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#4
#1: 02:42 - Presente.
Era a segunda pílula que engolia dentro de duas horas. Isso era agora o menor dos seus problemas.
Podia sentir o cheiro da chuva que começara a cair cinco minutos atrás. Voltado para a janela, sentia uma presença atrás de si, na outra metade da cama. Ignorava-a. Tudo que não precisava agora era de mais um motivo para espantar o sono, e, de certa forma, já estava acostumado com os arrepios na espinha ou com as frequentes puxadas de coberta, ambos causados pela presença ao seu lado. Já abandonara vários medos para dar prioridade a outras coisas. Mas de nada adiantou.
Meia hora. Puxou o celular. Gastara boa parte do seu dia encarando-o, vivendo outras vidas. Agora era hora de viver mais uma. Uma em que conseguisse dormir.
Uma hora.
Conseguia vê-la, pela segunda vez hoje. Seus cabelos castanhos caiam, sedosos, sobre os ombros. Acompanhava o movimento da sua boca, hipnotizante, de forma a ignorar o som que saía dela. Sua roupa dessa vez era colorida: a blusa verde lhe passava tudo que possivelmente podia estar dizendo, que realmente não lhe importava. Importava-lhe os seios...
Dormiu.
Levantou para encontrar um dia cinza que chorava através da janela. Implorava para não vivê-lo. Poderia facilmente fazê-lo. A ponte sobre águas perturbadas já havia caído e a dor o cercava.
Encontrou café pronto na garrafa e pão fresco na mesa posta. Mais um dia normal. O medo aumentava cada dia mais ou a excitação que um novo dia lhe trazia acabara por completo. Devem ser as pílulas.
Na sua mesa, sonhou que todos ao seu redor estavam mortos e que todos os monitores mostravam a blusa verde no chão: os seios a mostra, os seios que nunca vira. E agora as calças caíam...
O molho tinha quatro chaves. Custou-lhe duas tentativas para abrir a porta. A falha é apenas parte do dia a dia.
Hoje a blusa era preta. Encarava novamente os lábios, subindo e descendo, sem som. Os cabelos estavam presos para trás. Aquela era sua realidade agora, apenas ela existia na sua frente, a sala sumira, tudo sumira. Havia ela e sua mão, que agora desabotoava sua calça...
Primeira pílula do dia. Na cama não sentiu ninguém hoje. Talvez estivesse relaxado, afinal, o próximo dia acabara de se revelar um sábado. Lembrou que ela não vinha nos sábados.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Presente.
Os dias são vazios quando é necessário deixar a casa, mas enlouquecedores quando tem de ficar nela. Levantara e já era noite. Ou ainda era noite.
18:43. Já era noite.
Se arranhara durante o sono. A realidade parecia falsa e realmente desejava que fosse. Desejou por um segundo sair dali, nem que fosse apenas para uma caminhada. Até a calçada. Até o outro lado da rua. Fugiria da demência antes que se deparasse com ela no fim do corredor, na frente da porta do banheiro.
Foi até o guarda-roupas. Vestiu-se com o que encontrou. Uma calça e uma camiseta. Também pegou um casaco marrom, sentia muito frio.
Andou lentamente até a sala, pensando novamente se realmente queria fazer aquilo, pois nesse caso tinha escolha. Entrou no corredor de olhos fechados e dobrou na sala. Sentou no sofá. Abriu os olhos.
Uma câmera o fitava. Na estante atrás dela, o relógio marcava 03:34. No chão havia uma blusa preta.
Levantou e devagar voltou para o quarto. Tirou a camiseta no corredor, iria guardá-la, iria dormir.
Abriu a porta errada do guarda-roupa, revelando várias blusas, variadas cores. Jogou sua camiseta ali mesmo. De um cabide caiu uma blusa verde.
Ela não viria hoje. Mas ela estava ali.
Deitou ao seu lado e desabotoou sua calça.
#3
#2: 16/03/2016 - 02:06
Um sonho apenas materializa-se no nosso plano se sonhado por muitos. Meu sonho é um sonho solitário; talvez.
Acredito que muitos sonham meu sonho, ou ao menos pensam nele. Talvez seja apenas um desejo no fundo delas. Um desejo dos mais coadjuvantes.
Mas nas suas mentes não tomam a forma de alguém, ou forma alguma. Apenas som, não muita imagem. Talvez algumas cores, algumas sensações. Aí que minha mente se difere das outras. O meu sonho tem como protagonista meu eu e minhas angustias. O deles também, mas eles ainda virão a saber disso.
Mas passo despercebido. Sento-me nas sombras crepusculares todos os dias e espero que o sol ande para trás, a fim de me iluminar, me aquecer. Eu sei que eu devo me mover, mas, francamente, é muito mais confortável deitar-se na calçada.
Pena que a exaustão vem antes que tudo.
As fotos tiradas agora são minha esperança do futuro. Marcos históricos, capas de álbuns, memórias compartilhadas, vistas por pessoas que desejam a vida ali superficialmente exposta, que se encontram em uma posição muito parecida com a minha posição atual. Não fazem ideia do drama, da confusão, do arrependimento (talvez). Se soubessem desviariam o olhar no mesmo instante.
A lente me mostra num plano aberto. Preciso de um plano mais fechado. Aliás, não faço ideia do que falo, às vezes. De alguma forma já quero colocar um pé na estrada em que quero andar, enquanto converso com outros, de braços cruzados, sorrindo, concordando, chacoalhando a cabeça positivamente e se afastando lentamente, esperando a deixa para o adeus. Enfim, as lentes ainda não chegaram, andam por aí. Várias correspondências chegam e algumas são até perdidas. Espero um foco melhor no que eu quero, da forma que quero. Ainda não obtive o resultado desejado. A imagem mostra muita coisa. Apesar de somente eu enxergá-las, querem desfocá-las, tirarem de vista. E eu também quero, mas todos se encontram sentados atrás de mim. Não entendem, esperam que eu resolva tudo.
