“Mas a gente espera, lá no fundo, perdido, soterrado e cansado, que a vida compense de alguma maneira.”
— Tati Bernardi.

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“Mas a gente espera, lá no fundo, perdido, soterrado e cansado, que a vida compense de alguma maneira.”
— Tati Bernardi.
ei oi e aí eu
faz muitos anos que não deixo as palavras serem mais minhas amigas, na verdade parece que o mergulho foi tão profundo dessa vez que até me desaco... eu escrevo muito rápido teclando...stumei por aqui, por dentro talvez, fora dessa máscara, na verdade acho que eu até já me acostumei aqui por dentro, mas eu sei que quando encontro meus pais, minha família, me parece que eu tô sendo esmagada pra dentro por dentro de socos e vigilâncias impróprias
eu adoro como a escrita aqui me diz muito do que eu acabo até deixando ir embora, que dor de cabeça tremenda
desde 2024 eu iniciei os atendimentos na clínica, e essa semana me deparei cara a cara com a possibilidade da morte, achei que não iria me encontrar tão cedo, a gente coloca em formulários - não aceito pacientes suicidas - como se ninguém fosse um potencial suicida, como eu
já pensei em atirar o carro em um poste várias vezes voltando pra casa dos meus pais, ou pro kitnet antigo, mas isso dizia sobre o contexto de pressão que eu vivia né, devo retomar aqui o passar dos anos, igual fiz em terapia ontem com uma outra paciente - potencial suicida, somos todos, jessie
ok, já coloquei uma música que nos lembra essa melancolia que sempre fez parte, bem-vinda novamente ao lado de dentro, à zona zero como você bem chamava há uns anos, ok
2021 - eu estava no meu penúltimo ano da graduação, iniciei em 2018, isso, penúltimo, estágios obrigatórios, universidade, do meio do ano pro fim, minha cunhada adoeceu e fomos a vários médicos, eu e ela basicamente sozinhas
2022 - minha cunhada faleceu dia 01 de janeiro, lembro do cheiro do hospital, do choro das outras pessoas, de falar em silêncio que ela podia ir, segurando os pés dela, enquanto os outros pediam pra ela voltar, pra ela não ir, os cortes no pescoço de medidas extremas para tentar salvar um corpo que não estava mais ali, os órgãos falharam, não só eles mas a minha família também, não somos bons em cuidar de nós mesmos afinal, avalie dos outros. nesse mesmo ano eu estava finalizando meu último ano de graduação, estágios obrigatórios novamente, caps, unidade básica, parecia que os serviços sabiam que eu nem estava ali, eu nunca estava lá afinal, eu nem sabia o que tinha acontecido dia 01 de janeiro, minha mãe chorou, a primeira vez em 24 anos que isso aconteceu e foi justo enquanto eu dirigia pro enterro. eu só chorei nas missas, não tive como conter. meus sobrinhos, que dor. desde lá, eu choro às vezes
2023 conheci um amor que está comigo até hoje, foi ele que meio que me salvou desse luto ter me levado pra outros lugares piores, e eu hoje talvez tenha aceitado ir a festas e lugares na tentativa de me sentir um pouco viva porque às vezes me sinto meio morta igual minha cunhada, pergunto se ela sentiu muita dor
2024 fiz minha formatura, odiei cada segundo, me odiei cada minuto, só curti a presença dos meus pais, minha tia, meus amigos inimigos do fim, o colar que eu deixei no banco de trás do carro do meu amigo e eu disse q eles podiam ficar, eu não me importava, acho que eu me importo muito, e também me desimporto muito rápido, rápido antes que.... desimportei, fechei os olhos, """""passou""""" um caralho, nesse mesmo ano eu fiz processo seletivo pro mestrado, uma decisão apenas pela carreira, mas que me traz dor de cabeça até hoje, me sinto desconectada do início ao fim, luto ainda? e tem prazo pra porra do luto? acho que sempre me senti meio perdida também, mas nunca procurei saber sobre, achei que era coisa de família
2025 acho que o relacionamento me deu uma grande pausa das outras grandes dores, mas existem outras preocupações, com a clínica, com o financeiro mensal, com os meus pais não gostarem ou saberem de fato quem eu sou, uma bomba prestes a explodir
2026 uma paciente tentou suicídio nessa semana
não estou em psicoterapia já tem uns meses, acho que desde março? não sei.
