Atordoada pelo interrogatório, o estresse concentrado exauriu a suíça e instigou um nível de ansiedade que não vivenciava há alguns anos. Poderia encobrir as olheiras e a vermelhidão adjacentes as orbes amendoadas com maquiagem, mas nada disfarçava os efeitos da medicação que inebriavam Dominique. Diluindo o pavor das consequências do interrogatório, e da possível reabertura do inquérito que ameaçava o bem-estar de seus amigos. Buscava consolar estes e acalentar o medo partilhado, fingindo uma compostura ilusória, Nic a resguardava exaustão para si. Fechou a porta do armário, forçando um singelo sorriso para Isabèlle, distinguiu os círculos abaixo dos olhos da menor. “ —- É…. Acho que ninguém está muito bem depois desse final de semana —- ” puxou a alça da bolsa sobre o ombro, sabia muito pouco da morena, mas algo nela sempre lhe despertava uma simpatia e conforto. “ —- Também, passo metade da noite pensando nessa confusão —- ” não pretendia agravar o clima com suas teorias ou preocupações, por isso conteve-se. “ —- Indo, um pouco cansada, mas nada que umas horas de sono não solucionem —- ” apontou para a entrada do colégio. “ —- Estava saindo, precisa de uma carona? —- ”
apesar de não conseguir distinguir exatamente o que, sentia que algo não estava bem com dominique. mesmo que não a conhecesse muito bem e nunca ter conversado com ela direito, as mínimas interações que tiveram, foram o suficiente para que pudesse identificar que estava agindo estranho. como de costume, a gauthier acabara se preocupando, “tem certeza que você tá bem?” repetiu a pergunta, com o cenho franzido, fechando a porta do armário. “é, as noites são as partes mais difíceis.” admitiu, dando um meio sorriso. costumava pegar carona com o colega de quarto, mas nos últimos dias o estava evitando, preferindo andar até a escola, mesmo que fosse um longo caminho. no entanto, estava cansada, mentalmente e fisicamente. uma carona não lhe faria mal, “se não for incômodo, eu aceito.”
Marius sorriu com a notícia de Isabelle, olhando o armário e depois a amiga novamente. Sabia que aquele ano seria mais difícil, tanto pela complexidade maior das disciplinas com a aproximação da formatura, quanto pelos fatídicos eventos da Festa de Passagem. Era necessário agradecer por cada bom momento. “Então as manhãs vão ser bem mais fáceis do que eu esperava.” Um sorriso frágil, mas genuíno, foi desenhado nos lábios de Marius, que sentia-se aliviado por poder ficar perto de Isabelle, o único porto seguro que havia lhe restado. Era bom abraçá-la de novo, depois de um mês na solidão. Desconfiada e certa de que seu filho não poderia tomar conta da casa enquanto estivesse acamado, a Sra. Gonzalez preferiu impedir que Marius recebesse visitas durante a recuperação. Foram semanas difíceis até mesmo para um introvertido. “Senti sua falta também.” Ele suspirou e pegou a muleta, colocando-a de volta embaixo do braço, mais para esconder a precariedade dos materiais do que para apoio. Embora não se importasse de revelar as raízes humildes, vez ou outra Marius sentia um impulso de não chamar atenção para seus sapatos desgastados e roupas furadas. “É, os médicos disseram que ainda tenho pelo menos alguns meses de recuperação… Mas não é nada” falou, abrindo um sorriso. Estava triste por ter saído da equipe de torcida, porém sabia que havia destinos piores. Perder Eloise, por exemplo, era mais doloroso do que qualquer outra consequência da Festa de Passagem. “Como você está?”
