o sorriso, aparentemente preso no seu rosto quando na companhia alheia, foi involuntário ao vê-lo se aproximar, como sempre. mesmo cortando toda a complicação e nostalgia de ex-casal perfeito — ou quase, porque nada é —, thomas continuava sendo uma das suas pessoas favoritas de todas existentes; não era apenas sobre amor romântico. tentou não fazer muitas conexões entre aquela situação e as memórias compartilhadas, anos antes, de notre-dame e de como, religiosamente, esperava ele sair dos treinos após o seu próprio das líderes de torcida e iam para casa juntos, sempre juntos. estava acostumada com a nova realidade, no entanto, mesmo que não goste desta. “velhos hábitos nunca mudam, não é isso que dizem?” perguntou retoricamente, entortando a cabeça para o lado com um biquinho. cuidar dele era bem mais que um hábito, mas não precisavam falar disso agora, ou at all. “i know, por isso sempre cuido de você muito bem.” reendireitou a cabeça, esforçando-se para manter a expressão o mais neutra possível, mas o vestígio de um mínimo sorrisinho poderia ser notificado no canto de seus lábios. forças malignas pareciam estar a provocando cedo, pois, com menos de dez minutos de conversa, já estava se perguntando se aquela proximidade era mesmo uma grande ideia — sabia que não era, mas não iria embora. já estava ali, afinal. distraiu-se por curtos segundos ao observá-lo se molhar, sendo incapaz de desviar o olhar para qualquer outro ponto. ouvi-lo falar, porém, foi o suficiente para fazê-la voltar à terra e lembrar de suas palavras na festa, mesmo que, logo depois, tenham agido como qualquer coisa, exceto amigos. pigarreou rapidamente ao lembrar-se do evento, detestava ter esse tipo de memórias em público. soltou um suspiro pseudo pesaroso, franzindo o nariz logo após. “bem, não tive opção. aquele bonitinho, o loiro, não veio hoje para o treino, então te achei e pensei ‘that’ll do’.” dessa vez, não escondeu o sorriso zombeteiro, esticando a mão para bagunçar os fios escuros por pura implicância. não daria o gostinho de elogiá-lo tão cedo, oras, conseguia ver em sua face o quanto ele queria. subitamente, ponderou se não estava apenas brincando com ele, com sua cabeça completamente estragada, segundo sua percepção deturpada de si mesma, e métodos autodestrutivos. sabia que gostava dele, decerto, mas nada parecia ter mudado entre eles e isso era algo que a preocupava em demasia. não queria que ele ficasse preso a si, pelo bem dele, mas também queria que ele continuasse por puro egoísmo. a fala dele, porém, a distraiu de seus devaneios irracionais para que pudesse soltar um risinho nasal, quase incrédulo. “você não precisa agradecer, sabe disso. não é só sobre eu querer ver as pessoas que gosto bem, não. é sobre eu precisar te fazer feliz, principalmente.” as palavras escapuliram e, antes que desse conta, já haviam sido ditas. estava sendo sincera, porém. grey estava acima de qualquer cuidado maternal que isabelle pudesse ter com os outros, independente do status de relacionamento. olhou para a direção em que ele apontava, assentindo brevemente. estava, mesmo, tentando não fazer careta, mas era difícil, às vezes, controlar seus impulsos. jogou os cabelos loiros para trás, num gesto tão exasperado quando inconsciente, soltando um ar pesado pelas narinas. a fala alheia conseguiu desestabilizá-la por alguns segundos, demorando um pouco para voltar ao casual; como se existisse alguma casualidade ali. “ela deve ser muito sortuda e boba se te deixa aqui sozinho com as leoas. and by lionesses, i mean me, of course.” franziu o nariz ao sorrir. a brincadeira poderia enganar qualquer um que pudesse observá-lo, mas havia afeto explícito em tudo que a rodeava naquele momento, desde seu olhar ao seu sorriso. a aproximação repentina dele deveria tê-la afastado, mas causou efeito contrário. seus dígitos foram até o braço dele, fazendo um carinho involuntário, enquanto os olhos castanhos mantinham-se alternados entre os outros olhos e a boca alheia. depois de alguns poucos segundos, seus sentidos pareceram ter voltado ao seu corpo e, ao perceber que havia dado um passo adiante, se afastou. não demorou muito para que ele fizesse o mesmo, também. sorriu discretamente ao ouvi-lo falar, rolando os olhos durante o processo. “you’re so petty. mas você venceu e opções dois e três foram descartadas, dessa vez.” deu de ombros. seu sorriso morreu, entretanto, quando thomas ficou sem a camisa, forçando-se a olhar. de novo. estava começando a ficar vergonhoso, sinceramente. para resolver o próprio problema, girou o calcanhar, ficando de costas para a tentação. assentiu brevemente em resposta à sua fala seguinte, ajeitando a alça da bolsa em seu ombro, ao tornar a virar-se para ele. “está perfeito pra mim, vou ficar esperando aqui. tentarei fazer amizade com seu fã-clube.”