Me encontro num terreno instável, isso é claro, para qualquer um, acredito, seja passando na calçada, ignorando o arauto de tão idiotas palavras ou conversando com o mesmo, levantando questões cujas respostas não levaram ninguém a lugar algum. Mas sempre estou enganado com o que os outros estão pensando. Imagino o cenário na minha mente, mas será que todos são assim imprevisíveis ou eu estive lendo essas pessoas errado todo esse tempo? Eu não faço ideia. Apenas sei que a imprevisibilidade de todos me faz estranho. Eu ajo de um jeito que sei que não quero e não sei o que espero com isso. Na verdade sei, mas sou covarde o suficiente para não falar para ninguém.
Nem tudo depende de mim, certo? Quase nada na verdade. Alguém me diz algo, digamos, mas eu nunca saberei se ela estava realmente me falando a verdade ou apenas sonhando, como eu, comigo. Não pedirei uma confirmação, de forma alguma, não obstante, eu preciso que me fale. Leia-me, adivinha-me. O futuro junto é complicado. Fala, agora. Tenho que tomar o meu rumo e se não for com você, sim, você, amiga, não parceira romântica alguma (falo isso pois pensa que minha vida é interessante a tal ponto), fale agora, ou terei que partir sozinho. Colocou ideias na minha cabeça e, ao menos parece, foge delas mais que eu. Ou fala como se apenas eu desejasse-as. Age tanto quanto e da mesma forma que eu, de fato.
Ou seja,
deita na sombra do crepúsculo esperando pela luz.
Porém, vamos fazer o favor de lembrar-nos que, após a noite, o dia nasce novamente.
#2
#1: 11/03/2016 - 02:29
Eu me encontro realmente perdido. É uma época que eu já aguardava, honestamente, mas nunca imaginei que seria tão cruel.
Minhas expectativas são altas, incrivelmente altas, infinitamente altas. Aliás, não vejo como esconde-las de todos e não me fazer claro as tornarão reais, mas isso ainda é algo que manterei, não acredito que estejam preparados para o que pretendo para mim. Seja lá o que for.
Acabo de colocar meu óculos, minha demonstração física do que eu fui esses anos, da imagem que nutri e símbolo de tudo que esperavam de mim. Guardei nele talvez muitas de minhas frustrações e esperanças, nele e em quase tudo no quarto ao meu redor.
Me encontro num cerco, num hostil cerco. O quarto (ou as torres de cerco) me ataca com objetos e memórias, pensamentos, sonhos que me afogam o dia todo, até quando fujo dele. E ainda aumento o número deles, dos prazeres momentâneos, que mais tarde, depois de infiltrados na minha mente se viram contra mim. Minhas muralhas ainda aguentam, mas até quando? Certamente não me encontro num estado como no final do ano dois mil e quatorze. Me encontro melhor, acredito (quero acreditar).
Sinto-me incapaz de absorver novas memórias, novos pensamentos. Tenho de repetir tudo dezenas de vezes. Logo após admitir qualquer informação, instantaneamente repito-a, num coro, entre ações no plano real, para garantir que ela fique. Todo mundo odeia persistência, todo mundo cede a ela, mas esses são os que vão embora mais cedo da festa. É como se eu precisasse realmente adquirir tudo isso. E agora eu acredito firmemente que preciso. No futuro não pensarei assim, certamente, mas o futuro não existe, nós só conhecemos o presente e ele é tudo que há. Nunca vi ninguém viver no futuro. Nunca vi alguém voltar do futuro. Então, até que me provem o contrário, não acredito nesse personagem que insiste tanto em ter um papel importante no meu roteiro.
O engraçado é que, apesar de saber que tudo que tenho é o presente, a única forma de provar a existência do futuro (ou ao menos de algum dos múltiplos futuros que me infernizam diariamente) é externar tudo que eu quero. Falar com alguém, o que eu desejo, o que eu penso. Mas não confio nos outros. Sinto que cada pessoa que saiba das minhas intenções, é mais uma tesoura tentando cortar a linha tão perfeitamente esticada em que venho andando, para que eu caia eternamente no abraço materno que insiste em não me largar, de modo algum. Não que queira que me largue completamente, agora; um dia terá de fazê-lo, mas, no momento, aperta forte demais. Afrouxa esse abraço. Afrouxa pelo menos o suficiente para que eu consiga alcançar o copo d’água sobre a mesa, copo que eu tanto desejo e que agora já olho por tanto tempo. Tenho sentido muita sede nos últimos meses. A água está diante de nós. Prometo tomar goles moderados, dentro do que posso. Mas ao menos me deixe tomar um gole, apenas um misero gole. Sinto tanta sede agora. Por favor.
Eu te idealizo, você me realiza.
#1
É como a chuva que vem sem avisar
e a neutralidade neutra da escuridão que, sem medo, invade (o dia)
Aquilo que alguma vez já foi claro como luz
cheio de expectativa - esperança,
e idealização,
se torna medo, frustração
E cinza.
Mas então a luz volta, restabelece
e tudo que me resta são memórias
Memórias neutras
Percebo, finalmente
que cinza me agrada. Como nenhuma outra cor.
Me traz tudo, ela
Todas as expectativas, idealizações
(por quais um dia já foi responsável)
que me nutrem, até a próxima chuva
Que por mais curta que seja, que a anterior tenha sido
é suficiente
para me manter vivo
idealizado
idealizando
para me manter
cinza.