e faz muito tempo que não escrevo.
tenho chorado pelo menos uma vez na semana. acho que é minha forma de por pra fora coisas que eu não tenho como falar pois estou sem terapia, ou seja, não posso falar sobre as coisas sobre as quais sinto com todo mundo porque eu mesma me julgaria pelo que sinto e penso de mim e como esperar que a outra pessoa não fará isso também?
não sei quanto tempo estou atuando na clínica... mas sinto que estou me saindo bem.
cobranças
fazer as pazes
desequilíbrio
rigidez
infância
viver com adultos e entender que com adultos só regras, dificuldades, rigidez, não brincam
o brincar hoje com meus sobrinhos
o processo de conclusão de curso
habitar o não saber
habitar o não fazer ideia
se acolher
se ninar
me tirar pra dançar
15 12 22
preciso de uns dias sem pensar muito.
acordar. preparar meu café e tentar esvaziar minha mente. hoje é 15 de dezembro, vou tentar me prometer esvaziar a mente e anotar em qualquer bloco de notas as minhas inseguranças que vierem, em tópicos.
é o que posso fazer por mim por agora.
a grande preocupação é: terminei a graduação e eu faço o que agora com isso.
quero trabalhar sim, dar continuidade. a clínica me parece um lugar confortável. e seguro.
concurso também é. saúde pública.
pós?
perdi os prazos das pós em universidades públicas, sinal? desespero? indiferença? não sei mais não
hoje eu edito o documento final dos relatórios e também fecho o prontuário de um dos atendimentos em que mais me senti estranha e ao mesmo tempo completa. estranho. mas sinto que ajudei de alguma forma.
pontuar o que vem do outro, retomar as falas justo com as mesmas palavras, perceber onde a outra pessoa está se perdendo.
como faço isso comigo?
bom.
seção passada falei sobre duas coisas, sobre:
minha relação com a academia e como às vezes me sinto com pressa no processo de emagrecimento ou com cobranças mesmo para que meu corpo mude, mesmo sabendo que isso leva tempo e dedicação, compromisso e fidelidade. estou tentando
a sensação de que a terapia tem demorado, que eu estou estagnada nas minhas questões. 5 anos. talvez o tempo pese um pouco aqui. ou talvez eu tenha uma parte de mim que diz que eu só precisaria de terapia enquanto estou na graduação.
pressa nos processos. tema corriqueiro ao falar de jéssica. assim como outros pontos: cobrança, pressa, insegurança, perfeição
falar sobre mim é desafiador.
quando pensei em sair do processo psicoterapeutico foi por pensar que meu pai estava gastando além do necessário comigo, além do que pensei como seria se eu estivesse definitivamente sozinha, será que eu conseguiria passar pelos trovões sem um suporte
"nossa minha cabeça vai explodir" depois da sessão de hoje.
eu não tinha nada a levar e ela sugeriu sobre como era se sentir terminando a graduação. e tudo foi fluindo. muita coisa.
confusa, com medo e principalmente me perdendo e me encontrando pelo caminho.
abraço em mim e por mim
e eu comecei falando o quanto que meu corpo tem sido tema recorrente em meus escritos, e mais uma vez a emoção veio forte, como que uma chuva que barulha mais que molha, e molha tudo.
e eu falei dos incômodos, os comentários sobre meu corpo, de que preciso emagrecer, de que preciso mudar, ou voltar a ser quem era.
e perceber que ser reduzida a isso me enfurece, me deixa com muita raiva, mas também me deixa magoada, como assim só tem isso pra você ver por aqui?
o meu corpo só diz de uma extensão de mim, o que há por dentro é bem mais bonito, e vocês não enxergam? como?
e eu chorei, deixei vir toda mágoa e dor sobre o meu corpo.
o peso de estar pronta sempre, de ter que distrair pra não vir algo contra meu corpo, pra que comentários ruins não venham.
incômodo emocional e físico.
eu comigo, eu me olhando o espelho, senti vontade de pedir desculpa, por ainda ouvir tudo isso que me machuca, por levar a sério as palavras amargas vestidas de cuidado. eu me pedi desculpa e por isso chorei.
ao mesmo tempo enxerguei minhas qualidades, minhas fragilidades, minha fortaleza, as minhas versões, desde a mais pequena e aventureira, até a medrosa, e até a que tem medo de altura de uma sala de cinema. abracei todas elas.
