenho sorte de ter tudo que jå escrevi guardado em algum lugar dentro de um computador velho e obsoleto comprado em 2003 que ainda utilizo para gravar. Os anos 2000 são vintage.
Giancarlo Rufatto · Lo-Fi Dreams · Song · 2004
Um pequeno exemplo do que eu fazia em 2003/2004
Entre 2001 e 2007 tive um alterego musical chamado âlo-fi dreamsâ. Era atravĂ©s deste codinome que escondia meus complexos de baixa autoestima e publicava mĂșsica online. Levei uns bons anos para assinar como Giancarlo, era um nome de cantor de bolero, nĂŁo para um indie triste do interior do ParanĂĄ, gravando no quarto, morando na casa dos pais. As primeiras gravaçÔes da lo-fi dreams foram totalmente analĂłgicas, feitas com o toca-fitas do aparelho de som e com um gravador melhorzinho emprestado do avĂŽ de um amigo. Funcionava assim: gravava guitarra e voz em uma fita, passava para o outro deck e gravava uma segunda fita com outros instrumentos e assim por diante usando duas ou trĂȘs fitas de mixagem. Confesso que sinto muita saudade deste processo pois criava sonoridades interessantes e totalmente acidentais que despareceram completamente com a gravação digital caseira quando consegui um computador. NĂŁo sei dizer se em algum momento passou pela minha cabeça a ideia de gravar meus ĂĄlbuns em estĂșdios de verdade, mas nĂŁo havia dinheiro, nĂŁo havia ninguĂ©m no interior do paranĂĄ que entendesse o que eu queria fazer. O fato Ă© que a existĂȘncia da diversidade da mĂșsica independente brasileira do começo dos anos 2000 passa obrigatoriamente pelo filtro da precariedade tecnolĂłgica. Meu primeiro ĂĄlbum âlo-fi dreamsâ de 2004 e o âEP lo-fi dreamsâ de 2005 foram resultados direto de anos de um processo adolescente tentando fazer mĂșsica com equipamentos baratos, fitas, samples e baterias eletrĂŽnicas.
Obrigado, Le Son, por fabricar microfones baratos e contribuir para a revolução digital do artista pobre.
Em 2007 passaria a gravar usando meu nome e viraria cantor indiefolk, que Ă© como algumas pessoas vieram a me conhecer. Mas entre aquele perĂodo e esse teve um perĂodo que vivi em Curitiba, tive uma guitarra flying V e uma banda pĂłs punk chamada MĂłbiles que gravou apenas duas mĂșsicas barulhentas na Ă©poca em que os discos independentes saiam apenas na Tramavirtual e no Myspace. Uma das coisas engraçadas sobre essa banda Ă© que inventamos um marketing irĂŽnico no finado Orkut (2006, cara!): criamos um Fake da banda, saĂmos escrevendo âterrorismo popâ e postando o link do single no perfil das pessoas. Acredite, deu certo e atĂ© ganhamos um disputado joinha da tramavirtual. Mas como todas as bandas de um single sĂł no final de 2006 todos os integrantes jĂĄ estavam com outros planos.
Essas cançÔes estavam perdidas atĂ© outro dia, elas haviam desaparecido com o fim da trama e o sei lĂĄ o que tenha acontecido com o Myspace. Mas eis que outro dia pesquisando mĂșsicas para montar o ålbum da Hotel Avenida encontrei um dvd com as mĂșsicas da banda e algumas outras que faziam parte desta mesma fase da minha vida.
O resultado deste garimpo estĂĄ aqui em âCançÔes perdidas 2001-2007â. O ĂĄlbum tambĂ©m tem duas cançÔes gravadas com cantoras que estavam ativas nos anos 2000 atravĂ©s de seus alteregos a Verde Velma e a Lades. Acho curioso como elas estavam a frente do tempo porque nĂŁo existiam muitos cantores autores fazendo mĂșsica independente anos 2000, a Gica (Verde Velma) foi tipo uma avĂł da Malu MagalhĂŁes e da Clarice FalcĂŁo. A canção que gravei com a Lades soa muito atua, parece com essas bandas indies que estĂŁo na moda e o pessoal da Balaclava curte.
Enfim, o ĂĄlbum estarĂĄ no streaming no Halloween, mas jĂĄ dĂĄ para ouvir no bandcamp.
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