Hurts like heaven - Harrient
Era um tolo por fazê-la chorar daquela maneira.
Fora um completo babaca e não podia negar. Mas ela não precisava ter levado tão a sério, ou pelo menos ter percebido a verdadeira intenção daquela conversa.
Afinal, o que poderia fazer? A resposta estava em sua cabeça, mas era algo que ia contra sua natureza humana. Trent sabia que deveria deixar o orgulho de lado e ir se desculpar com Harriett, mas as palavras que ela usara, gritavam em sua mente sem parar. Uma dor atingiu seu peito tão forte que quase o deixou sem chão. Caminhava de um lado para o outro no quarto, às vezes colocando as mãos na cabeça, frustrado demais consigo mesmo. Aliás, Gael estava um momento tão crítico que qualquer situação se tornava pequena diante daquilo. Quanto tempo ainda tinham de fato? Quanto tempo poderia aproveitar para ver o sorriso de Harriett? Não podia prever nada.
Trent colocou um casaco e saiu correndo desvairado pelo corredor do dormitório masculino e se dirigiu para o outro lado do perímetro, onde se encontrava o dormitório feminino. Em frente à porta de Harriett, pensou por alguns minutos antes de bater, estava com receio dela ter tomado uma decisão definitiva sobre ambos. Ele bateu uma, duas, três vezes na madeira, mas ela não saiu. No fim do corredor, uma garota desconhecida avisou que Harri tinha saído segurando um par de patins nas mãos e Trent imaginou o lugar exato para onde ela havia ido. O lago congelado.
Ele se aproximou devagar, os pés afundando na neve, as mãos geladas por causa do ar frio. De longe observou a menina patinando de um lado para o outro como uma bailarina na superfície coberta de gelo, como se uma música de fundo tocasse e o cenário natural deixasse tudo em completa harmonia - Hey - ele gritou para chamar-lhe a atenção.
Os pulsos ainda ardiam no toque da água. Havia muito tempo que não sentia aquela sensação de ardência na pele como era agora, mas não era tão reconfortante como antes fora. Costumava usar as lâminas de barbear do pai para cortar as coxas, braços e pulsos enquanto ninguém além de ela mesma era testemunha do caso e depois colocava o ferimento em teste sob a água fria da pia do banheiro. Usualmente ficava num tom de rosa fraco, o vermelho indo embora pelo ralo a fazia sentir-se melhor. Não desta vez, como imaginou. Já podia entender que não entregaria os pontos às lembranças de John, um fantasma que a assombrava nas noites mais frias, nas que mais precisava de Trent. Suspirou de vagar. Aquele era um outro dia, um dia a menos dentro da cidade. Tanto fazia agora. Ela já não tina mais ninguém e não queria ter, se não fosse ele. Trent a tocara de uma maneira especial, era quase mágico e a marca ficaria para sempre. Não podia mudar quem o seu pai era e o que sentia em relação a isso e com o amor de sua vida, o mesmo se repetia.
Insanamente preocupada com o que Trent pensaria dela, imaginava que o menino podia ter pensado sobre isso a noite e de repente se dado conta de que não valia a pena. De repente, a porta vermelha se encontraria escancarada no parque para quem quisesse sair e talvez ele já estivesse longe, muito longe. Engoliu em seco esse pensamento e obrigou-se a digeri-lo, mas seu corpo tremia novamente. Agarrou com as duas mãos o pequeno puxador do closet para arranjar um casaco e deparou-se com um par de patins. Eram velhos, usados, mas nem ao menos lembrando de se vestir adequadamente - vestia apenas um suéter fino -, Harriett puxou-o pelos cadarços e se arrastou para o lago. Era um lugar frio, limparia sua mente de qualquer mácula ou pecado. "Pecado", pensou debochada.
A alma era tão pesada que temeu afundar no gelo e congelar, ali mesmo. Em contra ponto, o coração derretia e batia frenético dentro do peito, em protesto. Devia buscar Trent? Cerrou os dentes ao pensar nas palavras que dissera. Ela havia mentido para ele. Mentido feio.
Enquanto pensava nas besteiras que seus lábios proferiram na madrugada, no meio da manhã ela deslizava sobre o gelo numa dança particularmente agradável sem ao menos perceber. Foi quando escutou a voz... Um hey. A voz.
Virou-se bruscamente em busca do dono. Não queria aparentar tão ansiosa, ele poderia ter repensado em seus sentimentos e dizer boas palavras ofensivas agora que a cabeça estava fresca, mas estava aliviada em ver que Trent estava ali, ao seu alcance. - Trent... - Disse, com lágrimas nos olhos. Foi genuíno e instantâneo, ela tentou andar sobre o gelo e escorregou nas muitas tentativas. Os metros entre eles não diminuíam nunca e ela desistiu de tentar. Engoliu em seco e tentou controlar a respiração para não impedi-la de ouvir o que ele tinha a dizer. Queria gritar as desculpas e o sinto muito dali mesmo, mas o olhar dele a parou. Em alguns segundos, estaria morta, comida pelo silêncio, se ele não dissesse logo.











