❛ ⧼ —— ⟡ Mesmo antes da Nova Era, a Romênia já era um país cuja esmagadora maioria da população cristã e isso apenas se fortificou após a ascensão dos azuis ao poder. Portanto, não era de se espantar que Úrsula tivesse tido uma educação católica digna de qualquer princesa desde a infância. Só que, bem, enquanto havia pessoas como Felícia e Nathaniel que praticamente tinham brunchs diários com Deus e o Papa, a romena mantinha uma relação mais discreta. Que não a levassem a mal, é claro. God was good, God was great and did the most amazing things ever — ela mesma estava ai para provar! —, mas se fosse 100% honesta, estava longe de concordar com todos os princípios do catolicismo. A começar por seu garoto propaganda — que, ao seu ver, era um homem que precisava urgentemente de um bom amigo gay para lhe dizer que precisava cortar o cabelo, achar um emprego com melhores benefícios e parar com suas ideias socialistas. Oh não, a romena tinha seu próprio messias e este era uma mulher linda, de gosto refinado e que se focava em todas realmente importantes: Isobel Badeaux. A antiga princesa francesa havia sido uma grande amiga da mãe de Úrsula, o que lhe rendia inúmeras e incríveis viagens à Paris, onde a romena passava suas tardes ao lado de Isobel, sua filha, Cora, assim como o adorável, quietinho e solícito namorado desta, Leon, indo de um shopping para o outro e conversando sobre moda. Era seguro afirmar que a Badeaux sempre foi uma grande inspiração para Úrsula no caminho da perfeição que trilhava. E, bem, tal fato não se abalou nem mesmo quando a mulher decidiu abrir uma ramificação de seu negócio apenas para chamar atenção ao verdadeiro show de horrores que a vida plebeia reservava. Não que a Hohenzollern se preocupasse muito com esse tipo de coisa, no entanto, se era algo organizado por Izzy, é claro que ela estaria lá, mesmo que precisando segurar a respiração para não sentir o cheiro de peixe, sal e pobreza daquele cais. Pentru numele lui Dumnezeu ¹, a romena não tinha dúvidas que se a depressão pudesse ser classificada como um cheiro, seria aquele. ❝ — Ah, imagino que esse tipo de coisa seja realmente nostálgica para você, não? Deve estar animado para ver todos os horrores que não condizem mais com sua realidade ❞, e, ainda que tentasse soar, simpática, era difícil conter o suave toque de desprezo ou prepotência em sua voz conforme se aproximava daquele que via como própria versão ranudense de Lázaro. Vejam, Úrsula não era como Nena ou Felícia, que facilmente caiam no conto do primeiro pobretão bonito que passava. Confiar em desconhecidos não era exatamente a sua especialidade, ainda mais quando estes desconhecidos em questão eram eram o irmão de Lorsan praticamente voltavam da terra dos mortos após uma suposta temporada brincando de piratas — o que era especialmente difícil para ela acreditar já que, francamente, que tipo de pirata tinha as duas mãos e os dois pés intactos?? Nananinanão, ao seu ver, o rapaz escondia alguma coisa e ela estava disposta a descobrir o que era. ❝ — Aliás, se me permite falar, acho que você deveria estar mais ansioso para ver um bom dermatologista. Por acaso plebeus não têm acesso a um protetor solar decente não? Sua pele está tão queimada que em cinco anos you are going to put Matusalém to shame ❞
Dizem que a história é contada pelos seus vencedores. Veja bem, para Ishmael, fora contada por aqueles com convivências semelhantes uns dos outros --- afinal, todos estavam embarcados num navio pirata; logo, nenhum era muito querido pela polícia ou pelas leis de forma geral, por exemplo, e isso implicava em opiniões convergentes em relação a autoridade ou monarquia. Dito isso, é coerente dizer que o Vlahakis mais jovem havia adquirido uma ideologia completamente pautada nas injustiças e submissão dos vermelhos perante aos azuis. E a impossibilidade de filtro da cabeça de uma criança resultou num Elijah que imaginava que, genuinamente, os azuis se resumiam a todas as atrocidades as quais os piratas um dia lhe contaram. O preconceito começou a se perder quando, num desembarcar na Grécia, conheceu a princesa Selene; e por mais que ideologias estivessem enraizadas em Ishmael, era inegável que a morena era gentil e atenciosa --- e não enxergava nela nada do opressor o terrível que havia esperado se encontrasse um dos azuis. Lembrava-se de terem conversado sobre literatura e filosofia, e posteriormente mantido o contato. A desconstrução de conceitos teve início com a grega, mas não fora o suficiente para destruí-la por completo. Quando fora pego pelos guardas em Nova York e trazido para Angeles, no entanto, as dúvidas sobre o caráter dos azuis que vinha nutrindo há alguns anos se esvaiu por completo; Zircon era a personificação de tudo o que segundos outrora haviam alertado Ishmael. Esnobe, prepotente, agressivo, autoritário, e tudo de mais hostil que Vlahakis havia idealizado sobre a nobreza anil; o irmão mais velho, Lorsan Daario, não era melhor do que o pai, aparentemente. Inflexível, autoritário, arrogante, eram as palavras que Ishmael outrora utilizaria para descreve-lo, por mais que nunca as houvesse pronunciado em alto e bom som. Por mais que, hoje em dia, seus conceitos sobre os azuis houvessem novamente mudado, o Vlahakis mais jovem sempre considerou Ursula uma típica sangue anil. Podia não ser cruel --- nem se ela quisesse --- mas era esnobe o suficiente para ser irritante; além disso, tinha também a vocação para ser intrometida, provada pelo proferir que deixou os seus lábios --- e que fez Ishmael, inevitavelmente, erguer levemente a sobrancelha. “ --- Sempre que você pronuncia algo, eu não sei se está falando sério.” Era a primeira impressão que teve da monarca quando repousara os olhos nela, e sinceramente, o que pensava até o momento. As falas da romena beiravam o sarcasmo, não fosse a entonação genuína com que eram pronunciadas. “ --- É uma boa proposta, huh? Você pode colaborar com ela, afinal; os vermelhos vão amar a colocação.” A referência bíblia, entretanto, fez Ishmael soltar um suspiro impaciente; queria responder, confessava, mas responder Ursula era a mesma coisa de responder a uma criança birrenta. Eu com Matusalém, e você com Vasti. Cada um tem a referência mais apropriada, pensou, mas não pronunciou palavras. Em vez disso, apenas abriu o sorriso de canto para a romena, sarcasmo pintalgado nesses, e balançou levemente a cabeça. “ --- Vou pensar no caso.”