Gisèle Freund - Walter Benjamin at the National Library of France (1937).
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Gisèle Freund - Walter Benjamin at the National Library of France (1937).
Sinnlos: capturas da imersão em Tramas do Entardecer (1943)
Este é um curta-metragem de 14 minutos dirigido e protagonizado por Maya Deren, em 1943. Assisti a ele e discuti-o com três amigos do curso de Filosofia, com o objetivo de explorá-lo [o curta] a partir da leitura d’O Anti-Édipo, escrito por Deleuze e Guattari. As sequentes reflexões são parte do resultado de um processo de diálogo em conjunto muito rico, as quais agora, porém, não seguem uma linha de raciocínio precisa. E talvez agora sejam sem sentido, perdido de sentido, como sinnlos, pois sinto que não consegui fazer transpassar do pensamento para a letra o que eu gostaria de dizer. Mas bem, se fui tomada pelo filme, esta também há de ser uma produção um pouco experimentalista.
Esse audiovisual trata-se de uma produção surrealista e experimentalista, que visa mesclar elementos dos sonhos e da vida desperta, sendo essa a “realidade absoluta”, segundo Breton, em seu Manifesto Surrealista de 1924. O estado de devaneio confuso entre o onírico e o vigilante traz consigo inúmeras significações.
A começar pela técnica fílmica de focar precisamente em objetos que pareceriam insignificantes para olhos hipermasculinos: uma chave de casa, uma faca de cortar pão, uma flor e um espelho. A mulher protagonista parece sufocada pelo ambiente doméstico. A sombra ou o fantasma, ser atrás do qual ela corre, tem o rosto em forma de espelho - elemento que muito me intriga. Quanto ao correr atrás de, lembro do aviso daqueles autores: não é o objeto desejado que escapa ao sujeito, mas justamente o contrário. O sujeito é que escapa ao objeto, já que [o sujeito] só pode existir desarranjando-se constantemente e escapando a quaisquer tipos de determinações. (Só há sujeito fixado pela repressão). Então, embora a mulher corra desesperadamente atrás de sua sombra, o desejante em busca do desejado, é ela mesma quem escapa a ele. Pergunto-me: o que aconteceria se seu rosto e o espelho, rosto da sombra, se encontrassem? Certamente ninguém sabe e o filme não resolve essa questão. Entretanto, como havia dito Pierre Clastres em A sociedade contra o Estado: “É necessário aceitar a ideia de que a negação não significa um nada, e de que, quando o espelho não nos devolve a nossa imagem, isso não prova que não haja nada que observar”. Ou seja, o espelho, no melhor dos sentidos, não nos devolve a nossa imagem narcísica, que temos de nós mesmos, ‘exata’ nos nossos termos. Diferentemente disso, ele nos mostra diferenças, restos, precariedades, as quais temos de atravessar. Atravessar o espelho? Seria um modo de deixar-se ser interpelado ou atravessado por questões-outras que não estão em nós; uma atividade do encontro, que, em alguma medida, é também um desencontro, visto que não há encaixe perfeito entre os seres - um processo de desencantamento. Curiosamente, a atriz, ao final do curta, destrói o espelho, quebra-o, e esta é a sua maneira de atravessá-lo. Desfazer-se do encontro também é possível. Dizer não também é uma possibilidade que temos que fazer ser nossa, sobretudo para nós mulheres, cujo lugar foi posto como o lugar da submissão, permissividade, o lugar de quem-sempre-diz-sim.
“Feitiço para Salvar a Raposa Serra do Sol”, pintura do artista indígena makuxi, Jaider Esbell (2019).
“‘Exotic’ - what does that even mean?”, desenho de Valerie Darkie. Uma pergunta obrigatória para fazermo-nos.
A pintura retrata as “mulheres girafa”, do povo Ndebele, em Lesedi, África do Sul. Elas possuem seus pescoços esticados por grandes argolas de metal para que, depois de casadas, não fugissem de seus maridos e nem olharem para o lado. Não cabe aqui fazer uma análise da suposta opressão de gênero que elas sofreriam; uso ‘suposta’ porque a categoria de gênero tem raízes europeias e é tida como universal. Escapa a minha competência e a meu objetivo fazer uma análise dessa cultura retratada em específico.
