Gabriel ainda pensava sobre a fala retórica de Corinne quando entraram no quarto de Indigo: “Eu espero que tenha valido a pena todos esses hematomas”… a infeliz e óbvia verdade era que, definitivamente, não haviam valido para nada; uma atitude ridícula que destruiria mais ainda sua imagem em rede nacional, aquela que ele lutava tanto para manter depois de todas as coisas erradas que já fizera na vida. Nenhum instante de sua participação na experiência parecia ter valido de qualquer coisa, afinal, além de servir para deixá-lo decepcionado e desacreditado do amor. O encontro com Indigo era muito bem-vindo naquele momento, provavelmente tanto para ele quanto para Corinne, porque mesmo que ela também não se encontrasse em seu melhor momento dentro do programa, ao menos parecia ligeiramente melhor que os outros dois. “Obrigado, Indie! Mas eu realmente não quero dar mais pano pra manga para os produtores, me mudando para o quarto de uma das participantes.” Brincou, ainda que usando palavras sinceras; depois do fato de ter sido tão facilmente perdoado de sua briga na véspera, era óbvio que eles queriam todo tipo de coisa absurda acontecendo a fim de ganhar mais audiência. Nada diferente de outro reality show qualquer, afinal. Com o comentário de Corinne sobre seu erro de escolha, Gabe torceu os lábios de forma decepcionada embora humorada. “Nah, ela tem toda razão…” Era obrigado a concordar com a ex-jogadora, já se pegara pensando por mais de uma vez como teriam sido as coisas se tivesse ficado com Indigo, a garota mais doce e sensata do programa. Infelizmente, na época das cabines, acabara se deixando levar por uma falsa impressão de conexão mais profunda com a ex-noiva devido ao quão longe as conversas de ambos haviam chegado. Well. Era um pouco tarde demais para se arrepender agora pois a vida era feita de escolhas, ele tinha errado e precisava lidar com isso de agora em diante. Ele também decepcionara a ruiva e agora era tarde e até injusto com ela investir em algo além de uma amizade. Gabe agora aguardava encostado contra a parede do corredor, de braços cruzados, inevitavelmente repassando a briga com a agora ex-noiva em sua mente pela milésima vez, mas por sorte a companhia de Corinne e logo a seguir a de Indigo o distraíram daquilo.
O chef simplesmente pôs-se a seguir as moças corredor afora, como sempre se atentando a cada parte ricamente decorada por onde passavam; a caminhada para fora era um pouco longa devido ao tamanho do lugar, e foi até um alívio finalmente deixar as dependências do hotel e alcançar a praia bem iluminada adiante. Enquanto conversavam casualmente, Gabriel observava a paisagem ao redor, as mãos colocadas nos bolsos dianteiros da bermuda e passos arrastados sem se importar muito com o quanto de areia entraria em seus tênis. Eventualmente, os olhos do confeiteiro se estreitaram ao observar um casal na parte rasa do mar - e qualquer coisa sobre a significativamente baixa estatura da mulher o fez dar mais atenção à cena que o necessário. O coração deu uma acelerada ansiosa quando, de maneira incrédula, ele confirmou se tratar de sua ex-noiva e… whoa. O ex-noivo de Corinne?! De maneira inconsciente, ele deu mais alguns passos rápidos adiante apenas para enxergar melhor, enquanto as mãos se soltavam dos bolsos e se fechavam em punho de maneira igualmente involuntária. Sim, sem dúvidas eram os dois mesmo, e ele observava a cena completamente mudo e estático, um misto de choque, tristeza e raiva confundindo-se em seu interior. Uma voz no fundo de sua cabeça lhe dizia que não era da sua conta, mas quando o italiano se abaixou dentro d’água e a mulher se inclinou em sua direção - para beijá-lo?! - o maldito ardor nos olhos voltou a incomodar. Mas ele não podia achar nada daquilo, certo?! O próprio chef dissera à mulher que fosse resolver o que quer que sentisse pelo italiano, poucas horas atrás; e, depois disso, igualmente afirmara ao homem que o caminho estava livre caso ele quisesse investir naquela que fora sua preferida nas cabines. Só não esperava que fosse tão rápido…
Corinne caminhava com os outros participantes em direção a praia, sorrindo em alguns momentos, apesar da situação, era bom estar entre conhecidos que não lhe pareciam estar em uma disputa, o hotel era belíssimo, ela aproveitaria como se estivesse em suas férias, afinal, querendo ou não a proposta que tivera feito de casamento, envolvia mais que propriamente o noivo, mas sim aproveitar como nunca tivera aproveitado um momento. Não tivera percebido o motivo de Gabe ter parado subitamente, ela repetiu o mesmo movimento, seguindo o olhar do homem na direção do mar, franzindo o cenho por tal ação do participante. Azul, era a única cor que ela conseguia ver, o mar era azul, o céu, por mais escuro que fosse, ainda se mostrava azulado e os corpos que se banhavam à luz do luar, tornam-se azuis, não por realmente expressarem tal cor, mas pelo sentimento por trás daquela mera tonalidade, Nora se sentia melancólica, triste e, principalmente, decepcionada, como o próprio significado da cor primária. Por mais irônico que pudesse parecer, aquela também era sua cor favorita. Pegou-se observando ao que o homem estivera encarando, estreitando seus olhos perante aquela cena. E então, como se estivesse revendo vários momentos que tivera vivenciado com o noivo, inclusive nas conversas e acordos que tiveram feito mais cedo, sentiu seus pensamentos clareando, como em um passe de mágica e logo tudo fizera sentido. Não importava se ela fosse a rainha do planeta, a vilã da novela ou até mesmo o príncipe encantado, ela nunca seria amada por alguém que não