As melhores histórias são aquelas que só começam quando você pensa que acabou
Dominick (via dominichronicles)

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As melhores histórias são aquelas que só começam quando você pensa que acabou
Dominick (via dominichronicles)
"This is not the end and won't never be the end."
Where my demons hide. Bilbo e Trent.
Era a quarta ou quinta vez que Bilbo varria o campo com os olhos, ao longe, escondido como que procurando por sua presa. Atrás daqueles galhos, não sentia-se completamente seguro, apesar de ter certeza que não estava sendo observado. Todos naquele campo trabalhavam, tinham as camisas suadas e amarrotadas, olhos inchados e rostos sofrido, mas nenhum deles era o que estava procurando. Ele o conhecia, afinal, apenas de uma breve apresentação no refeitório e embora o contato que tivesse fosse relativamente de cunho cordial, Bilbo sabia que ele era a pessoa que estava procurando. Não precisariam conversar, alias, para que tivesse tamanha certeza como esta que tinha no peito. E pela primeira vez, em homenagem àquilo, saiu por dentre os galhos que o escondiam e caminhou firme pelo campo. Não olhou para os lados enquanto sentia ser alvo dos olhares assustados de alguns até chegar à Trent Connor. Interrompeu-o a conversa de repente, estava na companhia de um garoto de cabelos quase louros, parecia resolvido e dedicado a tarefa que tinha. Mas Bilbo, mais uma vez, preferiu interferir e mostrar-lhes o seu segredo. Ele sabia que Helena Bolchart estava em algum ligar na fortaleza de Colin e, sem sua ajuda, todos aqueles serviços seriam em vão. A pressa reinava no ar e uma tensão circulava constantemente a floresta. Não se importou com o clima difícil e cansativo, parecia-lhe quase como um lar agora. Antes de suspirar um “você vem comigo” para Trent, Bilbo permitiu-se uma espiadela no campo a fim de avistar Amelie. O fracasso foi detectado com frustração, mas ele tinha sua tarefa e não podia desistir. - Escute, há uma coisa a fazer e acho que você é a pessoa certa, Connor. - Bilbo procurou ser discreto, mas foi um bocado complicado passar despercebido. Trent não era do tipo completamente amigável, por isso manteve-se o mais restrito a tarefa possível. Arrastando o garoto para longe dos olhares gaelianos, Bilbo confessou-lhe a história que sabia durante o percurso. O destino dos dois era o porão onde estivera preso antes, porque sabia que, de alguma forma, Helena estaria lá. - Sei que há mil perguntas a se fazer agora, mas no momento certo te darei as respostas. Preciso de um bravo alguém que saiba manejar as pessoas e colocar-lhes medo na cabeça com um olhar. - Disse calmamente como se recitasse a receita de um bolo. - Vocês todos estão trabalhando na construção da porta e seja o que mais for necessário para que ela se abra novamente, mas está muito fácil, certo? Ainda há um porém. Já pensou que a porta pode não abrir? No caso, digamos, que todos consigam terminar antes de escurecer e o solstício passar, a porta ainda não se abrira sozinha. Deve haver uma chave. E, por conclusão lógica, sei com quem está. - Bilbo não parou um segundo para respirar ou para pensar nas palavras certas, apenas despejava-as com paciência para que Trent as assimilasse. - Durante o tempo que estive preso por Colin, percebi que ninguém é o que aparenta ser. A mulher acorrentou diversas pessoas conforme o tempo passou e imagino que ela também saiba que há uma saída. Disso podemos tirar que ela tentará nos impedir com unhas e dentes se for preciso. Não podemos nos arriscar a perder o tempo, muita coisa pode acontecer em um ano quando tivermos mais uma chance. De qualquer forma, Helena Bolchart está em Gael, encurralava em quatro paredes como eu estava e agora nós iremos tira-la de onde estiver. Preste atenção: Minha presença vai denunciar a quem diabos estiver lá que algo está fora de controle. Precisamos ser rápidos antes que seja demasiado tarde. Evite olhar em volta, diretamente para as pessoas e tente agir como se não fosse o próximo ladrão de banco bem sucedido da América. - Continuava a proferir a tagarelice sem que o menino pudesse se pronunciar. Dessa forma, distrairia-se de qualquer male que passassem por e finalmente poderiam chegar ao destino combinado para procurar pela mulher que havia voltado para salva-los. Não era um longo caminho, tampouco curto, mas em quinze minutos de passo largo e ligeiro, chegaram à base da fortaleza sem serem notados. As rias estavam vazias, de qualquer forma; e isso preocupava Bilbo. - Agora nós vamos entrar - Disse, meio orgulhoso. Olharam para cima antes de perceberem que o prédio tinha uma daquelas escadas enferrujadas de incêndio, que acompanhava a parede de tijolos expostos. Depois que subiram, encontraram o local vazio e sem qualquer vestígio de outro humano além dos dois ao que parecia meses. Aparentemente um lugar não muito usado para esconder o que quer que seja em Gael. Qualquer coisa que valesse aquele incomodo que Colin sofria com o retorno de Helena, provavelmente estaria muitíssimo bem escondido e foi então que, justo na sala onde estavam, no chão de tablado liso empoeirado, Bilbo percebeu pegadas um tanto recentes. Elas iam até a borda do grande tapete vermelho com ornamentos em dourado e sumiam. Seguindo aquela trajetória, no máximo de silencio que pode fazer, ergueu o tapete e descobriu um alçapão. Quem diabos desconfiaria de uma engenharia daquelas? Um alçapão em pleno terceiro andar de um prédio? Da mesma forma, parecia ser um local de armazenagem pequeno e apertado. Estava, naturalmente, guardado por um cadeado que Bilbo pediu à Trent para arrebentar com a alicate que havia trazido. Quando o serviço terminou e conseguiram puxar a tampa enorme para cima, ele viu os olhos familiares para si o dirigirem um cauteloso e curioso olá sem sorrisos ou alegria alguma. Bilbo calculou que na escuridão que ela estava, provavelmente não saberia sobre que diabos se tratasse aquela visita ao menos que ele lhe contasse.