sorriu em resposta ao comentário do amigo sobre a proximidade dos armários. não haviam muitas pessoas na escola e, bom, no mundo, em que isabèlle confiava. porém, sempre confiou em marius, sempre se sentiu segura ao seu lado, algo que não acontecia com facilidade. não conseguia imaginar como teria sido sua vida em truffaut sem o apoio e a amizade do gonzalez e de eloise. “teremos que matar essa saudade com uma boa sessão de filmes, com pipoca amanteigada.” tradição seria uma palavra forte demais, mas era algo que o trio costumava fazer junto, quase uma vez por mês, onde o rapaz ia até o apartamento das meninas para uma noite de filmes. seria difícil continuar fazendo aquilo com um a menos, mas tinha certeza de que era algo que os dois precisavam para aliviar a tensão e, logicamente, matar a saudade. “mon dieu...” disse em um sussurro, “não parece ser nada.” estava preocupada com o amigo, já era de esperar. sabia que ele havia tido um acidente naquela noite, mas não sabia o quão sério era. “eu to bem.” afirmou com a cabeça, juntamente a um pequeno sorriso. “esse tempo fora foi necessário, principalmente pra processar tudo, sabe?” fez um sinal com a cabeça para que os dois começassem a andar, “se bem que eu gostaria de ter ouvido sobre você. eu fiquei morrendo de preocupação, sabia? ninguém me conta nada.” murmurou a última parte, embora o volume ainda fosse audível.
quem: isabèlle gauthier & nicodemo versace ( @explosivc· ).
Jamais que Nicodemo imaginaria que um dos dias mais esgotantes de sua vida seria um domingo. Claro que, depois terminar a manhã com um estressante e emocionalmente exaustivo interrogatório policial, ele já deveria ter previsto isso. Assim que saiu da delegacia, Nico passou o dia encontrando-se com os amigos, colegas e inimigos que também passariam ou passaram pela mesma experiência. Não tinha ficado sozinho um instante sequer para poder chorar as lágrimas que estavam acumuladas em seu peito desde que precisara reviver a morte de Eloise em sua mente, desde que contara a verdade sobre seu relacionamento com a garota para os policiais, mas mentira sobre todo o resto que contara. Nico se despediu de Dominique, a quem ele agradeceu por vir visitá-lo e garantir que ele ficaria bem, e a acompanhou até a saída do Seramis. Era a primeira vez no dia em que Nicodemo ficava realmente sozinho e ele não sabia dizer se isso era algo bom ou ruim.
Talvez o álcool já estivesse alterando seus pensamentos, talvez ele só estivesse vulnerável. Mas ele não conseguiu ignorar a expressão de Isabelle como ele normalmente faria. Forçou um sorriso, que saiu fraco porém ele estava tentando. “Oi… Dia ruim, né?” comentou apontando para o próprio rosto, querendo sinalizar as marcas de maquiagem nas bochechas dela. Provavelmente vindas do choro. É óbvio que ela estivera chorando, pensou, elas eram melhores amigas. Nico apoio suas costas na porta de seu próprio apartamento, olhando para a garota por pouquíssimos instantes antes de tomar a decisão. “Quer entrar para conversar?” era um pedido de trégua. Depois de todo aquele tempo em que Belle disse que “estaria ali se ele precisasse conversar”, aquela era a sua abertura para a garota.
Ele precisava conversar, afinal.
o dia havia sido longo, longo até demais. não havia dormido na noite anterior e algo lhe dizia que não dormiria nesta também. encontrara algumas pessoas durante o dia, algumas agradáveis e outras nem tanto. porém, estava exausta, tentara fingir estar bem para tais pessoas, e sentia suas energias esgotadas. não conseguia fingir mais nada, pelo menos não agora. por isso, nem se dera ao trabalho de botar sua fachada de menina feliz que apesar de seus próprios problemas, não gostaria que os outros vissem o quão quebrada estava ao ver nicodemo; não tinha como mentir, estava ali, na forma mais verdadeira e crua que poderia.
ela se limitou a um assentir de cabeça e um pequeno sorriso como resposta, tentando limpar com a manga da blusa um pouco da maquiagem embaixo do olho. não sabia muito bem o que falar, se fosse qualquer outro dos amigos do grupo de nicodemo, isabèlle provavelmente não teria empatia, já que provavelmente não estavam sentindo a mesma dor que ela. porém, sabia que era diferente com o rapaz, mesmo que não soubesse a que ponto. claro, sabia que ele e eloise estavam juntos, mas até qual nível? não teve tempo ou brecha suficiente para perguntar a amiga sobre o relacionamento secreto que esta mantinha com ele, então isabèlle não sabia se era apenas sexo ou algo mais sério. estava tentando se aproximar do versace exatamente por este motivo; precisava saber. por isso, quando já tinha sua chave na fechadura da porta, pronta para lhe dar boa noite, ela virou-se para encará-lo novamente ao ouvir o convite. ponderou por uns instantes; poderia não estar no melhor estado para conversar, porém precisava ouvir a história de nico, precisava saber a verdade. “sure.” aceitou, guardando suas chaves e seguindo em direção até o apartamento do outro. se segurava para não fazer a famosa pergunta de ‘como você está’ ou nada do tipo, parecia um tanto idiota fazê-la naquele momento, afinal, não precisava ser nenhum gênio para perceber que nenhum dos dois estava bem. “você tem chá?” a bebida lhe faria bem agora, normalmente a ajudava a se acalmar.