a desejava, não existia reciprocidade naquela relação. E não tivera sido da sua parte, Corinne tentara passar por cima dos problemas que aconteceram, por mais angustiante que tivesse sido pensar na possibilidade de um perdão, ela pensou e deu uma nova chance - mesmo não acreditando em segundas chances -, deixou-se levar com a premissa que ficariam bem de novo. Tola. Estaria mentindo se dissesse que acreditou que estava tudo bem quando, no fundo de seu subconsciente, sabia que não estava. Nora não poderia ter paciência com alguém como seu noivo, ou ex-noivo, era tamanha incoerência que ela só desejava que ele pudesse enxergar seus próprios comportamentos e falas, tudo era nauseante. Sentiu um leve arrepio em seus braços, mas dessa vez não era por conta do ex-noivo, sim por conta do frio. Ele finalmente havia aniquilado suas chances e ela estava ligeiramente satisfeita por saber que não chegara tão longe para descobrir quem ele verdadeiramente era. Sobre ele, a única coisa que ela queria era distância e esperava, do fundo do seu miocárdio sentimental, que ele amadurecesse e percebesse que existiam pessoas que estiveram dispostas no passado. Passado. Não seria agora que ela mudaria sua personalidade para se adequar a um homem que tivera conhecido, a ideia de só ter Enrico como opção, concebia reviradas em seu estômago. Era nauseante aquela única possibilidade, seu carma deveria ter sido muito grande para receber tal presente grego dos céus. Aquele pedido de casamento tivera sido uma verdadeira caixa de pandora, mas ela poderia muito bem fechar a maldita tampa, não estava tão miserável e desesperada para ter um noivo como aquele. Nop. Sua boca estava retorcida em desgosto, para tudo existiam soluções, estava viva e em seu melhor estado, o mundo era enorme e com milhões de outras possibilidades, não iria sofrer por algo que já estava fadado ao fracasso. Mas Gabe, infelizmente, não parecia possuir os mesmo pensamentos. “Uau.” Ela diz com uma voz suave conforme chega perto de Gabriel. “Essa é uma bela vista.” A ironia em seu tom de voz misturava com a acidez venenosa que ela tivera expressado diversas vezes naqueles últimos dias. Nora respirou profundamente e sentiu sua postura se enrijecer, ela ainda era uma maldita quarterback que pegava o controle da sua vida de volta. “Só lamente uma vez, Gabe.” Ela falou ríspida, alcançando a mão em fechada em punho do homem, colocando a sua por sobre a dele, como se amenizasse o aperto, tentando misturar seus dedos nos dele, para que ele relaxasse tal intenção. “Eles não valem a pena… Partiram o seu coração, mas você é forte para se reerguer, não se deixe cegar pelo ódio, não se deixe poluir por esse sentimento, enquanto este é apenas um reflexo daqueles que estamos vendo. Vingue-se da maneira mais cruel que existe: esqueça-os!” Ela sussurrou suavemente, beirando o gentil, mas ainda extremamente realista, puxando-o para a realidade óbvia, não adiantava agir como um homem das cavernas como tivera feito anteriormente e apenas se magoar, mentalmente e fisicamente, mais uma vez. Era inútil e como um looping infinito e destrutivo, uma vez feito, feito está. Não seria dessa vez que Nora cairia nesse ciclo vicioso. Azar o deles. Ela simplesmente não sentia mais nada, ela tinha amor próprio suficiente para apenas destinar aos pombinhos o seu desprezo.
“Sinto muito..” foi tudo que Indigo disse diante da afirmação de Gabriel, não poderia dizer que não passava em sua cabeça o que poderia ter acontecido se as coisas com Gabriel tivessem sido mais intensas, da mesma forma que se questionava se não devesse ter agido de outra forma com Khalid. O fato era que agora, pensar no que poderia ter acontecido ou não, o que poderia ter feito de diferente, não adiantava em nada, era aquilo e pronto, aquela era a realidade deles e não tinha como mudar as coisas. Caminhava com os colegas enquanto falavam de coisas aleatória da vida, algumas risadas escapavam vez ou outra, era bom falar de coisas sem ser relacionado aos últimos acontecimentos. Tudo parecia bem até que chegaram na praia, não entendeu a parada súbita de Gabe e seu cérebro demorou um pouco para processar o que estava acontecendo. Seus olhos viam os dois bem diante deles, mas sua mente não parecia querer acreditar que estava mesmo vendo aquilo. Não queria escolher um lado sem ao menos ter a chance de conversar com Connie e Enrico, mas vê-lo juntos e ver como Gabe e Nora estavam se sentindo, fora impossível não se sentir irritada perante a cena, como eles podiam? Afinal no dia anterior ambos estavam noivos e diziam amar os parceiros. Seu estomago se contorceu diante do que estava vendo, se tinha alguma duvida de que o programa havia perdido total o sentido, elas se esvaíram ali naquela praia. “Gente..” ela exclamou com um tom perceptível de surpresa, ainda sem acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo com os amigos, o quão irônico era aquilo? Gabe e Nora estava juntos, no exato momento em que seus exes se beijavam na praia? A vida gostava mesmo de tirar uma com a nossa cara. “Nora está certa, Gabe! Não vale a pena..” tratou em dizer, por fim, voltando a realidade e digerindo tudo que estava vendo, colocando uma das suas mãos no ombro do amigo, indo em seguida para a frente dos amigos, sorrindo compreensiva. “Nenhum de vocês dois merecem ver essa cena! Por favor, vamos embora daqui?!” ela disse, só queria tira-los dali, eles não mereciam, ninguém merecia passar por aquilo. Era uma cena deplorável, um baixo nível desumano, Indigo estava irritada, e se para ela já era difícil ver tudo aquilo, mal podia imaginar como os amigos estava.