O desiderato da reflexão, portanto, se faz acerca da categoria “exótico”, como dito no título da obra artística em questão. Uma categoria que nós, enquanto branquitude, criamos e a atribuímos apenas à Outridade - diferente de ‘alteridade’, que seria um conceito muito brando, apenas retratador de um qualquer outro. Diferentemente disso, Outridade (termo usado por Grada Kilomba em Memórias da plantação) tem como fim designar os povos sob cujo genocídio construímos a tão venerada “civilização”, putrefata e aniquiladora de outras formas de existir, baseadas estas na união coletiva, no profundo respeito à natureza, muito diferente dos valores individualistas e competitivos das sociedades neoliberais, cujo germe está na Europa e nos Estados Unidos -.
Digressão longa, mas voltemos. Nós reprimimos as nossas próprias características agressivas, recalcamos o quão opressores, violentadores e espoliadores somos. Mais perversamente ainda, projetamos esses prefixos, que escondemos de nós mesmos, nesse Grande Outro. Aqui, no Brasil, sobretudo, nas figuras do negro e do indígena - termo que significa povo originário de uma terra, cujo antônimo é alienígena. Ora, curioso pensar em nossos colonizadores como alienígenas, e não naqueles seres extraterrestres, não? (Cf. Viveiros de Castro, Os involuntários da pátria, 2016). Tamanha e tacanha é a ubiquidade da violência que criamos e perpetuamos todos os dias. É chegada a hora de nós, brancos, ouvirmos, responsabilizarmo-nos e sentirmos vergonha do que criamos enquanto grupo político, da máquina mortífera engendrada por nossos antepassados. Antes tarde do que mais tarde. O momento é de nos reconhecermos, um pouco como na Fenomenologia do espírito de Hegel, a partir do contato com o outro, mas com diferenças, porque o pensamento deste autor não permite alteridade, uma vez que o eu sempre a alcança e a fagocita, sem permitir que ela seja quem ela é, simplesmente. Desta vez, temos de reconhecer o choque abissal e deixarmos a nós mesmos sermos interpelados e nos vermos como estranhos, esquisitíssimos senhores da opressão em processo de responsabilização e amadurecimento. Precisamos ouvir, muito mais do que falar.
O passeio do esquizo como diluição da distinção [ser humano-natureza]
Obra sem título da artista nigeriana Valerie Darkie.
Cresce-se junto com a natureza.
“‘achava que deveria ser uma sensação de infinita felicidade ser tocado assim pela vida primitiva de toda a espécie, ter sensibilidade para as rochas, os metais, para a água e as plantas, captar em si mesmo, como num sonho, toda criatura da natureza, da mesma maneira como as flores absorvem o ar com o crescer e o minguar da lua’. Ser máquina clorofílica ou de fotossíntese ou, pelo menos, enlear seu corpo como peça em tais máquinas. Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um processo que os produz um no outro e acopla as máquinas”.
- Deleuze & Guattari, O Anti-Édipo, I.1.1.
Pinturas de Jaider Esbell, artista indígena do povo makuxi. Obras da série “Chamada para Abertura da Década da AIC - Arte Indígena Contemporânea no Mundo” (2020).
Breves considerações sobre o tema da ancestralidade
“Gathering”, da artista nigeriana Nengi Omuku (2020).
Essa pintura muito me tocou e a cada vez que olho me toca mais. ‘Gather’ em inglês significa ajuntar, agregar, reunir-se. Na foto, reúnem-se diante de um morto da comunidade. Já nos ensinava Antígona, tragédia grega escrita por Sófocles, que o direito de velar os mortos é algo fundamental para uma sociedade. Os vivos precisam lidar com o luto, reformulação do amor, ao passo que aos mortos têm de ser dada uma passagem de vida digna.
Não à toa os corpos da imagem são negros. Não sei em que contexto local-temporal a artista fez sua obra, mas lendo-a aqui no Brasil, o significado que podemos extrair é a presentificação da negação do direito às pessoas negras de velar os seus mortos pela violência policial do Estado e de que suas vidas não sejam números contabilizados pelos jornais ou simplesmente tratados injustamente como “traficantes”, “moradores de favela”, “delinquentes” e tantos outros termos invisibilizadores e desrespeitosos com a existência de tanta gente inocente. Acostumamo-nos a achar que o lugar do negro é o lugar da marginalidade, do crime, da subalternidade, como se se tratasse de uma causa transcendente insuperável. Ideologia perversa e manipuladora. Marielle Franco, João Pedro, Ágatha Félix, Guilherme são alguns dos nomes que me vêm agora à cabeça.
