Antes da quarentena, eu estava bem motivada. Planejei meu ano todo, sonhei alto em conseguir as coisas na universidade. Comecei o período empolgada, estudando porque estava feliz com meu desempenho e com a minha vontade. Eu queria ir pra frente.
Quando o corona veio, eu pensei que a quarentena fosse durar pouco. Continuei com o meu ritmo dentro de casa, porque as coisas jajá iam voltar ao normal. Entretanto, quando eu percebi que isso não ia acontecer, entrei em uma letargia. Era quase como se eu quisesse morrer. Eu só dormia, não queria me mover, não queria sair do meu quarto. Fiquei assim por semanas. Um professor meu, da minha pesquisa, ficou preocupado. Eu falei a verdade a ele. Ele não perguntou nada, apenas aceitou que eu estava numa má fase e que isso também tá tudo bem. As pessoas às vezes passam por maus momentos. Fiquei feliz pelo suporte que ele me deu.
Porém, hoje, após as voltas às aulas virtuais, e eu não ter conseguido, ainda, engatar um ritmo e consequentemente estudar. Vi um dorama e me deu vontade de desenhar. Depois de desenhar, me senti nostálgica e comecei a ver meus desenhos antigos, da época do fundamental II. Precisamente, em 2013.
É engraçado porque eu sempre achei que eu tinha feito muitas coisas sozinha. Mas ao ver meus desenhos do fundamental eu lembrei que cheguei numa escola grande, onde muita gente já se conhecia e eu era de fora. Era uma escola melhor e eu queria ir pra frente, queria que as coisas dessem certo pra mim. Demorei muito tempo pra fazer amigos. Acho que me achavam estranha porque eu tentava me aproximar e não conseguia. Tava tudo bem, eu era diferente. Por conta disso, passei muito tempo na biblioteca, aprendi a desenhar.
Enquanto eu pensava sobre, lembrei que em todo momento ruim da minha vida tinha alguém que me dava um empurrãozinho. No 6° ano, foi Lydia. Eu sentava na frente e ela sentava do meu lado. Era a única pessoa que falava comigo. Quando lembro dela, penso na cor roxo, que é a minha cor favorita. Eu costumava brincar com ela durante o intervalo, mas diziam que era coisa de criança e eu, que queria tanto me encaixar em algum lugar, me afastei.
Nunca contei esse tipo de coisa pra minha família, que é conservadora. Sempre guardei muito segredo e muitas coisas pra mim. Eu sempre dizia, e digo até hoje, que tá tudo bem comigo.
No 7° e 8° ano, foi clone. Clone - ou Lucas - foi meu melhor amigo por muito tempo. Enquanto eu não podia contar as minhas coisas pras outras pessoas, eu sempre contava a ele. Eu conheci ele jogando um jogo, mas minha história com jogos não começa aí. Ele sempre me apoiava, e isso me deu um empurrãozinho pra frente. Hoje, nos afastamos por n motivos e tá tudo bem. Espero que tudo de bom que a vida possa dar aconteça com ele.
No 1° ano, foi meu professor de química. Eu já desenhava nessa época, mas me apaixonei por química. Acho que vi nele a figura de um pai pois não tenho uma boa relação com o meu. Por conta da química, eu fui longe. Pensei até que era aquilo que eu queria fazer.
No 3° ano, foi minha sobrinha. Recém nascida e do tamanhinho de nada, eu queria que tudo de bom acontecesse com ela. Por conta disso, quis ir além. Acabou que, após um período de muito pensamento, não optei por fazer química. Acabei optando por algo completamente diferente e odiei.
Já na faculdade, foi meu professor de física. É engraçado, parece que sempre tem um professor que te põe na direção certa, né? Eu cheguei lá um dia pra tirar dúvidas e ele me perguntou “Por que você anda tão triste?”. Fiquei surpresa, não sabia que um estranho ia notar quando meus amigos não notavam. Naquela sala, tive muita vontade de chorar. Eu não gostava de nada no meu curso - tirando matemática - e parecia que eu ia ser muito, mas muito incompetente. Ele me aconselhou naquele dia.
Por conta disso, fui em frente. Continuei no curso pois criei motivação pra ele. Vale salientar que sigo nele até hoje. Não é como se eu amasse. Mas eu estudei, e aprendi, e foi tão gratificante aprender. Não me vejo saindo dele e fazendo outra coisa. Posso não trabalhar com isso por muito tempo, mas sei que um dia vou trabalhar.
Depois disso, conquistei muita coisa, mas não foi sozinha. Tive amigos. Muitos. É engraçado porque eu sempre pensei que eu mesma fiz as coisas acontecerem pra mim. Sempre pensei que quando uma coisa ruim ou boa, era sempre eu e me culpei bastante por isso. Mas esse é apenas o jeito que a vida é.
Hoje falei pra mim mesma esse texto enquanto chorava. Como quem diz pra si mesmo “Tá tudo bem, você vai ficar bem”. A vida sempre foi difícil. Não começou agora quando eu estou em um mau momento, sempre foi difícil e desafiadora. Eu vou passar por isso, vou voltar melhor. Decidi escrever porque pensei que se um dia eu escrevesse um livro, essa seria minha folha de agradecimento. Muita gente passou por mim, não vou enumerar todo mundo. Sempre tive ajuda. Não fiz tudo sozinha. Não estou sozinha. É pra me lembrar disso também.