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@hidromel-dos-escaldos
“If you desire to make a difference in the world, you must be different from the world.”
— Loki, probably.
"Se você deseja fazer a diferença no mundo, você deve ser diferente do mundo."
Loki, provavelmente.
the moon controlling the tides sounds like something out of a fantasy novel and yet…there she is…doing That…every day…
A Canção de Svipdag
O texto que hoje sobrevive sob o título de A Canção de Svipdag (Svipdagsmol) é composto de dois poemas, O Encantamento de Gróa (Grógaldr) e O Leito de Fjolsvinn (Fjolsvinnmol), ambos preservados em manuscritos datados a partir do século XVII (Stockholm Papp. 15 octavo e Rask 21 a, entre outros). Nele somos informados que a um rapaz, Svipdag, é dada a impossível tarefa de desposar uma iotun chamada Mengloth. Quando em vida, sua mãe Gróa, uma volva (bruxa/vidente), disse-lhe que, depois que ela morresse, quando se encontrasse em apuros ele deveria evocar seu espírito. Eis que surge a situação e ele a chama. Explicado o ocorrido, Gróa, compreendendo a situação, diz-lhe que tal caminho é por demais longo e que o desfecho será o que for escrito pelas Nornas. Determinado a seguir, chegamos ao motivo central da evocação: temendo a morte, Svipdag pede à mãe que ela lance encantamentos sobre ele para que ele possa sair vitorioso da jornada. De pronto ela o faz, lançando sobre ele nove poderosos encantamentos. O primeiro poema termina com uma exortação de Gróa pra que Svipdag mantenha os encantamentos "vivos" dentro dele.
Os dois poemas aqui tratados não foram preservados em conjunto. Como resultado, sua conexão passou despercebida até meados do século XIX (por isso foram preservados separados) e, muito provavelmente, o que acontece com o protagonista na viagem até Iotunheim foi perdido.
Prosseguindo com a narrativa, Svipdag encontra no topo de uma montanha uma fortaleza cercada de chamas, guardada à entrada por um Iotun, com quem ele vai falar. O Iotun se chama Fjolsvinn, nome que é traduzido literalmente como Muito-Sábio, o que é um traço bastante comum para esse grupo de personagens eddaicos. A sabedoria dos iotuns era tão conhecida e respeitada que, em certo episódio, Odin vai se aconselhar com Frigga se ele deveria ir disputar em conhecimento com Vaftrufnir e ela é contra - e é claro que ele vai assim mesmo. É fascinante tanto o fato de que ela é contra a viagem quanto o fato de ele ir assim mesmo, por motivos que explorarei em uma futura postagem a respeito desse poema em específico. Voltando à Canção de Svipdag, aqui os nomes devem atrair a atenção dos leitores, assim como em outras fontes da tradição, por indicarem simbologias e relações cruciais à dinâmica dessas histórias. Começando pelo próprio protagonista, seu nome se traduz como Dia-Ligeiro e Gróa é um verbo, que significa tanto Crescer como Curar. Mengloth se traduz em algo como Feliz-Colar, o que pra alguns comentadores é indício de que a personagem seja na verdade Freya, portadora do famoso colar Brinsing. Discordo dessa leitura pelo simples fato de que Mengloth é uma solteira que vive em Iotunheim, protegida por um Iotun. Para mim, é mais fácil ver Mengloth como uma iotun que possui alguma ligação com outro colar do que conceber Freya, uma vane casada, residente de Asgard, morando em Iotunheim à espera de um noivo. De imediato, Fjolsvinn veementemente enxota Svipdag. Este se mantém decido. O iotun pergunta quem é ele e qual parentesco possui (dando a entender que essas informações são de alguma relevância) ao que Svipdag responde que o nome dele é Frio-Vento (Vindkald), filho de Frio-Primaveril (Varkald) e neto de Muito-Frio (Fjolkald). Sem dar tempo de reação ao interlocutor, ele passa a fazer uma série de perguntas que são prontamente respondidas. Mas como assim? Bastava passar uma identidade falsa pra amansar a urgência do guarda por expulsar o viajante? Duas coisas entram em destaque no entendimento dessa passagem. Primeiro, temos de voltar ao último dos encantamentos de Gróa:
14. "Então pela nona vez cantar-te-ei,
Se precisar tu rivalizar
Com um belicoso iotun em palavras:
Teu coração boa reserva de sagacidade deverá ter,
E tua boca plenitude de palavras sábias."
