Goiânia – A banda de rock independente swave volta aos palcos do Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, neste sábado (23/5), no 4º Cidade Rock, mais ou menos um ano depois de ter feito sua estreia por aqui durante o festival Goiânia Noise. Na ocasião, a banda divulgava o seu álbum de estreia, “foi o que deu pra fazer”. Agora, após esse tempo de estrada, o grupo segue amadurecendo e já prepara o segundo disco.
“Foi incrível. O público foi muito receptivo. Acho que 90% das pessoas que estavam no show não conheciam a gente”, lembra a vocalista Aline Mendes sobre a apresentação em Goiânia no ano passado. “E nesse um ano de estrada, eu sinto que o nosso foco realmente foi rodar o máximo que a gente pudesse, tocando com outras bandas, para que as pessoas pudessem conhecer a gente pessoalmente, né? Não pelo digital. Acho que o nosso show é um forte muito grande. Ele é muito dinâmico, tem muita energia, nós vamos pra galera, e acho que isso tem se perdido, infelizmente, recentemente, hoje em dia as pessoas têm ficado muito no digital e nosso forte realmente é o show”, reforça.
Inicialmente, um dos chamarizes da swave foi ser formada por alguns integrantes de outros nomes da cena independente, como Far From Alaska, Supercombo e Violet Soda. Aline avalia, porém, que desde o princípio a swave encontrou uma voz própria e essa identidade tem sido reforçada na estrada e estará ainda mais presente no próximo disco.
“Eu vejo que desde o início. Mesmo tendo essas pessoas de outras bandas, a gente começou a pincelar a nossa identidade. E eu sinto que estamos fazendo novas composições que têm mais ainda a nossa cara. A swave é uma coisa à parte. É uma outra identidade. E eu acho que cada vez mais a gente está mostrando nossa identidade”, avalia a vocalista.
Em relação ao primeiro disco, ela brinca que todas as letras acabaram girando ao redor do tema da mudança, algo que era muito pessoal e vívido para ela e os outros integrantes naquele momento. Coincindentemente, as letras ressoaram com os fãs e suas ansiedades, mas Aline diz que não foi intencional: “Elas surgem de um lugar muito natural para mim porque eu simplesmente escrevi coisas que eu estava visualizando. Que estavam acontecendo comigo ou com as pessoas em minha volta. Foi algo muito natural realmente. Não foi pensado, porque realmente foi de vivência”.
Projetos futuros
E falando sobre mudanças, teve mudanças na banda também, com a entrada de dois novos integrantes, entre eles a baixista Luísa Phoenix. “Eu entrei bem indicada. Assim, eu lembro até hoje do primeiro show que eu fiz com eles. Foi um festival em Curitiba. Mas desde o primeiro ensaio que eu fiz com eles eu já falei pra Aline, assim: amiga, eu espero que vocês gostem de mim. Porque eu nunca tinha feito uma coisa tão legal na vida”, relata.
“Nesse segundo álbum, eu e a Aline fazemos uma coisa muito legal, que é de fato misturar as coisas que a gente escreve, assim, ‘olha o que eu fiz aqui nesse trecho’, ‘nossa, super combina com o que eu fiz. Experimenta esse segundo verso’, as coisas são muito misturadas”, conta a baixista. “O protagonismo e a importância é a música. A gente sempre vai definindo sempre o que vai ser melhor pra banda ou pro disco. Temos muito material, agora estamos nesse processo crítico”, completa.
Desde o ano passado, duas novas canções já estão no setlist dos shows e foram muito bem recebidas. O resto do álbum ainda não está definido e o disco ainda não tem nome nem previsão de lançamento. A próxima divulgação da banda vai ser uma live que já está gravada e provavelmente será lançada no segundo semestre.
“Acho que os temas deste álbum estão bem mais abertos. Ele está bem mais dinâmico, estamos colocando mais carinho e cuidado, está sendo mais polido”, avalia Aline. “Até na questão da identidade. No primeiro álbum a gente ainda não tinha tanto, estávamos testando muitas coisas, testando caminhos, vendo o que era mais a nossa cara. Agora, nesse segundo álbum, eealmente está sendo de uma maneira mais a nossa cara”, completa.
Luísa concorda: “tem muitas músicas que batem no peito pra falar ‘é isso que eu sou’ e também ‘é isso que eu quero, é isso que eu vou fazer’. Tem também um pouco de medo de perder essa identidade, de se perder no meio da muitidão, medo de me perder no digital. Acho que tudo transita um pouco por essa temática, só que por diferentes aspectos”.
Uso de IA é terreno fértil para solução de problemas no meio empresarial goiano
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José Abrão Goiânia – O uso de inteligência artificial (IA) no trabalho veio para ficar: segundo levantamento feito pela Fundação Getúlio Var
José Abrão
Goiânia – O uso de inteligência artificial (IA) no trabalho veio para ficar: segundo levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com a Microsoft, em janeiro de 2026, 62% das empresas brasileiras com mais de 50 funcionários já faziam uso de ferramentas de IA no cotidiano. Em 2024, eram 34%: uma expansão de 82% em dois anos. Segundo um artigo publicado pela mesma instituição, 30 milhões de trabalhadores já são impactados de alguma forma pela IA.
Na pesquisa, a ferramenta mais citada foi o ChatGPT, usado por 89% das empresas, seguido pelo Copilot (34%) e Gemini (21%). Porém, a IA vai muito além de chatbots e modelos generativos de linguagem genéricos: ferramentas específicas e soluções tecnológicas direcionadas estão transformando o mercado de trabalho em diferentes setores, e as startups com faro para detectar essas oportunidades estão se destacando.
Pioneiros no agro e na construção civil
Duas áreas com enorme potencial ainda não muito explorado são o agronegócio e a logística: o Brasil é um país produtor de dimensões continentais, e a empresa goiana SOU AgroSoluções saiu na frente ainda em 2018, com foco no gerenciamento logístico de insumos e royalties. Seu produto principal é o SafraControl, plataforma que gerencia recebimentos, distribuição de fertilizantes, sementes, defensivos e o controle de royalties.
Valquer Novaes, fundador da empresa, explica que suas soluções automatizaram e deram segurança para processos morosos e feitos manualmente, muito suscetíveis a erros. “O primeiro produto é uma plataforma para gestão de logística do agro na distribuição de insumos. Ali dentro, o cliente faz toda a parte de agendamento, roteirização das cargas, acompanhamento, as etapas do carregamento até a liberação, as entregas e auditoria de frete. A IA ajuda a entregar as melhorias de forma mais rápida e acelerada nas funcionalidades novas, nas mudanças, com melhor qualidade”, pontua.
Outra ferramenta desenvolvida é para a validação de documentos, como comprovantes de entrega. “O cliente não precisa mais ficar olhando documento por documento. Como era feito antes? Depois que é feita a entrega, sobe o comprovante e aí algum usuário teria que validar para garantir que não é uma foto aleatória do caminhão, porque o comprovante de entrega é o que respalda o ciclo fechado para a transportadora receber o frete. Então, a gente já tem uma IA ali que faz essa validação, ela checa se a foto é um comprovante, se está assinado, se tem data de entrega”, resume, oferecendo mais transparência e segurança ao processo.
Outro sistema organiza as cargas e sua distribuição na frota e nas rotas do cliente sem que isso tenha que ser feito carga a carga: “Se o cliente tiver 50 cargas naquela semana, ele pode fazer as 50 de uma vez só, e a inteligência ali por trás vai olhar a rota a ser usada, agrupar os clientes que fazem sentido na mesma rota, conseguir encher o máximo dos caminhões. Ele consegue montar rotas mais eficientes para reduzir o custo do frete e melhorar a conta logística dele”.
Parte dessa qualidade veio da experiência: Valquer trabalhou em uma sementeira, e o contato próximo com o agronegócio revelou a ineficiência da logística e as dores de cabeça dos produtores. Como desenvolvedor, ele já conhecia outros sistemas de logística, mas sabia que o agro possui especificidades que precisavam ser trabalhadas.
“Então foi isso que a gente conseguiu fazer: a gente desenvolveu 100% com o nosso time, mas, antes de desenvolver, a gente passou por um laboratório na prática, sofrendo as dores ali de verdade do usuário, e aí sim foi onde a gente conseguiu fazer algo que resolve mesmo, de verdade, as dores do agro”, explica. Para ele, a tecnologia não é um fim, mas um meio, e a IA é só mais uma ferramenta que veio para ajudar: “Ela sozinha não vai resolver tudo, mas ela é o meio pelo qual a gente consegue melhorar processos, gerar eficiência operacional e redução de custo, mas sempre vai depender do recurso humano”, finaliza.
Interface do sistema de gestão de royalties (Imagem: divulgação)
A inovação também se faz presente na área urbana: quem mora em Goiânia já deve ter percebido que sempre há um prédio em construção no horizonte (quando não são vários). A plataforma goiana Coordly saiu na frente ainda em 2019, trazendo eficiência, organização e planejamento para o mercado da construção civil.
Seu fundador, Romeu Neiva, já era da área de construção civil e notou que a parte de gestão de projetos e planejamento era muito ineficiente. Engenheiro civil com mestrado em arquitetura e construção, ele decidiu empreender na área de Building Information Modeling (BIM), que basicamente é uma forma de digitalizar as informações da construção.
“Aí surgiu a oportunidade de empreender em duas frentes, uma de serviço, então a gente criou uma empresa de coordenação e compatibilização de projetos em BIM, para o mercado imobiliário aqui de Goiânia, principalmente, e a plataforma, o software, que surgiu em 2019, como uma forma de fazer esse processo de forma mais automatizada, centralizando tudo num lugar só”, conta.
Por meio da Coordly, a inteligência artificial ajuda o coordenador de projetos, que é a pessoa que está sempre envolvida na tomada de decisões, para que a obra aconteça da forma mais tranquila possível: “Os problemas que, até então, eram resolvidos dentro da obra vão ser resolvidos na fase de projeto. Então a gente otimiza de 40% a 70% do tempo dessa pessoa responsável por coordenar o projeto, com uma ferramenta que agiliza o trabalho dela”.
Para fazer uma obra, há a necessidade de ter documentos, que são plantas baixas, elevações e cortes. O Coordly oferece modelos tridimensionais para visualização desse mesmo projeto e extração de dados dele. Além da centralização, há ainda conexão entre as equipes pela plataforma para vincular todos os profissionais envolvidos, do arquiteto ao eletricista.
“Isso tem um potencial grande de economia: a construção civil é uma indústria muito ineficiente. Então essa metodologia hoje é o principal vetor de inovação e transformação da construção. Tanto é que, se você der uma pesquisada breve sobre BIM, vai ver que já tem até iniciativa do governo federal para poder fazer contratação. É uma área bem técnica, mas que tem um impacto gigante na sociedade”, pontua.
“A tendência é que, para que a gente tenha o alcance desses benefícios que essas ferramentas podem trazer, a gente precise ainda continuar fazendo a qualificação dos profissionais, seja interna ou externa, tanto dos profissionais que trabalham na empresa quanto dos nossos clientes, para a gente poder traduzir isso em resultado. O desafio exatamente está em traduzir isso em resultado”, avalia Neiva.
Para ele, a demanda já existe e só vai crescer, assim como a necessidade de qualificar a cadeia produtiva. “Isso demanda tempo, é natural, isso demanda muito tempo mesmo. Esse aperfeiçoamento e esse aprimoramento de processos, metodologias e tudo mais só conseguem ser consolidados com o tempo. Nem sempre existe o entendimento de que esse tempo precisa ser respeitado”, comenta sobre a aceleração desses processos.
E, de fato, inovações como essa vão só acelerar: segundo levantamento da IDC Brasil, o mercado brasileiro de IA foi avaliado em US$ 2,4 bilhões em 2025, com projeção de US$ 8,1 bilhões até 2030, com um crescimento de 52% de 2024 para 2025. O Brasil já ocupa a 14ª posição no Global AI Index 2025, da Tortoise Intelligence, liderando a América Latina em desenvolvimento e adoção de IA.
Além disso, segundo a Abstartups, o Brasil tem mais de 700 startups focadas em soluções de IA, e o governo federal, por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, planeja investir R$ 23 bilhões em infraestrutura tecnológica até 2028.
Terreno fértil
O professor doutor Celso Camilo, um dos fundadores do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia-UFG), afirma que a demanda de organizações por projetos na área de IA é crescente, além da busca por apoio estratégico da universidade para definir caminhos e governança.