Era involuntário estar envolvido, não podia se negar a continuar e voltar já não seria mais uma saída. Trent olhou firme para Bilbo, colocando sua total atenção em cada palavra do jovem, tentando formar em seus pensamentos uma linha de raciocínio, uma estratégia aqui e outra lá. Gael era como um jogo de xadrez: Doctor era o Rei, Colin a Rainha, Arthur fazia o papel dos Bispos, as pistas sendo o Cavalo, a porta era a Torre e os peões sem dúvidas, os Gaelianos. Mas agora o jogo havia mudado, pois Trent sentia-se como um Rei prestes a dar o cheque mate junto ao companheiro Bilbo e a Rainha se tornara outra pessoa, alguém que até algum tempo atrás pensara ser um mero nada na História a cidade. Todo tempo se manteve em silêncio, mas era assim que funcionava melhor, claro que o rapaz a sua frente não parava de tagarelar, mas isso era o de menos, ele parecia saber exatamente o que era preciso ser feito, devia ter passado o tempo longe dos olhos alheios só de espreita, anotando cada detalhe, fazendo e refazendo as notas mais importantes para chegar na hora certa e fazer tudo de forma precisa.
Após uma caminhada curta, ambos chegaram até um prédio velho e difícil de ser notado mesmo naquela cidade pacata e minúscula [...] No alçapão, em meio a escuridão, Trent puxou um fósforo do bolso e o riscou na pequena caixa, a luz fraca iluminou o curto espaço onde se encontrava não mais duas pessoas e sim, três. A mulher jogada no chão estava amordaçada, suas mãos estavam amarradas nas costas por uma corda grossa, o mesmo fora feito com os pés. Sua situação era deplorável, poderia até ser comparada a um primata. Aquela era a Helena que tanto ouvira falar? Um ser tão fraco...Tão sem vida agora. Trent abaixou-se, tirou a mordaça da boca da mulher e pediu para que Bilbo o ajudasse com as cordas - Você é Helena? - perguntou baixo, tentando manter a respiração regular. Ela balançou a cabeça positivamente com seus olhos arregalados para os garotos - A primeira coisa que você deve ter a certeza: Não estamos aqui para te machucar. Nós estamos em um momento onde cada passo dado tem que ser o certo, ou não sobreviveremos. Você é o que mais precisamos, Helena - Trent arfou segurando as mãos dela - Nós seguimos todas as pistas que você nos enviou e encontramos o Diário do Doctor Greene, mas a Porta Vermelha não existe mais e agora todos estão tentando construir uma nova. O que não sabemos é se isso vai funcionar de fato. Não podemos mais ficar um dia sequer em Gael, essa cidade tá um porre e falta comida. Hoje é nossa única chance de nos livrar desse lugar - desde que passara pela porta não imaginara que diria algo assim. Sempre vira Gael como um ponto de fuga seguro, havia criado uma vida nova cheia de sentimentos que não conhecia, como o amor. Conhecera seu anjo do vestido azul,carrancuda, mas de uma vivacidade incrível e um sorriso inigualável.
Helena respirava com dificuldade, provavelmente devido ao tempo que passara num local escuro. Não dava para calcular. Ela ajeitou-se no chão numa posição mais confortável - Vocês estão no caminho certo - pigarreou, com a voz um pouco rouca - Eu tenho algo que irá tirá-los daqui de uma vez por todas. Vamos até onde estão seus amigos - disse, procurando apoio para levantar-se. Os três saíram com cautela do prédio, Trent e Bilbo auxiliando Helena na caminhada ate a Floresta. Dessa vez demorou um pouco mais, talvez o dobro do que haviam gasto para irem buscar a jovem, já que ela não conseguia com facilidade. Se aproximaram lentamente do amontoado de pessoas na clareira, que estava iluminada pela Meia-Lua no céu. O peito de Trent encheu-se se alívio, Helena era algum tipo de Santa? Se não fosse, viria a se tornar uma.
It seems the artists these days are not who you think. | Alek and Trent.