Penso também no tema da ancestralidade, caro às comunidades negra e indígena, cujo genocídio fundou o Brasil - nome dado ao nosso país devido ao pau-brasil, árvore que dava a cor vermelha, cara para a época (quanto mais colorido o pigmento, mais caro) e que se encontrava em abundância quando os portugueses realizaram aqui o seu malencontro desgraçado, para dizer o mínimo. A coisa-árvore foi extinta, mas o nome ficou. Diferentemente da consciência, em tais comunidades a memória é que é viva. Memória dos povos sem escrita, passada oralmente de geração em geração, porque, diferentemente de nós, que precisamos escrever para lembrar, os saberes em seus corpos estão vivos. Eles não precisam de documentos e provas físicas, sua prova é a oralidade ela mesma. E em nome da tal “cultura letrada” europeia, que foi imposta ao resto do mundo, seus saberes são apagados e demonizados.
Glosamos a genial Lélia Gonzalez, em Racismo e sexismo na cultura brasileira: “Consciência exclui o que memória inclui. (...) consciência se expressa como discurso dominante (ou efeitos desse discurso) numa dada cultura, ocultando a memória, mediante a imposição que ela, consciência, afirma como verdade. Mas a memória tem suas astúcias, seu jogo de cintura: por isso, ela fala através das mancadas do discurso da consciência”.
Opinião sobre a pornografia Não há devassidão maior que o pensamento. Essa diabrura prolifera como erva daninha num canteiro demarcado para margaridas. Para aqueles que pensam nada é sagrado. O topete de chamar as coisas pelos nomes, a dissolução da análise, a impudicícia da síntese, a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus, o tatear indecente de temas delicados, a desova das ideias – é disso que eles gostam. À luz do dia ou na escuridão da noite se juntam aos pares, triângulos e círculos. Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros. Seus olhos brilham, as faces queimam. Um amigo desvirtua o outro. Filhas depravadas degeneram o pai. O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho. Preferem o sabor de outros frutos da árvore proibida do conhecimento do que os traseiros rosados das revistas ilustradas, toda essa pornografia na verdade simplória. Os livros que os divertem não têm figuras. A única variedade são certas frases marcadas com a unha ou com o lápis. É chocante em que posições, com que escandalosa simplicidade um intelecto emprenha o outro! Tais posições nem o Kamasutra conhece. Durante esses encontros só o chá ferve. As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios. Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra. Dessa maneira um pé toca o chão, o outro balança livremente no ar. Só de vez em quando alguém se levanta, se aproxima da janela e pela fresta da cortina espia a rua.
SZYMBORSKA, Wisława. "Opinião sobre a pornografia". In: Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. [Tradução: Regina Przybycien]
Pinturas da série “It was Amazon” - “Era a Amazônia” do artista indígena makuxi Jaider Esbell. Cheias de significados. A cada vez que olho percebo mais algum elemento. Penso no que o verbo ‘era’, conjugado no passado, do título quer dizer: algo que já foi e não é mais. A Amazônia não é mais a mesma e corre risco de savanização todos os dias. Governar no Brasil é criar desertos, já dizia Viveiros de Castro. Governo vai, governo vem, floresta no chão. A esquerda que se preze não pode ignorar a urgência ambiental. A praga dos povos cristianizados, empobrecida de pensamento, putrefaz tudo que toca. Uma vez que se derruba a floresta, os povos originários passam por pauperização, se tornam pobres, predicado que não fazia sentido antes para eles.
Genial. Tantos elementos capturáveis e incapturáveis - porque algo sempre resta, uma vez que o não-saber é condição para o saber - em uma entrevista só. Talvez o que mais me tenha chamado a atenção: a ideia posta por Walter Benjamin, segundo a qual quanto mais difícil é um autor, mais transcriável ele é em outra língua. A tarefa do tradutor, então, consiste em alargas as fronteiras do pensamento, mantendo-se fiel à língua de partida e “traindo” a de chegada. Esta, por sua vez, tem que ter o seu conteúdo ampliado. Um pouco como Viveiros de Castro em seu método de equívoco controlado, quando diz que é necessário fazer uma operação intelectual comparativa a fim de permitir que os conceitos se deformem - assim, desprovida e despretensiosa da redução identitária, rica, poiética, produtiva.
Aldeia yanomami em 2020. Recado para protegerem-se do garimpo que ataca ainda mais os povos durante a pandemia da COVID-19.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura — ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo — a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago, pp. 18-19.