“Diferentes perfis de pessoas buscam capacitação e desenvolvimento com IA. A IA é uma ciência que apoia o desenvolvimento de várias ferramentas que provocam uma revolução tecnológica e, por consequência, uma revolução social. Assim, vários setores econômicos estão sendo transformados”, afirma o professor. “Mesmo que haja resistência e dificuldade de entendimento do momento que vivemos, as pessoas e organizações vão receber os impactos da revolução. O letramento é parte da solução para reduzir medos e empoderar as pessoas para adaptar e escolher como querem se posicionar nesse momento”, completa.
O pesquisador avalia que, no curto prazo, vamos ver mais agentes com IA sendo assistentes dos humanos em diferentes tarefas, inclusive nas compras. “Nesse ponto, a IA contribui muito para reduzir o tempo e a complexidade de montar pilotos que ajudem a validar a ideia no mercado. Antes, gastavam-se muitos meses de desenvolvimento em um protótipo mínimo para apresentar ao mercado, e esse tempo foi muito encurtado com a IA. Além disso, o conhecimento multidisciplinar está mais acessível e integrado para que haja um melhor aproveitamento do empreendedor eficaz”, pontua.
Esse é o caso do jovem estudante de Ciência da Computação e empreendedor Gabriel Lopes, de 23 anos, que tem uma startup voltada para a otimização de vendas nas redes sociais. Sua ferramenta de IA, a Lussia, extrai dados para desenvolver roteiros e conteúdos com estratégia de marketing para o comércio. Atualmente, a Lussia está em fase inicial de desenvolvimento e não está aberta ao público geral, apenas a clientes pontuais, como um MVP (produto mínimo viável) que entrega esse serviço de marketing estratégico.
“Os processos de extração de dados das redes sociais são trabalhosos, e a geração artificial dos roteiros ainda precisa ser aperfeiçoada, mas revela resultados mais positivos do que roteiros humanos, em média. O próximo passo continua sendo a identificação do problema real nas empresas em seus processos de marketing nas redes sociais”, explica Gabriel.
Ele participou do Startup Day mais recente e foi orientado a procurar editais de fomento pelo potencial da sua ideia. “A Lussia pretende ampliar significativamente o faturamento e o sucesso social de pequenos empreendedores, democratizando um dos maiores canais de vendas no Brasil. Eu acredito que a IA irá potencializar o trabalho em praticamente todas as áreas do mercado, infelizmente reduzindo alguns times, mas também trazendo novas oportunidades para um novo mercado”, avalia o jovem empreendedor.
Advocacia: IA como ferramenta indispensável
Outro setor sendo revolucionado pela IA é o da advocacia: o Brasil é o país com o maior volume de processos e, segundo a Associação Brasileira de Advogados (Aba), 55,1% dos advogados brasileiros já usam IA regularmente no trabalho e 47,8% dos escritórios com mais de 500 advogados adotaram ferramentas de IA no cotidiano. Um artigo publicado pela da FGV Direito SP aponta que cerca de 80% dos profissionais no setor jurídico usam IA com alta frequência.
O advogado e agora também desenvolvedor Gustavo Leite já possuía o desejo de entrar no mercado tecnológico antes da advocacia e ingressou no bacharelado em IA da UFG, onde conheceu seus sócios na Exordial IA, ferramenta que nasceu com a ideia de resolver problemas cotidianos dos advogados como a redação de petições, análise de contratos, uso de anexos e outros elementos processuais.
Entre os diferenciais da plataforma está principalmente a busca de jurisprudência a partir de um banco de dados, evitando alucinações de IA, e também um chat jurídico, em que o advogado consegue tirar dúvidas, planejar peças e fazer pesquisas. Além disso, eles também lançaram recentemente um programa de jurisprudência que pode ser inserido em chatbots como Claude e ChatGPT.
“Nós recebemos um bom feedback do mercado. Os usuários relatam que as petições que nós criamos possuem uma qualidade maior do que qualquer outra IA genérica é capaz de criar. Nós estamos liderando no quesito qualidade, e a gente sempre pensou em facilidade para o usuário, então a nossa plataforma foi pensada para ser simples, intuitiva, com uma menor quantidade de botões”, relata Leite.
O advogado destaca que muitas pessoas ainda não compreendem como a IA pode ser trabalhada atualmente para lidar com problemas específicos de forma competente: “A IA ajuda você a pensar. Ela vai pegar o contexto e o texto que você já tem, e que já é muito bom, e te ajuda a refinar sua redação e analisar um número grande de documentos. Ela se torna uma ferramenta poderosíssima e, acredito que em breve, indispensável. Acredito que todos os advogados vão usar IA por ser muito mais eficiente e estratégico”.
Para o futuro, Leite sonha grande: “Pretendemos entregar uma experiência premium em que vamos alcançar um nível maior de profundidade. Já entregamos algo técnico, e o que a gente realmente quer é um novo patamar, conseguir trabalhar aquela inteligência jurídica para que a redação do advogado e os insights que ele tem ganhem um nível maior de sofisticação”.
“Estar na estrada é manter uma banda viva”, diz vocalista da Dead Fish antes de shows em Goiás
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José Abrão Goiânia – Com mais de 30 anos de estrada, a banda capixaba Dead Fish não perdeu o fôlego. Com agenda cheia, celebrando 20 anos d
José Abrão
Goiânia – Com mais de 30 anos de estrada, a banda capixaba Dead Fish não perdeu o fôlego. Com agenda cheia, celebrando 20 anos do seu disco mais famoso, Zero e Um, e tendo lançado seu álbum mais recente de inéditas ainda em 2024, o grupo liderado por Rodrigo Lima desembarca em Goiás não para um, mas para dois shows. A banda se apresenta nesta sexta (8/5) no Goiânia Noise Festival, na capital, e segue para Porangatu para se apresentar no Goyazes Rock Festival, no sábado (9).
Consagrada como um dos principais nomes do hardcore nacional, a banda sempre manteve temas como política e desigualdade social em suas letras e segue firme e forte desde os anos 1990. “O punk e o hardcore sempre estiveram e estarão por aí. Já é um movimento cinquentão, e, para onde você for, existirá uma banda de punk, uma turma, um movimento, em voga ou não”, avalia o vocalista e letrista Rodrigo Lima.
Na visão do músico, tem rolado um certo “novo” interesse pelo punk, o que tem levado um público jovem aos shows: “tem mais molecada no show do que dois anos atrás, mas eles sempre apareceram, pelo menos nos shows do Dead Fish por aí. O motivo principal sempre será juntar as pessoas para ouvir som alto e simples e discutir nossas pautas políticas, econômicas e sociais. O punk discute muitas pautas desde os anos 70/80 que só agora estão em voga para as massas, e isso atrai mais gente em momentos como agora”, pontua.
Sobre a agenda dupla em Goiás, o vocalista afirma que “estar na estrada é manter uma banda viva, ainda interessada em fazer música, em conhecer cidades novas e pessoas novas. Isso também pode matar de cansaço uma banda velha como a nossa (risos), mas ainda sinto um superprazer em estar nos festivais pelo Brasil. Isso definitivamente me move e acredito que seja um dos ótimos motivos de se fazer música”.
Apesar de o último álbum ter saído em 2024 e de terem lançado um álbum ao vivo neste ano, Rodrigo conta que a banda continua com um pique intenso de produção, mas sem pressa para o lançamento. “Estamos no meio da demo para o nosso décimo primeiro álbum. Está saindo devagar e com paciência. Esse álbum não terá um tema, então estou escrevendo muito mais solto, me permitindo testar umas letras diferentes”, afirma.
Além disso, no dia 16 de maio, no Espírito Santo, a Dead Fish vai tocar no mesmo palco da Rodox, banda do ex-Raimundos Rodolfo Abrantes, que está em uma turnê de retorno após 22 anos. Segundo Rodrigo, a agenda foi uma coincidência. “Não combinamos nada, iremos lá fazer nosso rolê. Fico feliz pelo Rodolfo ter tido vontade de estar no palco com uma banda de rock de novo. Ele é o único Raimundo original que não conheci, que nunca conversei. Talvez essa seja uma ótima oportunidade”, avalia.
O Goiânia Noise ocorre no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON) com entrada gratuita mediante doação de 1kg de alimento não perecível. O evento começa nesta quinta-feira (7/5) e vai até domingo (10). Já o Goyazes Rock Festival ocorre a partir das 19h na Quadra da UEG, no sábado (9/5).
Goiânia – Com 32 anos de carreira, a banda Hateen se consolidou como pioneira do hardocre melódico no Brasil, também chamado de emocore, gênero que explodiu no começo dos anos 2000 com eles e outros nomes como Dance of Days, Fresno, CPM 22 e NX Zero. O estilo tem passado por uma fase de renascimento, renovação e redescoberta com agenda de shows cheia e novos fãs.
Neste contexto, a banda Hateen é a atração principal da Emo Night Festival, festa temática que ocorre neste sábado (18/4) em Goiânia no De Leon Music Pub, no Setor Sul. “Acho que tem algumas coisas acontecendo que ajudam isso. Uma das mais importantes é o revival do rock em geral. Eu sinto que no mundo está tendo uma revitalizada no cenário do rock que há algum tempo não acontecia. E isso dá uma puxada no som de guitarra. O moleque está procurando mais esse tipo de música. Muita gente está aprendendo instrumento, querendo fazer música. A galera voltou a querer ter banda”, avalia Rodrigo Koala, vocalista e guitarrista da Hateen e um dos compositores mais conhecidos da cena.
Ao seu ver, conforme destacou em entrevista à reportagem do jornal A Redação, o emo acabou surfando na onda primeiro por ter sido o último estilo a fazer barulho. “É a última geração, uma galera que tinha 15, 16 anos e hoje está na faixa dos 30, 35. Tem dinheiro para ir ao show, para comprar merchandise e realizar todas as vontades que talvez não tinha na época em que o negócio estava rolando. Isso é muito legal”, pontua.
E acabou que nessa nova fase, o Hateen e a Dance of Days viraram algo como santos patronos do movimento, não apenas porque foram pioneiros, mas porque permanecem em atividade tantos anos depois. “Tem essa questão da persistência, né? Por estar há tanto tempo fazendo a mesma coisa e ligado ao movimento. A gente está desde 94, a Dance deve ser 95, por aí. Esse tempo todo dá uma bagagem, aquela famosa frase de que você fez a estrada para os outros passarem (risos). Mas quando a gente começou, não tinha nem intenção do que poderia se tornar”, relembra.
“A gente era apenas um bando de moleque que foi indo fazer música. Como hoje, acho que tem várias bandas se formando com esse mesmo intuito. E espero que seja assim, sem a vontade de fazer sucesso ou aparecer. Que seja pela simples vontade de se divertir com os amigos, que é o mais legal”, completa.
Preconceito
Testemunhar a volta da popularidade do emo pode parecer estranho para quem viveu a época, já que as bandas muitas vezes eram alvo de ridicularização e piadas homofóbicas por parte de fãs de outros gêneros do rock, como entre os metaleiros. Koala avalia que o meio do rock passou por uma renovação nas últimas duas décadas, com uma galera com a mente mais aberta.
“Ficou pejorativo por causa de um viés mais machista que a gente sempre teve por aqui. O emo chegou com esse rótulo mais afeminado, o que deu uma deturpada. O rock sempre foi muito preconceituoso, muito machista. Muita gente também não tem, às vezes, a maturidade para entender um tipo de música em uma determinada fase da vida. Já ouvi gente me falar: ‘há quinze anos eu não gostava de vocês porque estava preocupado em entender outro tipo de música. Hoje eu gosto porque consigo entender a letra.’ Tem muito disso…Você estar na hora certa, no lugar certo, conectado com aquela música. Se não, não vai fazer sentido. Se ela não te capturou naquele momento, ela vai te sequestrar em outro”, relata.
E a renovação está por todo lado: Koala conta que há muitos fãs jovens e adolescentes nos shows, não só da Hateen, mas de outras bandas veteranas do hardcore nacional, como a Dead Fish. Além disso, novas bandas têm pipocado por toda parte, como a Budang e a Chão de Taco, que chamaram sua atenção. “Muitas bandas novas também estão trazendo uma galera mais nova para a cena. Quando me pedem conselho eu fico muito sem jeito de falar, porque nem sei direito como fiz as coisas para chegar até aqui. Acho que a persistência é importante — persistir e se divertir com o que você está fazendo. Eu sempre falo para os caras: vai se divertindo e vai fazendo o melhor que pode. Lá na frente você vai ter realizado coisas que não vai entender por quê, mas só de você ter continuado e feito, vai chegar esse momento”, aconselha.
