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Estou em Alcochete. É Domingo. Talvez seja Segunda-feira, depende do ponto de vista. Hoje (ou ontem) terminou a experiência Dorian Gray, pelo menos por agora.
Estou meio tenso, não sei se terá que ver com isto, com o fim do espectáculo , mas pelo menos coincide. Foi uma experiência muito gratificante, tenho sorte. Por vezes tenho sorte. Finalmente tenho sorte, finalmente sei reconhecer a sorte. Este ano tem sido bom. Os meses passam, a vida não pára e não me queixo. Tem sido quase fácil. É claro que acontecem coisas chatas, sempre as há. Acontecem, mas não me transtornam. Fazem parte e eu aceito-as. É possível que seja maturidade ou coisa que o valha. As coisas não mudam, Nós sim. Mas mudamos apenas porque de repente torna-se possível aos nossos olhos que essa mudança seja possível. Ficamos mais calmos e vemos tudo sob outro ângulo. E tudo sob outro ângulo fica melhor e Nós melhor ficamos com as coisas e é tudo indissociável e tudo está profundamente ligado.
[Acabo de perceber que é errado colocarmo-nos fora da vida. Nós somos parte integrante. Aliás, Nós somos toda a vida existente.]
Mais uma epifania tipicamente adolescente que me faz novamente questionar a minha maturidade. LOL. Resumindo, estou bem. O que é de estranhar. Nem que seja por aqui estar. Estou no quarto do Piqueno. Não por escolha própria, o meu foi engolido pela vida de quem ainda aqui vive. Aconteceu o mesmo com o do grande há uns anos e é assim. Vestígios da minha existência permanecem e co-habitam com "novos" objectos que lhes são estranho e é assim. Parece um dégradé. Um transição lenta é sempre meso dolorosa que uma mudança brusca.
Amanhã irei à praia. Beijinhos.
LAUREN KALMAN, jewelry research
Takeshi Ishikawa
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Mervyn Fitzhenry
Estava tudo bem e agora também está.
Estava a trabalhar numa peça nova de cerâmica, estava tudo bem. Vim fazer uma pesquisa acerca de uma palavra, fiquei mais alguns minutos para ler uns poemas de Maria Teresa Horta. Li três ou quatro, estava tudo bem e de repente fiquei invadido por uma enorme aflição. Um sufoco, fiquei com a sensação que estava num monte longe de Lisboa, aliás numa planície, de madrugada, durante o inverno. Estava uma luz quase anil, suja e inquietante. Estava frio e eu vestia um casaco de lã, daqueles que ficam pendurados perto da porta nas casas de campo e que se vestem apenas para ir até ao jardim. Nunca se sai para além do jardim com aqueles casacos.
Estava tudo bem, está sol lá fora, estava a trabalhar em serenidade e agora tenho vontade de chorar. Tenho vontade de ter vontade de chorar. É incrível como a chuva pode fazer tanta falta por vezes. Penso que neste momento preferia uma tempestade horrível a este dia encalorado. Preferia sentir a força da vida lá fora a querer entrar-me pela janela, sentir-me pequeno e frágil, sentir-me vulnerável. Ter-te aqui e sentir-me responsável por ti para poder fingir-me de grande, de forte.
Foda-se, neste momento estou capaz de te detestar para o resto da vida. Fizeste-me quase sempre mal e eu desculpei-te sempre. Se te desculpei sempre sem nunca me pedires perdão foi porque, talvez por engano, me fizeste sentir as coisas mais verdadeiras e melhores que há por aí. Fogo, somos uma merda. Não sei se seremos todos, mas nós, nós somos. Não consegui escolher se te insultava a ti por seres um estupor ou se me insultava a mim por gostar tanto de ti. Então disse nós, e tu que nunca me deixaste dizer nós e no entanto dizias. E dizias coisas ainda pior. Dizias que estavas apaixonado, eu nunca disse tal coisa. Talvez por engano ou por verbalizar pouco o que realmente importa, mas sempre o pensei. E pensava que merda! quando tu o dizias. Que merda! por saber que era por engano. Não que fosse mentira, mas por engano. No fundo não me importava saber porque o dizias, apreciava muito ouvi-lo e isso bastava-me. Abraçava-te com mais força como quem diz eu também e ficávamos à espera que o dia se chegasse à frente para interromper a simplicidade destes momentos nos quais existia tanta beleza.
Hussein Chalayan A/W 13
just a reminder that this happened
fucking beautiful