O céu estava limpo e escuro, uma brisa suave agitava o ar. O alto das árvores a sua volta resplandeciam com a luz avermelhada do pôr do sol, aninhado no horizonte. A grama brotava das brilhantes camadas de neve no chão do bosque, produziam um ruído estridente quando pisadas por causa do gelo em sua superfície. Uma névoa pesada arrastava-se acima do solo, quase espessa o bastante para ocultar os seus pés.
Aleksandr já estava parado há quinze minutos, faltava pouco para estar completamente congelado, suas roupas já adquiriram uma camada fina de gelo e o mesmo aconteceu com os cílios sobre os grandes olhos azuis, estes pareciam furtar toda a iluminação ao redor conforme fitavam fixamente o vazio. Observá-lo naquele momento era como admirar um quadro monocromático de um defunto encostado contra o tronco grosso de uma árvore, cujo os olhos do sujeito possuíam a única cor que representava algum tipo de calor na tela. A única coisa que demonstrava a existência de uma vida presente naquele corpo imóvel era as poucas vezes que ele piscava ou a cortina de ar quente quase invisível que abandonava suas narinas em tempo ritmado.
Os pensamentos do russo se assemelhavam as velhas imagens de um vídeo cassete, repassando sem parar os momentos que tivera em companhia de Eileen nas ruínas de Gael e sempre tendo somente o rosto da morena em foco, o resto se perdia na fita danificada. Alek não se lembrou de questionar a si mesmo sobre a falha de sua memória. Afinal, para quem tinha uma mente brilhante, aquilo poderia ser muito bem algum tipo de defeito irreparável que prejudicaria a sua reputação de alguma forma, não que sua reputação fizesse alguma diferente na cidade do Doctor Greene, mas se ainda estivesse em sua antiga vida de mafioso isso seria um grande problema. Porém, pensar em Eileen ultimamente tornara-se parte de seu dia-a-dia e começou a incomodá-lo o fato de não conseguir evitar, não importava onde ele estivesse ou o que estava fazendo, BOM! , lá estavam os grandes olhos castanhos da morena assombrando-o novamente. Não que pensar na irlandesa fosse ruim, Alek só não queria se envolver no que praticamente já estava envolvido. Perdera o controle de sua vida no instante em que passara pela porta vermelha e perdera o controle do seu próprio eu no instante em que seus olhos caíram sobre Eileen pela primeira vez.
Um ruído quebrou o silencio da noite, seus olhos recuperaram o foco instantaneamente e foram à procura de algo incomum, mas as árvores bloqueavam a visão do que estivesse a sua espreita. O motivo para Aleksandr estar em pé, pacientemente, sob o pôr do sol e se transformando rapidamente em um picolé era um rapaz de aparência excêntrica ao qual tinha se comprometido a ajudar em uma tarefa. O Petrovich se oferecera de bom grado a ajudá-lo, já que tinha mais preparamento físico para o que haveria de ser feito, quando ambos se uniram a um grupo de moradores de Gael que pareciam finalmente terem descoberto um caminho de volta para suas vidas na Terra. Parecia mais uma ilusão para o russo, mas ele estava disposto a ajudar no que fosse necessário. Ergueu um pouco o pescoço, sentindo um leve puxar em sua coluna, para que pudesse enxergar melhor o vulto que seguia em sua direção por entre as grandiosas árvores.
A brisa gélida que pairava no ar e o vento que batia com violência contra a pele, ressecava-lhe os lábios. Sentia o sangue na boca. O desespero amargo bater no estômago. A adrenalina pulsar incessantemente. Trent segurava entre uma das mãos o machado que buscara em um quiosque perto da Floresta, contornou o olhar pelo perímetro avaliando cada centímetro, enquanto que mentalmente repassava as imagens do Diário de Doctor Greene, as especificações eram claras - Madeira de uma árvore resistente, na Terra chamada de Larix e em Gael, Berímedra -, havia um nome mais incomum para o velho dar para a árvore? Devia ser impossível. Não podia se considerar um expert nesse tipo de assunto, mas na Irlanda quando ainda era um garoto, Connor tinha o hábito de fazer trilha quando ia ao sítio da família, situado junto a uma área montanhosa e úmida. Certa vez fora caminhar com o tio, considerado um grande conhecedor da natureza, ele tagarelava sem parar sobre cada espécie de árvore, cada animal que voava ou rastejava, o clima da região, maneiras de se preservar toda aquela biodiversidade e mais um desenrolar de blablablá. Porém, agora aquilo que achava nunca ser útil se transformara em seu manual de sobrevivência. Trent vasculhou em sua memória. La...Larix...Larix? É uma conífera. Estava conseguindo chegar perto da conclusão, esboçou um sorriso torto nos lábios, gostando cada vez mais da ideia. Respirou fundo, colocando a mão que estava vazia no bolso do casaco e com a outra apoiou o machado no chão.