Planos
Além disso, 2026 é um ano marcante para a banda. Se completam 10 anos desde o último disco, Não Vai Mais Ter Tristeza Aqui, e 20 do álbum mais popular, Procedimentos de Emergência. “O pessoal está enchendo o saco querendo muito uma mini turnê de vinte anos do Procedimentos de Emergência. E a gente está terminando o disco novo também, no final de maio a gente começa a gravar aqui em São Paulo “, conta Koala. O novo álbum ainda não tem nome e deve ser lançado depois da Copa, no segundo semestre.
“Fazer a turnê do disco novo é prioridade, mas nesse meio tempo a gente vai tentar encaixar essas turnezinhas para comemorar esses álbuns [aniversariantes]. Não vai ser uma grande turnê, mas a gente vai fazer alguma coisa, com certeza”, promete.
“A gente sempre fala que o disco novo é o que a gente mais gosta, porque ele traz aquele frescor, as ideias novas da banda. Faz dez anos que a gente não grava um disco e em dez anos muda muito o direcionamento de som, a banda fica mais madura. Eu acho que a gente cada vez oferece um material diferente. Estou muito feliz com o que está chegando de material novo”, garante.
Atriz goiana Kamila Amorim relembra trajetória até papel de destaque em novela da Globo
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José Abrão
Goiânia – A pandemia foi o ponto de virada na vida da então designer Kamila Amorim, natural de Goiânia. Filha de músicos e criada em meio ao universo artístico, ela decidiu que não dava mais para adiar o sonho de estar nos palcos e resolveu se jogar de vez no que sempre considerou seu destino. Corta para 2026, quando Kamila ganha papel de destaque na novela Coração Acelerado, da Rede Globo, como Laurinha, melhor amiga da influenciadora Naiane (Isabelle Drummond).
Em entrevista ao jornal A Redação, Kamila relembra a própria trajetória, fala sobre sonhos e destaca a satisfação de integrar uma novela ambientada em Goiás, com foco na cultura local. Definindo-se como uma “jovem mística”, a atriz acredita que, além de talento e sorte, sua chegada ao papel também envolve algo difícil de explicar, como o destino.
“Eu já estava trabalhando aqui no cinema de Goiânia, fazendo vários filmes, e aí surgiu o Levanta, Regiane, que foi aquele filme da Globo, né, feito com uma equipe toda goiana, um filme regional, e que foi uma porta de entrada para a maioria de nós ali. Esse filme foi usado como material de pesquisa para fazer o elenco da novela, só que, quando a gente fez o filme, ainda não tinha essa noção, não sabia que ia ter novela aqui”, lembra.
A partir daí, ela passou por vários testes de elenco em Goiânia, inclusive uma espécie de oficina de experimentação cênica. Mais adiante, ainda, houve, enfim, novos testes de elenco. “Foram três ou quatro testes aqui, com muita gente: veio gente de Brasília, de BH, de vários lugares. Esse teste foi em julho de 2025, e, em agosto, eu assinei o contrato. Em setembro, já me mudei para o Rio”, conta. Todo o processo foi muito rápido, considerando que Levanta, Regiane havia sido gravado no final de 2024.
Quando recebeu a notícia, o cenário já era de novela: Kamila estava em uma praia na Espanha. “Foi lindo”.
Audiovisual goiano consolidado
Outra coisa que Kamila acredita que fez a diferença foi sua formação e preparação em Goiás, que já está consolidado no cenário do audiovisual. “Aqui em Goiás, nós somos muito bem servidos de profissionais e de projetos. Se eu não me engano, Goiás foi um dos estados que mais captaram recursos para o audiovisual nos últimos tempos. E isso foi a base da minha carreira”, pontua.
Ela conta que, quando foi estudar, pesquisou os cursos e escolas do eixo Rio-SP para ficar mais próxima das produtoras, mas logo descobriu que não apenas as escolas daqui não devem nada às de lá, como a maioria dos testes agora é feita remotamente, por vídeo. “Se eles estão fazendo por vídeo com quem está no Rio, podem fazer comigo, que estou aqui”, foi a lógica que ela seguiu. “Foi uma grande libertação. Isso tirou um peso enorme dos meus ombros. Eu sou goiana, eu estarei em Goiás”, relata.
O que acabou dando muito certo, já que pouco depois apareceram oportunidades procurando especificamente por atrizes goianas: “o que me levou para a Globo foi o trabalho que eu fiz aqui”.
Trabalhar na novela tem sido uma experiência muito diferente. Em primeiro lugar, Kamila destaca a estrutura: os Estúdios Globo permanecem os maiores do país e, além disso, há a questão da velocidade com que as cenas são escritas, produzidas e gravadas. Em um dia muito cheio, ela conta que pode fazer 15 cenas. Ainda assim, é uma correria que vale a pena: “No final das contas, é um grande sonho. Estar ali. Trabalhar ali. É uma loucura, mas é uma loucura boa”.
Lançamento
Para o futuro, Kamila conta que tem recebido alguns convites, mas que, no momento, está totalmente focada na novela, inclusive porque é uma rotina que demanda muito, com gravações seis dias por semana. Mesmo assim, ela já tem um lançamento previsto para o final deste ano: o longa-metragem Leodegária, seu primeiro papel de protagonista, gravado antes de começar a novela.
“Ela foi a primeira mulher a publicar um livro em Goiás. Ela publicou 20 anos antes da Cora Coralina. Era uma mulher preta e foi apagada da história. E aí, estão movimentando o resgate da memória dela. Ele foi filmado em abril e maio de 2025”.
“Uma conexão diferente”, diz vocalista da banda Madball sobre tocar no Brasil e em Goiânia
Fonte: A Redação - https://aredacao.com.br/uma-conexao-diferente-diz-vocalista-da-banda-madball-sobre-tocar-em-goiania/
José Abrão
Goiânia – A banda Madball surgiu nos anos 1980 como um projeto paralelo à Agnostic Front. Logo, ela se tornaria uma referência global na cena hardcore, transcendendo o mercado americano e virando sinônimo do estilo musical de Nova York. Agressiva e abrasiva, a banda veio a influenciar toda uma nova geração (e a geração seguinte) de artistas que hoje dominam grandes palcos, como Knocked Loose e Turnstile.
Nesta quinta-feira (5/3), o grupo passou pela primeira vez por Goiânia, tocando para uma casa lotada no De Leon Music Pub, no Setor Sul. Antes do show, o vocalista e fundador Freddie Cricien conversou com exclusividade com o jornal A Redação sobre o novo disco, o cenário musical atual e sobre como sua música raivosa conseguiu transcender fronteiras e idiomas.
Por que a música hardcore feita em Nova York ressoa com pessoas de lugares tão distantes quanto Goiânia?
Você não precisa nem ser de uma grande cidade. Algumas culturas possuem um lado mais áspero, talvez da sua experiência de trabalho, de vida, de rua, algumas áreas do mundo que conseguem se identificar com essa música mais abrasiva, rebelde, e essas pessoas gravitam em direção ao hardcore. Embora você não precise ter levado uma vida difícil para curtir o que fazemos: muitas pessoas que nos acompanham gostam de música agressiva e levam vidas normais. Mas em alguns lugares você consegue sentir que há mais paixão, mais conexão, e o Brasil é um lugar assim. Nós tocamos aqui desde os anos 1990 e sempre houve essa troca de energia: nós nos entendemos. Isso vale para toda a América do Sul: há uma conexão diferente.
A cena hardcore se formou através do faça-você-mesmo. O que você acha das plataformas de streaming e do YouTube hoje em dia para novas bandas da cena?
Existem argumentos diferentes sobre a questão do streaming porque dizem que o artista, e isso é provavelmente verdade, não está recebendo um valor justo pela música porque é muito fragmentado e você paga para esses serviços uma mensalidade. Você não está comprando um álbum físico. Mas há o argumento: uma loja de disco teria todos os discos? Acho que não. É algo estranho. Acho que é excelente para a exposição: um novo artista pode subir sua música para essa plataforma, algo que nunca tivemos quando começamos. Era só boca-a-boca e se você tivesse sorte como nós tivemos, você entrava em um bom selo e sua música circulava. Ainda é um tipo específico de música, com um público nichado, mas você tem pelo menos algum tipo de veículo. Streaming é muito bom por essa exposição, você vai ser exposto a muito mais gente, já que pode procurar qualquer álbum, show ou banda. É difícil: de um jeito ou de outro, o artista ainda se ferra de alguma forma (risos). Mas pelo menos agora todos estão em pé de igualdade.
Vocês estão trabalhando em um novo álbum e já incluíram novas músicas no repertório. Quando esse novo álbum completo será lançado?
Em maio. Ele está pronto desde setembro, a única coisa que segurou seu lançamento foi um problema de mixagem. Fizemos com um cara e não gostamos, aí fizemos com outro e adoramos. E também a arte. Não pra soar como um otário, mas a capa ficou icônica, mas para assegurar a foto eu precisava achar o cara, só que ele morreu, e eu precisava fechar a licença com a família. Então todo esse processo levou um bom tempo, mas felizmente não custou muito, eu temia que ia ser impossível, mas foi razoável. E esses passos seguraram o lançamento um pouco. Mas posso dizer com segurança que vai ser lançado por volta de 15 de maio. Já gravamos um vídeo e vamos gravar outro em abril e um deles será nosso single.
A cena hardcore sempre foi diversa e o Madball teve um papel importante nisso, introduzindo novos elementos que ressoam com outros gêneros, como o metal. Como você se sente em relação a novas bandas como Turnstile e Knocked Loose tocando em palcos raramente abertos ao hardcore antes?
Algo que eles estão fazendo é se conectar com públicos diferentes. Essas bandas transcenderam o mundo do hardcore. Turnstile veio com a gente em turnê várias vezes. Quando comemoramos 25 anos, circulamos com diversas bandas jovens e Turnstile estava entre elas, quando ainda estavam começando a chamar a atenção, e agora estão tocando em palcos gigantescos. Fico muito feliz por eles. Acho que musicalmente eles evoluíram um pouco e isso foi o suficiente para atrair outras audiências. Isso é excelente porque se você conectar os pontos, o mapa ainda leva de volta para o hardcore. Isso não significa que a Madball vá tocar nos mesmos lugares que eles, infelizmente (risos), mas de vez em quando eles falam da gente em uma entrevista e isso pode fazer alguém dizer ‘oh, quem são esses caras?’. Então isso torna novas pessoas cientes do hardcore. Já a Knocked Loose, nós íamos fazer uma turnê na Europa tendo eles como principal banda de apoio, mas aí a pandemia veio e nada aconteceu. E aí eles explodiram. Agora é a gente que tem que pedir pra ir na turnê deles (risos). Estou esperando o convite, ok? Eles conheciam a cultura, estavam honrados por poder fazer essa turnê com a gente, mas quando tudo acabou, eles estavam tão grandes que eu não podia chamá-los mais. Mas é muito legal. Tudo relacionado ao hardcore está recebendo muita atenção agora e isso não é algo ruim pra gente: estamos ainda no front lutando a anos, então é muito legal.
Não só os EUA, mas o mundo todo está passando por um momento de grande instabilidade política. O que os artistas podem fazer em um momento como este? Isso vai inspirar novas músicas?
Na minha honesta opinião, sendo totalmente transparente, às vezes eu sinto que os artistas deviam falar menos e não se envolver em algumas das conversas políticas porque de vez em quando eles se envolvem e soam como idiotas porque não sabem a história completa de nenhum dos lados. Eu sou um cara do hardcore e não um político e não finjo ser o que não sou. Eu me preocupo com minha família e meu círculo próximo e se eu puder ajudar outro ser humano, eu ajudarei. Eu estou neste mundo há 50 anos e experienciei muitas coisas. Estou consciente do que está rolando, tudo isso afeta todo mundo. Como artista, você tem o direito de tirar isso do seu peito criativamente, mas enquanto você não sabe direito do que você está falando, você não devia falar nada. Porém, se você quer falar pela sua arte de algo que está no seu coração, vá em frente, está no seu direito, mesmo se for algo que eu não queira ouvir, desde que seja honesto. Muitas pessoas do nosso mundo estão escolhendo lados e nós somos garotos da rua, do punk, não somos democratas ou republicanos. Podemos ter pontos de vista, mas é um momento de polarização complicado e que me parece ser de propósito, feito para dividir as pessoas. É mais fácil controlar as pessoas assim.
