— love shouldn’t make you feel broken; P.O.V
“Guilt is the worst demon to bear, strangling you from the inside of your body.” Nikita Gill.
Culpa.
Sentia culpa pelas palavras tão duramente despejadas aos ouvidos de Maria Luíza, pois por verdade que fossem, não era dela que João Pedro sentia raiva, mas de si mesmo. Sentia culpa pela preocupação causada ao irmão quando passou mal naquela manhã, a maneira como seus dedos lhe corriam os fios úmidos banhada numa preocupação da qual sequer se julgava merecedor, mas que era para si da mesma maneira que o cuidado. Sentia culpa por não ser quem o genitor tão arduamente desejava que fosse, o que ficou especialmente claro quando abriu-lhe a porta mais cedo, cansada em cada linha do rosto bonito e infinitamente culpado ao encarar a mãe.
Foram segundos que levaram para que os braços finos dela lhe contornassem o pescoço, a mulher não parecendo se importar de amassar a camisa tão bem passada para abraçar o filho caçula. Tinha cheiro de lavanda aquele abraço. Cheiro de biscoito saindo do forno, de chuva, de mãe. Era um cheiro que ele não sentia com tanta frequência, mas que estava tão encravado em sua mente quanto o peso da mão que lhe tocou os ombros assim que ela se afastou.
Sentiu o corpo imediatamente tensionar com o peso da mão de Antonio, sentiu o ar se perder em seus pulmões por segundos antes que finalmente o exalasse o mais lentamente possível e com os pares castanhos claros encarasse os do pai. O mel de seus olhos era igualzinho aos dele, João bem sabia, mas a expressão dura do outro homem era por demais diferente do que o filho se tornara. “Oi.” Ele cumprimentou, externando sorriso pequeno ao que os deixava entrar na república impecavelmente bem arrumada; graças a Deus seus colegas eram os mais compreensíveis possível e o ajudaram naquilo. Agora na casa eram só João e os pais.
Ele serviu café, forte do jeito que o chefe da família gostava. Conversou com a mãe e fingiu não notar as linhas expressivas sutilmente mais preocupados dela ao encará-lo, provavelmente pelas olheiras fundas que a maquiagem que Manuella arranjou não foram capazes de esconder com perfeição. Era tudo uma fachada, tensão fazendo do ar pesado e, no fim, toda aquela conversa afiada de mãe e filho tinha hora marcada pra terminar - Jô soube qual quando o xícara do pai foi colocada na mesa de centro e seus braços os dedos grossos se entrelaçaram em seu colo, rosto pendendo de lado, como se avaliasse o filho profundamente.
Estava claro ali que não gostava do que via.
“Vamos falar sério agora? Você vai voltar pra casa.”
Não era uma pergunta ou uma sugestão. Era terminativo, tão terminativo que por um instante parou de respirar antes de algo desagradável se instalar no fundo de seu estômago e ele já começar a negativar com a cabeça, o mais educadamente possível. Não, aquilo não. Com aquilo, João ia sufocar. “Pai, não. Olha, eu tô bem, tá tudo sobre controle, qual que é o problema?” Ele não conseguiu evitar a leve exasperação, a qual, por mínima que fosse, fez o cenho de Antonio franzir-se duramente em desgosto ainda maior com o filho, desgosto que fez o peito do caçula se comprimir; medo, culpa, angústia, tristeza, culpa.
“Você não fala assim comigo, pra começo de tudo, eu falo e você cala a boca. Agora, você acha que eu sou cego?” Se havia ainda alguma brandura, ela voou pela janela no instante em que a boca do homem, o peso de cada sílaba contendo raiva, não podendo convir a preocupação que, na realidade, era a fonte de seus sentimentos. O problema de Antonio é que sua raiva era para consigo mesmo, mas era no filho que tão duramente a despejava agora. “Você vai em festas e bebe e fuma e Deus me livre o que mais. Olha pra sua cara, João Pedro! FILHO MEU NÃO AGE ASSIM. Quando você estiver se mantendo e trabalhando você pode fazer a porcaria que quiser, eu aturo até esses rabiscos ridículos que você insiste em fazer com o meu dinheiro, mas essa vida de gandaia? Ela precisa e ela vai acabar. Você tem tudo na sua mão, está em uma das melhores faculdade do país e insiste em agir como se tivesse sete anos. Qual é o seu problema? Por que você não consegue fazer o que eu mando?”
No peso de cada letra expelida pela boca de voz macia, Jota Pê ia encontrando seu fim. Seu desequilíbrio era tamanho que mal podia suportar. Parecia tão pequeno, mas no fim, as demandas eram tão, tão grandes. A busca por perfeição incessante cortava mais profundamente do que uma espada seria capaz. Cortava-o inteiro, dilacerando de dentro pra fora e lhe arrancando o chão que até então estava por sobre os pés. Era comum que ele abaixasse a cabeça e que aceitasse, mas ali? Ali ele se perdeu. Se perdeu nos gritos e na expressão assustada e tão resignada da mãe. Se perdeu na raiva porque não tinha ninguém por perto pra pedir socorro, pra lhe ajudar a colocar em palavras o que o coração tão arduamente sentia. Coração que viu-se esmagado, por sinal, bem ali também.