ciúmes; ah um sentir tão potente que poderia destruir toda umahumanidade com uma mera atitude. o sentimento existia em relação a que jazia emsua frente, uma vez que ela e angélique eram bem próximas. vez ou outra, elaconseguia perceber que elas não passavam de amigas, melhores amigas; e era tal constataçãoque sempre a deixava na defensiva, sempre muito irritada quando isabelle entravaem seu caminho. a ideia de que tivesse seu lugar roubado, usurpado por outrapessoa a deixava agressiva, portanto, ela cruzou os braços na altura do busto,os olhos fixos na outra no que a expressão tornou-se confusa ❛ hall pass? ❜ questionou em uma pergunta recíproca,fazendo-se de desentendida. o tinha em posse sim, mas queria provocar a outraum pouco ❛ não medisseram nada sobre precisar de um ❜ assentiu levemente ❛ o quanto você quer pra me deixar ir ao banheiro? ❜ a frase soouem meio a um sussurro, um sorriso ladino a ornando os lábios.
“sim. hall pass.” ela repetiu no mesmo tom da pergunta feita por andromeda, “aquele papel que seu professor de dá para te liberar para ir ao banheiro, administração... coisas do tipo.” não entendia ao certo o porque de andromeda lhe tratar do jeito que tratava, havia tentado entender, mas nada passava pela sua cabeça. talvez fosse como faheera, simplesmente não ia com sua cara. se fosse este o motivo, ela entenderia, mas não deixaria passar limpo. era ingênua, não idiota. “acho estranho,” comentou, “você estuda aqui há anos e nunca precisou de um?” indagou um pouco cética, arqueando as sobrancelhas. balançando a cabeça negativamente, alcançou seu pequeno bloco de notas para já anotar o bilhete que entregaria à direção mais tarde, parando rapidamente ao questionamento da outra. “quanto?” franziu os cenhos, confusa. “v-você tá tentando me subornar?” perguntou, incrédula com a atitude alheia. “esperava mais de você.” nem tanto.
“─── vinte e cinco é o meu limite, então vou considerar com muito carinho.” balançou a cabeça, e esboçou um sorriso. quando o quesito era flerte, nunca precisou se esforçar tanto já que vivia cheia de DM’s cuja a única finalidade era essa. por ter uma quantidade muito grande de fãs, primeiro, havia uma facilidade bem maior em marcar encontros, e segundo, havia uma facilidade muito maior em desmentir a maioria deles. achou um pouco de graça da reação alheia, e já esperava que houvesse uma já que existiam inúmeras diferenças entre o comportamento de isabèlle e de kristine. não que isso fosse lhe abalar, afinal, uma das coisas mais interessantes para a arreola era se relacionar com pessoas diferentes. tanto é que, com a pergunta seguinte, acabou deixando escapar uma risadinha. a outra decerto não deveria saber que o cunho daquela questão, quando direcionada em especial a qualquer pessoa no armário, levava sempre à mesma pergunta. não que estivesse precisamente escondendo sua sexualidade, apenas não era algo plenamente divulgado pela escola, e quem sabia, sabia. acabou não conseguindo segurar a piadinha. “─── isso é porque eu estava olhando demais pros jeans da professora de literatura? eu juro que posso explicar.” falou, direta demais, mas acabou relaxando a expressão. “─── brincadeira, pode me perguntar sim.”