Você é de Nova York, uma cidade que também passou por muita coisa recentemente. Você acha que o novo prefeito pode fazer alguma diferença?
Nova York era um lugar muito barra pesada quando estávamos começando. Eu não morei lá nos anos 1980, mas estava lá direto e era difícil. Nos anos 1990 eu morei naquele ambiente e era complicado, você tinha que estar atento. Então houve uma onda em que as coisas ficaram mais limpas e seguras. O que algumas pessoas também não gostaram, porque acharam que tirava algo da cidade. Eu acho que recentemente houve um declínio em Nova York. Eu não moro lá, mas vou lá o tempo todo e não me importa quem está na prefeitura, mas a cidade não está bem: está muito suja, a epidemia de drogas está de volta, há pessoas drogadas nas ruas. Eu via isso nos anos 1980 e 1990, mas ver isso agora? É estranho e não sei se é intencional ou se o clima e as coisas estão tão invertidas… essas cidades funcionam como elas funcionam, seja lá quem for o presidente. O governo local faz o que quiser. Eles podem culpar o presidente o quanto quiserem, mas eles governam a cidade e você precisa questionar isso.
Roblox: Especialistas orientam pais sobre como cuidar da segurança dos filhos
Fonte: A Redação - https://aredacao.com.br/roblox-especialistas-orientam-pais-sobre-como-cuidar-da-seguranca-dos-filhos/
José Abrão
Goiânia – O Roblox é um jogo, mas não é só um jogo: é uma plataforma on-line de jogos e criação de jogos, onde milhões de usuários podem criar, compartilhar e jogar experiências interativas feitas por outras pessoas. Na prática, ele acaba funcionando como uma mistura de videogame com rede social e metaverso. A proposta, inerentemente lúdica, criativa e imersiva, atrai cerca de 144 milhões de usuários ativos diariamente em todo o mundo, dos quais 50 milhões têm menos de 13 anos e 57 milhões têm entre 13 e 17 anos, segundo levantamento da própria empresa.
O jogo é multiplataforma e está disponível inclusive para celulares e tablets, o que o popularizou ainda mais e o incluiu com facilidade no cotidiano de milhares de crianças no Brasil. Porém, a falta de controle nesse ambiente digital tem gerado problemas: a presença de conteúdo impróprio e de aliciadores e predadores sexuais na plataforma acendeu o alerta das autoridades e tem preocupado pais quanto à segurança cibernética dos filhos e quanto ao tipo de conteúdo que essas crianças estão acessando.
Uma reportagem especial veiculada pelo Fantástico no último domingo (8/2) inflamou esses medos ao mostrar casos arrepiantes de chantagem e abuso que começaram na plataforma, a falta de fiscalização sobre conteúdos sexualizados e violentos e a dificuldade em barrá-los, assim como a facilidade com que um adulto ou criminoso pode se infiltrar nos milhares de mundos virtuais e no meio de seus milhões de jogadores.
O que fazer
A delegada Marcella Orçai, da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (Dercc) da Polícia Civil de Goiás, relata que a especializada tem registrado casos em que o primeiro contato entre o abusador e a vítima ocorreu em plataformas de jogos digitais, como o Roblox, mas não só nele. “Essas plataformas são ambientes onde crianças e adolescentes interagem com desconhecidos, o que pode ser explorado por criminosos para estabelecer uma relação de confiança. Após essa aproximação inicial, é comum que os abusadores migrem a comunicação para aplicativos de mensagens privadas, como WhatsApp, Telegram ou Discord. Portanto, embora o abuso não ocorra necessariamente dentro da plataforma de jogos, ela serve como porta de entrada para esses criminosos”, explica.
Vale ressaltar que a própria plataforma possui ferramentas de controle parental, como a restrição do chat, que os pais podem utilizar para limitar a exposição dos filhos a certas situações de risco. Segundo a delegada, a prevenção é a melhor forma de proteção: os pais devem supervisionar o uso da internet e acompanhar de perto as atividades on-line dos filhos, conhecendo os jogos e aplicativos que utilizam, estabelecendo regras claras de horários e limites para o uso de dispositivos eletrônicos.
“Os pais devem utilizar controles parentais, configurando ferramentas que restrinjam o acesso a conteúdos inadequados e monitorem as atividades on-line. Além disso, devem promover o diálogo e conversar regularmente sobre os riscos da internet, ensinando a importância de não compartilhar informações pessoais e de não interagir com desconhecidos”, orienta a delegada.
É importante que as crianças e adolescentes também sejam orientados sobre os perigos, como se estivessem brincando na rua: “é essencial manter a privacidade, evitar divulgar dados pessoais, como endereço, escola ou telefone; desconfiar de estranhos, não aceitando convites ou presentes de pessoas desconhecidas na internet; reportar situações suspeitas, informando imediatamente aos pais ou responsáveis sobre qualquer interação estranha”, explica a delegada.
A psicóloga Letícia Tavares afirma que há riscos inerentes ao ambiente digital e, por isso, os pais devem sempre acompanhar os filhos e manter um canal de conversação aberto. Para ela, uma das melhores formas de proteger as crianças é que os pais se inteirem sobre esses jogos e, de preferência, joguem juntos, para estarem sempre cientes sobre o que ocorre nessas plataformas. “Os pais, a partir de uma supervisão ativa, precisam saber de fato o que acontece no jogo. [Mesmo se não jogarem], eles podem procurar no Google, no YouTube, informações sobre como é o jogo, como ele funciona, quais ferramentas de controle parental estão disponíveis. Isso precisa ser feito de forma ativa, porque a criança não tem maturidade para compreender os riscos”, orienta.
A personal trainer Carla Abrão tem dois filhos que jogam Roblox e outros jogos há muito tempo. Hoje, os dois têm 11 e 8 anos. Ela relata que toma todas essas medidas. “Eles não conseguem conversar com quem a gente não permite, não aceitam se a gente não permitir, não podem adicionar ninguém se a gente não autorizar. Antes, eles jogavam no nosso celular; agora, eles usam o tablet deles, que também, para acessar, precisa pedir autorização para mim. Tentamos fazer esse controle o máximo possível”, conta.
Além disso, mesmo que Carla não seja sendo muito ligada a jogos, seu marido, Cláudio, é, e, sempre que possível, joga junto com os filhos, conforme a orientação da psicóloga. “Às vezes eu acho que não é o suficiente, mas a gente tenta o máximo possível”, completa. Da mesma forma, ela entende que tentar proibir, por exemplo, seria uma reação exagerada e contraproducente. “Não é pra tanto, mas a gente fica assustado: criança é criança, eles tentam o tempo inteiro testar os limites, mas buscamos estar sempre atentos”, explica.
Além disso, ela destaca a importância de manter o diálogo aberto: “falo pra eles, de acordo com a idade deles, que tem gente on-line que é má, que não quer o bem deles e que se finge de criança para enganá-los ou convencê-los a fazer algo que não devem fazer”, pontua. “Deixamos claro que estamos abertos o tempo todo a escutá-los e a tirar as dúvidas deles. Por exemplo, ‘papai, conversei com esse Fulano de Tal’, quem é ele? Felizmente, nada nunca aconteceu. Tentamos estar sempre de olho”, completa.
O impacto psicológico
E as crianças não buscam os videogames à toa: jogos como o Roblox são plataformas poderosas de entretenimento, criatividade e sociabilidade, com um repertório muito rico em recursos. Mas, assim como tudo o que é consumido em excesso, também pode fazer mal. “A criança vai ter a liberdade de criar o próprio mundo, criar o próprio personagem como quiser. Mas, também por ser um ambiente virtual, não dá para saber quem está por trás dos outros personagens. Há uma linha tênue entre a diversão e o perigo”, destaca a psicóloga Letícia Tavares.
A psicóloga explica por que os jogos são tão atraentes para esse público e por que os pais devem estar próximos e conscientes dessa exposição. “Os videogames têm um impacto cognitivo e emocional nas crianças. Estamos falando de neurotransmissores como a dopamina, ligada ao prazer, então é natural que os humanos busquem ferramentas que sejam prazerosas. O Roblox possui várias ferramentas, com milhares de atividades, além de incentivar a interação social. Isso facilita que as crianças tenham acesso a recursos dopaminérgicos, isto é, acesso a um prazer instantâneo”, resume.
Por isso, o Roblox e outros jogos digitais podem funcionar como uma “bomba” de dopamina, pois não há tempo de espera para a recompensa. Além disso, quando esse acesso à dopamina é restrito, o cortisol, o hormônio do estresse, sobe. “Há pesquisas sobre o Roblox que mostram que crianças que têm um acesso muito intenso ao jogo ficam mais agressivas e impacientes quando ficam longe, com baixa tolerância à frustração”, pontua a psicóloga.
Como reagir em caso de crime
A delegada Marcella Orçai orienta que é fundamental que os pais mantenham um diálogo aberto e acolhedor com seus filhos, incentivando-os a relatar qualquer situação desconfortável ou suspeita. Caso a criança relate uma situação criminosa, os pais devem:
Manter a calma: evitar reações punitivas que possam inibir futuras confidências;
Preservar evidências: guardar capturas de tela, mensagens e quaisquer informações relevantes;
Buscar apoio especializado: procurar a delegacia especializada em crimes contra crianças e adolescentes para registrar a ocorrência e receber orientações adequadas.
“Além disso, é importante que os pais estejam atentos a mudanças de comportamento nos filhos, como isolamento, alterações de humor ou queda no desempenho escolar, que podem indicar que algo está errado”, finaliza Orçai.
José Abrão
Goiânia – O ator e diretor Antônio Pitanga está em Goiânia nesta segunda-feira (10/11) para participar de uma roda de conversa sobre o seu mais novo filme, Malês, dirigido e estrelado por ele e que está em cartaz nos cinemas. O longa reconta a Revolta dos Malês, uma rebelião de escravizados na Bahia que aconteceu em janeiro de 1835.
O evento deve abordar os temas da escravidão, do racismo e da intolerância discutidos na nova produção. Antes, o cineasta fez uma entrevista coletiva em que abordou o filme e o cinema nacional. Veteraníssimo, Pitanga começou sua carreira ainda nos anos 1950. Foi nome importante do Cinema Novo, foi exilado na Ditadura Militar e está no elenco do único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro de Cannes: O Pagador de Promessas (1962).
“A cultura é o estado mais democrático, porque emana do povo. Fui criado no teatro, no Cinema Novo, num momento em que se levantava uma bandeira importantíssima: que o brasileiro entendesse o valor da sua cultura e que a gente ainda no século XXI tem dificuldade em compreender o que é Brasil”, conta. “Com Malês, eu conto uma história que o povo brasileiro não conhece! Quantas histórias têm aqui em Goiânia, em Goiás, que os brasileiros precisam conhecer?”, completa.
Para ele, o cinema, e em particular Malês, é uma chance de “levar uma luz para a escuridão do esquecimento. Iluminar a memória. Essa memória é do povo: ela não é como o 7 de Setembro, ela não está no calendário”. Pitanga argumenta que é muito importante que a juventude possa conhecer essas histórias e entender como ela está viva agora, no século XXI. Ele relata que, com este filme, ele já foi convidado para falar em três universidades de fora: Princeton, Harvard e Cambridge. Além disso, o filme tem atraído um grande público, tendo passado os 100 mil neste fim de semana em todo o país: “Os jovens querem beber um pouco da fonte da história que foi sequestrada deles. O cinema é essa ferramenta que possibilita colar essa história do século XIX com o século XXI”.
“A importância de Malês não só é poder estar conversando com os jovens, mas trazer luz à invisibilidade de todo tipo de preconceito que ainda no século XXI nós sofremos”, afirma. “Temos aí um manancial para poder conversar, discutir, aprender. É importante conhecermos a importância e a força da cultura na construção desse país”, continua.
