the day i saw your white mustang (you're why i'm staying) ; eden
@evieblishen
Seu corpo ainda se acostumava no banco do novo carro, era um textura diferente do antigo e diferente do carro de seus pais. O carro tinha aquele perfume característico de automóvel novo, assim como o display do rádio ainda tinha aquela película de proteção. Tudo ali era novo, menos o caminho que o carro fez até a residência dos Blishen. Estava estacionado na calçada, com o celular em mãos encarando a tela após enviar uma mensagem para Evie, perguntando se ela estava em casa e se poderia encontra-lo do lado de fora. Sentia seu coração bater com força contra o peito, ansioso pela resposta que poderia muito bem não vir.
Evie estava deitada em sua cama quando recebeu a mensagem de Hayden, ainda era estranho não ter o número dele bloqueado. Olhou confusa para a mensagem na tela de seu celular e quando a segunda chegou ela levantou rapidamente e caminhou até a janela para ter certeza de que tinha entendido certo. Hayden estava na frente de sua casa. Ele era maluco, só podia ser maluco, pensou. De prontidão respondeu que não ia descer, claro que não. Ia fazer o que lá? Não era como se quisesse bater papo com ele, mesmo que tivesse algumas perguntas sobre o carro em que ele estava apoiado. E se seu pai visse ele lá? Kobe o mataria, tinha certeza. Pior, como explicaria para sua mãe?
“O que você tá fazendo aqui?” Perguntou assim que saiu pela porta de sua casa, olhando rapidamente para ter certeza de que seus irmãos não estavam espiando pela janela.
Poderia ter contado os segundos enquanto esperava a resposta de Evie, sentindo seu coração a se apertar em um imenso anseio. Talvez tivesse sido realmente idiotice ter ido até a casa de Evelyn, sabendo bem o que poderia acontecer caso os pais da Blishen o vissem ali. No entanto, quando a viu saindo pela porta qualquer preocupação se reduziu a pó e um sorriso tomou conta de todo o seu rosto. "Eu vim te ver." Cruzou os braços em frente ao peito, achando um pouco de graça em como a outra olhou para a janela certificando-se de que ninguém os via ali. "Na primeira vez que eu comprei um carro, você foi a primeira pessoa pra quem eu o mostrei." Sentia o coração acelerar um pouco, sendo impossível que algo morno não se fizesse presente em seu peito. "Queria que isso acontecesse de novo."
Evie ainda não sabia lidar muito bem com aquela versão tão sincera de Hayden, o que dizia todas aquelas palavras que provocavam redemoinhos em seu estômago. Ela o encarou por tempo demais, mudou seu olhar para o carro e voltou a olhar para ele. Não era possível. “Então você comprou um carro novo?” Tentou agir com normalidade, mas sempre ficava inquieta quando o via. Deu alguns passos para olhar o carro mais de perto, a conversa que tiveram sobre a paixão de Hayden por carros voltando à tona em sua mente. Era engraçado, quanto mais olhava para o carro mais tinha a sensação que já tinha o visto antes.
“Comprei,” Olhou por cima do ombro, antes de se recostar sobre o carro branco estacionado atrás de si. Olhava Evie com curiosidade enquanto ela se aproximava devagar, analisando sua nova aquisição. “Você gostou?” Torcia para que a resposta fosse positiva. Havia amado o novo carro e sentia como se fosse um marco de uma nova fase da sua vida, e de alguma forma, era importante para ele que Evelyn ao menos gostasse. “Você sabe que seus irmãos estão na janela, certo?”
“Acho que carro branco suja muito.” Não sabia dizer se tinha gostado, ainda se sentia esquisita pela presença dele, pelo que ele tinha dito, até por estar o respondendo. “Quê?!” Virou-se rapidamente mais uma vez e dessa vez conseguiu ver três cabeças tentando se esconder. “Eu vou matar eles.” Murmurou, sabendo muito bem que não conseguiria escapar do interrogatório assim que voltasse para casa. “Você por acaso saiu da loja e veio direto aqui? Ainda tá cheio de plástico.”
"Um pouco. Mas não vou deixar que fique sujo." Disse com uma confiança antiga, que aos poucos voltava para si. Era zeloso com seus carros, sempre havia sido. No fundo, sabia que Evie também sabia disso. "Quer sair daqui? Pensei em dar uma volta com o carro, a gente poderia comer alguma coisa." Arriscou com as segundas intenções expostas de forma sutil em sua sugestão. "Ahn, quase isso." Não sabia como explicar onde estava antes de ir até a casa de Blishen sem que isso revelasse o fato de estar frequentando as reuniões do AA. Mas acima de qualquer coisa, não queria mentir para Evelyn.
