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@inquietoo
(Esse é um texto pesado que surgiu a partir de histórias ouvidas na internet e na vida real. Contém citações à violências e à situações fortes da vida. Se, de alguma forma você sente que pode te fazer mal, não leia)...........
A realidade foi estuprada quando criança. A trataram como carne. Nua e crua. Ela dormia com uma faca abaixo do travesseiro e de porta trancada para, de novo, não ser estuprada. A realidade trai. Ela bate na esposa e apanha do marido. A realidade trai. Ela é morta todos os dias confundida com bandido. Ela perde um filho todos os dias porque eles foram confundidos com bandidos. A realidade, "sem querer", confunde. Risos. Choro. Dor. A realidade ama uma confusão.
Às vezes ela até se disfarça por uma senhora de classe média com seus 45 anos, mãe de família bela, recatada e do lar. Eu diria até que mora na Barra. Quem não te conhece que te compre. A realidade fuma. Cigarro, maconha, e o que quer que você pense. Ela se droga. Ela bebe. Água, cerveja, 51 e gozo. Ela fode. Vidas. Pretas. Coloridas. Ela geme. De prazer. De dor. Ela, a realidade, ama se maquiar. Para ela, quanto mais preto no branco - digo, quanto mais branco no preto -, melhor. A realidade é racista.
Ela também tem problemas com a filha. Ela tem problemas com os pais. Ela tem câncer. HIV. Teve um derrame. Descobriu falência nos rins e agora anda de cateter no pescoço. E a realidade não tem plano de saúde.
Ah, tá chocado?! Ta chocadinho que as coisas não são assim, 8 ou 80? Tá surpreso com o fato de que existem 72 possibilidades entre 8 e 80? E entre 8 e 8,1. Sabe quantas? Tá triste porque descobriu que a realidade não é essa coisa bonitinha que pintaram para você? É assim mesmo! A realidade gosta de se passar por boa moça, aparece simples com um vestido branco para comemorar a passagem de ano. Mas na realidade, ela é mais guerra do que qualquer outra coisa e odeia positividade demais. Ela é um tiroteio na zona norte. Outro no centro. Ela é uma bala perdida. Um coração partido. Ah, a realidade votou em Bolsonaro. Morreu com dois tiros nas costas duas semanas depois.
A realidade acorda todos os dias às 4h da manhã para estar no trabalho às 8h, mesmo que o filho tenha sido confundido com um bandido. Ela precisa trabalhar. Ela é um ônibus lotado cheio de gente suada que esqueceu de passar desodorante.
A realidade às vezes tem vontade de se matar. E ninguém entende o porquê. Só dizem que é "falta de Deus", ponto. Como se as coisas, fossem, de fato, preto no branco, 8 ou 80.
Esquecem (ou não sabem?!) das infinitudes desse mundo?!
Peterson Macêdo
o que nos resta?
Outro dia me disseram que a melhor forma de guardar algo ou alguém é deixá-lo livre, à mostra. Deixar alguém livre de amarras é a forma mais saudável de fazê-la se sentir à vontade o suficiente com você. É, em contrapartida, também o maior dos riscos: o de deixá-la ir para nunca mais voltar. E tá tudo bem, eu acho. Pelo menos, deveria estar. O complicado nisso tudo é que é muito tênue a linha entre deixar alguém a vontade e se tornar refém das vontades desse alguém. É preciso um nível elevadíssimo de controle e maturidade emocional.
Em meio à tentativas de ser saudável, acho que estou doente, no fim das contas. Acho que desaprendi (ou talvez nunca tenha aprendido) a amar do jeito saudável. A diferença é que agora, com esse papo de "deixar o outro livre" - que não é furado, diga-se de passagem-, fico sem saber até que ponto devo falar e até quando devo não falar nada.
Só que tem coisa que a gente não controla. Tem coisas que não permitem controle. E às vezes a gente nem sequer quer controle. O descontrole aguça a humanidade que há em cada um de nós. E por falar em (des)controle, "eu não consigo parar de pensar nele", a gente diz. E a gente também diz que precisa parar de pensar nele. E quanto mais a gente luta, mais piora (ou melhora?!). "Não pense no elefante rosa, não pense no elefante rosa", e lá está, o elefante. Rosa. Tão transparente quanto um elefante rosa. "E se a gente colocar na cabeça que é coisa da cabeça, o coração consegue esquecer?".