Um sonho antigo
Malês é fruto de um sonho antigo de Pitanga que começou lá em 1986 após ler o livro “Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835”, de João José Reis, já da vontade antiga e sempre presente de aprender mais sobre suas origens e sobre a história da negritude brasileira. “Eu nasci no Pelourinho. Ninguém nasce no Pelourinho por acaso. Um local que é a referência da tragédia. Minha mãe nasceu em 1918, neta de escravos, aos 12 anos já era empregada doméstica”, relembra. “Essas histórias eu já tinha dentro de mim, da minha formação. Quando eu li o livro, eu liguei pra ele e disse ‘professor, eu quero fazer um filme sobre a sua pesquisa’. Ele me disse: ‘Pitanga, o livro eu já escrevi, o filme se você quiser é com você’”.
Desde então foram décadas batendo em portas, buscando financiamento, apoios para só agora tirar o filme do papel: “Eu fiz dezenas de filmes nesse tempo, mas nunca perdi Malês de vista. Precisava contar essa história”. Essa vontade, explica ele, vem da sua visão do poder transformador do cinema: “Quando começamos o Festival de Cinema de Gramado, lá não tinha nada. Hoje é a cidade mais turística do Brasil”, exemplifica. Ele inclusive elogiou os festivais de cinema de Goiás: “trazer o cinema pra cá é trazer os olhos do mundo”.
‘Oeste Outra Vez’ e a nova geração
Antes de Malês, Pitanga estrelou recentemente no filme goiano Oeste Outra Vez, de Erico Rassi, de grande repercussão nacional e internacional, entrando na lista da disputa do Oscar, perdendo para o favorito O Agente Secreto. “Oeste Outra Vez me revela um Brasil tão bonito e um cinemão feito aqui que agora o Brasil todo passa a conhecer bem”, conta. “Por isso digo que o cinema é tão democrático. Quando você descentraliza o cinema, começam a aparecer jovens de todo o Brasil”, completa.
Para Pitanga, o cinema brasileiro vive sua melhor fase, mas ainda enfrenta um grande desafio que é o mesmo que ele diz ter enfrentado por toda a vida: falta uma política de Estado para a cultura. “Enquanto o Brasil não tiver esse olhar da importância da cultura pro mundo, vamos seguir dependendo de governos. O último que veio aí impôs terra arrasada: tivemos que recomeçar, recriar ministérios... enquanto os EUA viraram o que viraram, ao exportar a sua cultura. Eles entenderam a importância do audiovisual”, diz.
“Quando eu fui aos EUA, para Nova York, para o Brooklyn, para o Harlem, eu já conhecia tudo. Parecia que estava andando pelo bairro, por causa do cinema americano”, resume. “O tesouro americano investiu durante anos na cultura. Essa é a força que a cultura tem”, completa.
Como próximos projetos, Pitanga vai fazer um documentário sobre a esposa, Xica da Silva, e vai fazer outro filme histórico sobre o Dia da Independência da Bahia, celebrado no dia 2 de julho de 1823, que culminou com a expulsão definitiva dos portugueses do Estado.
A roda de conversa com o cineasta nesta segunda ocorre às 19h no Teatro da Fac Unicamps no Setor Coimbra. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados pelo site.
Ximbinha embarca em nova fase assumindo os vocais e com canções inéditas
Acesse em https://aredacao.com.br/cultura/243425/ximbinha-embarca-em-nova-fase-assumindo-os-vocais-e-com-cancoes-ineditas
Dez anos depois do fim da Banda Calypso, o produtor, guitarrista, compositor e cantor Ximbinha está de volta em uma nova fase da carreira. Do alto dos seus 51 anos de idade e cerca de 40 de música, o músico faz planos e, agora, assume também os vocais, ficando à frente do novo projeto. Desde o início dessa retomada, ele regravou dois grandes sucessos do passado: “Loirinha” e “Senhorita”, ambos rearranjados e com sua voz.
Ximbinha está em Goiânia nesta quinta (6/11), data em que participa da gravação do show de Kamilla Maria, cantora goiana natural de Pires do Rio. Ele aproveitou a passagem para divulgar o seu trabalho e falar dessa nova fase.
“Nós vamos gravar um audiovisual esse ano ainda. Já tava planejado, já era pra gente ter gravado, só que eu não tive o tempo... sabe como é produtor, a gente nunca termina. Eu sou demais perfeccionista e sempre estou querendo ajeitar alguma coisa”, relata. A dúvida no momento é o cenário e o tema para celebrar todos esses anos de carreira e o local do show, que está entre São Paulo e Manaus. Nesse plano já vão entrar as novidades: “já gravei várias músicas inéditas”, garante.
O desafio de voltar a cantar tem sido, para ele, algo que o tirou da sua zona de conforto. Ximbinha afirma que sempre se sentiu mais à vontade tocando ou nos bastidores: “Eu sempre quis trabalhar por trás. Eu gosto de ficar produzindo. Hoje eu senti a necessidade de voltar a cantar. Faziam mais de 30 anos que eu não cantava e quando a gente volta a gente sente muita dificuldade”, conta. Para se reaclimatar, ele tem feito exercícios, treinamentos e condicionamentos para a voz: “se você para de malhar, os músculos atrofiam. E se você para de cantar, as cordas vocais vão atrofiando. O timbre mudou um pouco, mas todo mundo conhece quando eu falo”.
Recomeço
Não foi só sua voz que mudou nesses 10 anos. “Mudou a maneira de pensar, mudou tudo. Há 10 anos eu queria estar entre os artistas mais tocados do Brasil, trabalhava pra isso todo dia. Acordava pensando em trabalho. Hoje eu acordo pensando em viver”, afirma. “Depois que tudo passou, eu vi que não valia a pena. Hoje eu acordo de madrugada e agradeço a Deus por estar vivo, por estar curtindo meus pais, que estão vivos, do lado dos meus filhos, vendo meus netos nascerem. Sou muito feliz”, completa.
Essa mudança de foco do trabalho para a vida pessoal foi o grande pivô, um lado da vida que ele diz ter negligenciado durante todo o tempo de Calypso: “eu tô dormindo na minha cama, coisa que passei 16 anos [sem fazer], trabalhando todos os dias. Vivia dentro de avião, atrás de uma coisa que parecia que eu nunca conquistava sendo que eu já tinha conquistado tudo e não aproveitava”.
“Claro que eu sofri muito, mas depois veio a alegria. Passei aquele luto da perda de tudo e até do trabalho que eu colocava em primeiro lugar e esquecia da minha vida”, diz ele, afirmando que “se tivesse continuado naquele ritmo, talvez eu já tivesse partido”. Agora, Ximbinha resume que está “recomeçando. Não sei tudo, mas sei como conduzir o meu trabalho”.
Outros públicos
Para fora do forró, a habilidade musical de Ximbinha chamou a atenção de um público improvável: os metaleiros. Na semana passada, ele participou do podcast Amplifica, conduzido por Rafa Bittencourt, guitarrista que encabeça a banda Angra. Não apenas isso, como quem fez a ponte entre os dois foi Kiko Loureiro, outro grande guitarrista da cena pesada e com passagem pela Megadeth, uma das maiores bandas de rock do mundo.
“O Rafa era meu fã e eu não sabia! Um dia o Kiko me ligou e disse para fazermos algo juntos. O Kiko é muito querido, um guitarrista super conceituado, que eu conheço desde a década de 1990 e eu não conhecia o Rafa”, conta. Depois do podcast, viraram grandes amigos: “trocamos mensagens quase todo dia. Acho que foi o podcast que eu mais gostei de fazer”.
Ele conta que aprendeu a tocar de tudo, inclusive rock, muito jovem, por ter se criado na música tocando em bailes e festas. “Eu tocava Beatles, Rolling Stones, Genesis, Rod Stewart,... tocava todos os estilos, era muito bacana”, enumera. Com base nessa experiência, ele não descarta a possibilidade de colaborações musicais que explorem outros estilos.
“Naquela época, a maneira de a gente ouvir e tocar música era muito diferente. A gente tocava por vontade de tocar, a gente nem tinha vontade de ganhar dinheiro. Quase não tinha casa de show, a gente tocava em circo, cinema e em bares”, relata. “Quando o artista estava muito estourado, ele tocava numa casa pequena, pra duas mil pessoas”.
Começou nesta quinta-feira (4/9) e segue até domingo (7/9) o Festival Goiânia Noise, no Centro Cultural Martim Cererê, no Setor Sul, templo do rock independente goiano. E esta edição já começou histórica: a festa completa 30 anos de história em grande estilo, com quatro dias de programação, tendo dois dias com entrada franca.
Nesta quinta-feira, com entrada gratuita, a agenda começou às 19h30 com Sangra D’Água e encerrou com show da banda goiana Carne Doce. Léo Razuk e Léo Bigode, sócios na Monstro Discos, realizadora do evento, contam da satisfação de manter a chama do rock goiano viva por três décadas.
“Quando começou, a gente não tinha a mínima ideia de onde ia parar. Chegar aos 30 anos é uma vitória, uma satisfação muito grande. Há um orgulho muito grande em ver o que a gente construiu, o que a gente conseguiu mexer na cidade, o que influenciamos. Botamos Goiânia no mapa da música nacional”, diz Razuk. Ele destacou a ideia da gratuidade em dois dias do festival: “É uma ação de formação de plateia. Por ser de graça, um cara que não conhece pode, de repente, vir aqui e ter contato com bandas e músicas diferentes, passa a conhecer o Cererê. É uma forma de renovar a cena com essa gratuidade”, completa.
Bigode concorda: “O papel do Noise sempre foi esse, de oxigenar a cena, de dar vazão ao novo que não está inserido na grande mídia. É emocionante e, enquanto estiver emocionante, isso vale a pena.” Para ele, é importante destacar o papel e a quantidade de bandas novas e locais na programação do festival. “Estamos sempre buscando esses sons loucos, diferentes, autorais”, celebra.
Márcio Júnior não faz mais parte da Monstro, mas também fez parte dessa história não apenas por meio da produtora, mas por sua banda, a Mechanics, a única a tocar em todas as edições (inclusive nesta). Para ele, chama a atenção “um festival com essa longevidade em uma cidade tão jovem quanto Goiânia, em que a gente inventou que era a capital do rock alternativo e criamos esse rolê para ocupar todos esses espaços”. Ele lembra que “chamamos a atenção para uma cena que existia e não tinha onde tocar. O Noise é um marco da cultura goiana e é incrível ver que o festival se mantém íntegro e sempre pensando em música nova, independente e autoral”, completa.
Gerações de bandas se encontram
Lipe, guitarrista da banda Idos de Março, comenta ser um prazer imenso fazer parte do Noise. “Acabamos de lançar nosso primeiro trabalho autoral e poder estar aqui mostrando esse trabalho novo em um festival tão importante para a cidade, pra gente, é uma honra enorme.” É a 2ª vez que a Idos de Março participa, e Lipe lembra que ir a edições anteriores do Noise influenciou sua carreira musical: “Os primeiros shows que eu vim foram no Martim Cererê. Sempre foi um sonho tocar no Martim, no Noise. Então, é incrível poder se apresentar aqui.”
Os veteranos que lotaram o evento desta quinta são Salma Jô e Mac, o power couple por trás da Carne Doce, que encerrou a programação. "É muito especial pra gente. Nós nos formamos, de certa forma, no Goiânia Noise. É um festival em que sempre sonhamos em conquistar esse palco e esse público e que a gente frequentava antes de ser banda e de ser artista", conta Salma.
"Esse espaço é muito importante porque a gente começou a sonhar aqui", completa Mac. "Esses caras, completando 30 anos de festival, merecem um salve, porque são 30 anos de muito trabalho em busca de sonhos. O importante é a gente não perder essa conexão com esse sonho que começou a ser construído quando ainda éramos adolescentes. Razuk e o Bigode estão de cabeça branca, mas ainda estão sonhando como quando começaram", finaliza.
Fãs em busca do novo
Nada disso seria possível, naturalmente, sem o público. Centenas de pessoas lotaram o Martim Cererê em plena quinta-feira, mesmo com a sexta sendo, para a grande maioria, dia de levantar cedo e ir pro rala. Heitor Felipe e Vinícius Rodrigues cursam Ciências da Computação e ambos estão no Noise pela primeira vez. "A gente está curtindo bastante. Eu pretendo vir todos os dias. Hoje eu estou muito pilhado pra ver a banda Carne Doce, que escuto bastante. Estou muito animado", revela Heitor. Vinícius conta que acha que o espaço para bandas novas e desconhecidas é um dos seus pontos mais fortes. "Eu gosto de conhecer. A gente já tinha o costume de ver bandas mais alternativas quando se apresentam aqui, é divertido ir às escuras".
