13.
Eu sempre guardei nas palavras os meus desconcertos.

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13.
Eu sempre guardei nas palavras os meus desconcertos.
Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.
Medo da morte?
Acordarei de outra maneira,
Talvez corpo, talvez continuidade, talvez renovado,
Mas acordarei.
Se até os átomos não dormem, por que hei de ser eu só a dormir?
Em casa, o que eu mais fazia era ler. Tinha vontade de usar as impressões exteriores para sufocar tudo o que se acumulava, dia após dia, dentro de mim. E, entre as impressões exteriores, a única viável era a leitura.
Memórias do Subsolo — Fiódor Dostoiévski.
My body needs it-the hot baths, the care, the soft water, the perfume, the warmth. I take on the colors of the flowers, the bloom, the delicacy. It becomes me.
Leio as tuas palavras numa cidade estranha e cheira-me subitamente a pão e a casa. Ter-te comigo é como poder andar descalça pelo mundo.
Fragmento 117
Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade directa; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não «Tenho vontade de chorar», que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: «Tenho vontade de lágrimas». E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afectada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere absolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. «Tenho vontade de lágrimas»! Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral.
Fernando Pessoa — Livro do Desassossego, pela voz de Bernardo Soares.
Beware of women who climax on their own. If they suffice unto themselves even when it comes to sexual pleasure, just imagine how they are with everything else.
Há um vazio que nenhuma pessoa consegue preencher, porque ele não nasceu da perda. Nasceu da consciência de existir.
O ser humano pode se acostumar tanto a imaginar a felicidade que, quando ela aparece por um instante, uma única lembrança passa a sustentar toda a sua existência.
Deslizando minha língua no silêncio entre suas palavras.
A poesia é uma religião sem esperança.
”…por uma preguiçosa e embriagadora passagem à arte, isto é, às formas belas da existência, de todo acabadas, intensamente roubadas a poetas e romancistas, e adaptadas a toda espécie de serviços e exigências.”
Mas quanto amor, meus senhores, quanto amor me acontecia padecer nesses meus devaneios… Era um amor fantástico, que jamais convidava efetivamente para algo humano.
— Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.
Berna, 19 junho 1946 - quarta-feira
Fernando,
Sua carta me surpreendeu tanto! Eu tive a impressão de ter caído numa coisa assim: de jogar verde para colher maduro ou de ir buscar lã e sair tosquiada, ou dois e dois são quatro -eu escrevi para vocês no Rio, na sua casa, e você me respondeu de Nova York. Eu sabia que vocês estavam lá por alguém que veio dos EEUU e passou por Paris -estive uns 15 dias em Paris- mas pensei que era a passeio. Não cesso de imaginar vocês em New York e não sei como. Como é que Heleninha fala no meio da cidade? E você trabalha de noite num arranha-céu? e os arquivos? Só agora é que vejo que vocês no Rio eram uma das garantias que eu procurava. Por que é que todo mundo quer sair do Brasil? E você é espírita, é, Fernando? Então como é que você me pergunta o que eu faço às três horas da tarde? Ou já falamos sobre isso? às três horas da tarde sou a mulher mais exigente do mundo. Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate. Quando passa, vêm seis da tarde, também indescritíveis, em que eu fico cega. Se o telefone toca eu dou um pulo e se me "convidam" eu pareço criança ou cachorrinho, saio correndo e enquanto corro digo: estou perdendo minha tarde.