Não adianta. Parece que esta porra tem memória mesmo, das boas. Melhor que a minha, inclusive. A gente tinha até esquecido como é se apaixonar por alguém. Tava tão bom, na ignorância conquistada. Conquistada com tanto tempo, com tanta lágrima, com tanta rachadura no coração que parecia que a gente tava mesmo era de Alzheimer, e que lembrar era uma missão impossível (e até indesejável). "Quero minha bitch age de volta". Not, gonna, happen.
Quando a gente quebra o ciclo vicioso do lado de cá: o de conhecer-ficar-enjoar, coitados de nós. Mal sabemos que estamos no ciclo vicioso do lado de lá. Cada um com seus processos, né? Alguém tem que sair perdendo, pra ninguém sair ganhando.
A gente acorda de manhã e pensa na criatura. A vontade é sair de si, rasgar a pele e sair de si, e ainda assim, conseguir correr pelas ruas e gritar que não. "Pelo amor de Deus, não!". E o pior?! É que quando você lembra o que é sentir de novo o que você nem sabia que seria capaz de sentir novamente, parece que você ta sentindo mais forte que antes. A questão toda é que antes já foi forte o suficiente. Será?!
Ser saudável é difícil. Ser nocivo angustia. O que nos resta? O acaso.
- Peterson Macêdo
❤️ (em Lençóis)
life
Quase dois anos atrás escrevi um texto em que pedia a não sei quem ou o quê - prefiro acreditar que ao universo - que a vida me desse caminhos difíceis, e assim ela o fez. Quando escrevi aquelas linhas, era só um garoto que há um ano havia terminado o colegial e estava prestes a entrar na faculdade de jornalismo. Não fazia ideia do que me esperava e a neblina que ofuscava meu futuro me angustiava junto com todas as inseguranças que faziam parte de um garoto de 18 anos. Eram tantas dúvidas e eu definitivamente não sabia para onde ir. As cobranças do sistema latejavam em meus pensamentos em parceria com as singularidades de minhas condições humanas. Então mudei de cidade e me vi dando passos cada vez mais delicados, perigosos. Me vi sozinho, mesmo que acompanhado. E quis voltar, mas não voltei. Segui em frente, mesmo quando os caminhos soavam cada vez mais confusos. Então me deixei levar pela aleatoriedade dos ventos. Me joguei em precipícios que me ensinaram a voar por entre as nuvens. Mergulhei no mar frio ao chorar desilusões como quem atingiria o fundo do mundo. Numa pedra, peguei impulso e sai das águas passadas. Voei de novo.
Ainda naquele texto, pedi que a vida me desse oportunidades que me fizesse expandir horizontes. Caralho, que vida boa: assim ela o fez, ampliou minha visão de mundo de um jeito tão esquisito que me senti uma … das contas de matemática ao perceber que toda empatia é pouca e que sempre podemos sair do nosso quadrado, por maior que ele se torne. Há sempre uma realidade para conhecer, sabe? Há sempre uma paixão para viver, um amor para sentir, mil amores para sentir. Amor o tempo inteiro, para todo mundo, amor grátis, toda hora. Amores para sofrer, também. Para sorrir, chorar, aprender e crescer. Há tantas pessoas além de nós, tantas histórias, tantas complexidades que merecem ao menos um pedaço de nossa atenção, assim como a nossa merece a do outro. Há tantos jeitos, tantos caprichos, tantos repertórios. E há tanto de mim para sentir também, há tanto de mim para amar. Mas toda liberdade é pouca e a gente sempre quer mais, eu quero mais. Parafraseando meu mestre Ricardo Aragão, estamos presos nas correntes da liberdade. E as incertezas que tanto admiro hoje me sufocavam tanto naquela época que eu me sentia como uma bala de revólver a ser atirada no escuro. E eu era. Eu era esse tiro no escuro. E sou ainda. E serei até que morra. Só que agora, o crescido e eterno pequeno garoto entende um pouquinho mais desse mundo. E entende que não precisa entender tudo. Compreendeu que, mesmo diante de todos os valores e conceitos que carrega, talvez o mundo não precise de tantas complicações e sim de um bocado a mais de amor e empatia. Entendeu que ninguém é totalmente bom ou totalmente mal e que as contradições humanas sempre dirão oi nas oportunidade mais inadequadas. Entendeu também que para a vida e para a realidade- essa coisa que a gente acha que vem pronta para nós- o adequado não tem vez. Então aprendeu a lidar com isso, ao menos um pouco. E agora não tem tanta pressa, porque sabe que as coisas vão dar certo. E errado de novo.
