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@jcruz51
CONTOS URBANOS
MEU PRIMO ZUMBI
___Onde você vai? Posso ir junto? A bela morena, aproximou-se do meu primo que ia para as aulas naquela manhã, e mesmo sem nunca o ter visto, se dispôs a acompanha-lo. ___Vou para a escola meu bem, se quiser me acompanhar, será um grande prazer ----o respondeu todo assanhado, pois a morena estava com uma roupa bem provocante, e um perfume que o deixava tonto. Subiram no mesmo ônibus e ela fez questão de sentar-se com ele no último banco, o único que tinha dois lugares. Disse chamar-se Mágda e que trabalhava no Mercado Municipal, e que já o tinha visto por várias vezes, pois era nova naquele bairro. Ela iria descer em um ponto à frente, e quando meu primo se preparou para descer, em frente à escola, ela lhe disse a meia voz, quase cochichando no seu ouvido: ___Quando quiser, podemos dar um "rolezinho" por aí, é só falar... Meu primo apenas sorriu e pegando o material escolar que estava em uma mochila ao lado, desceu, sem tirar os olhos da morena, e ainda com aquele perfume sensual, descendo pelas suas narinas. Entrou na sala de aula e ocupou a sua carteira. Depois começou a tirar o material escolar da mochila e qual não foi o seu espanto ao deparar com um pacotinho com três pedras de craque! Na hora deduziu que fora a morena que colocara a droga, enquanto estavam no ônibus. Escondeu bem as pedras no fundo da mochila e planejou como dar um sumiço nas mesmas, sem se comprometer. No recreio chamou o Xandão, um amigo que era usuário e lhe falou do ocorrido, pedindo-lhe que fosse até a sua carteira e pegasse a droga na sua mochila. Xandão foi voando, mas quando estava pegando a droga eis que Cida, namorada do meu primo, o viu. ___O que você mexendo na mochila do meu namorado? Não querendo dar maiores explicações, Xandão saiu correndo sem pegar a droga. No pátio, a namorada veio até ele indignada, junto com o Xandão ___Peguei esse Nóia mexendo na sua mochila! Então meu primo explicou que fora ele que mandara pegar um objeto que lhe pertencia. A namorada não engoliu aquela história e desculpando-se, voltou a sala de aula, onde não havia ninguém e foi revistar a mochila do meu primo, acabando por encontrar as pedras de craque enroladas em uma trouxinha. Ali já deu um terrível B.O, e ele acabou perdendo a namorada que achou que ele era viciado. Meu primo tentou de todas as formas possíveis se explicar mas não “rolou”. Xandão viu que ele estava chateado e o convidou para dar um rolezinho na região do mercado. Lá ele entregou as pedras a Xandão, com a intenção de ir embora, pois estava muito nervoso e chateado com o que ocorrera. ___Cara, dê uma cheirada e uma cachimbada, você vai adorar!!! Eu garanto que não vicia... Meu primo recusou-se terminantemente, mas aos poucos foi se acalmando. Queria resolver a questão com a namorada e estava muito chateado. E então, para refrescar as ideias aceitou experimentar a cocaína. Xandão tinha um cachimbo reserva e preparou para ele. ___Olha mano, é só um pedacinho da pedra maior, senão você pira! E assim meu primo fez o seu ingresso no mundo das drogas. Deixou a escola, parou de estudar, perdeu a namorada. O pai descobriu que ele se tornara um viciado e o expulsou de cada. Morou em nossa casa por uns tempos, mas minha mãe o mandou tomar outro rumo pois poderia me perverter também, e além disso andara roubando alguns objetos de nossa casa, para pagar a droga. Mais de um ano se passou e dia desses, casualmente o encontrei sob um viaduto da cidade mais próxima. Estava só pele e osso. Cabelos longos, encardidos, roupas sujas e rasgadas. Já não falava coisa com coisa. Puxou cadeia umas três vezes, mas ao ganhar a liberdade volta ao mundo do crime. O coitado virou um zumbi, que a qualquer momento vai ser esmagado em baixo de um carro. Quanto a Mágda, Morena periguete, nunca mais a viu. Dizem que ela era o diabo em pessoa, e pelos rumos que a vida do meu primo tomou, não é de se duvidar...
A Mansão dos Mortos!
O ano era 1960, quando tive meus primeiros contatos com o Sagrado, servindo como Coroinha na antiga e saudosa Igreja de São João Batista, que foi arrastada impiedosamente pelas águas no dia 06 de Fevereiro de 1982.
