Na madeira elas talharam,--
Para a prole dos humanos,
E determinaram seus destinos."
"As Três Nornas, Urd, Verdandi e Skuld, sentaram-se ao lado do poço no oco da grande raiz de Yggdrasil. Urd era antiga e de cabelos brancos, e Verdandi era bela, enquando Skuld dificilmente poderia ser vista, pois se sentava distante, e seus cabelos caiam sobre sua face e olhos. Urd, Verdandi, e Skuld; elas conheciam todo o Passado, todo o Presente e todo o Futuro. Odin, olhando-as, olhou nos olhos de Skuld exatamente. Por longo, longo tempo ele ficou olhando as Nornas com o olhos de um deus, enquanto os outros ouviam o murmúrio dos cisnes e a queda das folhas de Yggdrasil no poço de Urd."
Children of Odin, Padraic Colum
As Nornas são figuras na tradição nórdica responsáveis pelo destino de todas as criaturas no cosmos, deuses inclusos. Apesar das trajetórias serem talhadas na Árvore da Vida, Yggdrasil, a imagem clássica de tecelãs orienta uma visualização mais fácil de se realizar. Ao contrário do conceito moderno de tempo, onde este consiste de um caminho único com começo e fim, como um constante presente que se prolonga até se extinguir, a mentalidade no mundo antigo era de um tempo cíclico. O passado é buscado quando se precisa de orientação e o futuro é fixo, ainda que desconhecido. Além disso, cada "nó", cada momento na tecitura dos caminhos é intimamente vinculado a outros nós, presentes, passados e futuros - fios que se entrelaçam, se ligam e compõe uma tecitura maior, mais rica e complexa. Essa constante forma de sentir a realidade é cristalizada no próprio idioma em que esses conceitos foram estabelecidos: a primeira das Nornas que é chamada Urd, literalmente 'aquilo que foi', também vira sinônimo de destino. Ainda que cada indivíduo nasça em um contexto que não é sua obra, ela/ele é livre para agir sobre o mundo e reagir emocionalmente às circunstâncias que encontra. Ainda que seja livre para agir, uma vez que aja, essa ação inevitavelmente gera consequências que interagem com outros nós (trocadilho intencional) na grande malha/rede da Vida, escapando ao seu controle - como uma pedra (ação livre) atirada a um lago gerando ondulações (consequências independentes). Quando se somam as atitudes passadas de alguém, um resultado se apresenta e esse resultado determina/limita a experiência de vida dessa pessoa. Assim, Urd é entendida como responsável por aquilo que foi, e sua obra, apesar de passada, é o destino. Verdandi quase não é mencionada nas fontes históricas. Skuld (aquilo que será) é dita viajar com as valquírias para recolher os escolhidos e decidir batalhas. Das três, Urd é a mais proeminente, dando nome a um dos lugares mais famosos nessa tradição, o Poço de Urd. Localizado em uma das raízes de Yggdrasil, é um reservatório cósmico de sabedoria e conhecimento, guardado pelo iotun Mimir, cujo nome significa refletir e/ou lembrar. Curiosamente, além do ofício de supervisoras/guardiãs dos destinos, as Nornas são responsáveis por usar as águas do Poço de Urd para molhar as raízes da Árvore da Vida, impedindo que estas apodreçam. É dito também que elas visitam cada recém nascido para determinar sua vida.
Agora, olhando mais especificamente o entendimento de destino aqui, vale lembrar de duas passagens literárias, o Gripisspol e o supracitado Voluspo. No primeiro, Sigurd é notificado de seu futuro, incluindo sua vitória sobre Fafnir, o encontro e noivado com uma valquíria, o derradeiro esquecimento deste por meio de uma poção que lhe é dada sem seu conhecimento, e a trama que resulta em sua morte. Ainda assim, o protagonista avança em seu caminho sem evitar o que lhe é predito, consumando-o. No segundo, Odin evoca o espírito de uma volva (bruxa/vidente), e pede que ela lhe conte o futuro dele e do mundo. Ela narra todo o processo, incluindo a morte do Óss nas garras do lobo Fenrir. Ainda assim, ele avança em seu caminho e consuma o predito. Uma leitura desavisada pode inferir de imediato que Odin tenta evitar o Ragnarok e sua morte ao ordenar às valquírias para reunir os melhores combatentes em seu salão, Valhala, e, principalmente, ao encomendar grilhões indestrutíveis para acorrentar Fenrir ainda filhote. Porém, acho que duas questões aqui nos direcionam a um outro panorama. 1 - mais obviamente, viver uma vida plena e encarar a morte com bravura é o objetivo de ouro na mentalidade nórdica. Odin reunir os einherjar em Valhala é um ato de preparação, assim como aprisionar Fenrir é comprar tempo. 2 - Os iotuns são as forças/leis mais primordiais da existência, precedendo o próprio mundo material e os deuses - as Nornas, vindas de iotunheim, são dessa estirpe. Loki (meio iotun) e Angrboda (iotun) são os progenitores de Fenrir, fazendo deste um agente dessas forças primordiais também, uma expressão da entropia. Enquanto filho de uma iotun e destacadamente um dos seres mais sábios e sedentos por conhecimento, Odin sabe que não é imortal. Portanto, ele não tenta evitar sua morte, mas encontrá-la da melhor forma possível, vivendo cada dia buscando testar e superar a si mesmo - dessa forma, quando finalmente der seu último suspiro, não sentirá arrependimentos, culpas ou anseios não cumpridos. O seu tempo chegou, como chega a todas as coisas - e ele viveu o seu melhor.