Mas eu tenho ido de tarde à biblioteca pública. E, por estranho que pareça, estou estudando cálculo das probabilidades. Não só porque o abstrato cada vez mais me interessa, como porque eu posso renovar minha incompreensão e concretizar minhas dificuldades gerais. Estivemos em Paris andando desde manhã até de noite. Aquela cidade é doida, é maravilhosa. Não consegui absorvê-la, ter uma idéia só. De volta fomos diretamente para um apartamento novo, ainda novo, tudo encaixotado, estranho, desarrumado. Encontrei cartas de casa e vários recortes de jornal, artigo de Reinaldo Moura, nota de Lazinha Luiz Carlos de Caldas Brito..., várias notinhas, referências a você e a mim em Sérgio Milliet, e em vários. E nota de Álvaro Lins dizendo que meus dois romances são mutilados e incompletos, que Virginia parece com Joana, que os personagens não têm realidade, que muita gente toma a nebulosidade de Claricinha como sendo a própria realidade essencial do romance, que eu brilho sempre, brilho até demais, excessiva exuberância... Com o cansaço de Paris, no meio dos caixotes, femininamente e gripada chorei de desânimo e cansaço. Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho. Um desânimo profundo. Pensei que só não deixava de escrever porque trabalhar é a minha verdadeira moralidade.
Afinal arranjei emprestada uma empregada que em um dia deu ordem na desordem -ela era uma verdadeira mulher. Uma grande mulher, sem dúvida, chamada Rosa, italiana, que Deus a abençoe.
"Chorei de desânimo e cansaço; só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente; tudo o que Álvaro Lins diz é verdade"
Hoje passei o dia lendo; às três horas li de novo sua carta e o bilhete de Helena. Diga a Helena que na primeira vez em que nos encontrarmos ela ganha de mim uma caixinha de música. No mesmo dia em que recebi sua carta, recebi uma do Paulo. Carta pequena, cautelosa, quase silenciosa.
Fernando, procure em Nova York, no Consulado, Araújo Castro. Ele é ótimo. Vai lhe parecer calado e fechado, de início. Ele é muito, muito inteligente, bom, e de boa espécie.
São nove horas da noite, mas parece seis da tarde. E eu brilho, brilho sempre -isso deve ser brilho. Na verdade deve ser apenas adaptação ao novo apartamento. Não se pode deixar uma janela aberta, voa tudo; é um lugar onde ainda estão construindo, sem muitas casas. A rua chama-se Ostring e eu sou a pérola de Ostring, não vê? Vocês pretendem mandar buscar Eliana? como vão fazer? Quanto tempo na realidade vão ficar nos EEUU? Paulo diz que vocês vão ficar seis meses apenas... Desejo muita felicidade a vocês. Sejam muito felizes: estou com vontade de dar conselhos grandiosos, dizendo: custa um pouco adaptar-se a um lugar novo etc. Fernando, você tem trabalhado? e Helena, o que é que faz? Acabei de passar uma semana das piores em relação ao trabalho. Nada presta, não sei por onde começar, não sei que atitude tomo, não sei de nada. Digo a mim mesma: não adianta desesperar, desesperar é mais fácil ainda que trabalhar. Me mande um conselho, Fernando, e uma palavra bem amiga. Desculpe esta carta tola. Respondam depressa e eu mandarei uma muito boa, muito calma. -Quem tinha me falado de "Sagarana" era o Escorel (1), elogiando. Não sei mais nada. E as notícias que recebo do Brasil são as piores. Até pão falta. Vocês devem estar experimentando agora a tristeza de estar num país onde mesmo lentamente tudo tende a melhorar e receber notícias constantes desse jeito. Dá vontade de ser um grande homem e fazer alguma coisa. Certamente teremos alguma revolução. Até o ar lá está precisando disso.
Fernando, Helena, um abraço grande. Me escrevam, agora que vocês sabem quanto pode valer uma carta e sobretudo certas cartas.
Dei um ar de tristeza? não, dei um ar de alegria (2).
Clarice
1. Lauro Escorel, escritor e diplomata, amigo nosso.
2. Tive o cuidado de conferir esta frase manuscrita na carta original, para confirmar a vírgula depois do "não" -cuja inexistência inverteria por completo o seu sentido. Vai como pequeno exemplo dos equívocos até mesmo tipográficos a que os escritores se expõem. (fonte Folha de São Paulo)
In revenge and in love woman is more barbarous than man.
"You were destined for me. Perhaps as a punishment."
Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski - ☆