Estava ainda nos primeiros dias, mais perdido que cachorro que caiu da mudança, batina vermelha, Roquete ou Rakete branca, lá ia eu para o altar, ao lado do temível Padre Antonio Maffei, um italianão com cara de mau, mas que tinha um coração enorme de bondade. Era meio "estourado" como se dizia naquele tempo, por ter sido prisioneiro de guerra.
Enganando no Latim, do qual só sabia mesmo responder o "Dominus Vobiscum""Et cum Spiritu tuo" para responder a Missa, no começo nunca era escalado sózinho, porque iria fazer coisa errada. Lembro de alguns amigos Coroinhas: José Vicente Develis, Aldemar Bataglin, Carlos Caldine, Walter Borgato (Bucho) José Luiz Barasnevicius, Ricardo Campioni, Gerson Caldine, entre outros. Meu trauma era na Quarta Feira a noite, quando tinha Missa de Sétimo Dia. Aquele panão preto aveludado no chão, aqueles quatro castiçais me davam arrepio.!
Por que um belo dia, perguntei a um de meus colegas, onde ficava a Mansão dos Mortos, que a gente rezava na Missa, se por acaso era lá no cemitério, e o gozador, sabendo que eu era iniciante, disse "Então você não sabe? A Mansão dos mortos é aqui em baixo dessa Igreja (Foto) ,por isso que eles põe aquele pano preto na missa de sétimo dia. Ai em baixo tá cheio de gente morta!"
Para um menino de 9 anos que as vezes se assustava até com a sombra, voces imaginem o impacto que isso me causou...Vinha daí o meu trauma com as Missas de Quarta Feira a noite e daí entendi o porque que o padre ficava brabo quando a gente, sem querer, pisava no tal pano preto. Havia o risco de cair lá prá baixo...
E em um belo dia o meu colega de escala não apareceu e tive de encarar sózinho a Missa de uma quarta feira, com aquele pano preto e os quatro castiçais.
Antes da Bênção final, levava a Caldeirinha de água benta e ficava junto do Padre Antonio, com aquele paramento preto que também me metia medo.
Foi daí que aconteceu, no meio da oração, com as minhas pernas finas tremendo, senti aquele negócio passando entre os meus pés. Gente do Céu! Dei um pulo prá frente que derrubei um dos castiçais e ainda derramei quase toda a água benta da Caldeirinha! Padre Antonio, que era carrancudo, naquele momento deu um leve sorriso, ao ver o susto que tomei e nem me xingou naquele dia, o que considerei um milagre.
Pensei que era alguém, da Mansão dos Mortos, no sub solo da Igreja, tentando pegar o meu pé, quando na verdade era o meu bendito cachorro Vira Lata, muito querido, de nome "Braque", que sempre me acompanhava, e que estava até então, dormindo em baixo do primeiro banco e justo naquela hora cismou de se levantar e passar entre os meus pés....ainda por cima coçando suas pulgas, o que me deu a sensação de um "cutucão".
CONTOS & CAUSOS
O cenário desses contos e causos é sempre o mesmo. Minha querida cidade de Votorantim, e a minha infância, adolescência e Juventude, separado em alguns temas "A Casa da Esquina" , esquina das Ruas Tarcísio Nascimento e Albertina Nascimento, a velha Vila Albertina da beira do Rio Sorocaba.
"Coroinhas do Padre Antonio" - anos 60 Velha e saudosa Igrejinha de São João Batista - localizada ao lado da portaria da aniga Fábrica de Tecidos Votorantim, projeto piloto do Português Antonio Pereira Inácio que depois passaria o patrimônio a Família dos Moraes, José Ermírio e Antonio Ermírio. A Igreja tinha aos fundos o córrego Cubatão que em um fatídido 06 de Fevereiro de 1982 transbordou e solapou o edifício, onde a empresa, providenciou a demolição do pouco que sobrou. Ali vivi muitas aventuras, com meu particular amigo "Ximbica".
"O segredo do Jovino Carroceiro" é o conto que inaugura esse espaço literário
A CASA DE ESQUINA
O Segredo do Jovino Caarroceiro
O Jovino carroceiro, que em tempos que não haviam quase lojas de materiais para construção em Votorantim, transportava areia, saibro e pedrisco com sua carroça verde, puxada por dois burros, parecia sempre brabo com a molecada, que ia atrás da carroça, no antigo caminho da Vila Albertina, localizado entre o rio e a Via Férrea, e que dava acesso ao centro antigo de Votorantim. Os moleques queriam na verdade pegar carona na carroça, mas o Jovino estalava o chicote no ar e os caronistas sumiam, de medo de levar uma no lombo. Eu nem tentava, pois o via passar sempre por ali e sabia que ele não gostava. Certo dia, quando eu vinha sozinho por esse caminho, escutei a carroça que vinha vindo, mas continuei a caminhar como se nada estivesse acontecendo.
