Não dá muito pra não reparar na esquisitice do estranho, mas dessa vez Minkyu não deixa transparecer muito, mesmo porque a única coisa que tem pra encarar agora é a parede à frente. Ele não deixa de ser vocal, porém, quando nota demora.
— ‘Cê vai ficar dançando aí? – O tom é semi-irritado, a mesma falta de paciência dos últimos minutos, porque Minkyu só quer sair dali logo e o cara não colabora. Mas assim que sente a firmeza das mãos do platinado serem suficientes, ainda que nem-lá-tão-seguro-assim, Minkyu confia na sorte e impulsiona as pernas; o saltinho, com a ajuda do garoto, o fazem alcançar o vitrô e ele se agarra em qualquer coisa de metal, fazendo esforço para que não despenque dali e para que o mocinho ali embaixo não precise sustentar todo o peso sozinho.
Entre um grunhidinho pela força exercida e outro, o comentário vindo lá de baixo não é muito bem recebido – a vontade é de aproveitar as posições e meter um coice nas fuças do palhaço, enquanto a bunda praticamente usa as mãos do sujeito como banquinho.
— Tá me chamando de gordo? – Ele tenta enxergá-lo por cima dos ombros outra vez, a irritação muito mais palpável na voz. — Eu saio e te deixo trancado aqui – já voltando a encarar o vitrô, com sonzinhos escapando a garganta enquanto tenta subir um pouco mais e ganhar sustentação sozinho, os pés grudam na parede e tentam escalá-la, com certo sucesso, porque o tronco avança.
E aí não tem muito jeito, porque o único lugar que tem pra ir é adiante – Minkyu se enfia, com considerável dificuldade, no meio do vão criado pela janelinha aberta, as mãos nas bordas como ajuda, até que não seja mais necessário o auxílio do outro menino ali. Quando a cabeça e um pedacinho do tronco conseguem passar, Minkyu agradece pela má iluminação do lado de fora e pela falta de gente nos arredores próximos; a primeira coisa que pensa é que, pelo menos, ninguém deve ver o vice-presidente dos alphas escapando por um basculante. A altura também não é muito problema, mas não há condição de maior apoio já que fica inviável passar o corpo inteiro antes de saltar. O jeito é quase executar um mergulho de cabeça na pouca grama que há. Ele respira fundo e avalia sua falta de opções.
— Eu vou pular, peraí – e sem muito esperar qualquer coisa, ele avança com os pés na parede, as mãos do outro lado assim que o tronco consegue se curvar, e sustenta o pouco apoio até que não tem mais jeito; depois que a cintura passa, ele se joga no chão meio-terra-meio-grama com um “ai cacete” baixinho e cai todo torto, quase deitado de bruços. O que dói mais são os antebraços usados para amortecer, o resto até que passa bem. Ele se senta, massageia a área e mas não demora, logo está de pé.
A sua sorte é que Taeha não faz a mínima ideia do que diabos o garoto está tagarelando sem parar em cima da sua cabeça – em segredo, ele agradece silenciosamente por isso, porque, se os quase-coices que ameaçam partir o seu nariz em dois servirem de qualquer indício, ele definitivamente não parece estar muito feliz. Não que tenha lá muita diferença agora, sinceramente, porque Taeha está mais preocupado com a forma desesperada com que o garoto tenta se sustentar nos seus braços e escalar a parede ao mesmo tempo, isso tudo tentando equilibrá-lo no exercício mais humanamente impossível de força e autocontrole e ainda quase ser asfixiado por uma bunda assassina.
"Tem como você ir logo?", ele chia sem fôlego, a voz naturalmente grave parecendo cair mais uma oitava inteira com a irritação momentânea. Taeha raramente soa assim – meio assoviado, rouco, intimidante – e, mesmo que ele não possa se escutar lá muito bem de fato, o seu inconsciente ainda assim consegue assimilar a vozinha dentro da sua cabeça e isso é ruim.
Taeha toma impaciente o ar de uma vez só, como quem passa muito tempo debaixo d'água, e tenta de novo, os braços começando a doer com o peso constante.
(Subitamente, ele tem a sensação de saber exatamente como Rafiki se sente erguendo Simba no pico da pedra. Quer dizer, um Simba substancialmente mais desenvolvido e chato pra caralho, que ele bem provavelmente atiraria morro abaixo só pelo prazer da coisa, mas mesmo assim).
Felizmente, os seus instintos violentos morrem na mesma velocidade em que aparecem quando o garoto atravessa metade do vitrô e a ajuda das suas mãos já não é mais tão necessária, enfiadas tão fundo na bunda do coitado que parecem estar procurando petróleo. Com um passo para trás, Taeha encara a parte restante do corpo espernear e ir se espremendo para fora, empurrando quieto o cabelo do rosto com as costas das mãos. Do lado da civilização, ele espera ansioso por alguma confirmação de que o garoto ainda esteja vivo, que sinceramente demora tempo demais para chegar.
Ele se pendura no vitrô com um único impulso e espia como pode no espaço limitado.
Ao fundo, os seus tênis continuam boiando feito barquinhos na pia.