Caitlyn era uma clara amante de música, muito bem educada nos gostos e na técnica de seu pai. Como as aulas de violino eram uma das poucas vezes que passavam tempo juntos, a garota cresceu com um apego muito grande pelo que os unia, chegando a comprar um tocador de vinil apenas para que pudessem ouvir seus clássicos juntos, no chão de seu quarto — isso é, quando ainda morava com eles. Agora que tinha seu próprio apartamento vazio, era dificil não se sentir sozinha às vezes, o que queria mudar com a ajuda de músicas. Era por isso que se encontrava ali, na Queen’s Music Shop, encarando o mesmo disco há uns bons dez minutos quando sentiu algo atingir sua cabeça. Franziu o cenho antes mesmo de se virar na direção da trajetória da bola, arqueando a sobrancelha ao encontrar a vendedora rindo de sua cara. “Acho que isso te pertence.” Seu tom soou estranhamente bem humorado até mesmo para si, uma risada deixando seus lábios antes de buscar a mão da mais nova para depositar a bolinha ali. “Como gosto de acreditar que não era realmente seu alvo, talvez devesse treinar sua bolinha melhor.” Brincou, como se o objeto realmente possuísse algum tipo de vida, tal qual um cachorrinho. “Ou sua mira. Posso ajudar, se quiser.” Era certa prepotência de sua parte, talvez, assumir que a garota iria querer logo sua ajuda com algo tão banal, como se realmente não tivesse nenhum outro amigo que pudesse lhe ajudar a atirar bolinhas de papel nos outros. O que estava pensando? Sequer deveria aprovar esse tipo de comportamento! Não era possível que seu cérebro havia decidido que aquela era a melhor hora para flertar com alguém que não conhecia. Lutando contra a vontade de fazer uma careta, limitou-se a se afastar do balcão, mordendo o lábio inferior. “Sem ser seu alvo, de preferência. Aprecio não ter baba no meu cabelo.”
Não esperava uma reação tão tranquila e bem humorada quanto aquela, ainda mais quando descobriu quem havia sido alvo de sua bolinha de papel descontrolada. Conhecia Caitlyn de vista, como grande parte das pessoas de Storybrooke, a cidade pequena facilitava esse tipo de conhecimento e Sioux não poderia dizer que gostava desse fato. Mas, por a ‘’conhecer'’, imaginava que toda a situação teria sido lidada com mais seriedade e quem sabe um tanto de irritação do que realmente foi. Estava satisfeita com a quebra de sua expectativa, talvez a mulher a sua frente não fosse tão quadrada quanto aparentava. ‘’Ela tá mais pra uma... bolinha perdida.’’ Substituiu a palavra ‘’bala’’ por bolinha em uma tentativa de explicar que não estava realmente mirando em alguma coisa, no final das contas. ‘’Se você parar pra pensar, minha mira é tão boa que eu acertei alguém mesmo sem tentar.’’ Deu de ombros, um sorriso discreto tomou os lábios femininos e apesar da confiança em suas palavras, um tom brincalhão poderia ser sentido a medida que falava, mexendo a bolinha de um lado para o outro em sua mão. ‘’Ela é uma boa garota.’’ Entrou na brincadeira alheia, falando do objeto inanimado como se fosse um animal de estimação. ‘’Já a minha mira...’’ Começou, lembrando de todas as suas tentativas frustradas em acertar coisas ou pessoas mesmo que não estivessem em movimento. ‘’Dela eu já não tenho tantos elogios, anda sendo meio mal criada... Alguma dica pra fazer ela se comportar?’’ Imaginava que por ser uma das policiais da cidade, a Kiramman fosse uma ótima atiradora, transformando aquele convite banal em uma oportunidade única para Siouxsie melhorar suas habilidades. ‘’Nem ficou babado, vai.’’ A vendedora inclinou o corpo sob o balcão, utilizando um dos braços de apoio para que conseguisse quebrar a distância recém empregada entre elas para levar a destra até as madeixas claras da mulher a sua frente, passando os dedos onde a bolinha havia batido minutos antes, com um toque delicado e lento. ‘’Viu? Nada.’’ Tardou para recolher a mão, transformando o gesto em mais do que pura preocupação em livrar a própria pele, sentindo os fios macios por entre os dedos em um afago. Sabia que aquele contato não solicitado em uma pessoa que não conhecia poderia causar problemas, mas no fim do dia Sioux costumava fazer qualquer coisa que desejasse sem se preocupar muito com as consequências. Isso incluía flertar com a policial certinha da cidade.