“ew. vinte e cinco é muito velho pra você, kris.” fez uma careta. isabèlle era dificilmente atraída por homens ou pessoas em geral, mas de qualquer forma, considerava idade um fator importante e, bem, alguém com vinte e cinco anos já estaria na universidade, possivelmente próximo de se graduar, enquanto elas ainda estavam no começo do último ano do ensino médio. não prolongaria o assunto, afinal, kristine deveria saber melhor do que ela sobre esse tipo de coisa. a gauthier riu levemente, sem entender muito bem as palavras proferidas pela outra, “professora de literatura?” franziu o cenho, “uh, é, eu não reparei nos jeans dela pra ser sincera.. eram bonitos?” não era muito fã de moda, tendo vivido metade de sua vida com roupas compradas por seus pais e só há uns tempos atrás eloise lhe dissera que eram roupas de velho, fazendo questão de mudar completamente o estilo da amiga. balançou a cabeça, tentando voltar ao foco da pergunta que lhe faria. “o quão boa você é com tecnologia?” estava meio hesitante em lhe perguntar de cara, não sabia ao certo o quão kristine era confiável, “você conseguiria achar alguém na mídia social sem ter nome, ou foto... i mean, teria como descobrir tais informações?”
Esquivando-se da multidão de alunos pelos corredores do instituto, Dominique agarrava-se aos dois cadernos presos dentre seus braços esguios, ignorando qualquer possível aproximação, prosseguiu na direção do armário de número 129. Checando o estado de seus amigos constantemente, a suíça como de praxe, esqueceu de cuidar de si própria. O exterior impecável poderia não deixar isso claro para terceiros, mas a fala arrastada e o pensamento um pouco lento denunciavam uma exaustão parcialmente advinda dos ansiolíticos ingeridos. Numa séria de movimentos quase robóticos, Nic aproximou-se do armário e inseriu sua combinação, abrindo a porta, puxou sua bolsa de dentro do espaço e colocou os cadernos no lugar desta. Pronta para deixar o colégio, e retornar para seu apartamento, a suíça fechou a porta metálica, notando pela primeira vez Izzy, no armário vizinho ao seu. Ponderou a possibilidade de ignorar a colega, mas a preocupação intrínseca a morena forçou as palavras gentis. “ —- Izzy, oi, quase não te vi aí —- ” utilizava o pouco de energia restante num sorriso singelo, observando as feições da menor, buscava por algo que lhe acalmasse. “ —- Tudo bem? Parece um pouco cansada…. —- ”
os acontecimentos do fim de semana foram o suficiente para derrubar o espírito alegre de isabèlle. em pensar que poderia ter algo mais por trás do suposto suicídio de eloise e que ninguém estava lhe contando nada, escondendo informações de si desde a noite do acidente, havia sugado toda sua energia. forçava um sorriso vez ou outra, mas não estendia assuntos; queria ficar sozinha. estava mal, os círculos escuros debaixo de seus olhos deixavam isso claro. inclusive, alguns professores que haviam notado seu estado, sugeriram que visse o terapeuta de escola e, se fosse ser sincera, estava realmente cogitando tal possibilidade. naquele momento, porém, só queria ir para casa e passar o resto da tarde deitada na cama. por isso, enfiou seus livros de qualquer jeito no armário às pressas, acabando por não notar a presença de dominique ao seu lado, até a mesma se pronunciar. ela forçou um sorriso, pela terceira vez naquele dia, “nic, oi.” apesar de estar mal, seu tom mantinha-se doce e calmo. “é uma pergunta complicada, né?” riu fraco pelo nariz, “yea, uh, não tenho dormido muito.” confessou. era estranho, mas algo em nic lhe dava uma sensação de confiança. “e você? como tá?” perguntou por educação.
“Acho tocante a forma como confia em mim. Mas sério, estou apenas sem fome, não me sinto muito bem. Se quiser, vá em frente.”
“can you blame me?” questionou, arqueando as sobrancelhas. prestes a fazer outro comentário sobre como tinha certeza de que a turca estava tentando lhe envenenar, isabèlle se controlou ao ouvir que a outra não se sentia bem. rolou os olhos; porque sempre tinha que fazer questão de que todos estivessem bem? “também não to com fome. acho que essa situação abalou todo mundo.” explicou com um meio sorriso, “como você tá lidando com isso?”