Se Evie queria sair dali? Com certeza, não queria que seus pais tivessem a chance de ver seu ex na frente da casa deles. Mas se queria entrar no carro de Hayden e ir para qualquer lugar com ele? Provavelmente não. Era familiar demais e por isso demorou um pouco para responder. Ainda estava se acostumando em conversar novamente com ele, mas não confiava muito em si mesma com a perspectiva de ficarem qualquer tempo sozinhos. “A gente pode sair daqui.” Olhou mais uma vez para sua casa, se convencendo de que aquele era o melhor. “Mas eu não quero comer nada e nem fazer nada em lugar nenhum.” Apontou seu indicador para Hayden e seu semblante era sério. “Quase isso?” Parou antes de chegar à porta do passageiro, uma sensação ruim crescendo na boca de seu estômago.
Achando graça, Hayden riu; sentiu os ombros um pouco mais relaxados e a respiração um pouco mais calma. Era engraçado como Evie se portava como se não tivesse a ideia de que Hayden estava inteiramente à sua mercê. Ela ditaria como as coisas funcionariam entre eles e Hayden não poderia se importar menos por isso. "Sure, Evelyn. Anything or anywhere you want." Tirou as chaves do bolso, oferecendo para que ela dirigisse o carro e assim os levassem para onde ela desejasse. A pergunta lhe atingiu em cheio, deixando seus ombros mais uma vez tensionados. Seus pensamentos estavam um turbilhão e suas mãos suavam um pouco; apesar de pensar que aquele era um segredo que gostaria de manter para si, sabia que se quisesse Evelyn de volta as coisas precisariam ser diferentes e isso significava sacrificar seu segredo. “Eu comecei a participar dos encontros de dependentes químicos. Faz uns dois meses.” Desviou o olhar de Evie pela primeira vez, encarando o final da rua em que estavam. Sentia tanta vergonha naquele momento que mal conseguia olhá-la. Estava indo bem, estava progredindo e há tempos não sentia vontade de beber para aliviar o constante desconforto que vivia sob sua pele. Mas admitir isso para alguém, sobretudo para Evelyn era como abrir a ferida novamente. “Eu entendo se você… Se você não quiser ir mais.” Voltou a olhar para ela, sentindo a garganta secar. “Ninguém sabe.”
“Espera aí,” não deu nem tempo de se irritar com a risada do outro de tamanha surpresa que sentiu. “Você tá me dando o seu carro novo para eu dirigir? Seu carro cheio de plástico? O quão séria foi a batida na sua cabeça no dia do acidente?” Evie o encarou incrédula, sabia como ele podia ser protetor com carros, se lembrava bem da relutância que o loiro sempre tivera quando ela dirigia seu carro antigo e nada daquilo fazia sentido.
Escutou o que Hayden dizia e sentiu seu olhar se suavizar enquanto encarava o rosto dele que mirava longe. Podia ver o desconforto dele, quase podia palpar. Evie entendia, já tinha visto a mesma expressão no rosto de seu pai e reconhecia o quão difícil buscar ajuda era e como admitir isso para alguém era dez vezes mais. Hayden não merecia passar por isso ali onde qualquer pessoa podia vê-lo sendo tão vulnerável, ele merecia um lugar seguro. “Entra no carro.” Falou com cuidado, caminhando até a porta do motorista e sinalizando para que ele fosse ao lado oposto. “Dois meses é um tempo muito bom, Hayden.” Afirmou, a voz ainda mais suave que de costume, o olhar fixo no volante a sua frente. “Você não contou nem para os seus pais?”
"Você disse que não bateria o meu bebê." Entregou a chave para Evelyn. Já havia entregado seu coração a ela tempos atrás, o que era entregar seu novo carro a ela?! "Eu estou confiando em você."
Fechou os olhos devagar, sentindo um súbito alívio ao entender que Evie, a menos naquele momento, não o deixaria. Respirou fundo uma vez ou outra antes de entrar no carro, agora pelo lado do passageiro. Assim como da outra vez, era bonito ver Evelyn no banco do motorista e sentia que poderia ver aquela cena se repetir por muitas outras vezes. Mas diferente da primeira vez, Hayden sentia o coração bater com força dentro de seu peito, sendo tomado um misto de tantos sentimentos que não conseguia nomear nenhum sequer. "É o que dizem," Respondeu com a voz fraca, em uma tentativa de parecer mais leve. "Nem para os meus pais." Se remexeu no banco, buscando uma posição confrotável. "Eu não queria transformar isso em algo complicado e eu sei que por mais que eles tivessem boas intenções, seria algo complicado." Se inclinou para frente, tirando o plástico protetor do painel de som. "Desculpa, eu te contei porque não queria que você pensasse que eu estava fazendo merda em outro lugar. Não queria colocar esse peso em você por ser a única a saber."