Segundo, Svipdag fornece nomes relacionados ao frio aparentemente numa tentativa de se passar por um iotun, já que muitos deles são associados ao gelo, à neve e ao inverno. O fato de ele ter tido sucesso nesse embuste nos remete ao encantamento. É importante ressaltar que pra mentalidade pagã antiga e medieval a palavra em si é mágica, o dizer é mágico, o cantar é mágico (o português incorpora um pouco desse significado com "encantamento", cantar algo). O galdr (do título da primeira seção) é simultaneamente música e uma vertente de magia dentro da tradição nórdica. Encontramos essa mesma verbalidade do fazer mágico em tradições do mundo inteiro, e se olharmos para seus vestígios no idioma inglês (parente do alemão, islandês, norueguês, etc.) encontramos spell, que significa 1. soletrar, 2. indicar determinada consequência, 3. entender por análise e 4. feitiço. O que quero assinalar com isso é que Gróa, enquanto volva, era versada em magia e não só lançou encantamentos que protegem e fortalecem os atos de seu filho, como é possível também imaginar que ela transmitiu uma porção de seus conhecimentos a ele. Temos assim então um Svipdag que, confrontando um impasse assombroso, o contorna lançando sobre o olhar do guardião a certeza de que ele é um iotun ao afirmar, verbalizar, que ele assim é.
A seguir temos a série de perguntas e respostas mencionadas anteriormente que fecha a segunda seção e o texto:
1. De quem é aquele salão: ela mesma, Mengloth.
2. Qual o nome do portão: Alto-Ressoar (Thrymgjol), chamado assim porque logo que um intruso tenta entrar ele o prende com uma batida.
3. Qual o nome da fortaleza: Destruidora-de-Buscas (Gastropnir), feita por Fjosvinn na época da fundação da terra.
4. Qual o nome da árvore que se vê dali, cobrindo todo o horizonte com seus galhos: Árvore-de-Mimir (Mimameith), i.e. Yggdrasil.
5. O que cresce dessa árvore: um fruto que se levado ao fogo facilita o parto e fortalece a criança.
6. O nome do galo que brilha como ouro no galho mais alto: Serpente-da-Árvore (Vithofnir), e por algum motivo ele se sente antagonizado por Surt e Sinmora (iotuns de fogo).
7. O nome dos cães que guardam o salão: Voraz (Gif) e Insaciável (Geri).
8. É possível entrar enquanto eles dormem: não, um dorme pelo dia e o outro à noite.
9. Há algum tipo de carne que os distraia: apenas a carne das asas de Vithofnir.
10. Há alguma espada capaz de machucar o sagrado galo: Bastão-que-Fere (Lævatein), feito por Loki na terra dos mortos (Helheim) e encantado com runas. Está guardado por Sinmora.
11. O quê Sinmora aceitaria como barganha pela arma: uma pena do rabo de Vithofnir.
(Ou seja, um ciclo de impossibilidade. Para passar pelos cães ele precisa da carne do galo. Pra matar Vithofnir ele precisa de uma arma que está na posse de Sinmora, e ela só o trocaria por uma pena do galo, o qual só pode ser ferido com a tal arma.)
12. O nome do salão dentro da fortaleza: Conservador-de-Calor (Lyr).
13. Quem o construiu: nove anões e Loki.
14. Qual o nome da montanha: Montanha-da-Cura (Lyfjaberg)
15. Quais os nomes das nove damas de companhia de Mengloth: Ajuda (Hlif), Ajuda-Respiradora (Hlifthra), Guardiã-do-Povo (Thjothvara), Brilhante (Bjort), Branca (Bleik), Alegre (Blith), Pacífica (Frith), Curandeira (Eir) e Doadora-de-Ouro (Aurbotha).