Trent parou por um instante, encarou o garoto russo com quem tinha de dividir aquela missão - Hey, você! Espera aí - disse em voz alta. Até então nunca haviam trocado uma palavra sequer, mas dessa vez parecia ser necessário a comunicação, caso contrário não chegariam a lugar nenhum. Todos gaelianos pareciam depender de cada um que se enfiara naquela tarefa mirabolante de construir a bendita porta vermelha, como se encontrar aqueles materiais fosse os ingredientes principais para fazer a massa de um bolo e matar Doctor Greene em seguida, poderia ser a cobertura - Nós precisamos subir a montanha, mano. Eu acho que essa Larix é uma conífera, até o nome parece vir de lá da sua terra. Não tenho certeza, porque sou uma negação pra esse tipo de coisa. Mas, esse é o único palpite que eu tenho e talvez seja o certo...Nós temos pouco tempo - completou a frase como se estivesse falando consigo mesmo. Connor continuou caminhando, seguindo para a direção contrária, debaixo dos pés os pequenos galhos estalavam, as botas nos pés se encharcavam de lama. De fato, não tinham muito tempo até o tal solstício acontecer e cada segundo que se passava, era uma luta contra seus maiores sabotadores: Fome, cansaço, frio e a falta de um bom cigarro (no caso de Trent).
Fumar agora era tudo o que precisava para se sentir melhor. Mas quando pensava em seu melhor, Harriett logo vinha a sua cabeça.
Deixou os devaneios de lado e correu, chamando o garoto de cabelos ondulados e de sotaque estranho com a cabeça, às vezes o incitava "Vamos!", estava confiante demais, até serem interrompidos por um vulto saindo de trás de um ninho de galhos. Não esperava por aquilo, certamente não. Reconheceu de imediato quem estava desaparecido desde o acontecimento do Salão Comum, vulgo Bilbo, o selvagem que salvara a todos da fome, a pessoa por quem Trent tinha uma afeição em segredo. Ele matara John e não podia negar que seu ato fora de um verdadeiro bravo Herói. Ao ser convidado para se retirar dali, Trent não pensou duas vezes antes de dar as coordenadas para Petrovich:
- Você sabe melhor que eu qual é essa árvore. Continue, eu vou logo atrás, beleza? - indagou, entregando o machado para o rapaz - Se eu não for, você precisa fazer isso sozinho - disse desalentado. Então, tomou seu rumo ao lado de Bilbo, um rumo incerto e cheio de cacos de vidro quebrados. Devia caminhar mesmo assim, não importava qual fosse o preço a pagar.
Feels so cruel - Keywest
Confusion that never stops, closing walls and ticking clocks. - Ammy, Nate, Dan, Elektra, Domi, Élis, Trent, Eileen, Anabelle, Alek, Mari, Mia, Jess.
A ruiva passara aquele tempo livre - se esse fosse o apelido de preocupação ou acorrentamento a uma ideia -, depois da grande conversa que uniu alguns gaelianos à busca da porta vermelha, para reorganizar as ideias e encontrar uma solução para deixar os sentimentos balanceados. Quem dera que usar de uma balança para controlar a si mesmo fosse fácil. Ao menos não foi uma perda total, Élis agora tinha certeza que deveria ajudar os outros na conclusão do mistério que rodeava os prédios e ruas de Gael, mas continuava indecisa entre estar livre para ir ao Museu do Louvre ou apenas livre - e pensamentos gauchem instigavam ela a imaginar que logo nem mais isso - para ir até a pequena praia de Gael. Tentaria ignorar os pesadelos que tivera, os que a amedrontavam sobre passo que dava - uma queda na prisão, muito pior do que a imagem da morte, que não permitia volta. Estava contaminada pela desconfiança da maioria por Colin, embora seus gestos e sorrisos cotidianos não mostrassem isso, e sim seu olhar. Fosse o que fosse, outro encontro fora marcado na floresta, e Élis tinha certeza que estava pronta para aquilo.
Acordou mais cedo naquele dia específico e colocou apenas um suéter de lã, com cores vivas, por cima da básica com que dormiu - as glândulas sudoríparas não são suas melhores amigas -, enrolou um cachecol de cor neutra no pescoço cor de mármore, escovou os fios de cabelo ruivos que estavam rebeldes, prendendo-os em um coque firme. A olhadela rápida no espelho não serviu para mais do que a chatear por parecer mais uma boneca de porcelana com olheiras do que uma humana. Pediria blush para Mia mais tarde, pois não tinha nada de maquiagem em seu quarto. Não tinha a intenção de chegar adiantada no encontro e muito menos ficar sozinha na floresta, sabe-se lá o que pode acontecer, ainda mais com alguém não muito focada em um caminho pela manhã. Ao sair do prédio dos dormitórios e receber o vento no rosto, resolveu ir a uma direção menos óbvia até a floresta, pois chamar a atenção das pessoas erradas seria ruim.
Puxou as mangas do suéter para cobrir suas mãos, geladas ao ponto de doerem com o pequeno toque na lateral de seu corpo. A distância não era muito longa indo por uma rua secundária, ela assobiava um pouco para tentar se assemelhar aos pássaros, algo muito antigo, porém poucos eram vistos sobrevoando a cidade, era em suma um ambiente triste. Gael morria aos poucos, ainda que não houvesse faíscas no resto da população sobre o que aquele pequeno grupo rebelde planejava. Ainda bem, seria muito mais que um rebuliço, ela era uma das que entendia a situação de muitos ali, até poderia dizer fazer parte daquele pensamento. Mordeu o lábio inferior, que estava ressecado, e lembrou que nada havia bebido ou comido para se manter de pé. Não sentia tanta fome no momento por ter comido algumas frutas com leite - deveria ser em pó, estava mesmo sem gosto -, na última e única refeição do dia anterior, mas era evidente que logo sentiria.