"Como músico, acho que comecei nessa área por causa do Noise. É uma resistência muito grande. Passa década, é o festival continua vivo", conta o produtor musical Antônio Victor, dessa vez acompanhado pelos amigos João Pedro Porto e João Felipe Castilho. "O primeiro show que eu vi na vida foi do Mechanics, ainda criança, meu pai me trouxe e eu pensei: quero fazer isso", completa.
Agenda
Nesta sexta (5), a goiana Tatame abre as apresentações e o encerramento fica por conta dos goianienses da Violins e com o rock mineiro da Black Pantera. Ainda estão na programação outras atrações de fora, como Mateus Fazeno Rock (CE) e os veteranos da banda Garotos Podres (SP).
No sábado (6), dia mais recheado do evento, os goianos da Banana Bipolar abrem a agenda. A noite será fechada com os titãs locais da Black Drawing Chalks, seguidos pela lenda do rock marginal Rogério Skylab. Na programação estão ainda Maré Tardia (ES) e Jovens Ateus (PR).
No domingo, último dia do festival, a banda Agnoizze abre a programação, que ainda conta com a prata da casa: Mechanics seguida pela Hellbenders. O encerramento fica pelos veteranos da Ratos de Porão.
Os ingressos estão à venda pela Bilheteria Digital a partir de R$ 50.
José Abrão
Goiânia – Após se apresentar no Centro Cultural Martim Cererê em setembro do ano passado, a banda de hardcore/thrash metal Eskröta retorna aos palcos goianienses neste domingo (1º/6), desta vez, no De Leon Pub, no Setor Sul. O retorno à capital faz parte da turnê de divulgação do novo álbum do trio, Blasfêmea, lançado em abril de 2025. Goiânia ficou privilegiada na agenda, recebendo o sétimo show da turnê que tem 37 datas até dezembro, incluindo uma passagem pela Europa.
“A gente gosta muito de estrada, né? Eu acho que a ideia de fazer um lançamento é realmente promover. Quando a gente pensou em lançar o álbum já no primeiro trimestre do ano, também já foi pensando na turnê que faria a promoção dele”, conta a vocalista e guitarrista Yasmin Amaral em entrevista exclusiva à reportagem do jornal A Redação. “Tocar ao vivo é realmente a nossa escola, sentindo o que a galera tá achando, é essencial, porque na internet você tem uma visão, mas tocar é completamente diferente de entregar ali a música só virtual”, completa.
A Eskröta foi formada por Tamy Leopoldo e Yasmin Amaral em 2017, na cidade de Rio Claro (SP). De lá pra cá, lançaram os álbuns Cenas Brutais (2020), Atenciosamente, Eskröta (2023) e agora Blasfêmea, além de diversos singles e EPs. Em 2024, a banda teve um ano cheio: tocou no palco Supernova no Rock in Rio, se apresentou no Knotfest no Allianz Parque e ainda fez uma breve turnê pelo Cone Sul, se apresentando no Uruguai, na Argentina e no Chile.
Agora, eles se preparam para embarcar pela primeira vez para a Europa, com 14 datas que passam por Reino Unido, Bélgica, Alemanha, Irlanda e Sérvia. “Como é a primeira vez, a gente não sabe ainda o que esperar do público. Só conhecemos as opiniões de amigos que já foram, pessoas que a gente conhece, que já passaram por essa experiência, que falam que é muito positiva em todos os aspectos”, conta Yasmin. “Era um passo que a gente queria dar na nossa carreira, então foi algo que a gente procurou investir os nossos esforços. Estamos muito ansiosas. A gente sabe que vai ser legal, mas como vai ser de fato eu vou ter que te contar quando voltar”, adiciona.
Yasmin lembra que a banda tem algumas músicas em inglês que agora podem ser interessantes para essa aproximação com uma audiência internacional. “Tem uma música aqui e outra ali que foram feitas porque a gente achou que combinava. A gente não sabia se ou quando aconteceria uma turnê internacional, mas já tínhamos deixado algumas coisinhas preparadas”.
A Bruxa e novas parcerias
Entre as músicas inéditas do novo álbum, 'A Bruxa' se tornou um sucesso instantâneo, repercutindo bem nas plataformas de streaming e nas redes sociais. A música, que usa a alegoria da bruxa para abordar o empoderamento feminino, ganhou mais camadas ao ter o videoclipe gravado no Horto Florestal de Rio Claro, que possui sua própria lenda urbana relacionada: a Bruxa do Horto, uma mulher que supostamente viveu na floresta, vexada pela sociedade por lidar com plantas e poções, e cuja alma agora assombraria a mata.
“A gente gravou esses clipes antes do lançamento do álbum, então a gente não sabia se ‘A Bruxa’ ia ser uma música que as pessoas iam gostar ou não. Mas vejo agora que foi uma escolha acertada, porque é uma música bem diferente pra gente, longa, a gente sabe que a tendência da indústria hoje é comprimir cada vez mais as músicas para ficarem mais curtas e acessíveis”, diz Yasmin. “‘A Bruxa’ vai em outro caminho, ela conta uma história em que a gente se inspirou em situações que passamos todos os dias, tendo a bruxa como tema, e na hora de gravar o clipe achamos que seria perfeito se desse certo no Horto”, explica.
A vocalista conta que a floresta trouxe a atmosfera e o cenário ideal para a música: “foi a cereja do bolo”. A música traz ainda a batera de Cláudio Montevérdi, da banda paraibana Korvak. O disco traz outras participações especiais inesperadas, como a da MC Taya e a percussão do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado.
“A gente já tinha tido contato com a MC Taya em outras oportunidades e sabíamos que era uma pessoa super legal. Achamos que seria mais interessante trazer alguém de outra vertente que não fosse ligada ao metal. Ela é um talento”, explica Yasmin. Sobre a participação do Cordel, ela conta que a banda já queria ter uma parceria com eles há bastante tempo. “Temos uma admiração muito grande pelos músicos e, nesse álbum, veio a oportunidade perfeita de fazer esse convite”, relata.
Mesmo com tudo isso acontecendo, a banda ainda permanece com os pés no chão. “Tem quem fale que somos uma banda grande. Acho que já é um pouco demais, sabe? Ainda temos muito espaço a alcançar também e quebrar barreiras que a gente ainda enfrenta, que bandas grandes já não passam mais, sabe? Acho que o Sepultura já passou do ponto de ser limitado por tocar metal: é o Sepultura e pronto”, pondera. “Então, esse passe livre que algumas bandas têm, a gente não tem, mas fico feliz de saber que há pessoas que nos consideram uma banda relevante”, finaliza.
José Abrão
Goiânia – O Deus Metal estará presente em Goiânia neste domingo (6/4): a banda Massacration apresenta a turnê do seu novo disco, Metal is My Life, no palco do Bolshoi Pub, com clássicos e músicas novas no repertório. A banda surgiu ainda no começo dos anos 2000 como esquete humorístico do programa Hermes & Renato da MTV, satirizando os estereótipos das bandas e fãs de Heavy Metal. Duas décadas depois, o grupo está consolidado e com agenda lotada de shows: serão 50 este ano e mais 50 já confirmados no ano que vem.
À frente do grupo está Detonator, autodeclarado o maior vocalista de todos os tempos e filho encarnado do Deus Metal. Por trás da persona histriônica está o muito tranquilo Bruno Sutter, humorista e músico responsável por conduzir este e muitos outros projetos musicais pelo Brasil. A banda havia parado em 2012 para a carreira solo do Detonator, retornou em 2016, lançou algumas músicas até, enfim, gravar o novo disco e sair em turnê.
“A gente já tinha quatro singles e aí resolveu lançar o Metal is My Life no ano passado porque sentiu que era o momento certo”, relata Sutter. Além da agenda cheia, o disco foi escolhido o melhor álbum de metal do ano, e Detonator foi eleito o melhor vocalista de metal do ano pela revista Roadie Crew, uma das mais tradicionais publicações metaleiras do Brasil: “Foi um presente muito legal pra gente”.
O músico conta que o público da banda passou por uma renovação: se antes era composto por fãs de Hermes & Renato, agora há toda uma geração de jovens que conheceram o grupo pela música. “Isso aí é um fenômeno muito legal, é uma coisa muito difícil para um artista conseguir. Acho que talvez pelo fato de ser uma banda humorística, isso abre muitas portas, inclusive para irmão mais velho que mostra para irmão mais novo, pai que mostra para filho, ou simplesmente por memes de internet. Aí o pessoal vai descobrindo Massacration de formas diferentes, mas que vão angariando sempre novos públicos. Isso aí é maravilhoso”, afirma.
No começo, muitos metaleiros não gostavam ou não entendiam o Massacration. Bruno avalia isso como coisa do passado, ainda mais depois de a banda ser contemplada pela 'Roadie Crew' no ano passado. “Quando aparece uma coisa nova, ela impacta, choca ou assusta, e o Massacration fez isso. Era uma ideia muito diferente para o Brasil. Apesar dos Mamonas, o Massacration era uma coisa diretamente com o metal, e isso na época assustou muita gente. Mas depois, com o tempo, o pessoal foi vendo que o nosso background de conhecimento musical é vasto. Hoje em dia, não percebo nenhuma implicância em cima do Massacration, muito pelo contrário”, afirma.
Na nova turnê e no novo disco, o visual da banda remete ao gênero do Power Metal, vulgo “metal espadinha”, um gênero dentro do Heavy Metal que mistura a música pesada com fantasia. “O primeiro disco era aquela coisa de couro, mais tradicional [do metal clássico]. No segundo disco, a gente quis fazer uma brincadeira estética com a coisa do glam metal. E, nesse, a gente queria fazer uma coisa diferente também, para sempre estar renovando a parte visual. É sempre muito importante pra gente trazer coisas novas”, explica, mas afirma que o som da banda, apesar de inventivo, se aproxima mais do estilo tradicional.
Nos últimos anos, e com o sucesso do streaming, outras bandas humorísticas do rock pesado se tornaram mais conhecidas, como Gloryhammer, Steel Panther e Feuerschwanz. Porém, Sutter relata que não conhece nenhuma delas e que a abordagem para o Massacration sempre foi made in Brazil. “Sou meio ignorante no sentido de pesquisar a respeito de bandas humorísticas de Heavy Metal. O Massacration é totalmente abrasileirado, a gente não pega referência nenhuma lá de fora. A gente usa os costumes brasileiros e a cultura brasileira para ser o nosso ponto de referência de homenagem/sátira no Brasil. Falamos muito sobre costumes e comidas daqui. Eu diria que somos uma das bandas que mais usam essa ‘brasilidade’ no sentido literal da palavra”, comenta.
E com outros estilos? Será que, aproveitando as visitas a Goiânia, daria pra misturar Heavy Metal e sertanejo? “O humor é uma tela em branco, né, cara? São infinitas possibilidades. Eu tenho vários projetos em mente para o futuro. Isso aí eu acho que calha mais para a carreira solo do Detonator. Já pensei em fazer um ‘detonejo’, com essa pegada do sertanejo universitário. Isso ficaria muito engraçado, mas não é uma coisa pra agora”, diz.
Homem de mil projetos
Já o próprio Bruno Sutter pode não ser filho do Deus Metal, mas tem a agenda de um: o músico já visitou Goiânia com o projeto "Bruno Sutter executa 50 anos de Iron Maiden" e já volta à capital no próximo dia 17 com o show "Dream Theater Tribute" ao lado de Marcelo Barbosa e Felipe Andreoli, da banda Angra, também no Bolshoi Pub. Fora isso, ainda tem uma carreira solo, que ele diz não estar podendo se dedicar no momento por uma questão de agenda.
“Eu já tenho bastante material, sempre gostei muito de compor. Tenho por volta de 10 músicas já prontas. O problema é agenda. Além do Massacration, o meu tributo ao Iron Maiden vai ter mais 40 shows e ainda tem os shows do Dream Theater”, comenta. Seu único disco é de 2015, e, de lá pra cá, ele tem lançado alguns singles no streaming, mas ainda nada de um novo álbum. “É muita coisa. Acabo não achando tempo para concluir isso. Mas eu gostaria muito de poder lançar, tipo, até o ano que vem, pra manter o trabalho aceso”, completa.