- P.M
Todo mundo trava uma batalha
É duro ser forte. Ouvi isso hoje num vídeo que uma mulher gravou sobre síndrome do pânico. E sim, é duro ser forte. É difícil e doloroso. Ser forte, é de chorar, e é pesado. A gente descobre que é forte em momentos diferentes da vida e de formas diferentes também. Mas geralmente, no geralzão mesmo, a gente se descobre forte quando se vê imerso no universo dos adultos. As coisas começam a acontecer ao seu redor ou com você e é como se tudo fosse um recado do universo para você. Mas ele não é direto e é você quem precisa perceber esses sinais. Aprendendo com o erro do outro e com o sofrimento do outro TAMBÉM. Uma forma muito inteligente de aprender, ouvi dizer. E é duro, para o Exmº. Sr. CA-RA-LHO. Você, aquela criança que ouvia música X e dançava sem medo de ser feliz, ou que amava o DVD da Y, que gostava de qualquer outra coisa que hoje soe muito, mas muito nostálgica. Você, aquela criança que cresceu. Se tornou adulto. Você, que era "o futuro do país", agora é o próprio país de alguma forma e deposita nos próximos (os bebês de hoje) um novo "futuro do país" (Nesse sentido, nada diferente do que já se viu até aqui).
Tá, mas de alguma forma a gente mudou e tem mudado muito por aqui. Somos mais tolerantes, no fim das contas (eu prefiro acreditar que somos, porque nossa geração, apesar de fodida do juízo, me parece mais empática e bem mais disposta a debater assuntos que PRE-CI-SAM SER DE-BA-TI-DOS).
Mas enfim, você, aquela criança, cresceu. E agora as pessoas morrem aos montes ao seu redor. E ficam doentes, e têm AVC, e infartam, e têm câncer, e se suicidam, e matam as outras também. E agora as pessoas perdem pais, filhos, primos, amigos. Não que isso não acontecia quando você era pequeno, e não que você não percebesse isso quando era mais novo. Mas agora parece que você percebe isso de forma mais intensa. De alguma forma, parece que é tudo um RECADO para você. Se não tiver sido com você, ou com seu pai, parece um peso em suas costas ainda assim. "Trate melhor as pessoas que te amam", "Esteja mais ao lado deles", "Seja mais empatico, cada um trava uma batalha", "Se cuide mais, se ame mais", “Ame mais”, “Se importe menos”.
E ainda assim é tão duro, tão pesado, tão triste, tão horrível, tão injusto que as pessoas tenham cruzes tão pesadas para carregar. E é mais pesado ainda o fato de que elas precisam continuar suas vidas. Elas PRECISAM seguir o baile de alguma forma. Elas precisam ir à festas em algum momento, precisam levar o netinho ao parquinho mesmo que a filha não esteja mais lá porque o marido fez a matou. Elas precisam continuar a abrir o comércio, porque a vida não dá descanso. Elas precisam ir ao trabalho e para a faculdade fingir felicidade mesmo com o coração dilacerado pela morte do pai ou da mãe.