E em não mais que quinze minutos, a brasileira já podia ver algumas silhuetas conhecidas no meio de todas aquelas árvores. Estava ofegante, mas não deixou de apertar o passo para chegar mais rápido. Cumprimentou-os com um aceno com as mãos e logo arrumou um tronco de árvore caído para se sentar, limpando superficialmente a madeira com a mão. Não tinha importância se a calça se sujaria, porém é algo de sua natureza dar uma pequena limpada. Esperava ser mesmo um costume e não um transtorno obsessivo compulsivo que estivesse nascendo, não precisava disso.
Sua cabeça girava rapidamente, Trent caminhava em círculos nos próprios pensamentos como se tivesse permanecido tempo suficiente longe para se perder até mesmo numa cidade tão pequena quanto Gael. Nas últimas semanas havia estado ao lado de Harriett e passara dia após dia ignorando as preocupações que surgiam, mesmo que elas estivessem tão vivas como jamais estiveram antes, o rapaz procurou esquecer da situação complicada em que todos estavam submetidos. Apesar do traquejo social, não podia deixar de ouvir os comentários que rondavam pelas ruas da cidade, sobre as pistas entregues aos habitantes e a chance de conseguirem sair do mundo de Dr. Greene. De fato, Trent não se importava tanto sobre voltar para a Terra, mas naquele momento preferia voltar para a Irlanda e fugir, do que continuar em um ambiente tão contraditório, sem alimento e com grande riscos de todos acabarem morrendo.
Pela primeira vez não queria morrer, queria viver. Viver muito por alguém.
Após ser avisado sobre reunião, Trent correu pelas ruas úmidas em direção à Floresta de Gael, onde já estivera outras tantas vezes. Foi uma caminhada relativamente rápida, talvez dez ou quinze minutos e logo pôde enxergar algumas pessoas próximas dentre as diversas árvores. Duas ruivas, Nate e seu amigo Daniel, também tinha Elektra que fora uma das primeiras a conhecer quando chegou em Gael e um outro rapaz desconhecido. Apenas observou em silêncio, fez um aceno leve com a cabeça para todos e então encostou-se junto ao tronco de uma árvore, à espera do assunto da reunião que estava por vir.
Hurts like heaven - Harrient
Era um tolo por fazê-la chorar daquela maneira.
Fora um completo babaca e não podia negar. Mas ela não precisava ter levado tão a sério, ou pelo menos ter percebido a verdadeira intenção daquela conversa.
Afinal, o que poderia fazer? A resposta estava em sua cabeça, mas era algo que ia contra sua natureza humana. Trent sabia que deveria deixar o orgulho de lado e ir se desculpar com Harriett, mas as palavras que ela usara, gritavam em sua mente sem parar. Uma dor atingiu seu peito tão forte que quase o deixou sem chão. Caminhava de um lado para o outro no quarto, às vezes colocando as mãos na cabeça, frustrado demais consigo mesmo. Aliás, Gael estava um momento tão crítico que qualquer situação se tornava pequena diante daquilo. Quanto tempo ainda tinham de fato? Quanto tempo poderia aproveitar para ver o sorriso de Harriett? Não podia prever nada.
Trent colocou um casaco e saiu correndo desvairado pelo corredor do dormitório masculino e se dirigiu para o outro lado do perímetro, onde se encontrava o dormitório feminino. Em frente à porta de Harriett, pensou por alguns minutos antes de bater, estava com receio dela ter tomado uma decisão definitiva sobre ambos. Ele bateu uma, duas, três vezes na madeira, mas ela não saiu. No fim do corredor, uma garota desconhecida avisou que Harri tinha saído segurando um par de patins nas mãos e Trent imaginou o lugar exato para onde ela havia ido. O lago congelado.
Ele se aproximou devagar, os pés afundando na neve, as mãos geladas por causa do ar frio. De longe observou a menina patinando de um lado para o outro como uma bailarina na superfície coberta de gelo, como se uma música de fundo tocasse e o cenário natural deixasse tudo em completa harmonia - Hey - ele gritou para chamar-lhe a atenção.
Harriett queria entender que ele havia dito tudo para fazê-la sentir-se… Talvez segura. Talvez… Ela não sabia dizer. Suspirou exasperada. Não estava brava, estava cansada das feridas. Se ele estaria ali, vendo-a chorar, porque estava causando-as agora? Por que insistir em John Colac? Por que não deixar a cicatriz sumir, esvair?
- Mas você não estava, querendo ou não - Disse, ainda gritando. - Por que culpar o John quando ele cuidou de mim por você? John Colac foi um ótimo amigo! - Queria ir embora e assim o faria. As lágrimas dele não a parariam, ela lembrou de Michael, de suas palavras e ações. Doíam e a multilavam por dentro, cortavam o coração em pedaços. - Nunca mais fale de John desse jeito! Não fale dele desse jeito! - Ela o empurrou de novo. As lágrimas agora escorriam pelo rosto e quebravam sua promessa. Não queria pensar nas palavras que diria e se de repente, se arrependeria. Sentia medo e sua primeira reação foi se afastar. Queria sair de Gael para nunca mais vê-lo. Não tinha sido feita para as pessoas, talvez não houvesse feito o certo em sair viva da casa dos pais onde a mãe jazia no chão. Ela devia ter tomado seu lugar, afinal.