voltar à delegacia depois de uma hora e meia confinado no meio de uma interrogação era inconveniente que thomas achava não precisar ater-se uma segunda vez. quer dizer, não em tão pouco tempo. precisou refazer o percurso até a delegacia uma segunda vez quando verificou o bolso da calça atrás do celular e não o encontrou, o mesmo procurando-o ao pelo o interior do carro. não havia estado em outro lugar se não a delegacia aquela manhã, o único lugar que poderia e deveria estar era lá, e bom, realmente estava mesmo. sequer precisou perguntar sobre, na real, porque assim que pôs os pés na entrada do edifício já havia um homem entregando-lhe o aparelho, e o grey restringiu-se a agradecê-lo com um único aceno com a cabeça, suave, antes de direcionar os passos a saída do lugar. não queria ter que passar mais tempo que o necessário ali outra vez, fosse honesto. ou começaria a ficar enjoado. pronto para terminar o dia longe daquele lugar, pronto para postergar as consequências do que disse ou deixou de dizer àquela câmera e o par de policiais, o inglês renunciou automático a todos os incentivos ao perceber isabèlle traçando o mesmo caminho que ele havia feito à delegacia. não precisava ser um gênio para notar que a mais nova não estava bem, o que o fez querer aproximar-se, mas a retaliação alheia sem chance de embargo, — ainda que qualquer som houvesse saído de sua boca, significava que ela ainda estava brava, que, also, não significa que thomas iria desistir de se certificar de que ela estaria bem. ele não desistiria.
‘ esperando você. ’ ergueu o olhar a isabèlle, notificando o resquício do choro ainda veemente nos traços faciais fininhos da menor. o pressionar do par de lábios veio em sucessão e thomas exalou pelas narinas pequena quantidade de ar, por nada mas aflição, devolvendo o peso do corpo aos pés ao pôr-se rente a gauthier. ‘ sei que a última coisa que nós dois queremos é ficar mais dois minutos perto dessa… loucura, e sei que você veio a pé. deixa eu te levar pra comer alguma coisa, it’s on me. ’
seria mentira se isabèlle dissesse que o afastamento repentino de thomas há alguns anos atrás não havia a magoado, afinal, o rapaz havia sido um de seus primeiros amigos na escola. era de se esperar, vendo o quanto a garota era sensível e emotiva, além de apegada com quem é próximo. no entanto, quando thomas voltou para truffaut, isabèlle não lhe recebeu com um grande abraço e um cartaz de boas vindas, muito pelo contrário, deixou claro que não queria nenhum tipo de conversa com ele – coisa que ele não entendeu muito, já que acabara de oferecê-la um café. riu amargamente com aquilo. a verdade era que não gostava de tratar ninguém com desdém, ou guardar rancores – até porque a única coisa que guardava do grey eram mágoas, não rancores –, se sentia mal quando o fazia. ponderou por uns instantes; precisava de companhia, não sabia se aguentaria ficar sozinha depois do que lhe acontecera na sala de interrogação e, de qualquer forma, não seria estúpida para não aceitar um café de graça. “fine.” concordou, fazendo um sinal com a cabeça para que pudessem sair logo dali. o caminho até o café mais próximo dali fora silencioso, e ela agradeceu mentalmente por aquilo; ainda precisava deixar sua mente esfriar um pouco. apenas quando já sentados numa mesa do café, ela decidiu se pronunciar, “então.. o que vai pedir?” questionou, fingindo ler o cardápio à sua frente.
[ sms ] → você quer que eu vá ai?
[ sms ] → belle! não pense assim! você é, foi, e sempre vai ser uma amiga incrível, ok? eu te prometo.
[ sms ] → qualquer um é muito sortudo de te ter por perto!! é verdade!
[ sms ] → e eles não são malucos de te culpar por isso.
[ sms ] → eles só querem passar tudo a limpo uma última vez, você sabe como policiais são chatos e paranoicos.
[ sms ] → faça questão de pegar toda bolacha disponível que eles oferecerem.
[ sms ] → belle, respira fundo, vamos.
[ sms ] → eu sei que é difícil, mas tudo vai dar certo! jaja vai acabar!
[ sms ] → eu posso te pegar ai, te deixar em casa, ou podemos ir a algum lugar depois.
( 07 ) new messages from isabèlle
[ sms ] → eu encontrei o théodore aqui
[ sms ] → mas então o que mais pode ser? eu não consigo pensar em cada, angel.
[ sms ] → eu não tava no penhasco, eu nem sei o que aconteceu direito naquela noite! ninguém me conta nada.