É pesado (e ao mesmo tempo necessário) o fato de que nada se apaga. NA-DA. Meus tios vão estar vivendo uma manhã qualquer de 2040 e a minha prima ainda vai estar lá, na lembrança deles. A dor de tê-la perdido ainda vai latejar, de alguma forma. Meu primo vai estar tocando numa banda em algum lugar por aí no Brasil e vai lembrar da irmã. O resto da família, igualmente. A gente vai estar numa balada, e do nada vai lembrar do quão injustas são as coisas, conosco e com os outros. Mas a gente VAI TER que CONTINUAR dançando, porque se não, não faria sentido a vida. Minha amiga, um dia, vai lembrar da mãe que se foi. O namorado de minha irmã ainda vai lembrar do pai lá na frente, e vai doer. Ainda que de uma forma diferente, vai doer. Talvez menos, talvez mais, eu não sei. Mas continua sendo ferida mesmo que com cicatriz. Meu amigo ainda vai lembrar daquele erro do passado. Meu conhecido ainda vai lembrar daquela perda. E meu desconhecido também. E eu também: daquela perda, daquela luta interna, daquela paixão, daquele "passou" que "continua" aqui.
E é muito mais duro ainda quando ser forte significa tentar não deixar morrer a criança que há dentro da gente mesmo com tanto peso para carregar. É tentar continuar sentindo a nostalgia, o arrepio quando aquela música HINO ANTIGUÍSSIMA tocar, seja ela qual for. É rir e gargalhar sozinho, do nada, por um motivo avulso que só a gente precisa saber. É cantar em alto e bom tom, com olhos fechados e braços pra cima aquela música de 2005, ou aquela de 2017, quando 2017 já tiver virado passado.
Eu acho poético que, em fotografias, assim como na morte, fica congelado tudo o que fomos até aquele clique. Ali, estamos finalizados. Naquela foto, somos TUDO que já vivemos e fomos até ali. Aquele sorriso ou careta guarda todas as lágrimas e gargalhadas, saudades e dores, assim como a face apática da morte. Isso é no mínimo absurdo e não existe máximo. Mas fato mesmo é que a gente vai inevitavelmente se tornar agridoce com o passar dos tempos. Mais cedo ou mais tarde, amargos e doces. “Eu sou feita de lágrima”, disse uma CRIANÇA no programa de hoje do The Voice Kids. Eu sou, também. Somos todos. De lágrimas, de saudades, de sorrisos, de angústias, de tantas coisas boas e ruins. Somos coleções de momentos em exposição a longo prazo no museu chamado corpo (mas pode ser a curto prazo também. Maria Rita me disse uma vez que tem gente que veio só olhar). E nosso corpo é peça rara - diria até única - no museu chamado mundo.
Esse é só um desabafo de alguém que cresceu e que anda angustiado com o fato de ter se tornado adulto. De alguém que tem aprendido com o sofrimento e com o erro do outro também. Apesar da melancolia que há em tudo isso, eu sei que a gente precisa e deve continuar. Sorrindo, sobretudo. E que sejam sorrisos verdadeiros. Talvez não seja tão ruim assim, continuar e lidar com as dores: no fim das contas, elas também são nossas amigas, as dores. E se não são, devem se tornar em algum momento, nossa companhia. Afinal de contas, nada se apaga. NA-DA. Para o bem e para o mau. Acho que a gente aprende a lidar com tudo isso, né?!
Pensativíssimo (em Feira de Santana)
Coletivo
Ao meu lado, no coletivo, o rapaz pergunta a conhecida que encontrou:
- tua mãe tá dodói, é? - é. - de quê? - é difícil explicar. são vários problemas, a gente entrega na mão de Deus, né?! - É que nem a minha, fia. É... Minha mãe teve câncer no colo do útero e a sorte foi que eu morava em São Paulo, na área da saúde, e consegui todo o tratamento de graça. Se não fosse isso... - respondeu o rapaz que há tão pouco era só mais um rapaz para mim.
- Peterson Macêdo
🌴🌴🌴 (em Serrinha, Bahia, Brazil)
aikisaudade desse tempu 😍
Lights (em Uefs - Universidade Estadual de Feira da Santana)
rema pra cá e flica comigo ❤️ (em Flica - Festa Literária Internacional De Cachoeira)
O que te arrepia? "pet, toma, comprar pra você".
em Feira de Santana
vc quer Chicago Fire? (em Feira de Santana)
procura-se uma cura para a concha acústica. ops n tem rs (em Teatro Castro Alves)