Fausto quase conseguiu ignorá-lo e passar batido das explicações (quase, levando em conta que a casa era de Outono, cada partícula fazendo questão de realçar isso), olhos na interação das aves com genuína curiosidade, principalmente ao cantarolar animado do passarinho que parecia a beira da morte não meia hora atrás. Teletransporte é uma mentira pra você? flutuava em sua língua, impedida pelos dentes cerrados, lábios projetando-se para frente e sobrancelhas erguidas. "É a sua casa. Vai me deixar ficar? Não tem medo que eu o enfeitice quando não estiver olhando e o aprisione ao meu bem querer?" Apenas para confirmação, uma última chance para pensar melhor no que punha dentro de casa. Ocultando detalhes, ainda desconfiado da estadia de emergência, seus olhos finalmente encontraram os dele e oh. Oh. Seu coração deu uma guinada e os dedos se apertaram no bolso com a visão. É claro que, de todos os cômodos, desde a sala até o sótão, o quarto lhe fosse o mais familiar de todos, e como poderia ser diferente? Meio pasmo, seguiu as ordens em passos taciturnos para o segundo andar, o cheiro de folhas, madeira e orvalho ressuscitando uma memória há muito esquecida. A memória muscular, pelo menos, era mais fácil: blusas no cabide, botas alinhadas perto da parede, primeira porta do guarda roupa para as blusas de frio e terceira gaveta da cômoda para as calças.
Aquele cheiro nunca mais sairia de seu olfato, percebeu no momento em que trouxe a lã para seu nariz, os fios macios acariciando sua pele fria como uma benção em um clima daqueles. Só percebeu que demorava mais que o necessário ao se encontrar perto da cama, não ousando por um fio de cabelo onde antes havia sido seu paraíso pessoal, saindo dali a passos apressados mais uma vez em direção à sala.
Sua cabeça doía do quanto tudo aquilo parecia doméstico, familiar, e Fausto se sentiu nu, exposto – mas, mais uma vez, Outono tinha facilidade em quebrar suas barreiras com apenas um olhar, um comando e um estender de mãos. Saberia ele do poder que tem sobre si? "Obrigado." A fera desarmada seguiu em silêncio até o lado dele no sofá, mal tendo tempo de se aconchegar ao receber a caneca quente em suas mãos, recuando as mangas para acolher o calor. "A Torre estava... Sufocante. As paredes de pedra são frias, e os ambientes luxuosos, com muito poder em cada chama acesa. O excesso de detalhes, de magia, depois de tanto tempo sem- entende o que quero dizer? Caminhar numa floresta silenciosa no meio dos montes de neve branca deveria ter sido uma boa ideia." Precisava por pra fora, voz ligeiramente descontrolada do tom monótono usual. As pernas se dobraram e ele se encolheu contra o estofado, trazendo a caneca para sua boca, provando e nomeando cada um dos ingredientes. "Eu estou- eu estou cansado, Outono." Sorriu, desanimado. "Mas me fale de você. Diga-me sobre seus planos, seus protegidos, sobre os livros que leu essa temporada. Qualquer coisa bastará."