[ sms ] → eu espero que seja só isso...
[ sms ] → não to com estômago pra comida, nem consegui tomar café direito
[ sms ] → você pode me encontrar no apartamento depois? não quero ficar sozinha
o quão estranho era aquela situação : com a chegada da intimação para depor ( sobre a noite da morte morte de éloise, ele supunha, apesar de não saber o porquê da retomada ao assunto ) théodore havia se esquecido completamente do encontro marcado com isabélle gauthier, sua amizade secreta, para aquele domingo . agora, chegando à delegacia, encontrava-se justamente com a garota . com uma expressão confusa no rosto, ele aproximou-se . pretendia questioná-la sobre estar ali também para dar um depoimento ou não, mas se interrompeu ao perceber que isabèlle não parecia estar em seu melhor estado . ❝ isabèlle, ça va bien? ❞
ao ouvir seu nome sendo chamado, os olhos cansados e fundos de isabèlle buscaram no cômodo pelo dono da voz, “théodore?” indagou, a confusão explícita em sua voz, “uh, sim- quero dizer, não sei. eu... eu só não sei o que to fazendo aqui, pra ser sincera.” explicou, um pouco hesitante. com a falta de sono e o estresse que a intimação lhe havia causado, a gauthier esqueceu-se completamente do encontro que teria com o monier naquela tarde. porém, ao vê-lo, isabèlle se realizou de que eles provavelmente não foram os únicos a serem intimados. não faria sentido se fossem. não possuíam nenhum tipo de conexão, além de alguns amigos em comum. só vieram a começar a se falar nas férias, sem nem ao menos saber que eram um ao outro. respirou fundo, fazendo um sinal com a cabeça até a cadeira ao seu lado, como se o convidasse a se sentar. “pelo visto eu não fui a única convocada pela polícia.” comentou com um suspiro – sem ter certeza se era de alívio ou preocupação.
quando: 13 de setembro 2020, domingo, às 2h da tarde.
quem: isabèlle mélodie gauthier.
Quando recebera a carta de intimação da polícia, Isabèlle não soube o que fazer. Seu primeiro instinto fora pensar que haviam errado o destinatário, confundindo com algum vizinho ou até mesmo com seu colega de apartamento, porém, seu nome estava ali, escrito em negrito e em grandes letras. Não conseguira dormir a noite inteira, cenários e motivos diferentes passando por sua cabeça. Nada mais fazia sentido além de Eloise, tinha certeza que era alguma coisa relacionada a sua morte. Mas o que? Fora difícil sair da cama, mas tinha suas responsabilidades, teria de encarar aquilo de uma forma ou de outra. Optou por andar até a delegacia, e quando no local, pediram para que aguardasse sentada ao lado de uma figura familiar: Theó Monier. Encontrá-lo por lá, surpreendentemente, lhe ajudou a se acalmar um pouco. Depois de alguns minutos, finalmente ouviu seu nome sendo chamado, em seguida sendo guiada por uma mulher mais velha até a sala de interrogação.
Haviam dois policiais consigo na sala. Um deles sendo uma mulher, aparentando uns trinta anos, não parecia ser gentil e muito menos ter paciência. O outro era um homem, um pouco mais velho, parecendo mais simpático. Ele caminhou até uma câmera, pressionando o botão de gravar. “Primeiro diga seu nome completo, sua idade e o que você faz da vida.” a mulher pediu. “Uh, meu nome é Isabèlle Mélodie Gauthier, eu tenho dezoito anos e sou estudante na Academie Internationale François Truffaut.” Você consegue fazer isso, não é nada demais, ela repetia mentalmente para si mesma.
“Merci. Srta. Gauthier. Você foi convocada aqui porque é testemunha da morte de Eloise Girard-Dampierre. Gostaríamos que fosse o mais objetiva que pudesse nas respostas. Quão bem você conhecia a srta. Girard-Dampierre?” o coração parou por alguns instantes. No fundo sabia, mas se recusava a acreditar que esta havia sido a razão de estar ali. Porque estavam lhe interrogando sobre Eloise? O que mais teria para ser considerado? O caso havia sido fechado há não muito tempo e dado como suicídio... “Bem- Bastante bem, ela era minha melhor amiga.” seu tom era firme, como se tivesse orgulho daquelas palavras. Recebeu um assentir de cabeça vindo da delegada como resposta, anotando alguma coisa antes de prosseguir para a próxima pergunta, “Você estava na Ilha de Saint-Marguerite quando da morte da srta. Girard-Dampierre?”
