Daqui alguns dias irei em mais uma consulta, dessa vez será com outra psiquiatra, estou fazendo uma lista de coisas que eu deveria falar, mas nenhuma faz sentido. Talvez eu deva apenas responder as perguntas, ou então desabar sobre como muitas vezes me sinto inútil e como isso me angustia. Eu posso surtar também e ter uma crise de pânico sentada de frente com a doutora, a falta de ar me impediria de falar e ela provavelmente aumentaria as doses dos remédios.
Sabe quantas vezes já pensei em tirar minha vida? Dezenas de vezes. Sabe quantas vezes eu tentei? Três. Sabe quantas vezes me mutilei tentando pedir socorro? centenas. Mas nenhuma palavra, marca ou cicatriz foram capazes de fazer tudo isso parar.
Lembro-me de quando eu tinha 12 anos e vivia me unhando e me cortando, sempre que meu amigo Wiguerson percebia o que eu estava fazendo, ele sentada ao meu lado na sala de aula, segurava meu braço e ia passando água em cada ferida... Em dois anos, ele foi a única pessoa que percebeu que eu precisava de ajuda, e ele tentou fazer de tudo para que eu parasse, mas eu queria continuar.
Posso parecer um pouco louca, muitos dirão que não tenho motivos para isso, mas eles realmente não sabem o que estão falando. Perdi meus avós aos nove anos de idade, na mesma época encarei o divórcio dos meus pais e o casamento do meu pai com a amante dele. Ele sumiu por um ano e voltou como se nada tivesse acontecido. Mesmo assim, eu o perdoei.
Minha mãe começou a exagerar na bebida e juntava com remédios fortes ( antidepressivos tarja preta), ela sempre fazia escândalos em churrascos dizendo e gritando o quão ruim eram as filhas dela ( uma com 11 e a outra com 14). Ela estava sempre desmaiando. As vezes nos trancava para fora de casa e tinhamos que dormir em amigas dela. Ela nos batia, nos ofendia e nos xingava todos os dias.
Não consigo me esquecer do dia em que ela me deu um tapa na cara por eu ter dito que queria passar o final de semana na casa do meu pai. Ela fala que nunca tentou nos afastar dele, mas era o que ela mais fazia, e no fundo, tudo o que queria.
Eu quase morri afogada em 2014 numa praia em Santa Catarina. Eu descobri dois nódulos no seio direito que tinham grande chance de se tornar câncer em 2016, chorei por noites com medo de ficar feia careca, com medo de ser desprezada, com medo de sentir dor. Fui torturada psicologicamente pela minha madrasta por três anos, e tratada como um fantoche. Quase fui assassinada em 2017. Tive meu corpo violado por quem eu considerava meu irmão. Em 2018 fui perseguida por um homem com quase a idade para ser meu pai, ele me seguia no meu caminho para a escola e tentava me forçar a entrar no carro dele. Ele ia até a escola e dizia para o diretor que era um parente e precisava falar comigo, para me tirar da sala e ter uma chance de tentar me beijar, isso durou quatro meses, e eu quase surtei. Quando ele sumiu, eu conheci um jovem e após alguns meses começamos a namorar, essa foi uma das piores decisões da minha vida, ele me perseguia, me ameaçava através de facebooks falsos, fingia que estava sendo torturado por outros rapazes, e até mandava fotos “machucado” para que eu sentisse dó e não largasse ele. Tudo isso me atormentava, e mesmo depois de deixar bem claro que eu não queria nada, ele ainda me seguia pela cidade, isso que nem aqui ele morava.
Minhas crises de pânico pioravam cada vez mais, eram no minimo três por dia, abandonei meu emprego, meu curso, meus amigos, minha psicologa, minha vida social, tudo porque não conseguia sair do meu bendito quarto. Porque eu tinha desmaios em ônibus e na rua, porque eu passava mal e tinha que aceitar ajuda de estranhos de noite para conseguir voltar da escola bem. Fui colocada em carros de estranhos duas vezes, porque eu estava caída na calçada tendo um ataque de pânico sem conseguir respirar ou me mover, por sorte, desconhecidos eram pessoas melhores do que muitos conhecidos. E eles realmente me levaram pra casa e me ajudaram a andar até o portão, onde esperaram eu entrar para ter certeza de que eu estaria sã e salva.
Hoje minhas crises estão melhores, mas meu psicológico ainda está perturbado, tenho pesadelos e vejo cenas ruins em minha mente. As vezes sinto medo e choro sem motivos. Sinto tudo desmoronar.
A perda dos meus tios pastores(Mario e Michele Venzel) num acidente me deixou muito abalada e depois de um ano ainda não sei como lidar com isso. Na verdade não sei como lidar com quase tudo o que acontece em minha vida. E por pior que meu pai seja, sinto falta dele, Também sinto falta da minha mãe, que está na mesma casa que eu, mas não percebe que estou aqui, e que muitas vezes eu preciso de ajuda, nem que seja um abraço.
Diante de tantas situações ruins e desastres, encontrei abrigo em um amigo, que hoje é meu namorado, Felipe Rebelatto, é o homem que me dá força para não querer mais tentar contra minha vida. A minha inspiração e o melhor abraço e cafuné do mundo. Ele salva meus dias, todos eles.