"eu afastei a mesa e me joguei na minha solidão" rachel reis
25.10.21
ainda em aniversário, ainda feliz por viver. mesmo diante da dor. do viver.
ok, estou aqui, cheguei aqui, o que tem a me dizer? passei a semana toda com você me chutando a cabeça, será que dá pra me dizer o que está acontecendo? eu não consigo acessar sozinha.
ok, vamos lá, tentar.
você está atualmente no penúltimo ano de sua graduação, que significa muito pra você.
você passou nesse penúltimo ano, por muitas coisas, por ter cuidado de seus pais com covid, da sua cunhada com a vesícula, por ter se preocupado com seus sobrinhos dia a noite, por ter se preocupado com seus pais durante a tentativa de assalto, e agora mais ainda, pelo fato concretizado do assalto, você teme que eles estejam com sequelas tão profundas que nem consigam falar sobre elas.
feito você, olhe só.
você se olha mas não se vê por dentro, o caos que tá por aqui.
você não sabe qual caminho ainda seguir profissionalmente.
você não sabe muito sobre relacionamentos e está prestes a embarcar em um mar incerto. mas ao qual se sente muito amada. e isso já é um primeiro passo. por isso re parabenizo ok? por ter dado a oportunidade de sentir algo novo, por dar a cara a tapa mais uma vez, diante de tantos naufrágios.
você está cansada e precisa salvar a si mesma.
mesmo cansada você não conseguiu passar pros outros que estava cansada e isso pesa um tanto ok?
talvez o motivo da dor de cabeça seja afinal, perceber que foi um ano foda, que você não conseguiu ler nada sequer e ter sentido domínio daquilo, que você sempre pôs sua família em primeiro lugar, mas que eles não tem a dimensão do quanto isso te afeta também. mas é porque você não deixa perceber também. aí fica difícil em jé
você percebeu esse ano, de todas as formas, o que não tinha controle algum.
bateram no carro que você dirige, você bateu em outro no outro dia.
ninguém se recupera em horas, nem em poucos dias.
você tá cheia de cicatrizes meio abertas, e não cabe, infelizmente, ao outro fechá-las, mas você mesma. por isso que dói. porque a todo momento você acaba retirando a casquinha da cicatrização.
é muito difícil pra você enxergar que poderia fazer mais mas que esbarra em um limite muito ingrato, que é a própria vida. cuidar de você.
você vê os problemas e dilemas dos outros e quer solucionar, como se você fosse a pessoa mais resolvida sobre si, como se seu corpo não fosse uma questão, como se sua alimentação não estivesse frágil, como se você não precisasse de médicos.
de forma geral, o que eu tenho a te dizer é que... você precisa se dar uns tapinhas nas costas por ter vivido esse último ano.
um novo ano se inicia amanhã, você quer continuar repetindo as coisas que fez esse ano?
30;09;21
28/09/21
passar muito tempo sozinha me sobra tempo pra pensar em coisas demais e isso acaba me deixando ansiosa e eu simplesmente preciso parar e dizer respira, toma aqui esse solzinho por 5 minutos no rosto, vai caminhar um pouco pra sentir suas panturrilhas queimarem e fazer esquecer o que queima e tá engasgado na garganta faz anos.
e é assim que eu vou, dia após dia, dentro de uma sensação de estar perdida, de não saber pra onde eu vou com minha graduação que acaba em 1 ano, de não saber o que eu faço com amizades antigas que analisando hoje, não fizeram nada por mim no passado e atualmente não se apresentam também.
não sei o que dizer sobre meus pais, que apesar de os amar, os odeio por tantos pensamentos de séculos passados.
o que eu faço com essa ideia de mim, com essa eu de anos atrás, que é bem diferente da eu hoje?
o que eu faço com minha dor de cabeça por não saber pra onde ir ?
eu preciso por crédito na minha carteira de estudante, e também de meias novas, e calcinhas novas. mas isso não vai acontecer agora.
eu divago, sonho, penso, e não saio do lugar. mesmo caminhando eu sempre vou aos mesmos lugares. isso deveria ser bom?
