all these things I should have said —— a letter never sent to william branwell
Eu honestamente não sei se deveria começar essa carta desta forma, chamando-o de “meu querido” ou qualquer coisa que se assemelhe a isso, mas eu também não me imagino a levando até minha coruja e a enviando para você, então a parte da saudação é o que menos importa, para falar a verdade. É claro que, se chegasse a enviá-la, a forma como o chamei certamente causaria alguma dúvida, mas acho que vou me preocupar com isso mais tarde, quando decidir o destino desse pequeno pedaço de pergaminho rabiscado.
A verdade, Will, aquela verdade que nos corrói por dentro, é que existe essa necessidade em mim de tê-lo por perto, de tê-lo de alguma forma, nem que seja por meio dos meus escritos bobos, nem que seja por meio de histórias que eu possa ou não ter criado. E quando temos essa estranha e inegável necessidade por alguém, nada é capaz de mudar como nos sentimos em relação a essa pessoa. Não vou mentir e dizer que não tentei destruir cada pequena parte da afeição que, sem o meu controle, nutro por você. Tentei quebrá-la, queimá-la, rasgá-la. Inúmeras foram as formas em que tentei me livrar da sua sombra que paira sobre mim, mas após várias tentativas e iguais fracassos, eu apenas me conformei com o fato de que você está tão enraizado em minha mente e meu coração que não poderia afastá-lo sem machucar a mim mesma no processo. E não posso me machucar mais do que já estou, não posso me machucar no momento em que comecei a me curar, aos poucos, lentamente, mas de uma forma que está produzindo efeitos.
Desde aquele dia em que estivemos juntos no campo de Quadribol, há uma parte de minha mente que parece não querer descansar, e acho que é por esse motivo que resolvi lhe escrever agora, quando Sophie já está dormindo na cama ao lado, quando o silêncio da noite nos cobre de forma tão tranquila, quase como se pudesse evitar que qualquer mal nos atinja.
Por favor, peço que não pense que não ouvi uma só palavra do que me disse, sobre precisarmos nos mantermos afastados e todo o restante que vem me incomodando desde que as proferiu. Eu ouvi, e tem que admitir que meu esforço está superando expectativas. Sempre tive essa curiosidade imensa a seu respeito, sabe bem disso, tanto que igualmente sempre reprimiu qualquer investida de minha parte, e esse sentimento não diminuiu de forma alguma. Pelo contrário, cada palavra que lança em minha direção se instala em minha mente, e parece repetir uma, duas, três vezes até que sinto como se fosse enlouquecer se não falar com você novamente. Mas tenho me controlado, tenho engolido meus discursos, tenho me mantido quieta, apesar de ser uma das coisas mais difíceis que possa fazer em minha vida.
É só que, tendo em vista nossos últimos encontros e a última conversa que tivemos (talvez a primeira conversa honesta e pacífica desde que nos conhecemos), não podemos negar que algo diferente está acontecendo. Ou, sendo mais específica, algo diferente está acontecendo com você. E com nós. Eu ainda não sei bem o que é, mas havia esse brilho em seu olhar, a sua forma de conversar comigo que sugeria que talvez, só talvez, houvesse uma forma para que você não precisasse se esconder tanto. Não quero que se esconda de ninguém, não quero que se esconda de você mesmo, e principalmente, não quero que se esconda de mim.
Sei que não estou em posição de lhe exigir nada, afinal, o que nós somos um para o outro? Mas me importo com você, me importo tanto que me incomoda vê-lo tão distante, tão fechado, tão machucado. Cada pequeno pedaço de mim grita para ajudá-lo e ás vezes tudo o que desejo fazer é abraçá-lo e retirar a sua dor, porque eu sei que está doendo, eu sei que não é fácil carregar o peso do que quer que você carregue sozinho, e quero que saiba que, em qualquer momento que precisar, não importa qual, pode confiar comigo, que eu lhe ajudarei. Lhe ajudarei com qualquer coisa que tanto lhe aflige, com problemas na sua família, com problemas da escola, com problemas do seu interior. E não ouse dizer que não merece, ou que não precisa, porque ninguém sobrevive completamente isolado, e todos merecemos afeto, todos merecemos compreensão, e amor, principalmente. Você merece tudo isso, Will, mesmo que não admita. Você é bom, e merece coisas boas em sua vida. Talvez ainda não queira, não saiba ou não possa permitir, mas hás pessoas aqui que lhe amam com todo o coração, e se um dia quiser saber como é, eu estou bem aqui.
Lembre-se que nossos corações precisam de um espelho. Enxergamos o melhor de nós mesmos naqueles que nos amam, só precisamos permitir.