acharia curioso como a linha costumeiramente tensa de seus ombros perdia definição sempre que isabelle chegava perto, como se reagisse à presença dela involuntário e ela sozinha refinasse sua postura até um ponto inteiro maleável, simplesmente, se ele já não fosse familiar à sensação há anos. era ela, afinal. descontrair de todo o resto jamais tinha sido tão fácil ou automático de tal maneira, e honestamente? não precisava de parecer algum para querer apreciar o privilégio que era respirar sem se sentir sob pressão o tempo inteiro, coagido a ser inflexível por uma linhagem azul. o vínculo era veemente assim, ideando camadas que, na verdade, atingiam bem mais que apenas namoro entre os dois e os aproximavam a laço muito mais complexo, e era como se fosse um presságio; porque de alguma maneira, ele estava certo da atemporalidade daquilo. ‘ não mudam. ’ reforçou, oscilando preguiçoso a cabeça uma única vez em negativo antes de continuar. seus olhos permaneceram sobre a outra face o tempo inteiro, porém. ‘ deve ser por isso que a gente continua se cuidando muito bem, sempre que dá. ’ as palavras assumiam nuance de casualidade que não eram próprias do grey ali, e ele expulsou um suspiro maciço, dissimulado, forçando um pesar em decorrência à fala que inexistia nos jeitos dele. outra vez o filtro parecia perder rigidez na língua e lá ia ele contrariando todas as próprias expectativas de não tornar as coisas… difíceis? era custoso prender-se a qualquer coisa que fizesse referência à conversa que tiveram na noite do halloween, precisava admitir. simplesmente não encaixava, nem fazia sentido. portanto, inevitável do jeito que era, thomas permanecia no looping infinito de negligenciar a ideia de fugirem do romântico e se acharem no platônico, coisa que ele achava absurda suficiente para ceder qualquer importância séria demais ao assunto. sentia zero vontade de manter-se longe, e mesmo se quisesse, não conseguiria sustentar a ideia. não quando havia tanta reciprocidade em ambos os jeitos um com o outro. ‘ ouch? pra aonde foi meu status de primazia que eu perdi pro ‘that’ll do’? ’ a expressão marcou vinco tênue na testa enquanto acompanhava aquele pequeno protestar, though, conjurando comoção inteira dissimulada e que ele acabou denunciando seu teor ao mesclar o riso à primeira palavra assim que a liberou e notificou os dedos em seus fios, escoltando a leveza dela em cada esquina da dinâmica. aquilo era coerente, não era? os dois, a afinidade incessante.deles. então por que se constrangeriam à tortura de desacelerar a inevitabilidade? e à uma probabilidade que só existia em rascunho, no medo de errar? é sobre eu te fazer feliz, principalmente. deveria reagir com menos entusiasmo àquele conjunto irrestrito de palavras, aliás? porque sentia o peito vibrar a cada sílaba, com nuances de puro êxtase ocupando cada vestígio de seu ser. a recíproca jamais havia sido tão verdadeira, e o grey falhava miseravelmente em camuflar a existência física, naquele esboço sutil preenchendo-lhe os lábios, de canto a canto, do frenesi causado pela stuyvesant. falhou em montar sentença a altura pra respondê-la depois daquilo também, pego pelo colarinho total, embora o rosto entregasse seu deslumbre quase táctil. ‘ ela é, né? she’s fucking cute too, though. me dá setenta ataques cardíacos por dia. enfim. se a leoa quiser me dar uns beijos, sou petty assim, a política é restrita mas você é a cara dessa minha ex e eu simplesmente não sei se consigo segurar a onda com ela. ’ os vestígios alheios em seu braço ainda formigavam por debaixo da pele incansável, pela ausência do toque, o das bocas principalmente, e thomas a assistiu observar. as íris castanhas eram dispersas sobre o rosto feminino, e não ousou mover um único músculo, até ele projetar os lábios para frente em um bico, mínimo, quando tentou restringir sorriso, e aí isabelle girou o corpo. a língua primeiro tocou a parte de dentro de sua bochecha, depois o lábio ínfero sucessivamente, e o impulso de provocá-la, total voluntário dessa vez, o fez inclinar o torso sobre a grade com um suspiro, aproximando o rosto devagar do ouvido dela. ‘ era mais divertido quando você não se segurava… ‘tô começando a sentir saudades da sua boca no meu corpo. ’ outro sorriso fez menção de amaciar os lábios, curtinho, então o grey recuou, encaminhando ao inverso a sequência de passos por um instante ou dois, ainda fitando-a, antes de finalmente virar o corpo e trilhá-los ao vestiário.