estou fazendo um esforço enorme para não morrer. não, estou fazendo um esforço enorme para viver. eu não tenho coragem para a morte: deixo que ela aja em mim como o acaso; não apressarei isso, embora esteja sempre aflita esperando que venha logo. tenho grandes desprezos pela vida. sinto-me distante de qualquer coisa que se aproxime ao viver. por isso faço grandes esforços para conseguir viver: levar o cachorro para passear; ir até a esquina de casa para nada, para dizer apenas: “estou vivendo”; gritar alto e em bom tom que canso-me da vida para depois calar-me diante desta existência e aceitar todo este peso que é a vida. exemplo: hoje senti-me morta. estava lendo, e de repente me dei conta de que não sabia mais que horas eram, nem o que estava lendo - eu apenas perpassava as páginas - meus pensamentos haviam se perdido em algum lugar. mas onde? em quê? eu não conseguia me lembrar. neste momento, senti-me sem nome, sem identidade e pior: senti que não existia. se existo mas sinto que não existo, sou então o que? nada? sim. eu não sou nada. nestes momentos de angústia profunda e não reconhecimento de mim mesma quero correr por toda a cidade, quero entrar em uma briga e apanhar muito, quero sentir dor física: através dela provar a mim mesma que existo, que sinto. preciso provar para mim mesmo que eu existo porque senão a vida me engolirá, serei os frutos da dor do não ser. assim, engano a morte - engano a mim: eu acho a morte repulsiva, tanto quanto a vida. há alguns anos alguém nem tão importante disse-me que a morte é libertação, nada é pra mim libertação. a morte me prende, assim como a vida: eu não sei o que virá depois. para mim a morte é a continuação do abismo que é esta vida e por isso o meu grande desprezo por essas duas condições. deixo-me… morte virá; preciso viver apesar disso tudo. então, apesar de ter grande apatia pela vida, faço coisas que gosto: compro doce, leio literatura, corro, sinto amores repentinos. vez ou outra a morte visita-me, então recolho-me: largo-me dos livros, largo-me da vida - só preciso da licença para morrer um pouco e então, retornar a vida mais tarde. alguns suicídios cotidianos para provar a minha existência pétrea.