“Querido Deus, Nunca fui muito religiosa, mas tenho me perguntado bastante sobre as formas de se ter fé. Diante de tamanho sofrimento, tem dias que duvido de mim, chego a considerar a morte como alternativa. Eu me culpo por pensar isso, mas não me surgem outras vias de saída e eu só faço chorar, só, no banheiro, no meu quarto, no emprego. Começa como uma grande dor de cabeça. Então se espalha, como um parasita, para as outras áreas do meu cérebro, feito um verme. Chego a imaginar, sem qualquer dúvida, que seria interessante morrer de repente, quem sabe por conta de um infarto fulminante. Desse jeito, não precisaria lidar com o pecado de um suicídio, desse jeito eu não seria taxada de covarde pelas pessoas que ficam. Desse jeito, por mais egoísta que seja, eu poderia culpar o destino pelo fim do meu sofrimento irrefreável. E então eu abro o pote de rivotril, que me faz dormir em meio ao pranto. Agradeço pela existência de um calmante tão eficiente. Agradeço pelo silêncio de minha mente sem sonhos, agradeço pelas horas que assumo, sem qualquer sombra, sob as cobertas que são as únicas que me acompanham. E me sinto só, me sinto absolutamente só. Sem ter para quem contar meus problemas, um sufocante desejo de me tornar ninguém. O vômito vem. E então me vejo desejando vomitar meus órgãos, para ser mais rápido meu encontro com o fim. Antes, eu pedia ajuda ao senhor. Hoje, eu peço que me resgate. Me perdoe por suplicar.”