Antes, pensei em falar sobre o fim. Verbalizar todas as lamúrias internas. Gritar e expôr todas as insatisfações. E, então, abri a página. Olhei para ela por um bom tempo. Desisti. Não iria conseguir me expressar com precisão.
As palavras estavam dentro de mim, mas não se faziam claras perante meus olhos. Os sentimentos se tornavam um óculos, cujo grau era maior do que o real problema de visão. As linhas retas, que faziam sentido e conectavam um ponto a outro, haviam se transformado em um emaranhado complexo e cheio de nós, e eu não era capaz de encontrar as pontas.
Tudo era claro para o mundo, menos para mim.
E então, com a visão turva, corri desesperadamente para todos os lados, carregando o meu coração na mão. As lágrimas desciam pelo meu rosto, enquanto eu vociferava:
— Você consegue me ajudar? Veja como ele está sangrando — e o estendia para as pessoas. — Temo que seja tarde demais. Cuide dele pra mim.
Ninguém soube o que fazer. Tentavam segurá-lo, mas o líquido que jorrava o cobria por completo, tornando-o escorregadio. A solução era óbvia, mas eu precisava que me apontassem com todas as letras.
— Deixe-o derramar tudo e, quando acabar, tente estancar a ferida. Ainda assim, espere mais um pouco. Antes de o colocar em minhas mãos, certifique-se de que o sangue já secou. — disse um homem. Ele não possuía jaleco ou um diploma pendurado na parede, e mesmo assim soube o que era certo.
Enxuguei os olhos com as costas das mãos pintadas de carmim e engoli o choro. Os pensamentos voaram e construíram uma pequena ponte para o agora, onde tudo ainda dói. Onde existe uma luta que consiste em dormir e acordar com a mesma dor. Onde alguns dias acabam sendo melhores, e outros piores. Onde não há respostas, mas existem caminhos com vistas maravilhosas.
Hoje a missão é tentar exercer o perdão, e dizer para o espelho:
— Ei, me desculpa se te fiz perder-se. Guarde o seu tempo e descubra de onde vem tanto medo. Veja as pessoas como são. Encontre as caraminholas no que ouviu, e não no que lhe foi dito. Tenha paciência. Descentralize tudo o que não faz parte de si próprio. Procure abolir a concepção de que amor e sofrimento andam lado a lado. Mas, acima de tudo, levante-se.