Evie olhou para a porta de sua casa mais uma vez antes de dar partida e começar a dirigir o carro. Não sabia o que diria aos seus irmãos quando inevitavelmente eles perguntassem sobre o que estava acontecendo e principalmente não diria como aquilo não importava, não agora que sabia um pouco mais sobre o que Hayden estava fazendo. “E é verdade mesmo.” Sua voz ainda era suave, esperava alcançar o desconforto do loiro e ser capaz de o tranquilizar. “Você acha mesmo? Tem tempo que não converso com seus pais, mas não consigo imaginar que eles tornariam isso mais difícil, acho que só te apoiariam e ficariam felizes por você.” A decisão era dele, claro, mas Evie sabia que algumas dores podiam ser curadas mais rapidamente com o amor paterno. Olhou de relance para Hayden, suas palavras pegando Evie de surpresa. Nunca imaginou que ele se preocuparia dessa forma, que teria a sensibilidade de reconhecer o peso que colocava sobre os ombros dela. “Eu acho que vi seu carro hoje. Saí com meu pai mais cedo para comprar uma corda nova pro meu violão e fica perto de onde ele costumava ir nas reuniões do AA.” Decidiu continuar como se eles dois fossem apenas amigos (coisa que nunca foram) conversando sobre o que os afligiam (coisa que nunca fizeram).
Tudo no relacionamento com Evelyn nascia da incerteza; como se nunca soubessem, ou sequer pudessem prever, o que aconteceria em seguida. Apesar de tudo ter acabado antes mesmo de começar, Hayden ainda sentia que esse padrão se repetia entre eles. Nunca imaginaria que estaria conversando sobre sua reabilitação com Evelyn. Não imaginava conversar sobre o assunto com ninguém, mas principalmente com a mulher ao seu lado, por temer mostrar a ela um lado seu não tão bonito — e sabia que ela concordaria com isso. “Eu só não queria que isso gerasse suposições. Ou que ficassem com dó de mim, ou conversando comigo sobre isso.” Passou a mão sobre os fios curtos da cabeça, sentindo-os espetarem a palma da mão. “Eu sei que eles fariam o possível pra me ajudar, mas eu só… só queria guardar isso pra mim. Lidar com isso sozinho.” Respirou fundo, arriscando olhar para Evelyn ao volante. Inclinou-se para perto dela, apertando o botão no painel para calibrar os retrovisores do carro de acordo com ela, voltando para o próprio banco logo em seguida. “Então você reconheceu o carro quando parei na sua porta?”
“Hayden,” respirou fundo, pensando como podia articular suas próximas palavras sem parecer que estava atacando o loiro. “Você não acha que lidar com as coisas sozinho foi exatamente o que te colocou nessa situação?“ Evie entendia não querer ser julgado, entendia a parte da pena também, mas sabia que Hayden precisava aprender a se expressar melhor. “Quando foi que você conversou com alguém? Contou o que você sentia? Ou admitiu que tudo estava um pouco demais? Para mim, nunca.” Ok, talvez não precisasse ter dito essa última parte. “O que eu quero dizer é que conversar sobre talvez faça parte da sua cura, sei lá.” Deu de ombros, não era a terapeuta dele e não queria agir como tal. “Não, né, mas não é um carro muito comum, só fiquei com a impressão que já tinha visto ele antes.” Era impressionante como um pedaço dele parecia estar em todos os lugares que olhava.
Hayden e Evie tiveram alguns desentendimentos ao longo do tempo em que estavam juntos. Porém, apesar de tudo, Hayden nunca os classificava como conversas difíceis, e talvez esse tivesse sido o grande problema. Agora, sentia que tinha uma conversa difícil com Evie pela primeira vez. Ele, que amava olhar para Evie até deixá-la desconcertada, agora apenas encarava a rua à sua frente, com o sol se pondo em um cenário bonito. “Possivelmente,” arfou sem humor em uma risada anasalada. “Eu tenho feito terapia.” Não tinha certeza se já havia contado isso para ela durante o episódio catártico do elevador; tinha a impressão de que sua memória nunca mais seria a mesma depois daquela fatídica noite. “E eu, sei lá, não queria que pensassem algo de mim por causa disso. Acho que é uma das situações de merda que são só consequências de tudo.” Passou a mão pelos cabelos em um gesto nervoso. “I’ll try. But you know, you’re my first,” brincou com o duplo sentido das palavras, tentando tirar o peso que parecia esmagar seu peito contra o banco de couro. “E o que você está achando dele por dentro? Bom de dirigir?”