Em relação ao tributo ao Dream Theater, ele se refere ao projeto como “mágico” e conta que esteve à frente de um dos primeiros covers da banda em 1998, ainda em Petrópolis (RJ), sua cidade natal. A agenda ainda é curta devido aos compromissos dele com a Angra, mas ele destaca o quanto os shows têm sido lotados e o primor técnico do grupo: “O time é infalível. Acho engraçado porque, nesses shows, parece que não temos um público, e sim uma banca (risos), pois os fãs do Dream Theater são muito fervorosos. Eles sabem todas as notas, todas as músicas... Você tem que estar com o psicológico preparado”, brinca.
José Abrão
Goiânia – O longa goiano Oeste Outra Vez estreia nacionalmente em 50 salas de exibição espalhadas por todo o Brasil nesta quinta-feira (26/3). O filme foi o principal vencedor do Festival de Cinema de Gramado no ano passado, conquistando os prêmios de Melhor Fotografia, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Filme. Ele chegou a Goiás mais cedo: primeiro em uma pré-estreia no dia 23 de fevereiro, durante a mostra O Amor, a Morte e as Paixões, em Goiânia, e depois, a partir do dia 6 de março, quando entrou em cartaz no Cine Cultura, onde ainda continua em exibição, além de outras salas comerciais da capital.
O filme foi inteiramente rodado em São João d’Aliança, na Chapada dos Veadeiros, Goiás, incluindo trechos gravados no Vão do Paranã. A trama acompanha a briga entre Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana), motivada por uma mulher, Luísa (Carol Tanajura). A situação se agrava quando cada um contrata pistoleiros para eliminar o outro, gerando um rastro de fúria e violência.
Este faroeste moderno bebe da mesma fonte do filme anterior do diretor e roteirista Erico Rassi, Comeback (2017), estrelado por Nelson Xavier no papel do matador Amador. “Oeste é uma espécie de continuação de uma pesquisa que comecei com o nosso filme anterior, que fala um pouquinho desses homens que são violentos, mas, ao mesmo tempo, frágeis, vivendo nessas regiões isoladas. Acho que o disparo inicial do roteiro foi falar um pouquinho desses homens”, relata.
Para se aprofundar na ideia, Rassi fez uma extensa pesquisa, circulando pelos fundões do interior goiano e entrevistando diversos homens. Ao mesmo tempo, também realizou uma pesquisa literária, revisitando grandes autores regionalistas brasileiros que desbravam os sertões em suas páginas.
“Eu comecei com Guimarães Rosa e li Sagarana duas vezes em sequência. Terminei e já comecei de novo. Nele, tem um conto específico, 'O Duelo', que me deu o primeiro fiapo narrativo para a escrita do roteiro. Ele fala de dois homens apaixonados pela mesma mulher, que saem pelo sertão de Minas, um tentando matar o outro. Mas o que ficou foi basicamente isso”, explica.
Nas suas leituras, também revisitou os goianos Hugo de Carvalho Ramos e Bernardo Élis, além dos baianos João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. “Tudo que trazia essa mistura do sertão, que podia ser goiano, mineiro, baiano, e que trouxesse essas masculinidades ao mesmo tempo. Então, tudo foi ajudando a compor essa narrativa”, pontua.
O diretor viu no faroeste um canal ideal para explorar esses temas. “Acho que o cinema de gênero é muito bom para contrabandear questões. Ele é mais eficiente para trazer um tema e provocar reflexão do que simplesmente esfregar esse tema na cara do espectador”, afirma. “Principalmente o western, que é um gênero muito definido pela ambientação. Quando a narrativa se passa em uma região onde a sensação é de que o poder, a lei e a ordem não estão totalmente constituídos, isso permite que esses homens violentos e frágeis botem em prática suas tendências mais brutais”, completa.
Ambientes e elenco
A fotografia premiada em Gramado é um espetáculo à parte, explorando a chapada e o Cerrado goiano, que, segundo Rassi, funcionam como o nosso próprio Monument Valley — locação famosa de dezenas de westerns americanos. “Passamos cerca de um ano fazendo testes de locação. Já conhecíamos a região da chapada e, desde o início, era nossa intenção filmar lá, mas não sabíamos exatamente onde”, explica o diretor. São João acabou sendo escolhida por também atender às cenas urbanas do filme e por uma questão de logística e praticidade para a equipe de filmagem.
Outro destaque do filme está na performance também premiada de Ródger Rogério, grande nome da música brasileira, no papel de Jerominho, um pretenso capanga que rouba a cena do alto dos seus 81 anos de idade. “Escrevi o personagem pensando no Nelson [Xavier], mas ele faleceu entre um filme e outro. Fiquei muito tempo retido na persona do Nelson, não conseguia enxergar outro ator fazendo o Jerominho. Fizemos vários testes, acho que cogitamos uns 100 atores do Brasil inteiro”, relata o diretor.
O nome de Ródger chegou por meio da diretora de elenco, e o teste foi feito por videochamada, seguido de um teste presencial que conquistou o diretor, inicialmente preocupado com a idade avançada do ator. Porta aberta, o filme traz no elenco outro octogenário de peso: Antônio Pitanga, veteraníssimo ator consagrado pelos diretores do Cinema Novo.
“É uma dessas pessoas que são um sonho para todo mundo, com quem todos querem trabalhar. São lendas. Tive muita sorte de trabalhar com o Nelson, com o Pitanga, que estão associados à minha formação”, celebra.
Por fim, Rassi convida o público a ver o filme na telona, em vez de esperar que ele chegue às plataformas de streaming, e destaca o bom momento do cinema brasileiro: “A gente tá muito otimista. O filme está num momento muito bom, sempre recebendo críticas muito positivas, e acho que o cinema nacional, como um todo, também está num momento muito bom, com o público voltando pro cinema pra consumir conteúdo brasileiro, muito devido ao Ainda Estou Aqui, mas também a outros filmes. Estamos nos beneficiando disso”.
O sertão de Goiás é vasto. Suas planícies infindáveis, suas chapadas monumentais, seus cafundós apartados do mundo. O isolamento é esmagador e reflete a solidão, a vileza e a crueldade auto imposta dos personagens de Oeste Outra Vez, novo filme do goiano Erico Rassi e vencedor de três kikitos no Festival de Cinema de Gramado: Melhor Ator Coadjuvante para Rodger Rogério, Melhor Fotografia e Melhor Filme. Todos os três merecidos.
A trama acompanha uma ‘treta’ entre Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana) em uma cidadezinha sem nome nos fundões de Goiás, um cenário, mundo e personagens que poderiam saltar das páginas regionalistas e góticas de Hugo de Carvalho Ramos e Bernardo Élis. O motivo da briga: uma mulher, Luísa, que só aparece de costas uma vez na primeira cena. Logo um coloca um pistoleiro atrás do outro e as coisas rapidamente saem do controle.
Comecei falando da fotografia porque é algo que chama a atenção de cara: monumental e opressiva, distante e solitária, ela dialoga não apenas com os personagens em tela, mas com o gênero western clássico, que nos remete aos filmes de John Ford, em particular Rastros de Ódio (1956). O segundo pensamento é como o faroeste (ou neo-faroeste para quem quer ser mais pedante) serve como uma luva para o cinema goiano e para a trama dessa história.
André Bazin escreveu que o faroeste é um gênero americano por excelência e há muito de pertinente em sua análise, Mas chama atenção, também, como o fascínio pela fronteira transcende o imaginário ianque e como ele dialoga profundamente com nossas realidades, anseios e medos. A fronteira se torna metafórica, metafísica, quase um círculo mágico de um imaginário de violência e virilidade deslocado de um tempo-espaço ancestral: está no aqui e agora, no coração dos homens.
Muito tem se falado sobre como o filme é uma fotografia nua e crua da crise profunda de masculinidade contemporânea, tema em alta ainda mais depois do sucesso estrondoso da chocante minissérie Adolescência. Se a série da Netflix joga luz sobre os jovens isolados em seus quartos, Oeste Outra Vez ilumina os adultos, isolados em seus corações, sisudos, grossos, violentos e, mais do que tudo, sozinhos e incapazes de enxergar a própria violência como causa da própria solidão avassaladora. Broncos, eles dominam a tela e os diálogos do filme ao mesmo tempo em que são capengas, comicamente falhos e incompetentes e não conseguem sequer manter uma mísera conversa entre eles, mesmo quando há quatro sujeitos em cena ao mesmo tempo.
Dentro do cinema de gênero, o filme assimila o western recaracterizando elementos do imaginário do estilo: os saloons viram bares de beira e estrada; os cavalos viram carros batidos pelas estradas de chão; os caubóis de chapéu viram pistoleiros de boné; o uísque vira a pinga bebida pura. Bazin aponta outras características narrativas elementares do gênero como a violência, ideias próprias de moral e lei, e o embate primordial em que somente os fortes, os rudes e os corajosos têm vez, todas presentes e reapropriadas no filme de Rassi.
Caso não tenha ficado claro, Oeste Outra Vez é um filmão: é bom, bonito e te bota pra pensar. Além disso, é prata da casa, deve ser valorizado e não deve passar batido.
José Abrão
Goiânia – A banda brasileira de death metal Crypta surpreendeu os fãs no dia 10 de março ao anunciar, por meio das redes sociais, a saída da guitarrista Jéssica di Falchi. Apesar da mudança, as turnês já agendadas para abril e maio não serão afetadas.
Em entrevista exclusiva ao jornal A Redação, a vocalista, baixista e frontwoman da Crypta, Fernanda Lira, afirmou que os compromissos da banda seguem firmes e que não há tempo para pausas. “A gente precisa fazer turnê porque a gente está com um posicionamento bom na cena. Não podemos deixar essa chama morrer.”
Portanto, se você é uma talentosa guitarrista de Goiânia — ou de qualquer outro lugar — e sonha em se tornar uma rockstar metaleira no cenário global: a chance é agora. Fernanda Lira revelou que a banda já iniciou audições e está recebendo bastante material. “Estamos abertas a mulheres de qualquer lugar do mundo. Já estamos fazendo algumas audições à distância e temos pessoas engatilhadas para as próximas turnês”, destacou.
A composição do novo disco também não será afetada. Lira explica que Jéssica não participou da elaboração do álbum anterior, portanto, o time de composição permanece o mesmo. “Como já temos essa segurança para fazer a turnê e compor o disco, vamos fazer essa escolha com muita calma. Então é muito provável que as pessoas saibam quem é a nova guitarrista da Crypta no ano que vem”, afirma.
Ela detalha o perfil da nova integrante que a banda busca: “Vamos fazer turnê com diferentes meninas. Não é importante só ter a técnica, queremos uma combinação de fatores. Queremos ver como é o desenho compondo e tocando death metal especificamente, que aguente o tranco e que seja tranquila na convivência. E como a gente consegue analisar isso? Convivendo e trabalhando junto”, explica. “Essa vaga está em aberto, então mandem sim material, por favor”, completa. O contato pode ser feito por meio das redes sociais da banda (@cryptadeath).
Lira também reforça a importância de manter a formação 100% feminina da Crypta. “A banda sempre será composta por mulheres. É uma questão ideológica minha mesmo. As mulheres ainda precisam de muitas oportunidades. A nossa cena musical não possui uma equidade. Ter bandas femininas, dando espaço exclusivamente para mulheres, é uma forma de garantir que mais mulheres ocupem espaços que sempre sonharam em ocupar, e isso acaba inspirando outras mulheres”, destaca.
Novo disco e turnês
Mesmo assim, Lira afirma que, para 2025, o plano é reduzir o número de shows, já que a banda pretende lançar um novo álbum no ano seguinte. “É muito importante tomar um tempo para descansar e fazer o disco. Então, a gente reduziu o número de turnês este ano. Pegamos alguns meses e falamos: ‘vamos colocar aqui’”, relata. Ainda assim, o grupo passará pela Europa, pelos EUA e pela América Latina, além, é claro, de realizar shows no Brasil.
Embora ainda não tenha sido oficialmente divulgada, Fernanda confirmou que a turnê brasileira será em julho. “Estamos fechando as últimas datas. Vai ser anunciada nos próximos meses. Mas vamos fazer uma turnê pouco extensa, de um mês, tentando contemplar o máximo de capitais possíveis para o pessoal poder ver a banda”, explica. Outro motivo para isso é que Lira sentiu que, no último ano, a Crypta passou muito tempo fora do Brasil e agora quer valorizar mais a comunidade local, que representa seu maior público.