Por que diabos estavam brigando novamente? Era como voltar para o primeiro dia em Gael, mas os sentimentos agora explodindo, como se rasgasse a carne e deixasse uma ferida aberta. John Colac não era um homem bom e isso Trent tinha certeza. Mas Harriett jamais enxergaria pelos olhos de outra pessoa o caráter do homem, ainda mais que agora jazia em algum lugar o corpo do monstro. Não podia conter as lágrimas, parecia uma criança desprotegida outra vez e no impulso sentiu vontade de abraçar a garota, mas ao se aproximar, sua atitude foi retribuída com um empurro forte das mãos de Harriett. Fitou-a com tristeza visível, as palavras eram como veneno para sua alma...Como não poderia vê-la? Harriett era tudo que Trent tinha.
- É isso que você quer? - perguntou assustado, limpando as lágrimas com as mãos - É isso que você quer? - gritou, mas querendo mesmo dizer "Fica perto de mim".
Harriett não iria chorar, não iria. Decidiu precipitada, sabendo o que viria a seguir. Ele estava gritando. Gritando com ela. Soltou um ganido descontente, sem conseguir transformá-lo em palavras.
- Ele estava aqui enquanto você não estava! Droga! Ele estava aqui! Ele era meu amigo! - Com lágrimas que não deixaria escorregar para o rosto nunca, ela empurrou Trent e o esmurrou no peito várias vezes seguidas, de dentes cerrados. - Ele estava aqui enquanto eu não tinha ninguém. Aonde você estava? Ele estava aqui! -
Ela também estava gritando agora. Notou-se totalmente apavorada. Acoada. Tentava se defender atirando-lhe pedras, mas no fim não faria diferença. Harriett sentia-se completamente humilhada. O medo que sentia na presença de Michael era semelhante ao que sentia agora. Só queria correr para os braços de um berço seguro.
Não foi a intenção deixá-la daquela forma, já que a razão por Trent falar tudo aquilo era para protegê-la. Tinha um jeito estranho para dar segurança aquilo que amava, mas não podia mudar quem era. As palavras voaram como flechas em seu coração, perfurando fundo e o fazendo sentir lágrimas enchendo seus olhos.
- Se eu tivesse aqui não iria te deixar sozinha, porra! Mas eu estava lá em Dublin preso, falou? Não tenho culpa do Doctor ter me enviado pra cá quando você já estava vivendo com aquele idiota. - disse com um pesar imenso, como se aquilo pudesse o corroer de remorso por dentro - Eu ficaria do seu lado ouvindo você chorar. Iria aguentar seu silêncio e cuidaria das suas feridas enquanto estivesse dormindo. Você não vê? Eu queria estar aqui! EU QUERIA! - Trent gritou mais alto.
Tentou se aproximar, mas algo lhe puxava para trás.
Não sabia com o que havia ficado mais magoada: Com o jeito como ele dissera que já sabia de sua história, por esconder isso dela ou por insultar John. A ironia na voz de Trent deixou-a extremamente incontente. Harriett se sentou na cama, num gesto de protesto.
- E você não me contou que já sabia? - Sentiu um peso atingir o coração, como se ele estivesse rindo por dentro da cara dela. A ironia não era somente por John Colac, ela entendia. Engoliu em seco e logo disse, em um tom mais alto do que antes: - Eu não sei por que ele contou, mas devia ter um ótimo motivo. E eu ainda confio nele. Não fale do John para mim - Bufou as palavras para fora da boca, sentindo as mãos tremerem. Queria ir embora, estava começando a ficar ruim, muito ruim.
- Eu achei que não precisava contar, já que quem deveria me falar alguma coisa era você - falou sem demonstrar peso na consciência. Quando começava a lembrar de John, Trent ficava nervoso e perdia a noção do que estava dizendo. Não conseguia ficar tranquilo e talvez lá no fundo tivesse ciúmes de Harriett, mas jamais confessaria algo tão grande. Ele se irritou ao vê-la se levantando e fez o mesmo gesto, mas ficou em pé mesmo quase seminu - Qual o problema de falar naquele cara? Harriett, pare de ser trouxa, John nunca foi um bom homem e só estava se divertindo às custas de suas mágoas do passado. Você não enxergou isso até agora? - falou em um tom de voz alto.
Não se surpreendeu, também, quando ele confessou que ela era a primeira a saber sobre sua história. Não diria nada sobre como contara a dela para John Colac, manteria a boca calada enquanto pudesse. Tentou se manter sem expressões no rosto, apesar de estar contrariada.
- O que você quis dizer com nem tanto quanto eu? - Estava confusa. Sua vida era um mistério para ele, não era? E preocupada ao mesmo tempo, com ele e sua reação. O toque de seus dedos ainda era sutil da mesma forma e Harriett devolveu o carinho, mas ainda não pôde sorrir.
