É, a que ponto chegamos não é? Sentir falta dela, da voz irritante quando reclamava sobre você e até dos olhos mareados que eram capaz de sorrir só com um pedido calmo de desculpas. Quantas vezes passamos por isso não foi? E quantas vezes ela disse que iria embora, mas sempre voltou. Dessa vez, você não acreditou e olha, meses sem ouvir sua voz, pelo menos diretamente. A última vez, só de lembrar, chega a doer no peito. Ela prendia o choro, prendia os gritos, mas pedia sua atenção. Falava algo sobre cansaço, sobre magoa, sobre não aguentar mais, e o que você grande idiota fez? Prestou atenção no filme que já havia assistido milhões de vezes. E ela disse: "Chega, eu sou melhor do que isso!" E foi a única frase que você foi capaz de ouvir, a única frase que foi capaz de escutar e então se desculpou, mas já era tarde. A maior parte de suas roupas estavam enfiadas na mochila, menos o vestido que ela usou no parque naquele dia. Mesmo chovendo, mesmo tendo que voltar para casa cedo, ela vinha sorrindo e dançando na chuva, incrível que mesmo dizendo que estava parecendo um poodle, ficava linda. "Amor..." Mesmo tentando chamá-la calmamente, ela fazia o mesmo que você há minutos atrás, não ouvia. E então puxou a blusa larga, jogou na cama e virou-se para pegar o vestido ainda úmido. Finalmente a via, seu corpo era lindo, a pele macia e a linha nas costas que deixava o seu quadril tão sugestivo, não lhe permitiu resistir a ela. Mesmo levantando e tocando suas costas nuas pela última vez, ela parecia não sentir. E não escutou nenhuma só palavra que dizia. Você viu que era tarde, mas não ligou, ela sempre voltava mesmo. Mas não dessa vez, colocou a mochila nas costas, saiu embaixo da chuva, com seus habituais chinelos, uma cena que isolada da situação chegava a ser engraçada. Ela era incrível e mais do que só os seios, ou o corpo bonito, como ela dizia para você reparar. Mesmo sabendo disso, não demonstrou se importar. E agora, meses depois conversa comigo, a única coisa que ela deixou para trás, o bichinho de pelúcia que ela disse que dormiria abraçada quando você não estivesse com ela. Hoje, vimos claramente que ela não precisa de mim, muito menos de você, porque aquele homem que a levou numa biblioteca num sábado a tarde, a fez sorrir em um único minuto como ela nunca sorria para nós dois. E finalmente você foi capaz de entender, perdeu a mulher que investiu o limite da confiança que tinha em ti, numa tentativa de felicidade a dois, e mesmo assim foi estúpido não a procurando por orgulho, quem me dera ser capaz de te socar, para ver se você acordaria enquanto havia tempo, mas ele se foi e ela também.