Naquele dia, esqueci de dizer muitas outras coisas, Manuel. Eu estava realmente fora de mim, o horror tinha me dominado, por motivos que fogem a você. O fato de eu precisar de uma válvula de escape me levaram a enviar aquelas mensagens. Eu poderia dizer que não é culpa sua, mas parece que ultimamente tudo tem sido culpa de vocês. E quando digo vocês, refiro-me a vocês, homens. Deve ser incrível permitir-se amar novamente, ainda que seja uma figurinha repetida. Deve ser incrível conseguir algo assim. E digo isso com convicção, e não com sarcasmo. Isso porque uma das coisas que acho que não conseguirei fazer de novo é amar.
Sabe, eu disse isso antes. Disse algumas vezes no meio daquele texto. Algumas pessoas só não conseguem. Eu tentei com alguns depois de você. Deixe-me contar sobre eles. Talvez você seja capaz de sentir um pouco do que senti ao vê-lo abraçado com a mulher que veio exatamente antes de mim.
Comecemos pelo Engomadinho. Vamos chamá-lo assim para evitar que você o procure nas redes, uma vez que sabemos que você é bom em stalkear. Infelizmente só descobri isso agora, senão teria mexido no seu celular enquanto você estava no banho para verificar suas últimas buscas no fb (enquanto ainda estávamos juntos, é claro). Enfim, voltando ao engomadinho, ele era um eleitor do Bozo. À época, a separação brasileira não acontecia, de modo que o deixei passar apenas porque ele tinha um rostinho bonito. O fato é que ele me tratava mal. Pior do que isso, tratava mal as irmãs e a mãe, que aliás falava gritando. Eu não queria conhecê-la, é claro, mas ele estava empenhado em apresentar mulheres (qualquer uma) à família. Fomos para a cama duas vezes, ambas dignas de lágrimas. Eu não queria ir pra cama com ele, e só me dei conta desse fato depois de ter acontecido. Foi péssimo, me senti usada e ele era realmente ruim nisso. A falta de autoestima dele era proporcional ao ego inflado.
Teve também o Peito Largo. Esse era severamente mais confiável - embora apenas até a página dois. Saímos duas vezes antes de ele tentar me comer e eu acabar em lágrimas dentro do carro dele. Um dia depois, conversei com muita gente e decidi que eu estava sendo quadrada demais. Mas não deu certo. Assim que transei com ele, caí em prantos no lençol, sem cerimônia. Chorei tanto que ele imediatamente me levou pra casa. No dia seguinte, pedi desculpas e ele não respondeu. Sumiu por dois meses e reapareceu dizendo que estava com saudades. Eu o bloqueei. Curto.
O terceiro e provavelmente o único que achei que daria certo é o senhor Designer 2. O sr. designer tinha 188 de altura, míope e uns vinte quilos a menos que você. À distância, eu poderia dizer que ele se parecia bastante comigo. Poderia ser meu irmão, talvez, a não ser pelo par de olhos fundos. Bastante solitário e traumatizado, tivemos o que pode ser chamado de um rolo duradouro. Encaixávamos melhor na cama e ele me abraçava de verdade. Me apresentou à mãe dele, um verdadeiro anjo que quase me agradecia por distrair o filho e também salvá-lo dela própria. Sr. designer me pediu em namoro quando estávamos ocupando o mesmo lugar ao mesmo tempo. Uma semana depois, terminou comigo alegando não saber lidar com a pressão de namorar alguém. Eu tinha comprado uma caixa enorme de chocolate de aniversário pra ele. Joguei no lixo. No fim, ele era apenas um sociopata. Chorei por dois dias e depois nunca mais. Fiquei seca mais rápido dessa vez.
Logo depois dele, passei o que pode ser chamado de meses da escuridão. Fiquei com pessoas que você conhece apenas para a informação chegar a você. Além disso, conheci um cara que tinha tido câncer, outro que tinha a língua presa. Nenhum deles passou do primeiro encontro.
Em seguida, veio o Confusão. Esse é o mais recente. Transava tão bem que eu praticamente estava apaixonada pela bunda dele. A essa altura, eu não transava há mais de oito meses e tudo o que ele fazia me era superestimado. Ele usava drogas de modo esporádico, respondia mensagens apenas uma vez a cada dois dias e tinha alergia a relacionamento. Certa vez, marcamos de sair e ele me deixou esperando duas horas. Nesse dia, eu chorei no quarto apenas por ter medo de que ele me machucasse. Uma semana depois, Confusão me chamou pra viajar com ele. Pensei em aceitar, mas acabamos brigando por bobeira e eu não fui. Mais do que isso, eu terminei nosso rolo por medo do que ele poderia acabar fazendo com a minha cabeça. Hoje ele visualiza todos os meus stories. Eu sequer visito o perfil dele.
Depois do Confusão, teve mais uma rodada da escuridão. Um amigo me chamou pra sair e fez cara de paisagem sobre me pagar um sorvete. No meio da conversa, falou que ia se mudar. Cheguei em casa e falei que deveríamos apenas seguir sendo amigos. Depois, conheci um médico igualmente desentendido sobre o sorvete. Baixinho, me olhou de cima a baixo antes de me cumprimentar e decidir que, sim, ele ia admitir que tinha me reconhecido. Com um papo mega cansativo e argumentos que beiravam o raso, não durou sequer uma hora antes de eu inventar uma desculpa para ir embora.
Enfim. Por hoje é só, Manuel. Amanhã eu volto com mais desabafos.