___Hei menino, não quer carona até a sua casa? Sobe aqui no banco comigo! - disse o Jovino.
Olhei para todos os lados para constatar que ele falava comigo e ainda meio desconfiado, coloquei o pé no estribo e matei minha vontade de andar de carroça. O Jovino disse que já me tinha visto na charrete do "Sêo Alexandre", entregando compra com o filho dele, e perguntou se eu gostava de animais. Eu disse que sim, e quando eu desci, perto da minha casa ele me disse
___Quando quiser ir comigo nas minhas viagens, é só esperar ali na ponte. Disse o Jovino, que acrescentou ----- Mas avise sua mãe.
Certa tarde eu estava brincando com dois colegas quando vi a carroça verde apontar lá na curva do caminho, vindo para a Vila Albertina.
___Oba! Vou andar de carroça! - exclamei. Os dois colegas caíram na risada e retrucaram que eu iria era levar um chicote no lombo. Fui até a ponte espera-lo. Meus colegas também foram, só para ver o que iria acontecer e ficaram surpresos quando Jovino me chamou pelo nome e eu subi na carroça, dando um tchau para meus colegas que não acreditaram no que estavam vendo.
Minha mãe estava na janela da sala, e o Jovino parou a carroça e falou com ela
___Dona, ele está comigo, vou demorar um pouco mas pode deixar que se ele fizer alguma coisa errada eu puxo a orelha dele!
Minha mãe concordou e seguimos pela Rua Albertina Nascimento com aquela sensação maravilhosa de andar de carroça. O Jovino ia assoviando umas modas, de vez em quando falava algumas coisas com os burros e eu ia dando risada
___Eles entendem tudo o que eu falo, Zé! Nem uso o reio, não gosto de judiar dos animais pois eles me ajudam a viver, fazendo este trabalho.
Deixamos a Rua do Comércio para trás e entramos na Rua Paula Ney subindo até o seu final, em um percurso que demorou quase duas horas. Por fim chegamos na antiga Estrada do Quiló e andamos mais alguns quilômetros sentido a Sorocaba. Em um ponto a nossa esquerda havia um terreno baldio perto de um barranco e ali o Jovino estacionou a carroça, para carregar saibro. Fiquei atrás da carroça, sentado em uma sombra, mas como demorasse o carregamento, fui explorar um mato próximo dali e lá estava, me distraindo com um sabiá, quando ouvi um barulho e os gritos do Jovino chamando por mim. Sai do mato assustado e ele estava desesperado, pois o barranco desmoronara e ele pensou que tivesse me soterrado. Assim que me viu, tirou o chapéu, ergueu para o alto, limpou o suor que lhe escorria em bicas pelo pescoço e retomou o trabalho, acabando de carregar a carroça. Os dois burros pressentiram o desmoronamento e arrastaram a carroça para a frente, mesmo com o breque puxado. A viagem de volta foi em silêncio, e o Jovino estava muito pensativo. Desde esse dia, quando eu saia com ele, me tratava muito bem, pagando-me doces e sorvetes por onde passava. As vezes ficava em um Ferraria da Rua Sorocaba, perto do recinto onde acontecia a Festa Junina e então eu ia embora e ele gritava "Passe na padaria do Zeca Padeiro, pega um sonho ou um pudim, e mande marcar para mim!".
Alguns meses depois eu fui para o seminário de Jaú, onde fiquei por dois anos e quando retornei, nunca mais vi o Jovino. No final dos anos oitenta fui repórter da Folha de Votorantim e para a edição do Dia do Trabalhador, fui incumbido de fazer uma matéria com profissões exóticas. Fui atrás do Jovino, que já estava idoso, e o encontrei sentado em um tronco de árvore no quintal da sua casa. Expliquei o motivo da minha visita e ele demorou um pouco para se lembrar de mim. Disse que tinha parado e que de vez em quando fazia um carreto ali por perto. Combinei de voltar no dia seguinte, quando ele iria fazer um carreto. Fiz a entrevista, ouvi a sua história, disse que herdara do pai a profissão de carroceiro. Fiz umas fotos e lhe prometi que faria a edição especial chegar em suas mãos.
Terminada a entrevista, já entrando no meu carro para ir embora, resolvi matar minha curiosidade e lhe perguntei por que deixava só eu subir na carroça, e os demais meninos não.
O Jovino deu um longo suspiro, enxugou uma lágrima que lhe umedeceu os olhos e disse em tom de tristeza
___Ah Zé, é que você lembrava muito meu filho, que morreu uns meses antes de eu te conhecer. Ter você como meu pequeno amigo, naquele tempo, foi um jeito de matar a saudades que eu tinha dele.