Só estava tão cansado.
“Vai se foder.”
“O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE?”
“EU DISSE VAI SE FODER. EU QUERO QUE VOCÊ SE FODA. EU. QUERO. QUE. VOCÊ. SE FODA. ESSE NÃO SOU EU, EU NUNCA VOU SER ASSIM E A PORRA DO MEU PROBLEMA É QUE QUEM VOCÊ QUER QUE EU SEJA NÃO SOU EU.” Vocal, feroz. As palavras chegaram a lhe arranhar a garganta tamanho volume e força empregadas no simples ato de falar - ou melhor, berrar. Foi como vomitá-las, vomitá-las com força, finalmente tirando-as de dentro de si e ele mal deu conta de quando se levantou da poltrona, mas bem notou porque o pai fizera o mesmo e porque Helena, nervosa, fora rápida em se interpor. “Pelo amor de Deus, vocês parem com isso agora!” Mas a súplica da mulher não trouxe nada de bom, só o olhar pesado e irado de Antonio, que não pensou duas vezes em atacá-la, praticamente cuspindo as palavras. “EU NÃO PERGUNTEI A SUA OPINIÃO.”
E pronto. Fácil assim algo em Jota Pê estalou e foi empurrando o braço do pai para que não encostasse a mão pesada e julgadora no ombro da mulher que ganhou de volta um tapa contra o rosto.
Choque mais do que força fizeram-no ir ao chão. Ele pode sentir cada dedo se pressionar contra a pele, podia sentí-la agora formigando no formato exato da mão pesada e, por alguns segundos, sequer registrou o ardor intenso ou o gosto leve de ferro na boca, que provavelmente havia se cortado.
Atônito, piscou e ainda atônito ele pode encarar o pai, sua mão menor na própria face sobre o local acertado enquanto um riso, sardônico, triste e rouco, lhe escapava aos lábios. Antonio nunca lhe batera e ele sabia que ele estava sentindo, o próprio rosto assustado do genitor e de sua mãe lhe mostravam isso, mas o fato é que havia agora.
Havia e João, a decepção que João se sentia pra família o consumiu e com ódio ele a aceitou. “Vai se foder.” Sussurrou, mas o dano era claro.
Dessa vez não houveram gritos, só o pavor que parecia ter dominado a todos no cômodo pelos caminhos que tomaram a discussão, e com o coração martelando no peito e a alma tomada em desespero por mudar, mudar e mudar e correr João fez exatamente isso. Ele pegou a carteira abandonada sobre o móvel da TV e correu. Saiu porta afora, chave do carro em mãos, ignorando os apelos altos do pai e da mãe para que voltasse e arrancou com o carro.
Os soluços e os choros foram todos engolidos no caminho, suprimidos até não serem mais do que o franzir tão intenso de seu rosto, que transcrevia tanto sofrimento por detrás dos vidros escurecidos do ônix preto; mas como sempre, ninguém podia realmente ver. Ninguém podia ver que o ar se prendia dolorosamente no peito e que ele mal podia respirar, assim como ninguém podia ver a marca avermelhada em sua face. Na verdade, ninguém se importou, porque ali naquela noite de sexta ele dirigiu até a balada mais próxima e se deixou misturar por entre tantos corpos e bebeu tantas bebidas que tudo ao seu redor tornou-se nada. Dor e medo, tudo anestesiado. Mas sem medida e se, coragem, sem eira e nem beira, João foi além ali.
Foi além nas quantidades de doce que ingeriu e que fizeram os batimentos cardíacos se acelerarem. Foi além na quantidade de corpos nos quais se esfregou, nas bocas que beijou e que não queria beijar, de gente que nem se lembrava o nome, de gente que não era e nunca seria Lucas.
Lucas, que ele devia ter chamado, Lucas que saberia lhe ajudar. Lucas, que estava bem melhor sem um problema como ele na vida. E a culpa que sentia pelo que fez, depois de tanta discussão, depois de tanto ver a preocupação alheia mesmo de longe, enquanto ele cuidava da mãe, mesmo quando sabia que era pra estarem saindo ele e Lucas naquela noite? Foi ela que o fez ingerir mais álcool. Foi ela, formando um bolo com todas as outras e a exaustão por realmente não querer mais viver que o fizeram se apoiar em parede próxima, pernas parando de responder e ar faltando antes que desmaiasse bem ali, no meio da balada paulista.
Alguém pisou em sua mão, mas ele não registrou a dor. Alguém tentou chamá-lo, mas ele apagou apesar da náusea intensa. Em instantes, a náusea não era nada também e seu corpo por igual tornou-se nada.
Finalmente, João Pedro contemplou o vazio.
Mas alguém ligou pra polícia, alguém ligou pro socorro. O resgate chegou e com soro na veia ele já foi encaminhado pra Santa Casa, em coma alcoólico, sendo obrigado a por pra fora tudo que tinha bebido e mais um pouco, mas por sorte, com a mente tão inebriada, ele nem lembrou de nada ou constatou a dor; nem essa e nem a dos pais, culpados e desesperados, que do outro lado zelavam pelo filho.