16. Essas damas prestam auxílio a quem necessita e a elas presta oferenda: sim, e se elas vêem a(o) suplicante em perigo, dos males elas a(o) guardam.
17. Mengloth é casada: não, ela é prometida a Svipdag e somente ele pode passar pelo portão e pelos cães.
Pronto. De posse dessa última informação, Svipdag se anuncia, revelando também sua linhagem solar. Como já citado, o nome dele é traduzido como Dia-Ligeiro e ele é filho de Brilhante-como-o-Sol (Solbjart). Ele passa pelo portão que não o prende e pelos cães que o bajulam. Mengloth se declara para ele e ele para ela, concluindo o segundo poema do Svipdagsmol.
Hi, friends!!!
This is a door for my future keybox.
Wgat do you think about it??
Nornas e Destino
"Dali vêm as donzelas
poderosas em sabedoria,
Três da casa
debaixo da Árvore;
Urd uma é chamada,
Verdandi a próxima,--
Na madeira elas talharam,--
E Skuld a terceira.
Leis elas fizeram lá,
E vida distribuíram
Para a prole dos humanos,
E determinaram seus destinos."
Voluspo
"As Três Nornas, Urd, Verdandi e Skuld, sentaram-se ao lado do poço no oco da grande raiz de Yggdrasil. Urd era antiga e de cabelos brancos, e Verdandi era bela, enquando Skuld dificilmente poderia ser vista, pois se sentava distante, e seus cabelos caiam sobre sua face e olhos. Urd, Verdandi, e Skuld; elas conheciam todo o Passado, todo o Presente e todo o Futuro. Odin, olhando-as, olhou nos olhos de Skuld exatamente. Por longo, longo tempo ele ficou olhando as Nornas com o olhos de um deus, enquanto os outros ouviam o murmúrio dos cisnes e a queda das folhas de Yggdrasil no poço de Urd."
Children of Odin, Padraic Colum
As Nornas são figuras na tradição nórdica responsáveis pelo destino de todas as criaturas no cosmos, deuses inclusos. Apesar das trajetórias serem talhadas na Árvore da Vida, Yggdrasil, a imagem clássica de tecelãs orienta uma visualização mais fácil de se realizar. Ao contrário do conceito moderno de tempo, onde este consiste de um caminho único com começo e fim, como um constante presente que se prolonga até se extinguir, a mentalidade no mundo antigo era de um tempo cíclico. O passado é buscado quando se precisa de orientação e o futuro é fixo, ainda que desconhecido. Além disso, cada "nó", cada momento na tecitura dos caminhos é intimamente vinculado a outros nós, presentes, passados e futuros - fios que se entrelaçam, se ligam e compõe uma tecitura maior, mais rica e complexa. Essa constante forma de sentir a realidade é cristalizada no próprio idioma em que esses conceitos foram estabelecidos: a primeira das Nornas que é chamada Urd, literalmente 'aquilo que foi', também vira sinônimo de destino. Ainda que cada indivíduo nasça em um contexto que não é sua obra, ela/ele é livre para agir sobre o mundo e reagir emocionalmente às circunstâncias que encontra. Ainda que seja livre para agir, uma vez que aja, essa ação inevitavelmente gera consequências que interagem com outros nós (trocadilho intencional) na grande malha/rede da Vida, escapando ao seu controle - como uma pedra (ação livre) atirada a um lago gerando ondulações (consequências independentes). Quando se somam as atitudes passadas de alguém, um resultado se apresenta e esse resultado determina/limita a experiência de vida dessa pessoa. Assim, Urd é entendida como responsável por aquilo que foi, e sua obra, apesar de passada, é o destino. Verdandi quase não é mencionada nas fontes históricas. Skuld (aquilo que será) é dita viajar com as valquírias para recolher os escolhidos e decidir batalhas. Das três, Urd é a mais proeminente, dando nome a um dos lugares mais famosos nessa tradição, o Poço de Urd. Localizado em uma das raízes de Yggdrasil, é um reservatório cósmico de sabedoria e conhecimento, guardado pelo iotun Mimir, cujo nome significa refletir e/ou lembrar. Curiosamente, além do ofício de supervisoras/guardiãs dos destinos, as Nornas são responsáveis por usar as águas do Poço de Urd para molhar as raízes da Árvore da Vida, impedindo que estas apodreçam. É dito também que elas visitam cada recém nascido para determinar sua vida.