15 09 21
como é pra mim:
o silêncio
o do me sentir insegura para falar - e me deparar com outras pessoas estarem melhor preparadas do que eu
o silêncio de presenciar e viver situações as quais não concordo e não consigo falar sobre isso
a pressão que exerço sobre mim de estar sempre pronta pra viver coisas, não me permitindo estar em processo de algo, ou vivenciar para aprender, mas sim a necessidade urgente de estar sempre pronta. de onde isso vem?
de onde vem essa necessidade de saber sobre tudo?
ou de estar pronta a todo momento? ou de não poder não saber
de onde vem?
dessa vez é sobre meus pais
eles a todo momento afirmam e fazem coisas pensando 100% nos filhos e isso, ao meu ver, é doentio. é não pensar em você nem 1% do seu dia.
e eu fico a maior parte do tempo preocupada, eu não consigo relaxar em momento algum, porque a todo momento é como se eu estivesse sendo jogada de um precipício ao pensar no quanto que isso é ruim pra eles. e que talvez eles nem percebam.
ou que eles percebem mas que por uma devoção doentia aos filhos, por uma ideia fixa de que precisam dar conta de tudo que compete aos filhos, deixam passar. deixam passar por cima de seus corpos que já são calejados da vida e agora mais do que nunca, não conseguem se abster, porque já estão engessados e presos a ideia de que pais devem se submeter a tudo em prol do bem-estar de seus filhos. estes já não tão pequenos, se incomodam com as interferências mas também não conseguem se desvencilhar da grande teia.
eu fico adoecida, meu corpo dói, meus olhos se enchem de lágrimas, eu só penso PAREM, parem de fazer tudo. eu só queria a presença dos meus pais, e não de pessoas que fazem tudo.
eu me preocupo e consequentemente não consigo focar nas coisas que são minhas. no meu desempenho na faculdade, nos textos que tenho que ler. eu me sinto presa, não consigo me desenvolver o tanto que talvez eu desenvolveria. eu tô na teia. e dependente. e angustiada por eles não pararem.
eu penso que isso tudo diz de mim, mas muito mais diz sobre eles, sobre como foram nos ensinando a fazer muitas coisas, o quanto isso cobra da gente inconscientemente. sei lá. eu já me enfiei em tanta coisa tentando acertar. hoje eu me sinto perdida. não sei dar um passo a frente que não seja tremendo e com um medo por dentro dos ossos que me faz desistir de tentar.
eles sempre fazem além do necessário. que seria estar ali por perto e dar suporte. eles fazem as coisas. são pessoas que fazem. e que detestam parar. porque isso seria um desaforo. os pais precisam estar 100% disponíveis aos filhos. os filhos todos 20+.
e isso diz também de uma teia que também não permite que a gente desenvolva por si só. ou até desenvolvemos mas não tanto.
eu não posso culpabilizar ninguém, isso seria injusto. mas é como se todos estivéssemos perdidos, ou talvez eu sozinha esteja perdida em tudo isso que não consigo enxergar algo além do trágico. além da morte próxima.
quem consegue afinal trabalhar todos os dias, viajar todos os dias, forçar seu corpo todos os dias sem falhar? isso diz muito de uma normalização do cansaço. como se o cansaço fosse a única forma de viver e viver bem. como se não existissem outras formas de viver.
14-08-21
me ame como eu sou
tem dias ou noites ou horas em que parece que outra pessoa me assume, e é estranho dizer isso, mas acho que além das eu's que são felizes e radiantes e brilhantes, existem as eu's que estão longe de chegar a essas outras e que ok.
só que essas outras eu's elas são mais doloridas, até fantasmagóricas, apáticas, ausentes, inconsistentes, estranhas, despidas da felicidade.
“A pior violência é aquela que praticamos contra nós mesmos, quando temos medo de ser quem realmente somos.”
— Sense8.
eu absorvo muita coisa