“Sim.” respondeu simplesmente, se ajeitando na cadeira de metal, um pouco desconfortável. “A srta. estava na Festa de Passagem realizada pelos alunos da Truffaut François?” fechou os olhos com força antes de responder. “Sim” as mãos, assim como seus joelhos, estavam inquietos, nervosa por estar naquela situação e curiosa para saber o que a policial à sua frente tanto escrevia na pequena caderneta. “Você se lembra da srta. Girard-Dampierre lá naquela noite?” a cada pergunta feita pela mais velha, a francesa sentia como se o cômodo encolhesse, o ar ficando cada vez mais fino, dificultando sua respiração e fazendo com que seus olhos enchessem de água. “Sim.” ela forçou a resposta, engolindo em seco. Evitava a todos os custos olhar na cara dos policiais, e se aquilo a fizesse suspeita, não se importava naquele momento, só conseguia pensar em como não poderia chorar, não ali, não agora. “Qual foi a última vez que você viu a srta. Girard-Dampierre naquela noite?” céus, quando aquilo acabaria? “Antes dela subir no penhasco. Ela disse que precisava conversar com o irmão e eu acabei ficando pra trás, esperando ela voltar.” respondeu, a voz um pouco trêmula, “Ela acabou demorando demais, então quando Marius chegou eu pedi pra ele ir atrás dela.” concluiu. “Eu deveria ter subido junto…” murmurou pra si mesma, abaixando a cabeça e mordendo o lábio inferior – nunca se perdoaria por não ter subido no penhasco com a amiga naquela noite. O detetive no canto da sala lhe ofereceu um sorriso confortante, que não fora retribuído por Isabèlle. “Você viu a srta. Girard-Dampierre na companhia de alguém naquela noite?” parou para pensar. “Não, eu acho. Chegamos juntas e logo depois nos separamos antes dela subir no penhasco. Antes disso não lembro de tê-la visto falar com ninguém.” mais anotações foram feitas.
“Você consegue pensar em algum motivo para a srta. Girard-Dampierre ter morrido além de suicídio? Ela tinha inimigos, desavenças?” o corpo gelou diante da pergunta. Em choque, a garota abriu e fechou a boca algumas vezes antes de conseguir responder, “Why- why are you asking t-these questions?” gaguejou, “Apenas responda a pergunta, srta. Gauthier.” ela balançou a cabeça negativamente, “Eu pensei que tivesse sido suicídio- eu não…” não conseguiu terminar, sendo cortada pela mulher. “A pergunta-” Isabèlle respirou fundo, dessa fez sendo ela a interrompê-la, “Eu não quero responder essa pergunta.” negou. “Você tem-” a delegada insistiu, sem paciência, apenas para ser cortada mais uma vez. “Não!” o tom elevou-se, desencadeando finalmente as lágrimas que segurava desde que pusera seus pés no local. “Je ne peux pas.” declarou com muito esforço entre soluços, usando a manga do casaco para limpar algumas lágrimas do rosto. Estava tremendo, nunca havia falado assim com ninguém em sua vida, muito menos com alguém mais velho e de cargo importante. Após alguns instantes, ela explicou, “Porque- porque eu passei muito tempo tentando aceitar o fato de que ela tinha se matado. Mesmo que isso significasse que eu era uma péssima amiga, que apesar de tudo que a gente passou, apesar de tudo que ela fez por mim com o passar dos anos, eu nunca percebi que ela estava mal ao ponto de tirar sua própria vida. Eu estava presa na minha própria bolha de problemas e não percebi as coisas que estavam acontecendo com ela e... Eu aceitei- aceitei o fato de que eu sou uma pessoa horrível, egoísta...” parou, os soluços já cessando. “E... E se você está perguntando isso...” ela balançou a cabeça negativamente, se preparando para as próximas palavras, “Quer dizer que vocês não acham que foi suicídio. Significa que alguém... matou ela.” dizer aquilo em voz alta fez seu estômago revirar.