Já podia esperar que ela não fosse retribuir a conversa da mesma maneira, já que sempre estava na defensiva como se o mundo fosse atingí-la por contar sobre si mesma. Trent sentiu-se um inútil por um instante, provavelmente ela não confiava nele. Mas tinha que confessar que ela era muito esperta, sabia onde e como chegar no lugar em que queria estar, nem que para isso tivesse que deixá-lo vulnerável como se encontrava no momento - John Colac me contou sobre sua história naquela noite no Salão Comum - disse, com uma risada baixa em seguida - Ele não era tão confiável assim, não é? - perguntou sarcástico.
Trent parecia cada vez mais nervoso, meio sem reação. Harriett entendeu o por quê, conforme ia explicando. Já era como se adivinhasse o final, embora ela soubesse que ali ainda havia história por demais que ele escondia por enquanto. No final, sentiu os olhos fixados nos dele. Sabia que ele havia sofrido, mas ele era mais como Harriett do que ela imaginara. Os sofrimentos eram parecidos.
Sem respirar enquanto ele contava toda a história, ela soltou o ar dos pulmões de uma vez só. Olhou para baixo e depois novamente para ele. - Isso é tão triste - Mal percebia que tinha os olhos úmidos também. - Você é um garoto corajoso - Afirmou, e se deitou mais sobre o ombro do menino, encolhendo-se como se pudesse fugir da própria história, ou do resto da dele. - Corajoso… - Sussurrou em eco, passando a mão de vagar no peito do rapaz como num desenho contornado. - Acho que somos parecidos. Meio… quebrados.
Ao revirar o olhar para o lado, ele encontrou imediatamente com o de Harriett. Ela não o olhava com pena, o que fora um alívio. Trent não queria que ninguém tivesse tal sentimento sobre sua história, muito menos a garota com quem tinha um relacionamento - Corajoso? Eu? - ele bufou - Não tanto quanto você.
Ele acariciou a pele macia do rosto da garota, descendo os dedos e subindo devagar - Nunca falei sobre isso com ninguém. Você é a primeira - confessou com um meio sorriso no canto dos lábios, encaixando as pernas juntos as dela debaixo da coberta.
A cada palavra, Harriett queria somente que ele chegasse ao fim da história, onde ela sabia que esperavam horrores que ele bem queria ter escondido dela. Ou pretendia… Talvez. A fala saiu lenta e preguiçosa dos lábios dessa vez, receosa.
- Como ela morreu? - Piscou de vagar, com frieza. Lembrou de como a própria mãe morrera e aos olhos dela, tudo aquilo era no mínimo normal. Mas estava assutada, como se estivesse na pele do garoto vivendo o que quer que tenha passado sozinho.
Trent se perguntava se aquele passado o assombraria até o último dia de vida, teria ele que acabar com ela para pôr um fim naquele pesadelo? Nem ao lado de Harriett podia esquecer aquilo tudo. Mas de certa forma, colocar para fora suas angústias ela primeira vez, parecia diminuir a intensidade da dor. Ele sabia a pergunta que o aguardava a seguir e não sorriu ao ver que adivinhara com precisão - Minha mãe foi assassinada - disse ríspido - Harri, a culpa não foi minha - ele repetiu como se a frase pudesse salvá-lo. Os olhos queimaram, na certa iria derramar lágrimas, mas forçou para segurá-las - Era uma noite de inverno, chovia bastante e estávamos eu, minha mãe e meu pai em casa, como de costume. Eu nunca fui um garoto desligado, mesmo quieto eu sempre estava atento em tudo que acontecia e sabia que as coisas não andavam bem entre meus pais... - sua voz falhou e estava meio chorosa - George colocou na cabeça que ela estava o traindo e este assunto começou a virar clichê de tantas vezes que se repetia, depois sempre acabavam brigando e ficavam semanas sem se falar direito. Mas naquela noite foi diferente, meu pai chamou dois caras pra ir em casa e quando eles chegaram, simplesmente os três foram até o quarto e...e...mataram minha mãe. Meu pai junto. Eu vi tudo, cada movimento, cada palavra - Trent soltou um suspiro carregado - Mas aí eles saíram, como se eu fosse invisível me largaram ali, inclusive meu pai. Eu fiquei a noite toda sentado ao lado dela, tentei reanimá-la, mas já não tinha mais vida. De manhã, a polícia me encontrou jogado no chão encoberto de sangue e pensaram que eu fosse o culpado - ele abriu um sorriso sem humor.
- E claro, meu pai confirmou e ficou encarregado do meu tratamento. Como se eu precisasse disso...Às vezes penso se realmente sou um psicopata e se foi eu quem cometeu o crime de tanto que ele colocou isso em minha cabeça - não conseguia olhar para a garota deitada ao seu lado, tinha vergonha de si mesmo e de ter tantas turbulências na vida. Mas aí naquele momento se lembrou da conversa que tivera com John no Salão Comum e tudo que acontecera na vida de Harri. Os dois compartilhavam do mesmo sentimento, isso o confortava de certa forma.