Agora, olhando mais especificamente o entendimento de destino aqui, vale lembrar de duas passagens literárias, o Gripisspol e o supracitado Voluspo. No primeiro, Sigurd é notificado de seu futuro, incluindo sua vitória sobre Fafnir, o encontro e noivado com uma valquíria, o derradeiro esquecimento deste por meio de uma poção que lhe é dada sem seu conhecimento, e a trama que resulta em sua morte. Ainda assim, o protagonista avança em seu caminho sem evitar o que lhe é predito, consumando-o. No segundo, Odin evoca o espírito de uma volva (bruxa/vidente), e pede que ela lhe conte o futuro dele e do mundo. Ela narra todo o processo, incluindo a morte do Óss nas garras do lobo Fenrir. Ainda assim, ele avança em seu caminho e consuma o predito. Uma leitura desavisada pode inferir de imediato que Odin tenta evitar o Ragnarok e sua morte ao ordenar às valquírias para reunir os melhores combatentes em seu salão, Valhala, e, principalmente, ao encomendar grilhões indestrutíveis para acorrentar Fenrir ainda filhote. Porém, acho que duas questões aqui nos direcionam a um outro panorama. 1 - mais obviamente, viver uma vida plena e encarar a morte com bravura é o objetivo de ouro na mentalidade nórdica. Odin reunir os einherjar em Valhala é um ato de preparação, assim como aprisionar Fenrir é comprar tempo. 2 - Os iotuns são as forças/leis mais primordiais da existência, precedendo o próprio mundo material e os deuses - as Nornas, vindas de iotunheim, são dessa estirpe. Loki (meio iotun) e Angrboda (iotun) são os progenitores de Fenrir, fazendo deste um agente dessas forças primordiais também, uma expressão da entropia. Enquanto filho de uma iotun e destacadamente um dos seres mais sábios e sedentos por conhecimento, Odin sabe que não é imortal. Portanto, ele não tenta evitar sua morte, mas encontrá-la da melhor forma possível, vivendo cada dia buscando testar e superar a si mesmo - dessa forma, quando finalmente der seu último suspiro, não sentirá arrependimentos, culpas ou anseios não cumpridos. O seu tempo chegou, como chega a todas as coisas - e ele viveu o seu melhor.
Árvores Sem Raízes Caem
Venha a primavera,
Venha o amanhecer,
Venham, pais e mães
Das grandes linhagens,
Venham seres dos três mundos.
Venha Odin, pai de todos,
Venha Frigga, minha mãe,
Venham, sábios Vanir,
Venham, antigos Thursas:
Se as sementes germinam,
Cantem a canção
Que uma vez deu vida.
A árvore ainda erguida
Cujo nome é Yggdrasil,
Eternamente entronizada de verde
Sobre o poço de Urd.
Ouçam-me todos,
Prole de Heimdall:
Despertem de seus sonos,
Deem forças para as antigas raízes,
Moldem a mais velha
Das serpentes
Que corroem o solo.
Eu rezo para as três Nornas -
Que você teça a vida.
Eu rezo para as três Nornas -
Que você entrelace a vida.
Eu rezo para as três Nornas -
Que você ligue a vida
Vinculada à raiz.
Aesir, Nornas,
Sábios Vanir,
Donzelas Thursar,
Ansiosas Valkirias,
Elfos, anões,
Deuses, völvas,
Nobres protetores de
Yggdrasil.
Hordas da costa,
Venham a mim,
Venham a nós,
Venham para o grupo!