Sobre o novo disco, ela ressalta que o processo exige tempo e planejamento. “A gente não só precisa de bastante tempo para compor, como toda a produção exige planejamento. Então, o que geralmente fazemos é calcular quando gostaríamos de lançar o disco e trabalhar de forma retroativa. Nosso álbum está previsto para o segundo semestre de 2026. Então, ele ainda vai demorar bastante para vir, exatamente porque queremos fazer com calma, com esmero, e entregar o melhor álbum possível”, garante Lira.
José Abrão
Goiânia – A cantora britânica Amy Winehouse foi um dos maiores fenômenos musicais dos anos 2000. Seu segundo álbum, Back to Black (2007), marcou época e a consagrou como um dos grandes nomes da música mundial. A artista fez história ao vencer cinco prêmios Grammy, tornando-se, até então, a primeira britânica a conquistar tantos troféus no mesmo ano. No entanto, um terceiro disco nunca veio: vítima do próprio sucesso, fragilizada pela pressão da fama e lutando contra o vício em drogas, Amy morreu em 2011, aos 27 anos.
Seu legado, porém, perdura, e a artista se mantém influente e popular em diversos círculos. De lá para cá, ela vendeu mais de 40 milhões de discos. Quem agora honra essa obra é a cantora paulista Fernanda Lira, que traz ao Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, o show Remembering Amy – Fernanda Lira Canta e Conta Amy Winehouse. A apresentação reúne os grandes sucessos da britânica e também revisita sua história e trajetória de vida.
“Sempre achei muito injusto como a mídia retratava ela, né? Ela faleceu com a fama de beberrona, de drogada, sendo que era um período em que ela estava tentando se recuperar. Eu pensei: por que não fazer um projeto em que eu possa mesclar a questão do tributo musicalmente falando, mas também contar um pouco sobre a vida dela, prestar um tributo completo, não só à música dela, mas também à história dela, ao legado dela?”, conta Fernanda Lira. “Então, além dessa parte musical, que é legal, também é divertido fazer essa parte da biografia comentada, para a gente abrir esse debate sobre saúde mental, sobre fama e contar um pouco mais de quem era o ser humano por trás da artista”, completa.
A apresentação em Goiânia acontece em uma edição especial do Cidade Rock neste sábado (22/3), com uma programação inteiramente feminina a partir das 19h. A entrada é gratuita até as 20h mediante a doação de 1 kg de alimento. Após esse horário, o valor é de R$ 30, mais a doação de 1 kg de alimento.
O que pouca gente sabe é que Fernanda é vocalista, baixista e frontwoman da Crypta, uma das mais consagradas bandas de death metal do Brasil, composta inteiramente por mulheres. A ponte entre gêneros tão distintos pode surpreender algumas pessoas, e isso também ajudou a motivar o projeto. “Geralmente tem essa coisa do estereótipo, né? As pessoas acham que quem escuta metal e toca metal é pouco eclético. Só que quem me segue já sabe que eu tenho esse ecletismo, que tenho essa facilidade em ouvir outras coisas”, comenta.
Ela se refere aos seus seguidores no Instagram e foi exatamente por meio da rede social que a ideia do show surgiu. Fernanda ocasionalmente posta vídeos cantando músicas de diferentes estilos, do blues ao pop. “Só que sempre que eu postava Amy Winehouse, as pessoas gostavam muito e falavam: ‘Poxa, você tinha que ter um projeto com esse tipo de voz’. Eu realmente tenho um plano de, daqui a alguns anos, ter um projeto em que eu possa explorar mais esse vocal limpo, né? Porque no death metal eu uso o famoso vocal gutural. É uma ideia a médio prazo, eu não tenho esse tempo agora, mas pensei: ‘Poxa, seria legal fazer algo nesse sentido’.”
Daí o projeto começou a se formar: ambas as artistas são contraltos e então foi feita a busca para montar uma banda de jazz, soul e blues para amparar toda a parte técnica ao redor das músicas da Amy. Foi formada uma equipe de 10 músicos, sendo oito mulheres, e a estreia finalmente ocorreu em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, no Cine Joia, em São Paulo.
“Foi incrível, muito melhor do que eu podia esperar. Obviamente, eu tava super nervosa. Eu não tenho medo de palco com a Crypta, eu nunca tive. Mas é um projeto novo, primeira vez fazendo um show inteiro cantando limpo, é um passo diferente na carreira. Eu não sabia a proporção que seria, é uma casa grande, por que a gente não fez isso em um bar?”. O temor se provou infundado: a casa encheu e não só de fãs da Crypta, mas com muita gente que não conhecia Fernanda. “Achei incrível ter essa variedade de público e depois falei com algumas pessoas e o feedback que eu tive foi muito bom. Todo mundo gostou muito da parte musical, da fidelidade que a gente teve no visual, nos arranjos, na própria voz. Eu fiz o máximo que eu pude”, relata.
E Goiânia acabou privilegiada nessa equação: o segundo show já será o daqui, nesta semana, logo após a estreia do projeto. “A gente vai levar um formato um pouco reduzido para Brasília e para Goiânia, mas vai ficar muito legal do mesmo jeito. A gente quer levar para máximo as cidades possíveis que tiverem interesse”, pontua.
José Abrão
Goiânia – A cena musical alternativa e independente de Goiânia sempre se destacou pela efervescência, especialmente entre o final dos anos 1990 e o final dos anos 2010. Embora o rock tenha sido o eixo central desse movimento, a predominância masculina tornou o espaço, por muito tempo, fechado e pouco inclusivo.
No entanto, ao longo dos anos, artistas femininas passaram a ocupar esses palcos, ampliando fronteiras e diversificando estilos. Esse movimento abriu caminhos para outras mulheres e, além disso, impulsionou uma nova geração de músicos, tornando a cena mais plural e representativa.
A cantora Bruna Mendez está na cena há 15 anos, explorando diversos caminhos da MPB. Em sua visão, a cena roqueira da capital sempre teve um forte aspecto de “clube do Bolinha”, o que levou muitas artistas a desbravarem outros gêneros. Mendez já lançou três discos autorais, sendo o mais recente, 'Nem Tudo é Amor', em setembro do ano passado.
“Talvez por Goiânia ter essa cultura de festival de música independente e por essas bandas serem formadas, em sua maioria, por homens, o cenário não era tão voltado para meninas e mulheres. Acho que, por isso, acabamos ocupando outro lugar na música”, diz. “Mas, à medida que o tempo passa, temos mais representatividade, surgem novas figuras que, por sua vez, influenciam outras meninas”, completa.
Mendez destaca, porém, o papel fundamental que o Centro Cultural Martim Cererê teve em sua formação, funcionando como uma verdadeira Meca da música alternativa na capital, aberta a todo tipo de artista. “Cresci no Martim Cererê vendo só um monte de caras tocando (risos). Mas eu queria estar ali, queria ocupar aquele espaço. Talvez, se eu tivesse visto uma mulher com o mesmo destaque que eles, teria tido coragem de entrar na música antes”, comenta. “O Martim teve uma importância gigantesca na minha formação. Saía da escola na sexta-feira, depois da prova, e sempre tinha alguma coisa acontecendo por lá, não importava o quê”, lembra.
Hoje, ela avalia que a presença feminina na cena está mais forte e inclusiva. “Foi algo que nós mesmas construímos, ocupando um espaço por resistência, por querer estar ali e ser melhores”, diz.
Ela lamenta, porém, que, em sua visão, a cena não seja mais tão efervescente, especialmente ao redor do Martim Cererê, no que diz respeito à formação de novos públicos. “Esse lance do Martim tem muito a ver com construção e formação de audiência. São atrações relativamente baratas, você vai, assiste e, de repente, gosta de uma banda e começa a segui-la depois. É toda uma construção que se perde”, observa.
Ocupando o rock
A cantora Salma Jô é a frontwoman da Carne Doce, uma das bandas mais populares de Goiânia no cenário nacional, além de integrar o projeto paralelo Salma & Mac. Com letras que sempre exploraram o sexo e o erotismo, além de uma presença de palco forte e sensual, ela relata já ter sido alvo de machismo, principalmente na internet. “Ser a frontwoman e ter essa exposição proporciona e exige um certo poder. Na realidade, sou muito insegura, mas sinto que isso faz parte do meu jeito de trabalhar como artista. Tem que haver alguma ousadia, senão acho sem graça. Eu acho divertido escrever sobre sexo, é um assunto interessante, inspirador, e gosto de ser sensual no palco”, afirma.
Em sua formação, ela também destaca o papel fundamental do Martim Cererê: “O palco do Martim foi onde vi a criatividade da forma mais crua, amadora e próxima, feita por gente da minha cidade, parecida comigo. A performance do rock, na época, se dividia entre algo explosivo, sensual e visceral, ou algo mais intelectual e introspectivo. Acho que fui influenciada por todo esse contexto e esses estilos. Sem o Martim, talvez eu nunca me imaginasse fazendo algo parecido, sentiria que a música não era para mim”, diz.
Estar à frente de uma banda de rock “trouxe algumas dificuldades, naturalmente, porque o machismo persiste e muitas vezes se impõe. Mas também vivi esse movimento de valorização da identidade e da criação feminina. Já tinha consciência de que seria mais ou menos assim, mas ainda é algo sobre o qual aprendo na prática, no dia a dia”, assegura.
Atualmente, a banda está em São Paulo, e Salma comenta que ainda há uma fronteira muito nítida entre estar e não estar na Pauliceia. “Quem é do interior do Brasil, independentemente do gênero ou estilo, está excluído da cena de música independente, da imprensa cultural, das oportunidades, dos palcos e dos festivais. O que nos falta hoje é uma economia cultural mais descentralizada e sustentável em todo o país, especialmente no interior”, relata.
Em sua visão, ao longo de 10 anos de carreira, a cena mudou drasticamente e está muito mais diversa: “Nós mesmos surgimos em um movimento de diversificação. Suspeito que, antes, estilos diferentes tinham de coexistir no mesmo espaço, e que hoje estamos mais divididos em bolhas que não se comunicam. Quando comecei a frequentar esse cenário, a toxicidade, em vários aspectos, era motivo de orgulho, símbolo de diferenciação e de poder. Acho que esses valores mudaram radicalmente”, pontua.
E a agenda da banda continua agitada: eles vão lançar em vinil seu último disco, 'Cererê', que celebra o espaço cultural da capital, além de realizar shows em São Paulo, Brasília e Goiânia. “Também estamos preparando um show especial para o meio do ano, em que faremos uma retrospectiva da cena indie brasileira dos anos 2010 e dos nossos 10 anos de carreira. Já com o Salma & Mac, estamos planejando alguns shows no exterior”, enumera.
Nova geração
A cantora Maduli tem apenas 23 anos e iniciou sua carreira na música há três anos, trazendo uma proposta ainda mais diferente e totalmente única para Goiânia: o pop. Inspirando-se tanto em nomes nacionais quanto em divas como Beyoncé, a artista é a prova de que há espaço para tudo no underground goianiense.
Ela avalia que o cenário está, de fato, mais diverso e inclusivo, com várias mulheres se destacando: “A cena feminina aqui em Goiânia é muito rica. Temos muitas artistas mulheres, amigas, cantoras, artesãs, empreendedoras, enfim.” Mas isso não significa que seja fácil. Para ela, “o que falta mesmo para nós é espaço. Que consigamos ocupar esses espaços, nos apresentar e estar nos grandes festivais.”
As conquistas, no entanto, são sempre celebradas: em março, ela abrirá o show de Maria Gadú no Festival das Minas.
A artista comenta que, por exemplo, não viveu a fase de efervescência do Martim Cererê, lembrando apenas de alguns shows esporádicos. Ela, inclusive, se apresentou na reabertura do espaço após a pandemia, em 2022. Agora, apenas conseguir se apresentar já é um desafio: “Viver de música é um processo de resistência absurdo, principalmente aqui em Goiânia. Sendo mulher, cantora alternativa e independente, é ainda mais difícil. Do final do ano passado até agora, está impossível [fazer show]. Não tem nada”, diz.
Apesar disso, ela não desanima: “É um sonho difícil de sustentar e caro de manter. Sempre que surge um evento, a gente tem que se enfiar, tem que ser carudo, falar, se apresentar, mostrar o trabalho que você vai propor. Tem que insistir e ser chato mesmo”, argumenta.