Inicialmente foi difícil convencê-la a ceder e deitar ao lado de Trent. Harriett estava desconfiada, como se ele fosse um tipo de vilão ou que a ideia de contar para ela sobre seu passado lhe fosse desagradável o suficiente para mandá-la embora dali. Mesmo assim, Harriett se deitou, com a cabeça apoiada no seu ombro e fitou o nada, no teto. Precisava saber.
Trent aninhou a garota em seus braços com cautela, fitou o vazio, ainda com a expressão séria. Em sua memória centenas de flashes desordenados reluziam, cada raio atingindo seu peito em cheio. Ainda doía se lembrar, mesmo que se negasse a demonstrar isso - Eu me chamo Trent Connor, nasci em Dublin, a cidade mais agitada da Irlanda. Venho de uma família muito prestigiada na classe média-alta, mas isso nunca me fez muita diferença. Era só mais um pretexto ridículo para manter as aparências e momentos de conversas jogadas foras com gente filha da puta e sem noção - franziu um pouco os lábios, pensando se devia ser um pouco mais cuidadoso com as palavras, mas era um desbocado nato consequentemente de nada adiantava se esforçar - Minha mãe, Alvah Loren Connor, era um mulher linda e cobiçada por tantos homens que cheguei a pensar que ela poderia ser uma famosa modelo quando era mais nova. Realmente dava gosto de ver as fotografias antigas - soltou um riso abafado - Mas ao invés disso escolheu a carreira de gerente de banco e acabou conhecendo meu pai, George Bryan Connor - trincou os dentes ao proferir tal nome em voz alta - Ele era um psiquiatra renomado e fez com que mamãe parasse de trabalhar quando nasci, ficando responsável por sustentar a casa sozinho desde então. Costumava ser um ótimo pai, mesmo eu sendo um pirralho chato e um bocado hiperativo. Mas mudou da água para o wisky quando uma coisa aconteceu...- Trent fez uma pausa franzindo o cenho com uma intensidade inesperada, anestesiado e sem saber como contar aquilo que guardara consigo a sete chaves - Mamãe morreu quando eu tinha treze anos e todos acham que foi minha culpa. - declarou inseguro.
Não sabia como explicar o por quê de de repente estar à porta do quarto de Trent às quatro da manhã, então não deu logo a resposta de cara. Era como entregar os pontos logo no começo.
Queria dar de ombros e tentar parecer tranquila, talvez tivesse conseguido. - Não, tudo bem - Não se importava realmente de tê-lo daquela forma, quase nu. Não era como se já não houvesse o visto.
Harriett respirou fundo antes de dizer o que havia em mente, por isso, depois que o silêncio se fez em minutos, tomou coragem para dizer: - Trent… Eu não conheço você - Disse, suavemente. Não queria assustá-lo. - Gael surgiu de repente e… Você. Você também. De repente você estava lá e me dei conta de que não sei quem você é. Não sei nem mesmo o seu sobrenome - Desabafou, como se este realmente fosse o problema principal.
Trent analisou a expressão de Harriett, que parecia dizer a verdade, mas algo naquela atitude o fez acreditar que havia sim, algo além de uma simples visita no meio da madrugada. Procurou não se fixar tanto nas razões e deu de ombros. Estava um ar gelado no ambiente, já que Dr. Greene parecia não saber o que era um aquecedor elétrico, no entanto, Trent se esforçou alguns segundos para permanecer ali, em pé, escutando a menina.
Sua expressão ficou fria e dura ao notar a curiosidade de Harri em seu passado. Ficou sério de repente, pois sabia que sua história não era algo como flores e fogos de artifícios, muito menos carregada de sentimentos bons - Hmm...Já que apareceu aqui para saber isso, eu posso te contar - queria protestar, gritar pra ela sair dali como tantas vezes fizera com outras pessoas, porém de alguma forma sentia que com ela podia dizer sobre si. Se ela fosse embora, de fato, não merecia estar ao seu lado, certo? Sua mãe lhe dizia isso com frequência. Trent puxou a coberta e deitou-se na cama, deixando um espaço vago ao lado, deu um tapinha no lugar - Deita aqui - indicou com a cabeça pra ela.
Sem pressa, Harriett analisou-o e concluiu que não seria um incômodo tão grande para o garoto. Sentiu as bochechas corarem mesmo assim, estava tarde e as pessoas costumavam ser menos receptivas a uma visita no meio da noite como aquela.
- Desculpe te acordar... -
Harriett sorriu meio sem graça e adentrou o quarto. Com um suspiro, permitiu-se respirar mais de vagar e acalmar o coração.
Observou vagarosamente a garota adentrar-se em seu quarto, para só então fechar a porta - Tudo bem. Ainda bem que fui acordado por você - abriu um meio sorriso e checou as horas no despertador sobre a escrivaninha de canto. Quatro da manhã. Tentou buscar em silêncio por uma razão pela garota ter ido ao seu quarto, mas não conseguia imaginar o certo, não estava em um bom estado para pensar tanto, nem para ter colocado uma roupa melhor para atendê-la - Espero que não se importe por eu estar...sabe...vestido assim - forçou uma risada rouca - Você está bem? - perguntou baixo.