Não olha pra mim - ela pediu. Com medo. Desamparada. Apenas um corpo perdido no espaço. Um corte dilacerante de uma realidade que se impõe. Olhos que permeiam por entre cascas, mas só alcança o miolo das superfícies. Um giro se repetindo ao redor do mesmo eixo. Como se estivesse num mesmo ponto a vida toda. Não se abre, nem se desdobra - nunca. Parece que vai cair, chega a balançar. E cai. Gêmea de si. Uma chuva repentina experimentada por detrás da vidraça. Um labirinto ao contrário. Quanto mais foge das saídas, mais portas encontra e mais quer continuar perdida, porque sair de si é correr o risco de ver tudo desabar. Quase assassinada pela vida. Um grito parado no ar da garganta seca. Um laço de fita em torno de uma bomba. Que explode. Devasta. Incendeia. E renasce entre dois ou três cigarros. Não olha pra mim - ela pediu. Porque é isso o desamparo, esse vazio pulsante que nos ensina, pouco a pouco a ser mais só. Todo ser é e não é, e assim se faz inteiro. Você sabia que o figo não é apenas uma fruta feia, mas uma flor que brotou pra dentro? Brota-te. Porque se a gente pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Escrevo-te. Porque sei como é horrível enfrentar o peso das horas quando dias são meses e meses são anos. Presa num círculo de giz, que a chuva apaga e a gente, por teimosia, desenha de novo. A vida inteira batendo o prego onde a madeira racha, pra pendurar quadros que terão de ser arrancados da parede frontal da memória. Espero um dia que você saiba que, assim como o mar, as noites tem das suas tempestades. Loucas. Talvez você perceba isso de uma forma catastroficamente linda. Assim como as folhas outonais que se suicidam das árvores, talvez amanhã, as ondas rebentem fortemente. Talvez apenas dancem delicadas e convidativas. Assim como as algas não podem vencer o furor das águas, você sabe bem que para vencer a guerra perderemos algumas poucas batalhas. Há beleza no erro, menina. Vê se aprende isso. Tenha fúria de viver. Quando o dia parecer maior que tudo que foi vivido a tua vida inteira, sinta a brisa molhada pesar os cílios das pálpebras dos teus olhos, escuta o silêncio do ar que nunca é só silêncio, olha o céu – intacto, imenso e tão poético. Eles se assustam com a nudez da tua alma exposta e nem imaginam que o mesmo tempo que passa por eles como um sopro é o que passa por entre essas linhas tortas e corre pulsando por todas as tuas veias. A vida é tão rara, minha amiga, tão rara. Tão linda e tão despercebida. Não ouse pisar nas tuas vontades pra limpar os pés da chuva. Antes do bater do vento, abra as asas e voa. Ser feliz é fácil como o abrir e fechar dos olhos. Olhar pra dentro de si é um risco, eu sei. A solidão vicia. A nitidez da vida do lado de dentro é insuportável. Sofrer faz barulho, eu também sei, mas e o barulho do sol? Do céu? Do sim? Não dá mesmo pra ouvir daí? A vida é simples - milagrosamente simples. Mas viver apenas não basta, minha amiga. Continuar porque não se teve escolha é uma mentira. É uma estrondosa mentira acreditar numa mesma mentira a vida toda porque nunca se teve escolha. Nunca teria escolha. Apenas desejo que você siga em frente. Só não avance de mais pra não cair do outro lado de si mesma. A vida tem lhe aberto tantas portas. Entra? Escrevo-te como alguém que não te conhece, que talvez nunca te conhecerá, mas que soube te sentir quando você simplesmente quis passar desapercebida. Não, não olha pra mim - ela pediu. E eu olhei. Porque você não está sozinha, nunca esteve e jamais estará. Se palavras são braços abertos, esse é o meu abraço. Aconchega-te!