Não recebera uma resposta ante sua dedução, ao invés disso, a mulher que antes lhe interrogava virou-se para o homem, fazendo um sinal com a cabeça antes de se retirar da sala e voltar com um copo de água, lhe entregando. Ela agradeceu baixinho, tomando um gole da bebida para se acalmar. “Srta. Gauthier, vou lhe perguntar mais uma vez – eu sei que é difícil, mas é fundamental que você responda todas essas perguntas com honestidade.” disse o outro policial que até então não havia se pronunciado. Um pouco mais calma, Isabèlle concordou com a cabeça, um pequeno soluço lhe escapando os lábios. “Você consegue pensar em algum motivo para a srta. Girard-Dampierre ter morrido além de suicídio?” a pergunta foi refeita. Porém, a Gauthier não sabia o que responder. Eloise tinha inimigos? Não que soubesse, pelo menos. O jeito que a garota lidava com algumas coisas e sempre dizia o que pensava podia ser incômodo para alguns, mas não ao ponto de quererem... matá-la. Lembrava-se da Dampierre ter reclamado consigo sobre algumas pessoas, mas não lhe parecia sério na hora... talvez esse fosse o problema; achar que não havia sido nada demais e, no final das contas, acabando por ser a causa da morte da amiga. No entanto, a francesa não poderia dizer nada, não sem antes souber do que estava falando. Era, com toda certeza, uma das únicas pessoas que não tinha ideia dos acontecimentos naquela noite que levaram até a morte de sua melhor amiga. Como podia saber de tantas coisas e, ao mesmo tempo não saber nada? Tinha medo de falar, medo de contar coisas que não fossem verdade ou apenas histórias mal contadas. Então, após alguns minutos, ela finalmente respondeu; “Não.”
Ambos os policiais compartilharam um olhar, o estômago da francesa embrulhando; será que sabiam que estava omitindo informação? Com um suspiro, o homem recuou um pouco, indo em direção à câmera que gravava a interrogação e a desligando. “C'est tout, você está livre para ir.” ela assentiu com a cabeça, se levantando da cadeira e saindo da sala o mais rápido possível. Será que havia tomado a decisão certa?
quem: isabèlle gauthier & thomas grey ( @tommvs ).
A caminhada até a delegacia de Cannes havia sido longa. A Gauthier optara por ir a pé, precisando de um tempo para se acalmar e preparar-se para o quer que lhe aguardava. Sentia como se seus pés estivessem prestes a cair quando finalmente viu-se parada em frente à destinação, respirando fundo e fechando os olhos antes que decidisse entrar. Ao abrir-los, pode ver uma figura familiar saindo do local, o revirar de olhos sendo quase involuntário. Tentou esconder o rosto com alguns fios de cabelo, virando sua cabeça para que encarasse algumas árvores, mas havia sido em vão, percebendo que o garoto vinha em sua direção. “I don’t have time right now, Thomas.” disse simplesmente, não dando o outro uma oportunidade de se pronunciar, passando diretamente por ele até as portas, adentrando o local.
( ... )
Não queria ter chorado dentro da delegacia, não queria ter se mostrado fraca na frente dos policiais e durante a interrogação, porém, fora inevitável. Após terminar, lhe foram entregues alguns lenços e um copo de água, para que se acalmasse, e assim que o fez, se retirou. Inalou uma grande quantidade de ar puro uma vez que estava do lado de fora, deveras nauseada com o fedor dentro da delegacia. O que faria agora? Não estava preparada para voltar para casa, aquilo tudo estava sendo demais para ela, precisava esfriar a cabeça. Ajeitando a bolsa em seu ombro, ela olhou em volta, encontrando o mesmo rapaz que havia visto duas horas atrás sentado em um banco afastado. Hesitante, ela se aproximou. “O que você ainda ‘tá fazendo aqui?” questionou, um tanto sem paciência.
[ sms ] → cheguei na delegacia
[ sms ] → angie, eu to muito nervosa
[ sms ] → será que a polícia quer me interrogar por ter sido uma péssima amiga para eloise?
[ sms ] → i mean, eu nunca percebi que ela estava mal
[ sms ] → será que eles vão me culpar por isso?
[ sms ] → eu não consigo pensar em outro motivo pra terem me chamado
[ sms ] → eu to com medo